pode destacar os mínimos sinais de competência presentes no cliente.
Na realização dessa pesquisa, todas as cartas foram analisadas. Entretanto, a análise inicial das cartas mostrou que havia um padrão organizador das mesmas, o que me convidou a escolher uma das cartas (Apêndice B) para ser investigada de forma aprofundada em relação aos seus princípios e procedimentos. Essa escolha de análise em profundidade de uma única carta permitiu também considerar a seqüencialidade narrativa da carta, o que favoreceu a visualização do processo de sua escrita.
A escolha dessa carta em específico deveu-se à riqueza dos princípios e procedimentos nela presentes, permitindo que fosse realizada uma análise que contemplasse a reflexão sobre grande parte dos aspectos considerados pela proposta utilizada nesse trabalho. Ao finalizar a investigação da carta eleita, outros parágrafos foram escolhidos em cartas diversas, para que todos os procedimentos fossem analisados. Novamente, busquei escolher parágrafos que dessem uma maior visibilidade ao princípio e procedimento estudado.
A análise realizada permite visualizar as intervenções da terapeuta ao mesmo tempo em que acessa o processo do grupo e de seus participantes. O significado não está nas palavras ou nas ações, mas entre as pessoas, sendo entendido como local, situado e construído através dos processos sociais que formam o que entendemos por realidade. Nesse âmbito, a carta cumpre a função de auxiliar os membros do grupo na internalização de sua re-autoria (Chen et al., 1998; White e Epston, 1990), construindo e editando junto ao terapeuta histórias preferíveis na construção das verdades que guiarão suas vidas. O cuidado com o grupo é exercido na conexão entre as falas, fortalecendo o senso de grupalidade. A partir desse panorama de idéias apresentarei, na seqüência, um resumo de como essa sessão, que antecedeu a redação da carta, ocorreu. O objetivo da apresentação é dar visibilidade ao
contexto ao qual a carta se refere. A transcrição dessa sessão poderá ser lida na íntegra (Apêndice C).
Logo no início da sessão, Antonio aponta que o último encontro foi importante, pois ele percebeu que as pessoas não ficaram “contando” histórias, mas expressaram seus sentimentos, assim como ele. Concluiu ainda que os problemas enfrentados podiam ser simples, mas acabavam super-valorizados por todos. Os demais participantes do grupo, a partir dessas narrativas trazidas por Antonio, conectaram histórias de suas próprias vidas, contando como eles, ou alguém de sua família, superaram situações de mudança. Ocorreram ainda conversas relativas a encontros passados, bem como fizeram referência às cobranças que percebiam existirem em relação a si próprios.
A partir de uma metáfora utilizada na sessão anterior, os participantes iniciam um diálogo a respeito de quais “baldes” poderiam ser chutados em suas vidas. Os participantes elegem para Antonio o ‘balde do medo’ e, apesar da conversa continuar voltada para as questões dele, as pessoas começam a falar dos medos que elas enfrentaram e sobre os quais tiveram sucesso. É uma conversa que aponta os recursos e competências desse grupo. Lucas, geralmente mais reservado, também relatou suas histórias de superação e mudanças. Elisa se mostrou ansiosa e com pressa de ir embora, mas relatou suas questões e comparou seu jeito de ser com o de Antônio, ao planejar demais. Ela ainda faz um movimento de contar como foi ajudada pelas pessoas do grupo, mesmo não tendo participado ativamente da conversação. Nesse momento, o nome de algumas pessoas é citado, e ela ressalta as histórias de enfrentamento de cada um. O movimento que o grupo faz é para acolher Elisa, ouvir suas questões e apoiá-la.
O tom que essa sessão foi adquirindo era de acolhimento e cuidado, o que gerou na terapeuta várias questões referentes às histórias de cada um, que podem ser visualizadas na escrita da carta analisada.
7. Resultados
Therefore what we regard as ‘truth’ (which of course varies historically and cross- culturally), i.e. our current accepted ways of understanding the world, is a product not of objective observation of the world, but of the social processes and interactions in which people are constantly engaged with each other (Burr, 1995, p.4).
Meu foco de análise, como apresentado anteriormente, encontra-se no processo de escrita da carta, a partir dos princípios utilizados para sua construção, bem como nos efeitos que eles produzem em determinado contextos.
Tendo esse ponto de investigação como norteador, vale ressaltar que na pesquisa construcionista os resultados são versões possíveis de uma história, contadas e desenvolvidas por um (a) pesquisador (a), a partir de um determinado contexto histórico, social e cultural. Meu intuito foi desenvolver uma análise que provocasse reflexões e questionamentos, a fim de facilitar a promoção de novos entendimentos e inteligibilidades no campo das cartas terapêuticas. A carta apresentada e analisada neste trabalho se encontra fragmentada em parágrafos, a fim de proporcionar maior visibilidade aos trechos analisados. Porém, a versão seqüenciada, conforme entregue na sessão, poderá ser vista no Apêndice B. Os princípios e procedimentos de linguagem, conforme descritos por Chen et al. (1998), foram meu foco de análise e, por isso, os parágrafos estão assim nomeados.
Chen et al. (1998) primaram pela investigação da linguagem, e em como ela é utilizada para a construção de determinados efeitos nas cartas. Sendo assim, as autoras não voltaram sua atenção para a estrutura das cartas, tendo restringindo-se ao seu processo. Entretanto, por ter buscado aliar processo e procedimento, nomeei o parágrafo inicial e o parágrafo final com uma função que está além das apresentadas pelas autoras.
7.1. Fortalecendo a grupalidade: parágrafo inicial.