A escola Maria de Sá Roriz tem uma importante passagem na história da educação escolar indígena para os Pitaguary, por este motivo foi este um dos locais que busquei dados sobre a educação regular e a educação indígena. O contato com esta escola regular visava levantar dados sobre as considerações feitas pelos professores indígenas em relação a evasão dos alunos. A averiguação dos motivos da saída dos alunos Pitaguary para
outras escolas levou a outras informações que incidiam sobre as notas das avaliações governamentais, fato que será tratado adiante.
Como relatado anteriormente neste capítulo, os profissionais da Itá-Ara informaram sobre a saída de alunos da etnia da sua escola indígena e estes mesmos profissionais indicaram os possíveis motivos para este fato. Com esse objetivo procurei dados junto à escola Maria de Sá Roriz sobre os alunos que migraram da Itá-Ara para as suas salas de aula.
A visita a essa escola foi realizada em meados de 2014 e teve o objetivo de apresentar um pouco sobre meu objetivo na pesquisa. Posteriormente, na primeira conversa com seu diretor, busquei saber mais sobre os profissionais desta instituição de ensino e, diante do que já havia sido narrado pelos profissionais da Itá-Ara, obter uma descrição de como ocorrera a criação das primeiras turmas indígenas, mas sob o ponto de vista de outro gestor, esperando ter a sua percepção sobre o mesmo tema. Logo em seguida o diretor informou que a escola indígena havia começado em duas salas de aula do seu espaço e fez apenas um breve resumo do que já havia sido relatado pelos próprios Pitaguary. Na segunda conversa, que ocorreu em novembro de 2014, o diretor da Maria de Sá Roriz conduziu o assunto do nosso tema e, sem muitos preâmbulos, fez diversos comentários depreciativos sobre os professores da Itá-Ara e sobre a direção da escola. Quando perguntei sobre a evasão dos alunos, o diretor franziu a testa e fez uma expressão de deboche que guardo na memória, fato que me constrangeu de imediato, principalmente por saber da situação de hostilização que antigos membros da gestão da Maria de Sá Roriz praticaram com os primeiros professores indígenas.
A relação de antagonismo que se formou entre os primeiros professores indígenas e a gestão da escola na época da criação das salas indígenas iniciais incide na falta de aceitação da afirmação identitária dos Pitaguary, e a fala atual do diretor parece ainda marcar a relação de rivalidade entre as duas escolas. Por parte dos Pitaguary, o tratamento hostil pelos gestores foi de espanto, pois “era gente que já nos conhecia desde criança”. Na fala da docente S, nós “fomos educados pelos mesmos professores e crescemos com as mesmas pessoas”. Esse episódio a deixou constrangida pela não aceitação da sua afirmação étnica.
O fato de se reconhecer como índio os distinguiu socialmente e agora se torna necessário mostrar, com evidências, a sua capacidade de valorar a sua cultura étnica, inclusive através da escola. Esse “ter-de-mostrar-se-índio” faz parte do cotidiano dos Pitaguary, principalmente em ações externas a sua comunidade, exibindo-se nos trajes e no artesanato. Mas também deve ocorrer no ensino escolar indígena. Entretanto, a afirmação étnica existente na Itá-Ara é, por vezes, realizada em momentos fora das disciplinas específicas, uma vez que
a escola tem outras prioridades educativas, como discutido em parágrafos anteriores e como será visto no próximo capítulo.
As avaliações governamentais anuais por que passam os estudantes da Itá-Ara refletem pouco sobre a sua educação específica, contudo, é sobretudo por essa nota que é construída a fala do diretor da Maria de Sá Roriz, desconsiderando a especificidade da escola indígena. É sob a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) que é feita a comparação entre as duas escolas por esse diretor, que considera os interesses governamentais para a educação como valores a serem seguidos. Fica evidente para ele que os professores indígenas da escola Itá-Ara deveriam passar conteúdos de modo a apresentarem resultados similares aos das outras escolas da região e isso incidiria na qualidade do ensino, que está atrelada aos resultados dos exames anuais.
O que estava em discussão na fala do diretor não era a possibilidade dos Pitaguary valorarem sua cultura no ambiente escolar, mas de mostrar que a escola indígena podia ensinar, com os mesmos resultados das escolas regulares do município. Ocorre que atingir essa meta ainda é uma barreira a ser superada pela escola Itá-Ara. Os limites do corpo docente são reconhecidos pela gestão dessa escola, muitos ainda em vias de concluir sua formação superior. Para a superação desse marco, a gestão da referida escola, principalmente a coordenadora pedagógica, tem exigido outros modos de trabalho de seus professores. Esse processo está em construção e ainda não é visível fora do âmbito escolar, o que dificulta a mudança de percepção da comunidade ao redor.
Isso fica aparente na conversa travada pelo diretor da Maria de Sá Roriz, quando o indaguei com a seguinte pergunta: “Você acha que o ensino da escola Itá-Ara é um bom ensino?”. Tentando buscar o motivo para a evasão dos alunos Pitaguary, a fala do gestor da Maria de Sá Roriz recai, principalmente, sobre o baixo índice alcançado pela escola indígena no IDEB, refletindo diretamente na qualidade do ensino. Mas para ele, a escola tem vários problemas, dentre estes, cita: a não observância da carga horária, pois “é comum, bem antes do fim do horário da aula, os alunos da Itá-Ara virem buscar seus irmãos na porta do colégio”. Ainda em seu raciocínio ele considera que as pessoas da comunidade acham que o ensino da Itá-Ara “não é sério”. Esse seria outro ponto a ser considerado como um dos motivos para a evasão de alunos, considerando ainda que escola indígena “não tem professores capacitados para o exercício da profissão”. Essas são ações que estão sendo mediadas pela escola e os resultados ainda não foram atingidos.
Tentando buscar respostas sobre isso na própria escola indígena, perguntamos o motivo pelo qual os alunos indígenas saiam da escola. A diretora respondeu que os pais dos
alunos não entendiam a proposta da escola e tentava amenizar essa situação. A coordenadora pedagógica enfatizava que este é um problema a ser resolvido e que não há subterfúgios para a possível resolução dessa evasão a não ser o trabalho pedagógico sério e de qualidade pelos professores. O fato é que as disciplinas avaliadas pelo Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE) demonstram que as notas da escola Itá-Ara são abaixo das demais escolas municipais da Monguba, entretanto, esta situação deve observar que as notas da escola vêm conquistando gradualmente uma melhora. Adiante será feita uma comparação entre os dados obtidos nas avaliações (p.108).