O discurso presente em E3 narra o acontecimento cinquenta anos após o fato. No mesmo tom laudatório dos enunciados anteriores, o enunciador em E3 apresenta discursivamente a cidade de Mossoró. Vejamos:
Mossoró, terra querida, Berço da Abolição; Orgulho do Rio Grande;
Centro de educação; Libertadora dos escravos; Ex-combatente dos bravos Bandidos de Lampião.
O discurso ufanista é constituído neste cordel, a partir da retomada de elementos que se remetem a memória de um passado histórico da cidade revestido de orgulho. Corroborando para a composição de uma identidade instaurada no heroísmo, o enunciador traz à tona o discurso do trinta de setembro, data que exalta o pioneirismo da cidade mossoroense na abolição da escravatura, anos antes do surgimento da Lei Áurea48.
Nessa perspectiva, os discursos relacionados à cidade estruturam-se em torno de eventos situados em momentos distintos que contribuem para produção de um ideal identitário. Colocado no mesmo patamar discursivo do treze de junho de vinte e sete, o
enunciado: “Mossoró, terra querida/ Berço da Abolição;/ Libertadora dos escravos [...]” traça,
por meio das narrativas grandiosas que constituem o passado da cidade mossoroense, um
perfil identitário que define Mossoró não apenas como “terra da resistência” (“Ex-combatente
dos bravos // Bandidos de Lampião”), mas também como “terra da liberdade”.
Seguindo essa discussão o enquadramento dado a cidade em diferentes cronotopos aponta para uma construção valorativa que reivindica sua identidade, através do sentimento de pertencimento a um grupo, pertencimento a um lugar. Sentimento reforçado no trecho seguinte cujo sujeito elucida o lugar social de onde fala:
Eu que sou mossoroense Lhe trago na memória Que cada vitória sua É para mim uma glória Cada canto é um encanto Que eu encantado canto Um pouco da sua História
A locução enfática: “Eu que sou mossoroense” demarca uma fronteira de
representação inclusiva/exclusiva entre sujeitos, funcionando como um traço da presença do
outro. O verbo “ser” remete a uma imanência, que singulariza esse sujeito perante o outro que não é mossoroense. No enunciado apreciado, “ser mossoroense” é motivo de honra, de
orgulho, pois pressupõe uma carga semântica de bravura e coragem. O seu uso somado aos
vocábulos “memória e História” reflete um discurso preocupado em construir uma identidade
estável, permanente, digna de ser constantemente relembrada, não sendo permitido entrar no
48 Acerca da Abolição em Mossoró é necessário dizer que tal fato ocorreu devido a exiguidade de escravos na
campo do esquecimento, até mesmo por que: “[...] cada vitória sua // É [...] uma glória [...]”. Nesse âmbito, tais elementos linguísticos favorecem a constância do dito, auxiliando na manutenção identitária que se deseja atribuir.
Atentamos, ainda, para o fato de o autor grafar o substantivo “História” com letra
maiúscula. Esse enquadramento alerta para um juízo de valor que demonstra a inscrição
identitária da cidade mossoroense alicerçada na tradição. Atrelada ao substantivo “História” está a locução adverbial de intensidade, “um pouco da” que modaliza o dizer. Dito de outro
modo, o enunciador revela apenas parte da memória narrativa de “glórias” que representa a cidade.
Nesse sentido, as vozes sociais que emergem do enunciado estabelecem relações dialógicas de concordância com outros fatos pertencentes ao universo histórico-social da cidade, como o “motim das mulheres” 49 e o “30 de setembro de 188350”, também retomados em enunciados anteriores (vide última estrofe de E2). Com isso, o sujeito parte de informações que considera indiscutíveis para (re)afirmar o perfil da cidade no decorrer dos anos. Desse modo, ao destacar o passado de lutas e conquistas, o sujeito de E3 redimensiona marcos temporais discursivos que buscam enaltecer a construção identitária almejada (resistência).
Todavia, observamos que a ressignificação de eventos históricos sugere um hibridismo para a identidade de Mossoró, pois ao promover o interdiscurso com outras construções que
circulam socialmente como, “Mossoró, terra da liberdade51”, a identidade vai sendo construída como fruto das relações socioculturais em cronotopos específicos. Há nesse contexto discursivo, uma fragmentação do sujeito Mossoró, já que sua identidade assume um caráter plural, pois está situada em outro contexto espaço-temporal. Assim, a identidade da cidade revela-se como um construto de produção simbólico-discursiva.
Na sequência discursiva inserida pelo marcador temporal “Então”, constatamos que o objeto semântico tomado de início como referencial cede lugar para o outro. Mantendo uma
49 O motim das mulheres foi o movimento de união, luta e resistência feminina contra o alistamento de seus
filhos e maridos no exército.
50 Data em que se comemora o evento da abolição em Mossoró.
51 Sobre as práticas discursivas circulantes que auxiliam na construção das várias identidades de Mossoró,
recomendamos a obra do historiador Bruno Costa, “Mossoró não cabe num livro: Luís da Câmara Cascudo, o
historiador da cidade” (2012), que discute, “uma história da invenção do passado de Mossoró pelas mãos do mais influente intelectual do Estado, Luís da Câmara Cascudo” (ALBURQUEQUE JÚNIOR, 2012, p. 16-17).
Outro estudo de caráter historiográfico, que trata dos acontecimentos ocorridos na cidade como: O motim das
mulheres, Lampião em Mossoró, o 30 de setembro, o primeiro voto feminino, entre outros, é o livro “Fatos e
vultos de Mossoró: acontecimentos e personalidades” (2002), escrito por Geraldo Maia do Nascimento e lançado pela Coleção Mossoroense.
relação de sentido, o foco deixa de ser a cidade de Mossoró e passa a ser o cangaceiro, conforme revelam estes trechos do cordel:
Então quero referir-me Ao bandido violento E violador da honra Perverso e sanguinolento Que sem ter necessidade Quiz52 invadir a cidade Sem nosso consentimento Lampião assombrou muito A região do Cariri
[...]
No fim terminou correndo Assombrado com os daqui
O enunciado supracitado traz recursos qualificadores que estabelecem discursivamente um valor depreciativo ao cangaceiro. Desse modo, a identidade de Mossoró vai sendo construída em E3 na interação com o outro. Nessa abordagem, o enunciador reforça a representação da cidade como lugar de resistência a partir da caracterização de Lampião e seu bando. Sem tal interação a identidade socialmente atribuída a Mossoró como “terra da
resistência”, não seria concretizada, uma vez que ela depende do outro (cangaceiro) para
existir.
Nessa perspectiva, compreendemos a representação da figura lampionesca como elo axiológico responsável pela instauração da identidade almejada para a cidade. Afinal:
As trincheiras ocupadas Só com homens de coragem Por exemplo a do prefeito [...]
Nos ficaram na memória Dando a Mossoró a glória E a Lampião a desvantagem
Em E3, assim como em outros enunciados já discutidos, a vitória da cidade é o núcleo discursivo do cordel. Em face disso, os discursos que o atravessam, seja o que se refere à identidade histórica atribuída à cidade, seja o que trata do mito Lampião, são os artifícios utilizados pelo autor para justificar e sustentar a identidade da resistência. Nessa direção, o autor finaliza seus versos com a seguinte avaliação:
Mossoró vitoriosa Merece palma e confete E a data do acontecido Todo ano se repete. Eu não vi mas testemunho Que foi a 13 de junho Do ano de vinte e sete.
O enunciado cordelístico marca uma atitude responsiva do sujeito, ratificando seu engajamento ao dizer da resistência. Ademais, a sentença afirmativa apelativa “Merece palma
e confete”, atribui ao discurso um teor aclamatório.
Outro aspecto sobressalente no enunciado é a marcação intencional da “data do acontecido”, ao longo dos anos: “Todo ano se repete”. O pronome indefinido “todo” atrelado
à sequência enunciativa “ano se repete”, instaura-se no cordel como elemento de atualização discursiva, destinando ao episódio um sentido axiológico atemporal, que no caso do trecho em analise consiste em um ato de comemoração e exaltação do passado glorioso, tornando o objeto discursivizado.
Por fim, considerando a pessoalidade discursiva, uma vez que o autor assume explicitamente sua origem, verificamos que todo o enunciado do cordel estrutura-se em função do fortalecimento da imagem identitária da resistência. A seguir, analisamos os dizeres extraídos de E4.