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Embora as manifestações clínicas geralmente sejam auto-resolutivas, o impacto econômico das infecções por C. jejuni é estimado em cerca de oito bilhões de dólares por ano, somente nos Estados Unidos da América (EUA) (BUZBY; ROBERTS, 1997) e 1.400 DALYs (do inglês Disability-Adjusted Life Years, inabilidadeajustada em anos de vida)/ano na Holanda (HAVELAAR et al., 2000; OMS, 2004).

Tal custo é parcialmente atribuído às graves complicações que podem ocorrer após a infecção por C. jejuni como a Síndrome de Guillain-Barré e a artrite reativa (BUZBY; ALLOS; ROBERTS, 1997; BUZBY; ROBERTS, 2009). Em estudo recente, que comparou a quantidade de anos vividos com doenças (do inglês Years Lived with Disease) em 1990 e em 2010, foi demonstrado que o impacto causado pela Síndrome de Guillain-Barré relacionada à campilobacteriose pregressa cresceu 35,7% na população mundial nesse intervalo de duas décadas (VOS et al., 2012).

Devido à sua ocorrência generalizada no meio ambiente, a epidemiologia do gênero Campylobacter permanece pouco compreendida. É geralmente aceito, no entanto, que os frangos de corte representem um hospedeiro natural para o C. jejuni, sendo, portanto vetores primários da transmissão desse agente patogênico para o homem (SAHIN; MORISHITA; ZHANG, 2002; SKELLY; WEINSTEIN, 2003).

Várias fontes potenciais e vetores de transmissão de C. jejuni para frangos de corte têm sido identificados. Inicialmente, alguns galináceos podem ser colonizados com uma idade inferior a duas semanas, e assim a infecção pode se espalhar rapidamente por toda a granja, ou grande parte de seus animais. As aves de abate infectadas transportam uma carga muito elevada de C. jejuni em seu trato intestinal, em especial o ceco. Isso acaba por resultar em carcaças contaminadas durante o processamento, que podem transmitir essa bactéria para os seres humanos (HERMANS et al., 2012; ONO; YAMAMOTO, 1999; POTTER; KANEENE; GARDINER, 2002).

Estudos de tipagem genética demonstraram que isolados bacterianos de frango são frequentemente associados aos casos clínicos humanos de enterite por Campylobacter sp. A infecção por Campylobacter sp. se espalha muito facilmente entre aves de criação que parecem atuar como amplificadores das campilobacterioses. A colonização por Campylobacter sp. em granjas varia de 41-59% das aves para corte (GALANIS, 2007). No Brasil, Kuana et al. (2008) encontraram Campylobacter sp. em cerca de 80% das amostras pesquisadas, tendo sido identificadas como C. jejuni (majoritariamente), C. coli, C. upsaliensis e C. fetus.

Apesar da evidência crescente de que o reservatório frango é o fator de risco mais importante para a doença em seres humanos, não existe estratégia eficaz para reduzir a prevalência de Campylobacter sp. em granjas e locais de abate de aves, o que pode em parte ser explicado pela compreensão incompleta da epidemiologia da C. jejuni em frangos de corte. Como resultado, o número de casos de campilobacteriose humana associados com o vetor frango permanece notavelmente elevado (HERMANS et al., 2012).

A produção de frango para abate em todo mundo aumentou consideravelmente nas últimas décadas e Campylobacter sp., principalmente C.jejuni/C.coli, podem entrar no meio ambiente quando os resíduos da produção e processamento de aves são descartados. Penas, resíduos de abate e fezes são, em potencial e em geral, altamente contaminados por espécies do gênero Campylobacter. Infecção ocupacional em abatedouros já foi relatada (DIAS et al.; 1990; PERIO et al., 2013; VEGOSEN et al., 2012). Só no Brasil, em 2011, o abate de frangos chegou a 5,3 bilhões de animais, um aumento de 5,6% em relação a 2010. O peso acumulado das carcaças no primeiro trimestre de 2012 (2,95 milhões de toneladas) foi 6,2% mais alto que no primeiro trimestre de 2011 (IBGE, 2012).

Medidas de controle da infecção animal devem ser tomadas ao longo da cadeia que vai do produtor ao consumidor. Medidas de biossegurança ajudam a diminuir a transmissão entre os animais. Durante o abate, a higiene adequada e a separação de animais infectados e não

infectados diminui o risco de contaminação cruzada. Em alguns países escandinavos, por exemplo, granjas e áreas de processamento com medidas de biossegurança rigorosas foram implantadas, o que gerou um declínio posterior nas taxas de infecção humana por micro- organismos do gênero Campylobacter (GALANIS, 2007).

O ônus indireto ambiental resultante da produção de aves de corte, portanto, deve ser considerado, pois representa um risco difuso, mas significativo, não só para a contaminação humana, como para a disseminação de cepas resistentes ao tratamento, visto que o uso indiscriminado de antimicrobianos na ração animal gera o potencial de seleção de cepas resistentes em toda a microbiota das aves, incluindo C. jejuni/coli (BELANGER; SHRYOCK, 2007; GONZÁLEZ-HEIN et al., 2013; RUIZ-PALACIOS, 2007; WASSENAAR, 2011).

Com relação à contaminação hídrica por espécies de Campylobacter spp., o trabalho pioneiro de Lauria-Filgueiras e Hofer (1998) demonstrou a presença de C. jejuni e C. coli em estações de tratamento de esgoto no Rio de Janeiro, apontando ainda que tais cepas patogênicas eram isoladas durante a etapa de processamento inicial nessas estações, sendo o tanque de arejamento considerado como uma barreira para a sobrevivência do micro- organismo – o que corrobora a importância do tratamento de esgotos, principalmente nas grandes cidades.

Estudo recente sobre a contaminação hídrica com espécies de Campylobacter sp., também realizado no estado do Rio de Janeiro, na região da bacia do Rio São João, demonstrou que, dentre 51 amostras coletadas, 21 foram positivas para Campylobacter spp., perfazendo um alto percentual de positividade (41,2%) nessa bacia hidrográfica (ESTEVES; FERREIRA; SICILIANO, 2011).

Em 2010, na Holanda, foram avaliados os riscos microbianos associados com a exposição aos patógenos em água contaminada por inundação urbana. Campylobacter sp. foi encontrado em todas as amostras de acidentes com inundações de esgoto e os resultados indicaram que a contaminação foi semelhante aos níveis encontrados no esgoto bruto sob condições de alto fluxo (TEN VELDHUIS et al., 2010).

Tais trabalhos, em conjunto, ressaltam a importância da água como poderoso meio de veiculação de espécies de Campylobacter sp. – ainda que esse ambiente seja, via de regra, inóspito para a bactéria; e, ao mesmo tempo, alertam sobre o impacto das atividades humanas, como a urbanização, sobre a contaminação dos mananciais de abastecimento, fazendo com que o risco de infecção se perpetue principalmente em áreas onde ocorrem debilidades do esgotamento sanitário e no tratamento de efluentes e ainda quando existir

risco de chuvas fortes e inundações (AULD; MACIVER; KLAASSEN, 2004; RECHENBURG; KISTEMANN, 2009).