• No results found

6.2 Surnadal kommune

6.2.2 Bøfjorden

Os destaques das últimas décadas são para as questões da velhice que ocupam as primeiras posições no rol das discussões científicas e governamentais, mas é no universo sociocultural que são produzidas as representações culturais.

Segundo Moscovici (2003), é no universo sociocultural que estão e são continuamente produzidas as representações sociais. As relações sociais e a forma de comportamento do dia a dia frente a pessoas e objetos são medidas pela percepção e pelas representações sociais que fazemos delas.

Sabemos que o processo de envelhecimento implica uma série de mudanças. Segundo Néri (1995), essas mudanças acontecem em tempos diferentes, não podendo ser generalizadas para todos os indivíduos, pois o envelhecimento é intrínseco. Como o indivíduo trabalhará essas mudanças é que fará a diferença ao pensarmos o envelhecimento de uma ou mais pessoas.

A mesma autora ainda salienta que mais importante que a idade cronológica é a forma como os anos foram vividos, as construções que foram feitas e a maneira como esse idoso se sente e se percebe. Reforça a ideia de que necessitamos saber o que é ser velho e envelhecer.

De acordo com Morais (2007), deve-se pensar em um olhar que supra as demandas desses velhos, para que assim eles possam manter a sua autonomia e usufruir de uma qualidade de vida mais satisfatória.

No entanto,

Envelhecer é mais um aspecto da dialética do mesmo e do outro na tensão entre vida e morte, entre o desejo da permanência e a inexorabilidade da destruição. O signo dessa tensão é a finitude que se reconhece no existir humano, na dialética da facticidade e da transcendência. O fato experimentado do envelhecer nos confronta diretamente com nossos limites. (ZUBEN, in LIBERALESSO, 2001, p. 160).

Velho ou idoso, são palavras que, em nossa cultura, nos remetem ao ciclo final da vida ou à ideia imediata de algo que perdeu o uso, que deve ser descartado. No entanto, a palavra velho quer dizer que a pessoa ganhou idade, tem outro significado, outra conotação.

Ao pesquisar a palavra na língua inglesa, a palavra old significa velho. Para envelhecer usa-se aging, palavra que tem como radical age, que na tradução para o português é idade. Logo, aging significa acrescentar idade.

Com mais de 30 milhões de habitantes acima dos 65 anos, 24,1% do total de sua população, os japoneses utilizam o termo Karei. Este tem como radical Kawaeru, que significa somar, acrescentar, e rei, que significa tempo de vida. No Japão sua população idosa é sinônimo de sabedoria e respeito.

Busse123 reforça a tese de que o envelhecimento é caracterizado pela heterogenicidade e não pela faixa etária:

tem desde pessoas que já não pensam em mais nada, que vêm aqui [...] falam que acabou, mesmo sem estar deprimidas, só esperando a morte [...], até gente que com 80 anos, 86 anos, ainda planejam, buscam novas coisas, querem viajar, querem um(a) novo(a) parceiro(a), um novo negócio. Tem toda essa heterogenicidade.

A heterogenicidade também foi encontrada no grupo de alunos frequentadores da UATU/UPM, grupo que podemos classificar como parte da população que envelhece de forma saudável. Apresentam independência e autonomia, elementos para uma promoção de um envelhecimento bem-sucedido:

Velhice bem-sucedida é assim uma condição individual e grupal de bem- estar físico e social, referenciada aos ideais da sociedade, às condições e aos valores existentes no ambiente em que o individuo envelhece e às circunstâncias de sua historia pessoal e de seu grupo etário. (NÉRI, 1995, p. 34).

Kachar (2003) reforça que a atualização faz parte de uma nova inserção social para esses idosos, pois eles mostram que são capazes de se manter ativos, não aceitando estigmas de que ser idoso é ser resignado e não acompanhar mudanças.

Essas mudanças vieram acompanhadas de novidades e atualizações por parte dos idosos da UATU/UPM. As entrevistadas relatam estarem atualizadas, especialmente nos cursos de informática e línguas, apontando a sua importância, como é o caso da entrevistada M. E.:

...é interessante, eu acho que a informática faz parte da vida de qualquer um dos idosos também, das pessoas que têm netos, pra

123 Vide entrevista anexa.

acompanhar e pra gente mesmo é uma fonte de informação maravilhosa [...] acho isso ótimo, e línguas também eu acho que é muito interessante você saber e é bom pra memória.

Tais aprendizados não só trazem independência como apresentam as potencialidades na velhice. Ajudam os idosos a não se sentirem constrangidos perante os netos ou pessoas mais jovens, como também contribuem para a aproximação com sua família. As aulas, o aprendizado e a convivência em grupo auxiliam tanto o idoso quanto as pessoas que convivem com ele.

Segundo Kristensen (2006), compreender e respeitar esses aspectos relativos ao aprendizado e peculiares à velhice é fundamental para que os idosos possam se sentir à vontade para que este aprendizado ocorra.

A atualização para os idosos faz parte de uma nova inserção social, além de representar um grito de potência para os idosos. De acordo com Kachar (2003), ele mostra que é capaz de manter-se ativo, não aceitando estigmas de que ser idoso é ser resignado e não acompanhar mudanças.

Percebe-se aqui a busca pelo novo, pela atualização ou pelo fato de querer manter-se ativo. Essas necessidades são eternas, não fazem parte somente da vida dos jovens, mas também dos idosos. Diferencial este que os idosos nos apresentam “diariamente” como evidência do seu contínuo desenvolvimento, apresentando níveis compatíveis com o aprendizado dos jovens. Como é o caso dos alunos da UATU/UPM, que questionam o professor sobre os próximos cursos: Que curso o Sr. vai dar o semestre que vem?

Isso após, de acordo com o professor de arte, “me acompanharem há algum tempo e

adquirirem, pela convivência, um bom repertório sobre arte”.

Néri (2003, p.39) nos chama a atenção: "o envelhecimento resguarda o potencial de desenvolvimento, dentro dos limites da plasticidade individual". Ou seja, muitos idosos mantêm sua capacidade intelectual, podendo, inclusive, adquirir novos conhecimentos, os quais fazem com que os professores se atualizem a cada semestre, se reinventem e fiquem “encantados”, como reforçou o mesmo professor da UATU/UPM sobre o estudo de um novo programa, ainda em desenvolvimento no campo das artes, que ele pretende criar:

Um curso que está chamando preliminarmente [...] de “Atelier

procedimentos artísticos, métodos criativos em ações de ensino e aprendizagem sobre a História da Arte.

Desafiador, mas condizente com o nível de alunado que frequenta o curso, como ele mesmo diz:

... um conjunto de alunos formado por pessoas com grandes

referências.

No que tange à psicologia, seus estudos apresentam a busca por uma velhice bem- sucedida: fatores que valorizam a experiência de vida, personalidade, saúde física e mental, autonomia e envolvimento ativo com a vida pessoal, a família, os amigos, o ócio, o tempo livre e as relações interpessoais (NÉRI, 2003), para diminuir o impacto das alterações do corpo, dentre outros aspectos que podem mudar a adaptação dos indivíduos ao ambiente, redução quanto a aspectos motivacionais, levando a alterações psíquicas que exigem tratamento, depressão, hipocondria, somatização, paranoia, suicídios (ZIMERMAN, 2000).

Vieira (2004) ressalta que outras causas podem promover alterações psicológicas e comportamentais: dor, problemas físicos associados a doença, constipação, infecção e prejuízos sensoriais.

No entanto, características positivas também são encontradas em indivíduos idosos, como sabedoria, emoção e capacidade para desenvolvimento contínuo.

Foram esses aspectos que nos levaram a estudar esta geração de velhos dentro da universidade (UATU/UPM), onde, acredita-se, o envolvimento entre amigos, colegas, o encontro diário, as discussões e novas aprendizagens tendem a afastar o mal-estar ou o “prejuízo” que o envelhecimento traz consigo quando não bem-sucedido, conforme Zimerman (2000), para quem o envelhecimento social da população traz uma modificação no status do velho e no relacionamento dele com outras pessoas em função de: crise de identidade, mudanças de papéis, aposentadoria, perdas diversas e diminuição dos contatos sociais.

Sabemos que esse papel da universidade que leva o idoso ao positivismo psicológico ainda não está acessível a todos, bem como não estamos aqui garantindo que a escola é produtora de benefícios e responsável pelo bem-estar da população, mas queremos, sim, apresentar conceitos e reforçar que os encontros, o aprendizado, as novidades, a cultura, a diversão, as interações sociais, dentre outros aspectos, fazem com que o ser humano, bem como o idoso, tenha uma vida saudável, autônoma e feliz. O acolhimento que recebem da

universidade faz com que se sintam cada vez mais úteis e menos discriminados pela sociedade, que não tem a cultura do respeito ao velho.

A escola e a educação continuada cumprem seu papel na inserção do idoso na sociedade, na família, “garantindo-lhes” o bem-estar e a autonomia, mesmo sabendo que esta corre o risco de ser perdida.

Não poderíamos deixar de mencionar o fator econômico para a socialização, aspecto relevante na vida do idoso. Indivíduos com fonte de renda baixa, sem acesso à informação, com baixo grau de escolaridade, possuem dificuldade no acesso aos serviços sociais, assim como ao atendimento médico.

Para Vieira (2004), na falta de subsídios econômicos, o idoso, diante da sociedade que está voltada a interesses diferentes, sente-se uma “pessoa marginal”. Aumenta a dificuldade de inserção grupal, o que o leva a se “fechar” em seus pares ou isolar-se socialmente, evitando conflitos que possam surgir desta diversidade de interesses e hábitos.

A esse respeito, Maciel e Guerra (2007) reforçam a ideia de que aspectos sociais e demográficos são descobertos e avaliados através da zona de domicílio em que vivem, idade, sexo, cor, escolaridade, estado civil, atividade laboral, ocorrência de atividades nas horas livres (interação social) e tamanho da família.

A diferenciação social e a econômica não são fatores “relevantes” e evidenciados na Universidade Aberta do Tempo Útil da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UATU/UPM), porque ela está situada em uma das regiões mais valorizadas da cidade de São Paulo, com grande concentração de riqueza, e seus alunos, na grande maioria, são residentes no próprio bairro. Alunos com larga experiência de vida, aposentados, frequentam a universidade com o intuito de manter-se socializados, com o prazer de interagir entre as mais diversas culturas e socializar-se com pessoas das mais diversas idades, como bem lembrado por uma das alunas entrevistadas quando perguntado sobre o que mudou/melhorou em sua vida após o ingresso na UATU/UPM:

...melhorou [...] agora você está no meio de pessoas. Você vai num banco, passa na praça de alimentação.

Aqui na UATU/UPM, quando você anda pelo Mackenzie, você vê gente que tem ainda um futuro, que vai ter um futuro, que tá pensando num futuro. Essa é a grande diferença.

Você não fica fazendo crochê, não fica em frente à televisão. Você quer aprender.

Aprender, viver em meio a pessoas, independentemente de sua idade, classe social, raça, cor, sexo ou religião, é o que os idosos querem. “A exemplo do que ocorre na adolescência, as relações e o apego são a base necessária de segurança que facilita o desenvolvimento e mantêm a autonomia” (NÉRI, 1995, p. 109).

Observamos que os aspectos biopsicossociais possuem grande influência no processo de envelhecimento, seja em maior ou menor relevância, o que vai influenciar são as alterações desses aspectos ao longo da vida, podendo influenciar na qualidade de vida do idoso.