2 TEORETISK GRUNNLAG .1 Regelverk
2.5 Bæresystem .1 Generelt
Uns dizem, a terra morre quente, Uns outros, fria.
Pelo desejo a arder na gente Fico com os que preferem quente. Mas se repete-se a agonia,
Eu sei do ódio o suficiente Para asseverar que a morte fria É excelente
E bastaria.
Este foi talvez o poema em que mais evidentes ficaram as minhas decisões de explicitar, na tradução, nuances somente sugeridas no original. As imagens que este poema traz são belíssimas, intensas, terríveis e familiares, ao mesmo tempo. Os extremos do gelo e do fogo, sua menção no poema, são um recurso riquíssimo para pintar uma imagem do apocalipse futuro, numa relação com seu gérmen incubado nas comparativamente pequenas ações humanas motivadas pelos sentimentos que se aparentam ao calor do fogo ou ao frio do gelo. Há traduções para este poema em português que mantêm os vocábulos “fogo” e “gelo”, mas não encontrei uma maneira de fazer com que o poema funcionasse tão fluidamente quanto original se os mantivesse no texto, o que não causa prejuízo, visto que eles já figuram no título e o poema traduzido caminha melhor sem eles. Explicitando o quente do fogo e o frio do gelo, e substituindo estes por aqueles nos versos, consegui um poema dinâmico, que
mantém a ardência do desejo e a frialdade do ódio e trata o tema da destruição apocalíptica opondo a ela a leveza e o humor do poema original. Também a escansão dos versos do original foi mantida, de modo que o poema lê-se em português com as mesmas velocidade, cadência e simplicidade do poema em inglês. O que resulta é que temos um poema que desabrocha numa poética própria, relendo os elementos do original, recriando-os no âmbito de sua dinâmica interna, reconstruindo um esquema rímico seu, que adere quase à perfeição àquele do texto de partida (somente a variação que encontramos nos versos seis e oito de Fire
and Ice não é reproduzida em Fogo e Gelo) e redizendo, enfim, numa nova manifestação de
significância, o poema de Frost.
Robert Frost foi um autor de muitas opiniões, algumas delas aparentemente contraditórias entre si, de modo que nem sempre parece prudente levar ao pé da letra o que ele escreveu ou falou a respeito de poesia. Se ele chegou a dizer que a poesia era o que se perdia na tradução, também a definiu como “meramente mais uma arte de ter alguma coisa a dizer, lúcida ou não lúcida”44 (FROST, 1968: p. 18). Se considerei a sua opinião sobre a
intradutibilidade da poesia, foi porque havia a necessidade de lidar com o assunto, de me posicionar frontalmente à objeção de um nome de peso da poesia estadunidense, autor da obra que me dispus a traduzir, da mesma forma como ele havia se oposto àqueles que não lhe deram crédito, nos anos que antecederam a sua revelação como poeta de prestígio nacional e internacional. Assim como o eu-lírico de Bravado, me arrisquei a trilhar o caminho da tradução sem olhar para o alto, para a estrela de Robert Frost, que ameaçava fulminar meu intento com o peso do seu estrelato:
BRAVADO
Have I not walked without an upward look Of caution under stars that very well
Might not have missed me when they shot and fell ? It was a risk I had to take – and took.
BRAVATA
Não fui eu quem, sem afligir-me, andei, Sob as estrelas que, possivelmente, Iriam me acertar, quando cadentes? Pois era um risco a assumir – e ousei.
Mas creio que haja mais a acrescentar a essa discussão, algo diferente do elencar de argumentos a favor ou contra. Em certo momento do Poétique du traduire, Meschonnic fala sobre o desejo de traduzir e retraduzir – sem que esse seja confundido com o “impulso à tradução” comentado por Berman (cf. BERMAN, 2012) – emitindo a seguinte opinião:
E as traduções a fazer, mais, talvez, do que aquelas que estão feitas, são um modo invisível de atividade dos textos, porque o desejo de traduzir – de retraduzir – é um efeito da passagem de sujeito a sujeito pela poética de um texto, contra sua degradação nas traduções.45 (MESCHONNIC, 1999: p. 178).
Mesmo não tendo falado sobre tradução com qualquer profundidade além da declaração dada sobre a intradutibilidade da poesia, Frost escreve uma passagem que me parece reveladora, na já mencionada introdução que redigiu para o King Jasper, de Robinson. Em um certo momento do texto ele diz:
Foi dito que reconhecimento em arte é tudo. Melhor dizer que correspondência é tudo. Mente deve convencer mente de que ela pode desenrolar e ondular os mesmos filamentos de sutileza, alma convencer alma de que ela pode emitir os mesmos lampejos de eternidade. Em nenhum ponto alguém, exceto um tolo bruto, iria querer romper essa correspondência.46 (FROST, 1968: p. 61)
E o que seria a tradução literária e a poética do traduzir senão essa busca pelo convencimento de que a obra de arte foi suficiente para despertar lampejos de empatia, ainda que unilaterais, por sobre um hiato de tempo e de culturas que separam duas sensibilidades humanas, às vezes por séculos? Certamente é uma operação que busca incessantemente a melhor forma possível de correspondência entre duas instâncias do fazer literário. Mesmo o maior opositor da tradução não pode negar que a iniciativa de um tradutor em participar da atividade literária tem bastante em comum com a inspiração de um escritor ao produzir sua obra, no mesmo espírito de Willis Barnstone, tradutor de Borges, que diz que o texto original fornece a musa ao tradutor, o qual escreverá, na sequência, um outro poema, imbuído dessa inspiração conseguida com a leitura (cf. BARNSTONE, 1984). Não tenho a intenção, contudo, de salvar nenhum poema neste trabalho de qualquer suposta “degradação” em traduções anteriores. Basta-me a responsabilidade de demonstrar a correspondência necessária com os textos originais nas minhas próprias.
45 No original: “Et les traductions à faire, plus peut-être que celles qui sont faites, sont un mode invisible d'activité des textes, parce que le désir de traduire – de retraduire – est un effet du passage de sujet à sujet par la poétique d'un texte contre sa dégradation dans les traductions.”
46 No original: “It has been said that recognition in art is all. Better say correspondence is all. Mind must convince mind that it can uncurl and wave the same filaments of subtlety, soul convince soul that it can give off the same shimmers of eternity. At no point would anyone but a brute fool want to break off this correspondence.”