Durante o período de ditatura militar, com a censura, os jornais paulistanos publicavam crônicas, atualmente reconhecidas como gênero literário, pois extrapolam a efemeridade do jornal para a produção de livros literários. Nessa mesma época, os jornais publicam também artigos assinados que são textos opinativos a respeito de temas distantes do governo militar, tais como, artes e esportes.
Kushnir (2001), afirma, que nessa época, houve uma relação de conveniência entre os jornalistas de formação e atuação. Estes trocaram as redações pela burocracia. Técnicos de Censura e policiais de carreira atuaram como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e censor do pós-1964. A autora analisou e encontrou exemplos na trajetória no grupo Folha da
19 Manhã, que abrange os jornais Folha da Tarde, Folha de S. Paulo, tornando-se instrumento de apoio e propaganda do Estado autoritário.
Nos estudos realizados por Kushnir, constatou-se que havia ex-jornalistas trabalhando tanto para o governo, quanto para o jornal Folha da Tarde como também havia muitos policiais (tiras) que escreviam para o e no jornal. A publicação desse grupo levou-os a serem os legalizadores e legitimadores das torturas, das mortes ocorridas nos porões dos DOI-CODIs de São Paulo. Nas pesquisas de Kushnir, apesar de centrar-se na empresa do Grupo Folha, constatou que, em muitos jornais e veículos de comunicação, também ocorreu a contratação de policiais-jornalistas.
O Jornal do Brasil produziu uma circular de cinco páginas denominada “Instruções para o controle de qualidade e problemas políticos”, criada com o objetivo de “instituir na equipe um (…) Controle de Qualidade (…) sob o ponto de vista político”. A Rede Globo contratou José Leite Ottati, ex-funcionário do Departamento de Polícia Federal, para realizar a censura interna e evitar prejuízos por conta da proibição de telenovelas. Esse esquema foi adotado pela Editora Abril e outros veículos de comunicação.
Para Kushnir (2001), a censura na imprensa não é algo recente ou apenas nos anos de ditadura militar. Ela ocorre com a Real Mesa Censória, na Colônia, e perdura pelos nossos 514 anos. Houve arroubos de liberdade e democracia tanto na República brasileira como na imprensa nacional; todavia, ainda há um departamento de censura “travestido na ideia da moral de bons costumes”, ou seja, carregado da ideologia do poder.
... contar uma verdade a seu favor que não estava em sincronia com o que aconteceu naquele momento. O que a historiografia tem feito, nos últimos 20 anos, e principalmente a historiografia que tem trabalho com a imprensa, é desmontar essa imagem, demonstrando que é uma imagem construída. O que há de se sublinhar nesses 50 anos do golpe é que, como os jornalistas que estavam nas redações nos anos 60 continuam trabalhando, há uma tendência de se autoconstruir uma história para si diferente dos fatos que aconteceram. Ou seja, os grandes jornais continuam fazendo a mesma coisa que faziam durante a ditadura.
20 Como diz Jânio de Freitas, em artigo de 1998, sobre os 30 anos do AI-5, os arquivos, hoje, possuem um manancial maravilhoso. Se você voltar aos arquivos e pesquisar o que aquelas pessoas publicaram àquela época, e o que elas dizem hoje sobre o que publicaram àquela época, há uma sincronia.” (KUSHNIR, B. DITADURA MILITAR: A grande imprensa não afrontou, 2014. São Paulo: Revista Forum Semanal. Entrevista concedida a Anna Beatriz Anjos)
Dessa forma, pode-se verificar que os jornais nacionais tiveram muitas mudanças e influências no seu discurso, ora adotando uma política editorial mais próxima a ideais políticos-partidários, defendendo um posicionamento a favor ou contra o regime político vigente, ora adotaram uma política editorial mais alternativa. Após o fim do regime ditatorial, gradualmente, a imprensa nacional obteve maior liberdade de expressão, o que ocasionou uma maior concentração dos meios de comunicação nas mãos dos pequenos grupos.
Com a abertura política, a redemocratização dos últimos vinte anos fez com que o modelo de mídia, híbrido, desenvolve-se, mesclando entretenimento e informação. Dessa forma, o jornal fortaleceu-se como veículo de comunicação de massa, conquista cada vez mais espaço em diferentes grupos e camadas sociais e passa a produzir materiais simbólicos, responsáveis por influenciar fortemente as massas sociais.
Um exemplo da forte influência exercida pelos meios de comunicação e de sua capacidade de criar uma nova visão do mundo foi a campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, eleito em 1989, com amplo apoio do pequeno e seleto grupo detentores das empresas midiáticas, como também foram eles os responsáveis, anos depois, em provocar, por meio de inúmeras e sucessivas denúncias o processo de impeachment, levando à renúncia do, então, presidente Fernando Collor de Mello.
Como se pode observar, o discurso jornalístico foi se alterando no tempo, devido a acontecimentos políticos e sociais, aliados a interesses comerciais. A redemocratização exigiu um ‘novo’ e diferente “fazer jornalístico”, pois a sociedade ansiava por informações diferentes e inovadoras. Nesse contexto, o
21 grupo Folha empreende uma “revolução gerencial”1, ao iniciar uma nova política editorial e profissional para a redação.
O Projeto Folha estabeleceu regras de conduta e escrita, como também delimitou as bases doutrinárias do grupo e implementou novos métodos de edição associados aos avanços tecnológicos. Assim, gerou um ‘novo’ fazer jornalístico, que foi adotado por grande parte da imprensa nacional.
A Folha estabeleceu padrões que foram combatidos e depois seguidos por concorrentes.
Como toda revolução, criou novas formas de trabalhar adotadas depois por boa parte da imprensa nacional, provocou simpatias e ódios e deixou "feridos", mas fez da Folha o jornal de maior circulação do país. Se a preocupação com apartidarismo e profissionalismo já vinha sendo exposta desde o começo da década de 80, foi em 1984, com a publicação do primeiro Projeto Editorial, que se adotou radicalmente a opção de administrar a Redação como uma empresa industrial moderna.
Era preciso fazer um jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno, dizia o texto de 84, e isso deve ser feito com "intransigência técnica".
Pensado, discutido e publicado quando se esgotava o confronto oposição-situação, com o fim do regime militar, refletia a posição da empresa de que a preocupação com a ideologia política deveria ceder lugar à formulação de uma ideologia jornalística, cristalizada no Projeto Editorial.
Mudanças gráficas como a organização do noticiário em cadernos temáticos, introduzida em 1991
Metas e normas
O que provocou surpresa e às vezes revolta nas mudanças propostas pelo Projeto Folha em 1984 não foram os postulados editoriais, mas o fato de o jornal se assumir abertamente como produto, sujeito portanto às leis de mercado, e a ênfase dada a questões técnicas e procedimentos, como metas, normas e mecanismos de controle.
(COLEÇÃO FOLHA ONLINE 80 ANOS - o projeto em vigor e as versões anteriores podem ser lidos
1 Informações colhidas no grupo Folha, Folha Online, oitenta anos onde detalha o projeto Folha – inicia
jornalismo moderno, analisa seu público, marcos do jornalismo, o choque editorial e etc. disponível em:
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no site http://www.uol.com.br/
fsp/brasil/fc170805.htm, acesso em 13/05/2014) Foi durante a ditadura militar que as empresas-jornais deixaram de publicar os jornais vespertinos ou noturnos, para unificar uma única publicação matutina ocorrendo o implemento dos Cadernos e Suplementos, que tratam de assuntos específicos, devido à forte repressão e controle por parte do governo militar, fez surgir a publicação de artigos, ensaios, críticas literárias e crônicas nos jornais paulistanos, levando a uma hibridização dos gêneros crônicas e artigos.
O que levou a classificação da crônica como o espaço heterogêneo, onde convive o pequeno ensaio, o conto, o poema em prosa, tendo como resultante a sua identidade única no mundo. Essa combinação de gêneros é responsável por dar características primordiais da crônica brasileira, contudo deve-se salientar que nessa mistura de assuntos e gêneros, cria-se um gênero específico.
Já o artigo, para a Comunicação Social, é um texto eminentemente opinativo, publicado em seção destacada do conteúdo noticioso, para demonstrar que trata-se de material não jornalístico. Ao passar dos anos, o artigo foi classificado como um texto produzido por especialistas, intelectuais, autoridades para escrever artigos sobre temas específicos do noticiário; enquanto surgiu uma nova classificação - a coluna-, que se caracteriza por ser um espaço permanente reservado para textos do mesmo autor, apesar de as colunas serem textos opinativos escritos por literatos, músicos, jornalistas, psicólogos, etc., os estudiosos da Comunicação Social afirmam que somente jornalistas são produtores de colunas, classificando como jornalistas todos os colaboradores remunerados pela empresa-jornal.
Atualmente, os jornais paulistanos possuem colunas em todos os seus cadernos e os autores de crônicas, comentários e ensaios todos são articulistas, já que produzem um texto avaliativo sobre algo no mundo, bem como possuem as características de serem um texto assinado; publicado com regularidade; tratam de temas variados; contém uma opinião de forma explicita; liberdade para escrever de forma pessoal, livre.
Os estudos do discurso propiciam caracterizar o discurso jornalístico como discurso de notícia, guiados por duas categorias semânticas
23 Inusitado/Atual, ou seja, notícia é tudo aquilo que é inesperado ou que represente o afastamento da vida cotidiana, do esperado. É a busca em fornecer a comoção, emoção ou surpresa ao público.
Ao Demonstrar o percurso histórico do discurso jornalístico nacional e sobretudo como ele adequou-se ao momento histórico-social que se insere, pode-se identificar que o discurso jornalístico nacional utilizou-se de diferentes estratégias e influências, dependendo do contexto histórico-social para adequar-se à situação histórica da produção do jornal.
Sendo assim, é interessante observar que, com a mudança do público leitor e a mudança social, com o fim da censura, os jornais passam a ser organizados por cadernos cada um destes é lido dependendo do interesse do leitor. Dessa forma, os jornais pesquisados reservam um espaço em cada caderno para a publicação de um texto opinativo, assinado. Os autores publicam em dias determinados da semana, e cada um deles é especializado em determinados temas.
O Projeto Folha possibilitou e promoveu abertura para uma série de textos e gêneros produzidos por especialistas ou como afirma Swales (1990), o texto é categorizado conforme o elemento retórico de maior destaque no processo comunicativo, por isso os gêneros possuem um valor sociocultural, uma vez que atendem a necessidades sociais dos grupos sociais que o produzem.
Os textos opinativos publicados, atualmente, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo apresentam uma indeterminação genérica, uma vez que todos os textos publicados naquele espaço são produzidos por articulistas, já apresentam uma avaliação sobre fatos do mundo e são classificados como colunas. Há necessidade de caracterizar textual- discursivamente os textos publicados no espaço denominado coluna.
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