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CHAPTER 4 - EMPIRICAL FINDINGS AND ANALYSIS OF THE CASE STUDY

4.1 B ACKGROUND

O Programa de pesquisa WAVES - Disponibilidade de Água e Vulnerabilidade dos Ecossistemas e da Sociedade no Nordeste do Brasil (GAISER et al., 2003), de cooperação germânico-brasileira, estuda a inter-relação da variabilidade climática, disponibilidade hídrica, agricultura e migração.

Cenários de integração quantitativa e qualitativa de desenvolvimento e planejamento regional foram desenvolvidos para os estados do Ceará e Piauí, por um grupo multidisciplinar e posteriormente discutidos e refinados durantes três workshops políticos com agências de planejamento do Ceará.

A variabilidade climática é traduzida com a construção de cenários climáticos baseados nos modelos climáticos do GCM - General Circulation Models: ECHAM4 (ROECKNER et al., 1996) e HadCM2 (JOHN et al., 1997), recomendados pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas – IPCC, como adequados para interpretar as mudanças climáticas no Nordeste brasileiro. Ao serem aplicados, os dois modelos resultam em tendências opostas: enquanto um prevê com o aquecimento global, redução de chuvas (ECHAM4), o outro indica discreto aumento na precipitação média (HadCM2).

Modelos hidrológicos, de uso da água, de produção agrícola, agroeconômico e migratório são desenvolvidos, os quais, combinados, formam um modelo integrado denominado SIM (DÖLL e KROL, 2002). O modelo integrado é útil ao planejamento dos recursos hídricos, considerando-se ampla gama de variáveis, além da técnica de cenários de mudança global. A atualização dos dados de entrada permite que o SIM seja utilizado, também, na gestão de secas.

Para a quantificação da disponibilidade de água, é desenvolvido o modelo WASA – Modelo de Disponibilidade Hídrica em Ambientes Semi-Áridos, (GUENTNER et al., 1999) baseado no balanço hídrico de larga escala. Esse modelo é determinístico e trabalha com um intervalo de tempo diário, cuja escala espacial foi definida como manchas de terra com características de escoamento lateral similares. A variabilidade dos fluxos de água, referente à forma da superfície, solo e vegetação é baseada no conceito do Soil and Terrain Digital

Database – SOTER (FAO, 1993). Os processos hidrológicos verticais são representados por conceitos físicos.

A simulação do uso presente e futuro da água é feita pelo Modelo de Uso da Água no Nordeste - NoWUM (DÖLL et. al, 2002), que considera o impacto das mudanças globais e das medidas de gestão. O NoWum computa retiradas (quantidade de água retirada de suas fontes naturais) e uso consuntivo (quantidade consumida pelos sistemas durante o processo). A taxa entre uso consuntivo e retirada é a eficiência no uso da água. São considerados cinco setores usuários: irrigação, pecuária, doméstico, indústria e turismo.

Bronstert et al. (2005), nos estudos elaborados pelo WAVES, realizam análises de sensibilidade, quando da utilização do NoWum (DÖLL et al., 2002) para a verificação da influência de alguns parâmetros na simulação hidrológica: influência da profundidade efetiva do solo sobre a descarga do rio e controle das vazões liberadas em função do volume acumulado, resultando na necessidade de se incluir esses processos em modelos hidrológicos.

Ao ser aplicado nos estados do Ceará e Piauí, o NoWum aponta uma redução exponencial do uso de água em épocas de seca, refletindo a idéia de que os usuários restringem o consumo ao verificar baixos níveis de água nos rios e reservatórios. Outro resultado é o fator de redução do uso de água para irrigação, na estação seca de 1980, que em alguns municípios, chega a 10% do normalmente utilizado.

Em resumo, a metodologia proposta pelo Programa WAVES para avaliar a escassez hídrica em cenários de mudança global consiste basicamente em (ARAÚJO et al, 2004):

• construção de cenários de referência robustos;

• aplicação de modelos de circulação global admitindo-se aquecimento; • redução de escala (downscaling) do resultado das mudanças climáticas;

• aplicação de um modelo hidrológico para avaliação da disponibilidade hídrica; • aplicação de um modelo de uso de água para avaliação da demanda; e

• determinação do índice de estresse hídrico, a fim de se analisar a escassez de água na área em foco.

Döll e Hauschild (2002), analisando os resultados dos cenários desenvolvidos pelo projeto WAVES, concluem que a pressão na escassez de recursos hídricos crescerá significativamente, mesmo se for melhorada a eficiência no uso de água na irrigação. O uso doméstico e industrial crescerá nas regiões com alta imigração, mas a intensidade do uso pode ser controlada por um apropriado sistema de tarifação de água. O método de elaboração de

cenários quantitativos - qualitativos aparenta ser apropriado para se aplicar a estratégias de gestão de água. Uma significante melhoria é possível, se os dados de uso atual forem mais confiáveis e caso se modele o uso relativo à tomada de decisão em pequena escala como, por exemplo, oriunda de comitês de bacias.

De acordo com Araújo et al. (2004), cenários de referência servem de base para se avaliar o impacto de políticas selecionadas ou intervenções no futuro. A robustez de uma política é testada avaliando-se seu impacto em diferentes situações.

Araújo et al. (2004) analisam a escassez hídrica nos 184 municípios do estado do Ceará, estimando o índice de estresse hídrico ig(G) em cenários construídos para diferentes caminhos de desenvolvimento regional e de mudanças climáticas globais, no período de 2001 a 2025. Quatro cenários são montados pela composição de dois cenários de mudança climática, ECHAM4 (ROECKNER et al., 1996) e HadCM2 (JOHN et al., 1997), com dois cenários macroeconômicos.

Os cenários macroeconômicos apontam para duas tendências antagônicas, o primeiro (RSA) para a globalização segundo modelo neoliberal, com o mercado mundial determinando os rumos da economia local. Entre as conseqüências que esse cenário traria para o Ceará destaca-se o crescimento concentrado da região metropolitana de Fortaleza, esvaziamento do campo e ampliação da infra-estrutura turística do litoral. O segundo cenário (RSB) prevê desenvolvimento mais autônomo e sobre paradigmas sócio-ambientais, trazendo como conseqüência crescimento de centros urbanos médios, fortalecimento do campo e demanda hídrica mais distribuída.

O índice de estresse hídrico é calculado pelo balanço entre demanda e oferta de água, de acordo com a equação abaixo:

) ( lg deg ) ( G Q Q arantida loba ida Disponibil iva balconsunt Demandaglo G ig S D = =

(1)

em que:

ig

= índice de estresse global;

G

= oferta de água anual confiável;

Q

D

=

demanda

global consuntiva; e

Q

S

=

disponibilidade global confiável. A demanda global consuntiva é

calculada por:

em que

Q

c

=

uso consuntivo; e

dQ

1 = perdas de água no sistema de demanda, dada por:

dQ

1 = X1 . (Qw -

Q

c

)

(3)

em que Qw = volume de água retirado; e X1 = fator de perda na demanda. A água perdida no

sistema de demanda (dQ1) ocorre na vazão de retorno depois da água retirada e do uso consuntivo. As principais causas são evaporação e infiltração nas fissuras das rochas cristalinas. O fator de perdas difusas X1 é estimado baseado em Rêgo (2001).

A disponibilidade global confiável QS(G) é definida como:

2 ) ( ) ( ) (G Q G Q G dQ Q SW SUB S = + −

(4)

em que

Q

SW (G) = disponibilidade superficial; QSUB (G) = disponibilidade subterrânea; e

dQ

2

=

perdas de água no sistema de oferta.

A disponibilidade global confiável é determinada para cada município. A disponibilidade superficial diz respeito aos reservatórios, visto serem os rios intermitentes, e é determinada pelo método experimental Monte Carlo (CAMPOS, 1999), em termos do volume inicial disponível para uma garantia de 90%. Esses volumes são alocados proporcionalmente à demanda de cada município. Para os anos seguintes, até 2025, assume-se que a taxa entre a disponibilidade do reservatório Q90 e o escoamento superficial anual, Qrunoff é constante (η = Q90/ Qrunoff).

A disponibilidade hídrica subterrânea atual é obtida de Barbosa (2000), que avaliou dados de 14 mil poços em todo o estado. Essa disponibilidade é considerada constante no período de 2001 a 2025. As perdas no sistema de oferta dQ2, que ocorre principalmente nos rios, são calculadas por:

) ( 90

2

2 X Q QSUB

em que

X

2 é o fator de perda, obtido de Rêgo (2001). Substituindo-se as equações (2) a (5)

na equação (1), o índice de estresse hídrico global para uma garantia de 90% é:

) Qsub Q ( ) X 1 ( Qc ) X 1 ( Qw X ig 90 2 1 1 90 + ⋅ − + ⋅ = (6) Um município é considerado com estresse hídrico sempre que ig90 > 0,9.

Os resultados mostram que o cenário de referência, que contempla um rápido desenvolvimento econômico da Região Metropolitana de Fortaleza, é mais vulnerável do que aquele que promove a descentralização e o desenvolvimento rural integrado. Os resultados mostram que esses cenários macroeconômicos influem de modo mais intenso do que o próprio aquecimento global. O cenário RSA-ECHAM4 é o que necessita de maior intervenção, enquanto que o menos crítico é o RSB-HadCM2, devido à melhor distribuição da demanda e ao incremento da precipitação.

A região de baixo potencial de recursos hídricos do Ceará, com 62 municípios, tende a um maior estresse hídrico no cenário RSB, que no RSA, demonstrando a necessidade de maiores investimentos na região. Os 10% dos municípios mais vulneráveis no Estado têm em média 82% de expectativa anual de escassez hídrica até o ano 2025, nos quatro cenários.

Abreu (2003) avalia o impacto da política de ampliação da oferta hídrica planejada pelo governo do estado do Ceará, para o período de 2001 a 2006, no que diz respeito à redução do estresse hídrico nos 184 municípios, no período de 2001 a 2025. Foi tomando como base os dois cenários futuros de mudanças climáticas e os usos da água derivados dos cenários de desenvolvimento regional concebidos pelo Programa WAVES.

Esta política, para região do alto Jaguaribe, consiste na construção de poços profundos, das barragens Arneiroz e Faé, que beneficiam os municípios de Arneiroz, Saboeiro e Quixelô e do eixo de integração Castanhão-Fortaleza, esse último com influência indireta. O incremento da oferta de água subterrânea tomou como base a capacidade de investimento do estado nesse setor.

O modelo Mig90 calcula o ig90 de todos os municípios, antes e após as intervenções, o que resulta na conclusão principal, na qual a política estadual proposta apresenta resultados semelhantes em todos os cenários. Apenas de três a oito municípios (dependendo do cenário) deixam de entrar em estresse hídrico após as intervenções, no período avaliado.

Paiva (2004) propõe medidas de redução da demanda e ampliação de oferta e as compara com os resultados da pesquisa de Abreu (2003), e com os dados iniciais sem nenhuma intervenção, obtidos de Araújo et al. (2004).

As intervenções propostas, também analisadas sob o aspecto econômico são: gestão de demanda hídrica na agricultura, reúso de efluentes tratados, construção de cisternas de placa, construção e reativação de poços profundos, construção de barragens e recuperação do canal do Trabalhador. Os custos das intervenções propostas pelo autor não ultrapassam os custos da política estadual.

A gestão de demanda hídrica na agricultura baseia-se na metodologia proposta por Joca (2001), na qual e propõem mudanças de cultura e de métodos de irrigação. O reúso de efluentes tratados diz respeito à determinação do potencial total de reúso, que equivale à diferença entre o volume de água retirado do manancial e o uso consuntivo. O volume de oferta de água a ser ampliado com a construção das cisternas de placa é obtido multiplicando- se por três o número de cisternas previstas para serem construídas pelo programa Um milhão de Cisternas (175.000) no Ceará, durante os cinco anos de execução do programa. A intervenção, construção de poços tomou como base o trabalho de Abreu, (2003) e é ainda estimado um valor para a recuperação do canal do Trabalhador.

Foi utilizado o modelo Mig90 (ABREU, 2003), aplicado ao cenário climático previsto pelo modelo ECHAM 4 e ao cenário de desenvolvimento regional centralizado.

Os resultados mostram que, “sem intervenção”, 21% dos municípios apresentam estresse hídrico, a intervenção estadual praticamente não altera esse valor e a gestão combinada de oferta e demanda proposta pelo autor reduz esse número para 12%.