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2.3 11B Well Integrity fundamentals

O nosso corpus é composto por textos da literatura de cordel, veiculados no período que se enquadra entre os anos de 1927 e 2007 que versam sobre o confronto entre o bando de Lampião e a cidade de Mossoró. Para sua seleção e construção, traçamos alguns critérios como: a temática, o tempo, o ciclo histórico-circunstancial e, finalmente, os títulos que apontam para uma construção axiológica, a qual (possivelmente) orienta o teor discursivo dos enunciados. Fator que deixa em evidência a importância de uma apreciação mais cuidadosa dos mesmos para compreensão do todo.

Sendo assim, realizamos uma análise dos títulos que denominam os cordéis examinados neste estudo. Para uma didatização da análise identificaremos as designações dos cordéis pela letra T maiúscula e em negrito (em referência a palavra título), seguida por uma numeração sequencial. Dessa forma, evidenciamos a tabela subsequente que elenca os textos que compõem o corpus.

Tabela: Títulos dos cordéis analisados

TÍTULOS DOS CORDÉIS ANO AUTOR

1

Aproximação de Lampião a Mossoró.

1927 José Lima de Oliveira

2

A derrota de Lampião em Mossoró.

1927 José Otávio Pereira de Lima

3

Vitória de Mossoró no ano de vinte e sete. 1977 Luiz Campos 4 Lampião em Mossoró em 1927. 2004 José Saldanha 5 O ataque de Mossoró ao bando de Lampião 2006 Antonio Francisco 6

Mossoró comemora 80 anos de resistência ao bando de Lampião.

2007 Ademar Pedro Alves

7 Mossoró na resistência ao grupo de Lampião 2007 Aldaci de França 8 80 anos de história do combate a Lampião 2007 Concriz 9

Nos cordéis selecionados para a análise de nosso objeto, percebemos que boa parte

deles traz em seus títulos, por meio de termos como: “vitória”, “derrota”, “resistência” “ataque” e “combate”, uma referência explícita ao discurso que converge para identidade da

resistência atribuída à cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Nessa perspectiva, observamos que quatro (T1, T4, T8 e T9) não fazem uma referência direta, em seus títulos, ao episódio de vinte e sete, em especial, a resistência citadina ao bando de cangaceiros. T1 e T4, por exemplo, apenas informam amplamente o assunto tratado, mas não apontam de modo específico, o percurso a ser trilhado no interior dos cordéis.

Em T1, por exemplo, alertamos, novamente44, para o fato de o cordel dar a impressão de que irá discursivizar apenas sobre o roteiro seguido pelo cangaceiro até sua chegada a cidade de Mossoró, e não sobre o episódio de vinte e sete, mais diretamente, sobre a resistência citadina. Esse viés de leitura é pertinente e verificável pelo uso do elemento

“aproximação”. O outro foco de leitura somente torna-se possível, após uma contemplação

do todo. Tanto do cordel, como seu diálogo com o título da coletânea (O ataque a Mossoró e a vitória desta cidade), a qual T1 compõe.

A exemplo de T1, em T4, embora nos “avise” que a temática será a presença de Lampião na cidade mossoroense, só percebemos o tom do discurso com a realização da leitura de seus versos. Essa forma de apresentação titular, Guimarães (1995 p.51) caracteriza

como “função factual” cujo “resumindo as linhas fundamentais do texto, o título passa a

desenvolver funções de natureza eminentemente prática”.

Além da “função factual”, T1 e T4 apresentam, o que Guimarães (1995, p. 51), denomina de “ligação anafórica”, segundo a autora, essa característica funciona como um “lembrete de uma informação conhecida, remetendo a um elemento anterior, não enunciado

no texto, mas presente no espírito do leitor”. Notemos que palavras como “resistência”,

“vitória”, “derrota”, “combate”, “luta”, “assalto”, entre outros termos que qualificariam o

episódio, não estão presentes em ambos, sendo necessária uma ativação, por parte do leitor, de seu conhecimento de mundo; bem como, exige do produtor uma noção de seu público alvo.

Em relação a T8, apesar de este trazer elementos lexicais como “combate” e fazer

referência ao marco temporal “80 anos de história...”, vemos que não há uma precisão do que

se trata, gerando expectativa. De forma mais límpida, a construção discursiva do título não explicita quem combateu Lampião, nem tão pouco, o resultado do combate, visto que, a ação

de combater não é sinônima de vencer, mas implica, em nosso ponto de vista, numa possível vitória.

Note-se que o nome “Mossoró” foi omitido do título, fazendo-se necessária uma recorrência à memória, e ao contexto enunciativo para identificação da temática. O que oferece espaço para questionamentos como: quem combateu Lampião? Quem saiu vitorioso do combate, o combatente ou o combatido? Outra vez, a resposta é sanada com a leitura dos enunciados presentes no cordel.

Assim como os títulos anteriores (T1 e T4), T8 apresenta uma ligação anafórica, pois, novamente, faz-se necessário que o leitor possua um conhecimento prévio do assunto, com o intuito de ser capaz de estabelecer um diálogo com o discurso da resistência de Mossoró,

recuperado este, pelo marco temporal “80 anos” e pelo elemento linguístico “combate”.

Em T9, temos, praticamente, os mesmos questionamentos de T8, todavia, o foco remete-se ao cangaceiro. Observemos: “A defesa de Lampião”. O termo “defesa”, assim como, questionamos em T8, também nos permite questões como: “Que defesa? Contra quais

acusações?” e, mais uma vez, obtemos a resposta e os sentidos que ela oferece, com base na

leitura do todo.

Em T9 surgem outras características apresentadas por Guimarães (1995). A função

poética, a qual, mais que “resumir, procura deixar o leitor em dúvida, seduz e cria expectativas que o levem a leitura do texto” (GUIMARÃES, 1995, p. 52) e a ligação

catafórica em que o título somente será entendido após a leitura do texto.

Nesse direcionamento, alertamos que a ligação catafórica apresenta um grau maior em T9. Já nos outros títulos, o que de fato é saciado após a leitura do todo é a tonalidade do discurso, e não o assunto em si. Nesse caso, nesses títulos há uma maior incidência da ligação anafórica (conhecimento prévio do tema, e possivelmente, do discurso oficial predominante em torno do episódio). Por sua vez, T9 apresenta a relação Lampião versus Mossoró narrada na voz do cangaceiro, revestindo o tema com base em outra atmosfera, como evidencia a análise de E9, realizada a posteriori.

Por outro lado, conforme assinalamos, nos demais cordéis nos é mostrado explicitamente a temática e a acentuação discursiva delegada a ela. Nesse caminho, T2, escrito em 1927, para enunciar o conflito entre Lampião e a cidade mossoroense, o faz tendo como referencial a figura lampionesca. A ação da cidade não é enunciada a partir de sua vitória ou resistência, mas o foco centra-se na derrota do cangaceiro, estratégia, que a nosso ver, enfatiza e valora de modo mais positivo a ação da cidade.

Em resumo, ao inserir no título do cordel o substantivo “derrota” somado a preposição “de”, o enunciador opera, por meio de uma estratégia linguística que auxilia na exacerbação do golpe sofrido por Lampião, afinal, o ato de perder pertence a ele, ao “Capitão do cangaço”, o “governador dos sertões”, conhecido, temido e respeitado por todos e que fracassou perante

a grandeza de Mossoró.

Já em T3, o recorte dado ao fato surge através de uma acentuação mais sutil, quase

como uma nota informativa, “beirando”, arriscamos dizer, certo apagamento da subjetividade,

do ponto de vista do enunciador. Não há uma ênfase tão contundente ao conflito, nem as personagens, como em T2.

T3 é posto apenas como algo que informa o conteúdo a ser lido no interior do cordel. O leitor não consegue, somente pela sua leitura, prever o tom com que o enunciador irá discursivizar o episódio. Não percebemos, por exemplo, nem uma euforia, nem tão pouco, certo desprezo do enunciador em sua escritura. Entendemos, desse modo, que T3 anuncia o conteúdo, mas não revela a maneira pela qual ele será enunciado.

Por sua vez, é curioso notar a forma como é construído T5. Nele, o enunciador ressignifica o fato, apontando para uma reorientação do trajeto temático, ao alterar o sujeito ativo. Em T5 é a cidade que ataca o bando de Lampião e não o oposto. Nesse sentido, ao redimensionar o foco, retirando a ação dos cangaceiros e transferindo-a para Mossoró, observamos um sentido valorativo de passividade atrelado a Lampião e seu bando, sugerindo um papel secundário, em contraposição, ao papel realizado pela cidade. É Mossoró quem age.

Em T6 e T7 temos a enunciação explícita da palavra “resistência”. Enquanto que em T7 observamos um tom axiológico de apresentação do conteúdo textual, isto é, uma informação sobre a temática inserida no cordel, o que evidencia certo afastamento do sujeito produtor do discurso, o qual assume o papel de narrador, ou melhor, assume um posicionamento de mero repassador da versão do treze de junho de vinte e sete, considerada como oficial, em T6 temos duas assertivas marcadas pela relação que se constrói entre os

verbos “comemorar” e “resistir” com o marco temporal de “80 anos...” Através da perspectiva

memorialística, há em T6 um resgate do passado, um reavivamento do acontecimento, que ganha força pelo transcorrer do tempo e das personagens envolvidas, visto que, não se trata de uma celebração qualquer, nem tão pouco de qualquer sujeito. São, na realidade, oitenta anos de combate a Lampião, o capitão do cangaço.

Observamos também, nesse enunciado, a ênfase dada ao sujeito que comemora

“Mossoró”, trazendo as noções de pertencimento e de exclusão e inclusão identitária. É a voz

mossoroenses compartilhem do mesmo sentimento em relação a resistência, o enunciador ao

dizer “Mossoró” faz uma generalização, fazendo, portanto, soar a voz da população

mossoroense, o que exclui o restante da população que não pertence ao lugar e silencia os cangaceiros.

Neste tópico, detivemo-nos nas análises dos títulos dos cordéis, pois entendemos o relevante papel que tais denominações desempenham para uma compreensão mais rica e, até mesmo, diversa do sentido global do texto. Assim, longe de ser um acessório paratextual, os

títulos desempenham funções na leitura de um texto. Gradim (2000), em seu “Manual de jornalismo” atribui aos títulos as funções de “informar, cativar, prender o leitor, despertando sua atenção e curiosidade” (GRADIM, 2000, p. 70).

Nos títulos em análise observamos que, além de desempenharem essas funções, eles cumprem o papel de reacender o episódio de vinte e sete e contribuem com a discussão em torno das identidades atribuídas à cidade de Mossoró como também dos perfis conferidos aos cangaceiros, em T5, por exemplo, Lampião torna-se vítima da cidade e não o inverso.

Em sua maioria o foco discursivo encontra-se voltado para cidade de Mossoró, seja na aproximação de Lampião, seja no ataque desta cidade ao cangaceiro ou na comemoração da cidade pela vitória alcançada (vide de T1 a T7). Assim sendo a cidade passa a ser o espaço discursivo a partir do qual se desenvolve toda a ação, sugerindo, para além de uma identidade física e geográfica, quase imutável, identidades outras ressignificadas: cultural, social, histórica, política, entre outras, a partir da multiplicidade de discursos, que de acordo com Pesavento (2002, p. 9) se “justapõem, compõem, ou se contradizem”, construindo imagens da cidade.

É nessa perspectiva e a exemplo de Calvino (1990) em busca das “futuras Berenices”, que nos preocupamos em buscar as identidades das “futuras Mossorós” que se encontram

presentes na Mossoró resistente, “contidas, espremidas e inseparáveis” (CALVINO, 1990, p. 147), nos enunciados dos cordéis analisados a seguir.

Para organização analítica do material a nossa disposição, os cordéis selecionados serão identificados pela composição da letra E (maiúscula e em negrito), seguida por uma sequência numeral crescente, também em negrito. Os cordéis selecionados são apresentados a seguir, sendo identificados a partir do enquadramento temporal a que pertencem, dito de outro modo, os cordéis estão inseridos em três grupos: vozes da época (1927), vozes de entremeio (1977-2006) e os ditos de comemoração (oitenta anos do episódio de vinte e sete).