4 Sammenfatning og sammenligning
4.4 Avstanden mellom disiplinene
O paradigma evolucionista esclarece que o processo de selecção natural conduz a ajustamentos destinados a resolver problemas adaptativos enfrentados por uma determinada espécie durante a sua história evolutiva. Por conseguinte, concede mais oportunidades de sobrevivência e de reprodução àqueles cujas características variam de forma a obterem mais benefícios do que custos.
Tal como a maioria dos seres sociais e particularmente os mamíferos, os seres humanos foram tendo, ao longo do seu percurso histórico-evolutivo, importantes problemas a resolver. Entre os desafios adaptativos, destacam-se os de auto-protecção (de predadores de outras espécies e rivais da mesma espécie), evitamento de doenças (incluindo a transmissão de patógenos), atracção e escolha de parceiros(as), investimento parental, gestão de recursos, mas também de socialização, cooperação e estatuto (Neuberg, Kenrick & Schaller, 2010). Assim, a evolução das trocas sociais e do estabelecimento de alianças envolvem, desde sempre, uma série complexa de estratégias de socialização e padrões de interacção, tal como um conjunto de sistemas psicológicos activados por desafios adaptativos específicos. Aí se inclui o processo de estigmatização, nomeadamente, no que diz respeito às preferências e valores partilhados pelos membros do grupo em relação a outros membros do seu próprio grupo e a outros grupos.
Segundo Buss (2006), viver em grupos representa a pedra angular da existência humana. A natureza distintivamente ultrasocial (Campbell, 1983 cit in Buss, 2006) e dependente da espécie humana levam a que estabelecer e manter contactos sociais positivos se assuma como um aspecto essencial para a saúde física e mental. Daí as inúmeras oportunidades e vantagens adaptativas da vida em grupo (e.g. altruísmo recíproco, Trivers, 1971; contrato social, Cosmides & Tooby, 2005). Contudo, os humanos, à semelhança de determinadas espécies, inclinam-se a rejeitar membros de sua própria espécie (Kurzban & Leary, 2001). Esta tendência parece resultar de mecanismos psicológicos evoluídos que emergem do processo de selecção natural e de adaptação, cumprindo essencialmente três funções6: de cooperação diádica, exploração coligacional e prevenção ou evitamento de parasitas.
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De acordo com a perspectiva evolutiva, função é definida em termos de potencialização do sucesso reprodutivo (Kurzban & Leary, 2001, p. 188).
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A cooperação diádica (dyadic cooperation) traduz-se no evitamento de interacções com parceiros que impõem mais custos do que benefícios ao nível das trocas sociais: ou porque demonstram ter pouco a oferecer em termos de ganhos sociais; ou porque não cumprem os requisitos enquanto parceiros potencialmente valiosos. Nestes incluem-se, por exemplo, aqueles que violam as regras sociais, indivíduos que aceitam o benefício mas não retribuem, sendo por isso tido como impostores (Cosmides & Tooby, 2005). Ou seja, os indivíduos demonstram ter preferência por determinado tipo de pessoas em detrimento de outras, o que parece estar na base da discriminação (Kurzban & Neuberg, 2005).
No que diz respeito à exploração coligacional (coalitional exploitation), esta refere-se à tendência para explorar indivíduos excluídos e parece destinar-se a manter a integridade do grupo.
Por sua vez, a prevenção ou evitamento de parasitas (parasite avoidance)7 parece ter como objectivo primordial o furtar-se a contactos prolongados com aqueles que possam ser portadores de agentes patogénicos, aumentando a probabilidade de transmissão de doenças. Esta função assume particular relevância no processo de estigmatização e exclusão social. À semelhança de outros primatas não humanos nos quais são descritas respostas de rejeição social face a indicadores de doença em animais da sua espécie (Goodall, 1986), “parece que as pessoas que são vulneráveis à
estigmatização carregam o potencial para contaminar objectos e outras pessoas”
(Oaten, Stevenson & Case, 2011, p. 3444). De facto, a detecção de sinais visíveis ou frequentemente associados a doenças (e.g. lesões faciais, febre, tosse, corrimento nasal, espasmos musculares, alterações comportamentais) parecem activar mecanismos psicológicos (Park, Faulkner & Schaller, 2003; Faulkner, Park, Schaller & Duncan, 2004) que funcionam como um sistema de evitamento de doença (Oaten et al. 2011). O evitamento não se restringe, pois, a doenças infecto-contagiosas dado que parecem existir pistas, de carácter mais específico, associadas a outras doenças. Por exemplo, determinadas doenças mentais podem estar associada a sinais de contaminação física, (e.g. as pessoas com doenças mentais, têm sido, muitas vezes descritas como “desleixadas” ao nível da sua higiene pessoal, Stier & Hinshaw, 2007). Ainda, o receio de contaminação genética pode também constituir um potencial instrumento de
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Para além do termo Parasite Avoidance usado por Kurzban & Leary, outros autores recorrem a um termo mais amplo – Evitamento de doença (Disease Avoidance).
estigmatização, pela redução do desejo de estabelecer contactos sociais com aqueles que estão visivelmente afectados por uma doença que poderá trazer comprometimentos ao nível hereditário. Desde logo, alguns sintomas e sinais característicos de determinadas doenças mentais crónicas (e.g. ideias delirantes, alucinações, discurso desorganizado, embotamento afectivo, disfunção social/ocupacional nas perturbações esquizofrénicas; diminuição de energia, do interesse e/ou do prazer, humor depressivo, na depressão major, DSM-IV, American Psychiatric Association – APA, 1994) e/ou possíveis efeitos secundários da medicação (e.g. tremores, movimentos involuntários, rigidez dos membros e da face com perda de expressividade, apatia, potenciados pela toma de antipsicóticos).
Prever o comportamento dos outros contribui para que possamos inferir acerca das suas intenções e comportamentos futuros. Daí, por exemplo, o facto de um comportamento inesperado poder concorrer para o desejo de diminuição de contactos sociais (Kurzban & Leary, 2001). Estes e outros comportamentos podem conduzir a generalizações sobre as pessoas, sendo elas próprias, avaliadas como instáveis e/ou desviantes, situação que parece contribuir para que possam ser consideradas “imprevisíveis, perigosas e indignas de confiança” (Mehta & Farina, 1997, p. 405).
A constatação de que podemos encontrar ao longo da história evolutiva várias formas e mecanismos de estigmatização não devem motivar a aceitação desta realidade sob a justificação de um qualquer tipo de pretexto biológico. Isto é, o facto de certas formas de estigmatização serem identificadas como tendo cumprido uma função adaptativa em termos dos ambientes sociais e físicos do passado evolutivo, não significa que sejam adaptativas hoje. Muito menos as torna aceitáveis ou moralmente
justificáveis (Neuberg et al., 2000). Esta noção contribui, em larga medida, para
compreender a enorme tarefa que constitui desafiar o estigma social, complementando e ampliando a visão de Goffman (1963, p. 163-164) de que “o estigma envolve não tanto
um conjunto de indivíduos concretos que podem ser separados em duas pilhas, a de estigmatizados e a de normais, quanto um processo social de dois papéis no qual cada indivíduo participa de ambos, pelo menos em algumas ligações e em algumas fases da vida. O normal e o estigmatizado não são pessoas, mas sim perspectivas”.
Apesar de reconhecido como uma tendência humana, ao longo das últimas décadas, diferentes perspectivas foram surgindo, com ênfase em pressupostos distintos que importa explorar: a de que o estigma ocorre em muitas das interacções e relações
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sociais (Kahng & Mowbray, 2005) e em particular, em ocasiões em que certos indivíduos e grupos são excluídos de uma plena aceitação social (Mcdaid, 2008).