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Part 1 - TELECOMMUNICATIONS
N. B. SEE ALSO 7A106
Durante a Monarquia Constitucional, Primeira República e ditadura militar, os eventos comemorativos eram concebidos como ocasiões pedagógicas e cívicas para educar os cidadãos no conhecimento de figuras e feitos relevantes4, reforçando também a representação de determinados grupos socias e seus poderes nos espaços
públicos. A Primeira República Portuguesa deu valor às festas cívicas, procurando seguir a tradição europeia oitocentista do culto regular dos “grandes homens” e dos grandes acontecimentos. O desejo de preservar na memória personalidades relevantes ou feitos históricos mobilizou não só organismos oficiais como grupos de cidadãos organizados em comissões que empreendiam esforços na construção de monumentos. Esta prática comemorativa e a sua modalidade de encomenda mantiveram-se ainda vivas até ao fim da ditadura militar, conjuntura que se manifestou-se pela existência de encomendas de monumentos conduzidas por diversos promotores movidos por diferentes sensibilidades políticas, que competiam por fazer-se representar nos espaços públicos da capital5. Embora os monumentos programados e em execução fossem mais do que os concretizados,
estas eram ocasiões públicas oportunas para divulgar a vida e a obra das figuras homenageadas. A estatuária e o busto eram as tipologias de intervenção mais acessíveis às comissões promotoras, que quase sempre pretendiam homenagear uma figura histórica, politica ou cultural.
Imagem 1: Cerimónia de lançamento das primeiras pedras:
a e b) monumento a José António da Silva, o Judeu, na Avenida 5 de Outubro (1913) c) primeira pedra do monumento a Antero de Quental no jardim da Estrela (1926).
Fonte: AML, AF. JBN000812 (a); JN000500 (b); EFC001561 (c)
Os projectos dos monumentos eram divulgados através de uma cerimónia no local de implantação, envolvendo a apresentação das maquetes e colocação das pedras inaugurais (ver imagem 1). O lançamento da primeira pedra estava inscrito num protocolo mais amplo de encomenda que não se centrava somente na feitura e inauguração de um monumento. Dependendo da dimensão da homenagem6, esta prática comemorativa poderia
comportar diversas formas de divulgação do projecto e de angariação de fundos, como programas e regulamentos, opúsculos sobre o objecto da comemoração, edições de livros associadas à homenagem, cerimónias públicas para divulgação da maquete, lançamento de eventos que promoviam a recolha de fundos para a subscrição pública, e por fim a divulgação da conclusão do monumento e o convite feito à população
4 Ver Isabel João (2002), Memória e Império, Comemorações em Portugal (1880-1960). Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian e
Fundação para a Ciência e Tecnologia, pp. 90-95.
5 Monumentos dedicados aos presidentes António José de Almeida ou Teófilo Braga estavam em execução.
6 A dimensão da homenagem e a escala do monumento estava dependente muitas das vezes da soma angariada através da subscrição
pública, como era a justificação dada pela Comissão do monumento a Teófilo Braga. Ver: Contas da Comissão Teófilo Braga, Lisboa, Imprensa Lucas & Cia, 1927, p. 4.
para a inauguração. Homenagens a Teófilo Braga ou António José de Almeida foram acompanhados por iniciativas deste género. A homenagem a Teófilo Braga, organizada por uma comissão de amigos e admiradores, homologada pelo Estado em 1924, previa a tumulização definitiva dos restos mortais de Teófilo Braga, bem como a organização de um livro in memoriam, com depoimentos literários e iconográficos do autor, que contribuísse para estudos futuros sobre esta individualidade7. Mais tarde, as notícias publicadas nos jornais
pedindo a angariação de fundos para o custeio de um monumento originaram um aumento significativo da subscrição pública permitindo assim a encomenda de materiais para esculpir um busto, que fora encomendado a Teixeira Lopes (imagem 2).
Imagem 2: Monumento a Teófilo Braga, instalado no jardim da Estrela Fonte: revista ABC, 1927
Para a execução do pedestal foi aberto um concurso público, tendo a maquete do monumento sido exposta publicamente durante o tempo estipulado para a recolha de propostas. Com os trabalhos concluídos, a Comissão divulgou nos jornais a data de 16 Outubro de 1927 para a inauguração do monumento no Jardim da Estrela, fazendo um convite à população8. Durante a cerimónia de inauguração foi distribuído um opusculo,
intitulado Quem é Teófilo Braga, com contributos de vários autores9.
7 Diário do Governo, n.º 276, II série, 24 de Novembro de 1924.
8 Diário de Notícias e O século de 25 de Setembro de 1927, e mais tarde, a 13 de Outubro, a notícia estende-se a todos os jornais. 9 Monumento ao Doutor Teófilo Braga, apontamentos para a sua História. Contas da Comissão Teófilo Braga, Lisboa, Imprensa Lucas
Em 1928, uma comissão organizada pelo Ginásio Clube Português, a fim de construir o monumento a Luís da Costa Monteiro10, solicitou à CML a cedência de terreno na Avenida da Liberdade e custeio das suas
fundações. A proposta da respectiva comissão foi apresentada à Comissão Administrativa da CML, que a aprovou. O Conselho de Arte e de Arquitectura foi encarregue de examinar a maquete e a proposta do escultor. O mesmo Conselho foi incumbido de estudar a localização do monumento na Avenida da Liberdade. O projecto foi aprovado e levado à presença da Comissão do Ginásio Clube Português, que também concordou11. O
monumento, realizado em bronze, por Anjos Teixeira, representava um rapaz de calções, envergando um disco com o relevo do benfeitor12 (ver imagem 3). Foi inaugurado em 15 de Maio de 1932, na Av. da Liberdade, em
frente da Rua Manuel Jesus Coelho13.
Imagem 3: Monumento a António Luís Monteiro, Av. da Liberdade Fonte: AML, AF. FEC000145
O projecto do monumento a António José de Almeida partiu também de uma iniciativa particular, mas teve um percurso mais extenso, tendo sido inaugurado já durante o Estado Novo.
A ideia da homenagem ao antigo Presidente da República surgiu depois da sua morte, onde vários partidários da causa republicana, simpatizantes ou amigos, se juntaram para formar uma Comissão. Bastante
10 Luís da Costa Monteiro foi o iniciador da prática da educação física em Portugal.
11 Ver Helena Elias (2007), Op cit. O projecto concluído foi depois enviado pelo vice-presidente da Comissão Administrativa, ao
Presidente do Ginásio Clube Português, para aprovação definitiva.
12 AML-AC – processos da Secretaria-geral, 1ª repartição, proc.10480, 21 de Outubro de 1928, carta do escultor Anjos Teixeira com a
descrição da Maquete.
crítico em relação ao papel dos organismos oficiais nestas iniciativas, o presidente da comissão executiva do monumento achava o Estado «incapaz pelo seu carácter pessoal e abstracto de participar dos motivos sentimentais e emocionais que hão - de, necessariamente, inspirar-se consagrações deste género, que por isso mesmo surgem no momento de grande comoção».
Foram sugeridos vários locais como a Praça do Chile ou a Praça José Fontana. Entretanto, a comissão recebeu a oferta da cedência gratuita do terreno para construção do monumento, no cruzamento da Av. da República e Miguel Bombarda14. A primeira pedra foi lançada no local designado ficando estabelecido que na
próxima sessão camarária seriam dadas a conhecer as bases do concurso público. A cerimónia de lançamento da primeira pedra foi noticiada nos jornais tendo a comissão executiva feito um apelo à população da capital para participar no evento15. Acompanhando as notícias sobre o avanço da homenagem, era publicada a lista de
subscritores e o anúncio de venda de livros sobre a história de Portugal, com o objectivo de aumentar o valor resultante da subscrição pública.
Imagem 4: Monumento em homenagem a António José de Almeida
Trabalhos seleccionados: Simões de Almeida – Tertúliano Marques; Diogo Macedo – Álvaro Varela; Leopoldo de Almeida – Pardal Monteiro.
A Comissão encarregue resolveu abrir concurso público entre artistas portugueses solicitando ao Conselho de Arte e de Arquitectura da CML a colaboração na organização e formação do júri do concurso16. O
concurso público foi lançado a 2 de Dezembro de 1933 tendo sido apresentados 23 projectos. Foram seleccionados três trabalhos: Diogo Macedo – Álvaro Varela, Simões de Almeida – Tertuliano Marques, e Leopoldo de Almeida – Pardal Monteiro. O trabalho de Leopoldo de Almeida e Pardal Monteiro foi o escolhido
14 Boletim da CML, Sessão da Comissão Administrativa, realizada a 6 de Novembro de 1930, p.8. 15 Diário de Notícias, 29 e 30 de Janeiro de 1932.
16 AML-AC, Secretaria, processo 190/32 “Diversos”, datado de 17 de Fevereiro de 1932, e dirigido ao Conselho de Arte e de
para a homenagem (imagem 4). A maquete exibia uma nova proposta estética, representando a figura da República de forma hierática, contrariando as figuras dinâmicas, que caracterizavam o gosto republicano em matéria de monumentos17.
O monumento foi inaugurado em 31 de Dezembro de 1937. No entanto, o monumento acabou por não ser implantado na Avenida da República mas sim numa praça periférica a esta artéria. Pouco entusiasmada com o resultado do concurso, a Comissão, conformando-se com a opinião dos Vogais técnicos do júri, para a classificação das maquetas a quem recorreu, resolveu, em sua sessão de 25 de Abril último, solicitar de preferência, para substituição do local já escolhido na Av. da República, a praça situada entre o Instituto Superior Técnico e o Bairro Social do Arco Cego.