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A segunda etapa do trabalho empírico foi desenvolvida em uma cidade que conta com uma população de 32.980 mil habitantes no ano de 2015, segundo o IBGE e é uma sendo de pequeno porte, isto é, com população igual ou menor que 99 mil habitantes. Situada, também, na região central do estado de São Paulo, foi fundada no ano de 1844, no período de expansão da cafeicultura. Teve grande destaque com a produção de frangos para abate. A partir do ano de 2015 passou a aumentar oportunidades de postos de trabalho com a produção ligada à área de fabricação de ração animal e com o aproveitamento dos resíduos dos frangos. Também há grande produção de cana-de-açúcar e do agronegócio em geral. A cidade conta com duas universidades privadas, possui, pelo menos três polos de Educação à Distância em nível de graduação e especialização. O município possui o IDH de 0.760 (IBGE, 2010), que é considerado alto (IDH-MUNICIPAL, 2013), se pensado no contexto da média nacional que, como dissemos acima, no ano de 2015 era de 0.776.

Conforme os dados obtidos no Plano de Gestão 2011-2014, a Escola Heráclito está localizada na região central do município, e atende a uma clientela composto por habitantes dos diferentes bairros da região urbana, e também das fazendas e sítios dedicados à pequena produção rural. É preciso

destacar que, ao tempo deste Plano de Gestão de onde obtivemos os dados sobre a instituição, era a única escola pública que oferecia Ensino Médio.

Segundo os dados do Plano de Gestão, atende a uma população de 1.328 estudantes. A equipe é composta por um diretor; um vice-diretor, dois coordenadores pedagógicos (Ensino Fundamental e Médio), um professor do Projeto Sala de Leitura; 55 professores efetivos; 3 professores Categoria F com estabilidade; duas secretarias e 14 agentes de organização escolar. Possui 15 salas de aulas, uma sala de informática com 12 computadores novos e conta com uma excelente biblioteca.

Muito embora a Escola Heráclito esteja localizada em uma cidade de pequeno porte, enfrenta problemas semelhantes aos centros de médio e grande porte, no que diz respeito à violência urbana. Em especial no que diz respeito à utilização de drogas lícitas e ilícitas. Segundo mencionaram educandos e educadores, um considerável número de estudantes consome regularmente maconha e cocaína principalmente, e alguns destes jovens inclusive trabalham no tráfico. Mencionamos essa informação repetida por eles, sem gravar os identificar ninguém de forma específica, a pedido deles, e apenas referimos a questão para situar a problemática de conflitos e conflitualidades sociais e que se refletem na escola.

A taxa de evasão aponta que no Ensino Fundamental, de 242 estudantes houve 13 evasões. Na 1ª série do Ensino Médio, de um total de 436 estudantes 11 se evadiram; na 2ª série, de uma população de 286, 13 estudantes se evadiram e; na 3ª séria, de um total de 259 houve três casos de evasão. No Ensino Médio Regular, portanto, de 981 estudantes, a escola teve uma taxa de evasão de 27 estudantes. Em relação à EJA, no primeiro semestre de 2010, de 99 matriculados nos 3 termos (1º, 2º e 3º) ocorreram 48 evasões, e no segundo semestre, também nos 3 termos, foram 30 o número de estudantes que se evadiram.

A Escola Heráclito conta com a atuação de um Conselho Escolar composto por 49 pessoas entre titulares e suplentes, sendo 2 especialistas em educação, 18 docentes, 12 pais ou responsáveis por alunos, 12 alunos e 4 funcionários a escola; com uma APM composta por 23 membros e também um Grêmio Estudantil com 13 estudantes. E é um Conselho Escolar com razoável atuação, dadas as relações entre as pessoas que o compõem.

Para analisar os dados coletados criamos um sistema de identificação, que permitiu identificar e manter sigilo sobre a identidade de todos os participantes, conforme apresentamos a seguir: estudantes: GRUPO FOCAL A – (alunos da Escola Parmênides): GF A – A (estudantes), 1 (número que estipulamos para cada estudante) e GRUPO FOCAL B – (alunos da Escola Heráclito); GF B – A (estudantes), 1 (número que estipulamos para cada estudante). Educadores (docentes e gestores): GRUPO FOCAL 1 – (professores e gestores da Escola Parmênides): GF 1 - E (educadores), 1 (número que estipulamos para cada educador); GRUPO FOCAL 2 – (professores e gestores da Escola Heráclito): GF 2 – E (educadores) 1 (número que estipulamos para cada educador).

Antes de passarmos a apresentação das categorias de análise que emergiram dos dados coletados, é importante destacarmos o motivo de fazermos a apresentação das cidades e das respectivas escolas públicas em que realizamos nosso trabalho investigativo.

Primeiramente, quanto se trata de investigação qualitativa, é fundamental recordar o que é afirmado por Bogdan e Biklen (1994), referenciando-se nos estudos de Guba (1978) e Wolf (1978), que a investigação qualitativa na área da educação recebe o nome de naturalista, pois o investigador coleta os dados de sua pesquisa no ambiente natural em que os fenômenos investigados ocorrem. Nesse sentido, a cidade e o bairro, com seus problemas e demandas singulares, estão refletidos na escola, o que faz com que as falas e opiniões dos educadores e dos educandos sejam afetados. Além disso, outro aspecto teórico importante, é que para esta investigação e sua análise, nossa reflexão é a influenciada pelo interacionismo simbólico de Mead (1972) e Blummer (1986), que constitui parte significativa da teoria do reconhecimento social de Honneth (2003), também muito importante em nossas análises, e que aponta para o fato de que a sociedade, e as suas instituições, antecede os sujeitos singulares e, portanto, afetam seu desenvolvimento e percepção sobre o mundo em geral, mas, sobretudo, das questões e demandas de suas cidades, bairros e entorno escolar. Nesse sentido, problemas como possibilidades de avanço nos estudos; obtenção de postos de trabalho; reconhecimento social; etc. afetam a percepção dos participantes desta investigação.

Estas conexões acima mencionadas estão evidenciadas em nossas análises como se verá mais adiante.

Os dados levantados foram analisados por meio de algumas categorias análise. Cabe ressaltar que o desenvolvimento das categorias de análise, por ser um processo de grande complexidade em função dos inúmeros fatores envolvidos na investigação, deu-se por meio do diálogo entre nossos referenciais teóricos e os dados que foram coletados durante o desenvolvimento dos grupos focais e as reuniões de avaliação das atividades com a equipe de trabalho. Pois, sem essa necessária organização e harmonização entre teorias e dados, a investigação ficaria enormemente empobrecida nas análises, na medida em que, construir categorias de análise somente a partir das teorias estudadas seria um equívoco, pois elas não contemplariam a riqueza de detalhes e pormenores que se originaram dos dados e do processo de coleta deles. É no diálogo entre teoria e dados que as análises e interpretações desenvolvidas na etapa analítica são enriquecidas e se constituem como conhecimento científico. Assim, insistimos que as categorias de análise não são construções a priori, elaboradas apenas com a teoria ou as teorias escolhidas pelos investigadores, mas, antes, são necessariamente a posteriore, isto é, como resultantes necessariamente do diálogo estabelecido entre os pressupostos das teorias escolhidas e dos dados obtidos ao longo do processo investigativo.

Desta forma, apresentamos a seguir as categorias de análise que abstraímos da relação entre as teorias que escolhemos e os dados que coletamos no desenvolvimento do trabalho empírico.

SEÇÃO IV

A PERCEPÇÃO DE EDUCADORES E EDUCANDOS SOBRE OS CONFLITOS E AS VIOLÊNCIAS DA ESCOLA: UMA ANÁLISE DA REALIDADE

Na seção 4 apresentamos as análises, de acordo com os objetivos desta investigação – compreender os conflitos e as conflitualidades ou violências na perspectiva das teorias do reconhecimento social; do conflito social; das conflitualidades e sociologia da experiência; analisar esses referenciais teóricos com o entendimento sobre conflitos e violências, no que se refere aos estudantes e aos educadores (docentes e gestores) e; analisar como essas situações vinham acontecendo no cotidiano escolar. Para isso dividimos essa seção em três partes: 1) Violências e conflitos sociais: o externo e o interno da

Escola; 2) Violências e conflitos que têm origem no convívio escolar e 3) Violências e conflitos a partir de disciplinamentos e controles da escola.

Ao compreendermos os conflitos e violências na perspectiva de diferentes teorias – teoria do reconhecimento social; teoria do conflito social; teoria das conflitualidades e sociologia da experiência – vislumbramos na visão dos estudantes e dos educadores (docentes e gestores) o que eles interpretavam como conflitos sociais e violências ou conflitualidades e, em suas próprias experiências, como aconteciam situações envolvendo conflitos e conflitualidades o cotidiano de suas escolas.

Neste contexto, temos perfeita consciência de que existem relações de poder nas interações entre educandos e educadores, e que tal poder está legitimado no papel que a escola cumpre socialmente diante da sociedade e, no caso das escolas públicas, em nome do Estado. Logo, não são absolutamente as relações de poder que, por si só, se constituem em problemas no cotidiano escolar, mas, sim, os excessos que se verificam nessas relações entre os sujeitos no dia a dia escolar. O excesso é uma via de mão dupla, pois tanto gestores e docentes podem praticar excessos, que é aquilo que Charlot (2002) chama de violência “da” escola, quanto podem também os estudantes usarem os excessos, que são os casos de violência “à” escola, e mesmo “na” escola.