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6.1 Halsa kommune

6.1.3 Arasvikfjorden

A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda.

Ecléa Bosi

Uma experiência pela qual todos seremos afetados de alguma forma será a do envelhecimento. Este fato deve-se, em especial, à queda de nascimentos e ao aumento da expectativa de vida, fator este influenciado pelas descobertas de novas vacinas, pelo avanço de novos estudos, pelo aumento do saneamento básico, pelos avanços da medicina e das novas tecnologias, que têm levado as pessoas a viver mais e mais saudáveis.

O gráfico 3 mostra a distribuição etária da população brasileira entre os anos de 2000 e 2040, de acordo como os dados do IBGE 2010. Nele podemos observar como será o crescimento do número de pessoas idosas, especialmente o número de mulheres octogenárias.

GRÁFICO 3 – Distribuição etária da população de 2000 a 2040 Fonte: IBGE/2010.

De acordo com Peixoto (1998), no século XIX, na França, o termo “velho” era usado para a população pobre, pessoa decadente; já o termo “idoso” era usado para uma classe social

mais abastada, como se as pessoas mais velhas e com prestígio social não fossem velhas. Para Barros (2003, p. 14), o termo “velho” seria utilizado para pessoas “aparentemente marginais”, enquanto o termo “idoso” passa uma noção de respeito para com as pessoas que já viveram mais de 60 anos, ao passo que a terceira idade – termo criado pelo gerontologista francês Huet, para que os sistemas legislativos instituíssem a aposentadoria, ou seja, um princípio cronológico com data para o sistema legislativo instituir a aposentadoria – remete ao pensamento da idade do lazer ou da aposentadoria ativa. Nesse contexto de aposentadoria, alguns estereótipos também são lançados, como “velhinho aposentado”, termo sugerido por Morin, 1997 (apud FARIA, 2006).

Simões (2003), ao tratar, em sua pesquisa, dos estereótipos da velhice, revela uma mudança na imagem das pessoas de mais idade. O que antes se relacionava à apatia e à caduquice agora dá lugar ao discernimento. O “velho que só pensa em comer, dormir, reclamar e dar palpite” e que era um peso para filhos ou parentes mais jovens, tornou-se, hoje, para muitas famílias, seu provedor.

Os idosos estão refazendo sua vida, repensando o futuro, estudando e concluindo cursos universitários, como muito bem citado por Busse em sua entrevista:

Tem pacientes terminando uma segunda faculdade [...] pacientes com 80 anos, 86 anos, ainda planejando [...] tem pacientes que fazem outras línguas ou que começam a estudar instrumentos.

Os estereótipos, os preconceitos e os pensamentos são dos mais variados: velho, idoso, geronte, gerontino, velhote, ancião, da terceira idade, aposentado... Indivíduos com larga experiência de vida, mas com dificuldades para andar, muitas vezes se tornam desmotivados, sem expectativa de vida, ou até decadentes por conta da aparência ou de patologias adquiridas ao longo do tempo e, por isso, muitas vezes são abandonados por seus familiares e amigos.

Goldmann (2000) afirma que essas terminologias são resultado de uma sociedade regida pelo capitalismo, na qual as pessoas tendem a ser transformadas em mercadorias descartáveis, como é o caso da terceira idade.

A palavra velhice é carregada de preconceitos, se a traduzimos pela imagem que evoca: a de um ser demente, sem serventia, doente, aposentado ou enfermo no leito de morte. A imagem da velhice varia de cultura para cultura, de ambiente, vivência e até da história de vida da pessoa, como se pode observar pelas figuras 24 e 25:

Figura 24 – Atriz Bibi Ferreira77 Figura 25 - Oscar Niemeyer, arquiteto, aos 104 anos

Fonte: <http://www.sempretops.com/famosos/bibi-ferreira/ Fonte: <http://odia.ig.com.br/portal/rio/estou-doido- Acesso em 15out2012 para-ir-para-casa-e-trabalhar-diz-oscar-niemeyer-

1.439008>. Acesso em 15out2012

O que queremos mostrar aqui é que a velhice nos acompanha ao longo da vida, O único78 limite é a nossa incapacidade física, segundo Minois (1999), um historiador interessado nas questões do envelhecimento populacional. Sua obra A história da velhice no

ocidente traz questões sobre o envelhecimento populacional, o papel dos velhos na sociedade

medieval e no Renascimento, quando os velhos eram minoria, e derruba a tese de Delumeaus79, para quem,

[..] os velhos da idade Média eram quantitativamente minoritários e não poderiam representar um papel importante na sociedade medieval. Ora, independentemente do caso inacreditável de Aliênor de Aquitânia, cuja carreira pessoal começa aos 69 anos, conta-se inúmeros papas nos séculos XI-XIII [ ...] que eram homens idosos.

Minois ainda relata que, na Idade Média, o velho desempenhava seu papel enquanto podia manejar o hissope, a espada, o arado ou o livro de contas.

Na Grécia antiga, Sócrates temia ser velho e pagar o tributo que vinha com a velhice, como a cegueira, a surdez e a falta de memória. Aristóteles tinha os anciões como pessimistas, inconstantes, temerosos, melancólicos e egoístas, e resumiu suas concepções em seu Tratado

Sobre Retórica, onde vê a decadência do corpo.

77Aos 90 anos, a atriz, compositora e cantora tem uma carreira linda e de sucesso. 78Grifos meus.

Nas palavras de Minois80, é a partir do “Século XIV que o peso dos velhos na sociedade aumenta e tem como consequência o recrudescer da crítica contra os velhos, e os jovens voltam a estar na moda”. (Não é o caso do Japão, onde os velhos são tratados com respeito e atenção pela vasta experiência acumulada nos anos de vida, onde são sinônimo de respeito e sabedoria.)

Sobre a preocupação com os velhos e a exaltação dos jovens, Néri (2012, p. 105) reforça a tese de que os velhos “constituem desafios a todas as sociedades humanas (...), sobretudo no mundo moderno, cuja dimensão social encontra-se centrada na juventude”.

Como se pode observar, a velhice é um fenômeno multifacetado, encontra-se dificuldade em estabelecer um marco cronológico para o seu início. Néri (1995) relata que demarcar uma idade para a velhice é controverso, pois as discussões são controversas e poderemos demarcar a cronologia indiscriminadamente. Como exemplo, podemos citar a antiga China, onde o filósofo Confúcio (que viveu entre os anos 551–479 a.C) já apregoava que as famílias deveriam obedecer e respeitar os indivíduos mais idosos.

Busse também reforça essa ideia controversa e ressalta que “alguma idade tem que ter um corte [...] a lei do envelhecimento existe, ao mesmo tempo que o desenvolvimento”, ou seja, o idoso é uma invenção social das ideologias dominantes, dos valores e das culturas.

Para Giora81, demarcar a velhice imaginando um único “indicador cronológico”, isso sim seria fator “para excluir as pessoas”, porque cada idade tem suas necessidades diferentes.

De acordo com Baltes & Baltes (1990), o envelhecimento é um processo multidimensional. Já para Peixoto (1998, p. 76), hoje “o antigo retrato preto e branco de uma velhice decadente toma o colorido de uma velhice associada à arte de bem viver”.

Não podemos deixar de salientar que este marco ou demarcação de vida de um idoso/um não-idoso, mesmo suscitando objeções do ponto de vista científico, biológico, social, histórico e/ou literário, é importante para os formuladores de políticas públicas.

Nas palavras de Beauvoir, a velhice

é um fenômeno biológico: o organismo do homem idoso apresenta certas singularidades. Acarreta consequências psicológicas: determinadas condutas, com justa razão, são consideradas típicas da idade avançada. Tem uma dimensão existencial como todas as situações humanas: modifica a relação do homem no tempo e, portanto, seu relacionamento com o mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem nunca vive em estado natural: seu estatuto lhe é imposto tanto na velhice como

80 Disponível em: <http://portaldoenvelhecimento.org.br/noticias/publicacoes/historia-da-velhice-no-ocidente.html>. Acesso em 11ago2012.

em todas as idades, pela sociedade a que pertence. A complexidade da questão é devida à estreita interdependência desses pontos de vista (BEAUVOIR, 1976, p.13).

E ainda:

... a sociedade determina o lugar e o papel do velho, levando em conta suas idiossincrasias individuais: sua impotência, sua experiência; reciprocamente, o indivíduo é condicionado pela atitude prática e ideológica da sociedade a seu respeito. De modo que, uma descrição analítica dos diversos aspectos da velhice não pode ser suficiente: cada um deles reage sobre todos os outros e é por eles afetado (IBIDEM, p.13- 14).

Mesmo sendo “apenas” um fenômeno biológico, devemos levar em conta que os indivíduos do mundo todo devem envelhecer com dignidade, segurança, humanidade, respeito, assistência à saúde digna, disponível e acessível a todos, para que todos desfrutem da vida com qualidade, prazer e alegria. Para que isto ocorra, as políticas públicas devem tomar consciência e lançar estratégias urgentes, planos e leis que sejam cumpridas, pois o envelhecimento não começa aos 60 anos. Os jovens de hoje serão os velhos do amanhã, cabendo a eles as mudanças que deverão ser parte do presente do velho, e essas ações devem estar fundamentadas em uma visão de longo prazo, juntamente com compromissos políticos e orçamentos assegurados.