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A análise do nosso corpus inicia-se com o cordel Aproximação de Lampião a Mossoró, publicado na coletânea, “O ataque a Mossoró e a vitória desta cidade”, escrita pelo referido autor (E1) em junho de 1927. Nessa compilação, Oliveira (1927) descreve, em três diferentes cordéis, a trajetória de Lampião, os planos para o assalto a cidade e o episódio.

Desse modo, além do já citado, compõem o livro os cordéis, “Vida de Lampião nos sertões” e “A vinda de Lampião a Mossoró”. Estes retratam a vida e ações do rei do cangaço e seu

bando até sua chegada à cidade mossoroense no ano de vinte e sete.

O primeiro aborda o modo de agir de Lampião no interior sertanejo e o segundo narra o roteiro traçado pelos cangaceiros, como os saques a Apodi e a São Sebastião, antes da empreitada a Mossoró. Nessa direção, não é nosso interesse analisar tais cordéis que fazem parte da coletânea, pois não colocam em evidência nem o conflito, nem a cidade mossoroense.

Passemos a análise do enunciado 1 (E1), presente no cordel Aproximação de Lampião a Mossoró.

Meus leitores me escutem Esta mesma descrição Relativa ao ataque Que nos fez o Lampião Como também a vitória Que ficará na memória Da futura geração

Considerando as escolhas lexicais do enunciador, em E1 damos destaque aos termos:

“ataque e vitória”, visto que, nos chama a atenção num primeiro olhar, a maneira ambígua

como o segundo elemento encontra-se posicionado no enunciado. A priori, a palavra “vitória”

tanto pode complementar a ação do “ataque”, realizada pelos cangaceiros, como também,

pode referir-se a uma possível reação o atacado. Assim, cabe-nos perguntar: vitória de quem, daquele que ataca ou do sujeito atacado?

Tal ambiguidade somente é desfeita na leitura do todo, inclusive no diálogo do cordel, em análise, com o título geral da coletânea, a qual ele compõe. “O ataque a Mossoró e a

vitória desta cidade”, que traz de modo claro o posicionamento de quem o produziu. Dessa

forma, desfeita a ambiguidade, aparecem inscritas nos versos duas informações que se referem à construção imagética do acontecimento: o ataque dos cangaceiros, “Relativa ao

Sob esse enfoque, verificamos que os enunciados materializam-se em escolhas lexicais, cujas valorações integram o modo de dizer, constituindo axiologicamente a maneira de compreender o fato. Corroborando com isso, a presença do elemento linguístico “nos” inserido no enunciado é significativa na confirmação do ponto de vista do autor acerca do acontecimento discutido, pois direciona o discurso para uma construção em que ele (enunciador) se identifica e se compreende como pertencente a comunidade, vinculando-se ao lugar.

Ao relatar, em seguida, que a vitória irá perdurar ao longo do tempo, conforme destacamos a seguir: “Que ficará na memória/ Da futura geração”, o sujeito enuncia a partir de tons avaliativos que imprimem suas crenças e seus valores, deixando transparecer o desejo de herança cultural da reação citadina, que culminou em sua vitória. Sendo esta última evidenciada, retomada e ressignificada nas vozes documentais, discutidas no capítulo quatro deste estudo e no imaginário coletivo45 da população mossoroense. O que revela uma intencionalidade caracterizada pelo objetivo de o enunciado explicitar o interdiscurso da permanência, da constância. Assim sendo, destacamos a conexão linear que perpassa os

elementos lexicais “vitória” e “memória”.

Nessa perspectiva, ao trazer à baila outras vozes sociais (jornalísticas, historiográficas e poéticas, entre outros46), a construção axiológica do discurso empreendido em E1 orienta-se através de uma memória a qual se articula em torno de uma cadeia discursiva estabelecendo uma atualização do episódio, tornando-o, portanto, em termos bakhtinianos, um acontecimento discursivizado.

Continuando seu discurso, o enunciador foca sua fala na narrativa do conflito:

No dia 13 de junho Quando ocorreu o boato Que Lampião atacava Este lugar pacato Houve muitas agonias Ainda mais pelas famílias De tão grande sobressaltado [...]

A coisa era horrível Alguém achava impossível Mas, no entanto era certa

45Por entendermos a palavra como enunciado, isto é, como “produto da interação de indivíduos socialmente organizados”, (BAKHTIN [Volochínov], 2010, p. 112), denominamos de imaginário coletivo as vertentes

culturais produtoras de discursos que legitimam valores, significados e ideais a um objeto historicamente construído, inerentes aos usos sociais da linguagem, quer estejam presentes na situação mais imediata da produção comunicativa, quer distantes no espaço-tempo discursivo.

46A respeito desta questão, é interessante ver nosso estudo anterior, “AVE! MOSSORÓ! Os eventos discursivos sobre o episódio da resistência ao bando de Lampião”, 2010.

[...]

O pessoal estava forte Firme em suas defesas A cidade inabalável Com um gesto de nobreza

É necessário atentar para o modo como o sujeito apresenta o ataque de Lampião à cidade. Em seu entendimento o ataque é percebido como uma notícia falsa, um “boato”. Acontecimento que não se concretizaria.

O fato de o sujeito-enunciador fazer uso do termo “boato” dialoga com o discurso social mossoroense da dúvida, da incerteza, pois Lampião não iria atacar uma cidade de pequeno porte, mas Mossoró já considerada, naquele tempo, de grande porte visto que possuía quatro igrejas ou quatro torres como denominou o cangaceiro, três jornais, uma agência do Banco do Brasil, entre outros empreendimentos que retratam o progresso citadino.

Em oposição ao discurso da incerteza, surge o da resignação constituído em primeiro

plano, pela transformação do lugar. A cidade deixa de ser um lugar tranquilo, “pacato” e

passa a caracterizar-se através de um sentimento de angústia. Mossoró e sua população encontram-se em sofrimento, em aflição, assustados, como destacam os seguintes versos: “...

Houve muitas agonias //Ainda mais pelas famílias // De tão grande sobressalto ...” Em

segundo plano, a aceitação do ataque lampionesco se dá pela utilização dos conectores

adversativos, “Mas” e “no entanto”, ambos reforçados pela conjunção afirmativa “certa” como também, através da sentença que pressagia: “...Todos o mal pressentiam...”.

Todavia, mesmo envolvida nessa atmosfera de medo e angústia, a cidade tem sua

reação estruturada. Vejamos: “... O bom Cel. Rodolfo //... Diante destas cenas // Estava organizado...”. A expressão formada pelo substantivo “gesto” e pela locução adjetiva “de nobreza” enaltece a defesa citadina, fazendo emergir valores sociais que se referem a bravura

e coragem do povo mossoroense, que não recuou diante do capitão do cangaço, conforme atestam os versos a seguir:

Do pessoal ilustrado Ilustrados digo eu Não são os ricos somente São todos que se mostram Fortes e diligentes Calmos e corajosos Firmes e valorosos Naquele conflito ardente.

O enunciador estrutura seu discurso no engrandecimento da população mossoroense por meio de recursos linguísticos que passam a indicar um modo de ser do substantivo a que se remete. Nesse processo, os adjetivos trabalhados no enunciado funcionam também como elemento discursivo, que ratifica o posicionamento do enunciador a respeito do dito. Em outro recorte enunciativo, o sujeito anuncia:

Mossoró será o forte Para sempre triunfar

Desse excerto, destacamos a ligação entre as palavras “forte”, “o” e “sempre”, que direcionam o dizer para um contexto atemporal, para uma situação de perenidade, endossada pelo uso do verbo “ser” no futuro “será”, atribuindo sentidos que atuam numa construção identitária de Mossoró de eterno esplendor. Assim, a opção por usar discursivamente os termos em destaque, favorece a acentuação de uma identidade ufanista, aparentemente fixa.

Em outro fragmento o enunciador avalia:

É justo que Mossoró Triunfasse na imprensa Pois muito se esforçava Por sua justa defesa.

Esse trecho de E1 nos chama atenção porque a imagem da cidade é processada no interior das práticas discursivas, propiciando determinados sentidos. Em específico, o produtor insere a defesa da cidade mossoroense no discurso jornalístico, como complemento

legitimador do seu posicionamento (“justa defesa”).

Assim observamos que, nestes fragmentos, o foco referencial objeto de análise é o papel da mídia no que tange a sua capacidade de veiculação das informações sobre o acontecimento de vinte e sete. Percebido como traço significativo da alteridade, de posicionamento axiológico, constatamos que a voz midiática coaduna-se com o discurso proclamador da resistência, conforme os enunciados em negrito.

Sobre isso, é importante frisar que o discurso enunciado pela imprensa mostra uma realidade refratada, representada sendo, nesta última, a identidade determinada. Afinal, “quem tem o poder de representar (como a imprensa47) tem o poder de definir e determinar a identidade [...] representar significa dizer: a identidade é essa” (SILVA, 2011, p. 91).

Inserida na apresentação do episódio está a construção identitária da cidade de

Mossoró. A identidade é exposta através dos modalizadores “pacato” e “inabalável”, e da locução adjetiva “[...] de nobreza”, cujo sujeito-enunciador enxerta uma composição

identitária de cidade camaleônica. Nesse jogo discursivo, o enunciado constrói uma identidade fluida, transitória. Por um lado, ela é apresentada como pacífica, tranquila, demarcando uma conotação provinciana, ruralista, por outro, é vista como implacável, magnificente e vitoriosa.

Em relação, ainda, aos componentes lexicais em destaque, subjaz uma contraposição semântica empreendida pela ausência da voz dos cangaceiros. Desse modo, o silenciamento que atravessa E1 marca explicitamente o posicionamento axiológico do sujeito ante o episódio, implicando na circulação de sentidos que favorecem uma identidade construída discursivamente para a cidade mossoroense. Enfim, a identidade atribuída à cidade processa- se em função de estratégias discursivo-lexicais e silenciamento do outro (cangaceiros) – que convergem para enfatizar, neste enunciado, o dizer da resistência contra Lampião e seu bando.