O que o negro herdou? A marca, o estigma? Quais foram as alteridades que
compuseram as suas identidades, que perpassam os seus processos de subjetivação?
No novo Dicionário da Língua Portuguesa (Ferreira, 1996), o termo transmissão é um vocábulo latino designando ato ou efeito de transmitir e, também pode significar transferência, transporte e comunicação. De acordo com o Dicionário Houaiss (2001) transmissão designa a ação de passar características, conhecimentos, posses e cargos a alguém.
A psicanálise apresenta vários questionamentos sobre a transmissão psíquica entre gerações. Kaes (1998) nos convida a pensar que
“nascemos para o mundo já como membros de um grupo, ele próprio encaixado em outros grupos e com eles conectado. Nascemos elos no mundo, herdeiros, servidores e beneficiários de uma subjetividade que nos precede e de que nos tornamos contemporâneos: seus discursos, sonhos, seus recalcados que herdamos, a de que servimos e que nos servimos, fazem de cada um de nós os sujeitos do inconsciente submetidos a esses conjuntos, partes constituídas e constituintes desses conjuntos”. (Kaes, 1997, p. 95)
Assim, o autor aponta que será necessário pensarmos que há uma particularidade visível destes objetos de transmissão, o fato de que são marcados pelo negativo, e
“ mais precisamente (...) o que se transfere e se transmite de um espaço psíquico a outro [são ] as configurações de objetos psíquicos (afetos, representações, fantasias), isto é,
objetos munidos de seus vínculos, incluindo sistemas de relações de objetos.” ( Kaes, 1998, p. 9)
O que é transmitido estaria privilegiadamente naquilo que não se contém, que não é retido, que não é lembrado, seria aquilo que aponta uma falta: a doença, a vergonha, o recalcamento, os objetos perdidos ou enlutados. Segue discutindo que seriam esses aspectos que corporificariam e dariam seguimento à transmissão e apontando uma marca negativa aos objetos de transmissão e afirmar que tais marcas negativas “seriam preferencialmente transmitidos”. Prestemos atenção ao termo preferencialmente, pois Kaes (1998) nos dá uma outra perspectiva - positivada – em relação ao que se transmite...
“ o que se transmite não é só o negativo, é também aquilo que ampara e assegura as continuidades narcísicas, a manutenção dos vínculos intersubjetivos, a conservação das formas e dos processos de conservação e de complexidade da vida: ideais, mecanismos de defesa, identificações, certezas, dúvidas”. (p. 9)
Uma das considerações que o autor faz e que nos interessa, em particular, é sobre a identificação, dada pelo autor tal qual um (...)“ processo maior da transmissão” e corroborado por Trachtenberg (2005) como “o mecanismo de identificação nas suas mais variadas formas e desdobramentos, alcança o estatuto de alicerce ou fundação no que se refere às transmissões psíquicas.” (p.41)
No caso dos afro-brasileiros a referência às identificações é significativa se pensarmos que aspectos mais importantes das mesmas foram se dando nas relações com os senhores de engenho porque eles estavam na posição de um modelo ideal de vida , devendo ser imitada pelo negro que se encontrava na senzala. O que isto pode ter acarretado para o negro? Segundo Trachtenberg (2005) “Freud (1913) partia do principio que o nosso aparelho psíquico se estrutura dentro de um contexto intersubjetivo em que o herdado tem um papel
de destaque”. Se como afirma Kaes (1998), a falta, a vergonha, (...) os objetos perdidos seriam configurações de objetos perdidos e ainda enlutados”, podemos pensar algumas destas transmissões – da vergonha, do ódio, da raiva, do medo, de perdas – foram passadas de geração em geração a partir dos grupos de negros escravizados, nas senzalas, dando um projeto de vida para os descendentes. Isto será verdadeiro se concordarmos que a transmissão psíquica significa a previsão do vir-a-ser do sujeito, constituído em um universo intersubjetivo, nas relações familiares, nas relações com outros grupos, podendo traduzir igualmente nossas distinções como sujeitos e agentes da constituição de nossas subjetividades, em meio à uma existência psíquica partilhada por tantos outros que se nos mostram e a quem nos mostramos.
Ao considerarmos uma existência psíquica será importante entendermos quais conteúdos nos são dados, quais damos aos outros? Do que sofremos? O que vem de nós mesmos? Se não pudermos responder poderemos, pelo menos refletir que boa parte do que somos diz respeito às heranças transgeracionais que temos e tais heranças são elementos estruturantes do nosso psiquismo, por meio de nossas introjeções e identificações. A introjeção no Dicionário Dorsch (2001) significa a recepção no próprio eu de concepções, motivos, etc. alheios e é o processo básico da identificação. Para Ferenczi, 1932, citado em Eiguer (1998) o conceito foi definido como introdução do objeto na esfera de interesse do sujeito, como interiorização de um objeto externo.
Freud nos textos Totem e Tabu (1913), Narcisismo: uma introdução (1914), e
Psicologia de Grupo e Análise de ego (1920) discutiu a introjeção em oposição à repressão, pois neste sentido, quando ocorrer a separação de um objeto externo investido de libido, no caso da introjeção, este objeto é de novo reinvestido no eu, no caso da repressão, porém, o
ocorre pela introdução do objeto sendo, portanto, um processo consciente ou inconsciente que ocorre no ego das pessoas. Conforme Ribeiro (1999) sustentou,
“afro-descendentes que tenham internalizado compulsória e brutalmente um ideal de ego branco vêem-se obrigados a formular para si um projeto identificatório incompatível com as propriedades biológicas do próprio corpo. Tentando transpor o fosso criado entre ego e seu ideal paga altíssimo custo que inclui, muitas vezes, o sacrifício do equilíbrio psíquico. Da obrigação de definir um ideal impossível para a realidade do próprio corpo e da própria historia pessoal e étnica, decorrem auto- imagem desfavorável e auto-estima rebaixada (...)” . (p.238).
Freud (1936) no texto O ego e os mecanismos de defesa opinou que é preciso bater duas vezes para provocar um traumatismo. Pensando nas repercussões que o sistema escravista deixou, concordamos com o autor e acrescentamos que no caso desses indivíduos o bater foi muito mais que duas vezes, e que a repetição desse sofrimento bem como as suas repercussões – por exemplo, os traumas psíquicos - são parte da herança que os afro- descendentes receberam e a diferença, agora, é que a pancada ocorre de modo sutil, subliminarmente por meio de apelidos, xingamentos, estereotipias, atitudes discriminatórias e de exclusão. Portanto, não temos duvida de que há um trauma porque no entendimento da psicanálise houve um recalque e o mesmo “vaza” com outras nuances na existência – o medo, a vergonha, o isolamento, a baixa auto-estima, etc. Cirulnik (2004, p.4)) comentou que “ o primeiro golpe, no real, provoca a dor do ferimento ou a dilaceração da falta. O segundo, na representação do real, faz surgir o sofrimento de ter sido humilhado (...)”. Podemos também anotar as idéias de Thompson (1993) de que “ a transmissão cultural entre as gerações é tão antiga quanto a humanidade, nascida que é da condição humana fundamental” (p. 9), o que gera uma certa continuidade entre as gerações e, acreditamos
que se esta continuidade for positiva o ganho será favorável, por outro lado quando a transmissão for negativa qual será o resultado de tais transmissões?