A construção dos questionários a utilizar para o estudo de Avaliação Contingente é um dos passos fundamentais para que toda a pesquisa seja fiável.
O Método de Avaliação Contingente pode ser aplicado a um grande leque de casos. Contudo, muita da informação disponibilizada ao entrevistado tem um grande carácter técnico, associado a perguntas muito complexas, o que dificulta o entendimento por parte do entrevistado. Estes factores associados à natureza hipotética das perguntas induzem inevitavelmente a desvios, dificultando a validade e fiabilidade dos dados.
Nestas circunstâncias, é essencial que as preferências sejam apresentadas claramente ao entrevistado, para que o resultado do estudo não se torne inconsistente.
Quando se está a elaborar um questionário de Avaliação Contingente deve-se ter em atenção:
- Questões descritivas – quando são efectuadas pesquisas sobre fenómenos subjectivos,
como atitudes e valores, surgem algumas dificuldades, pois a análise estatística pede que se transformem as questões subjectivas em questões descritivas para aumentar a fiabilidade dos testes. Contudo, ao efectuar esta transformação verifica-se uma grande perda de significância.
Nas questões sobre fenómenos subjectivos muito depende de como as palavras são ordenadas. Em perguntas de atitude, se existir a opção “não sei” a maior parte das pessoas escolhe-a como hipótese (Carson et al., 1995a). Outro caso é o termo “proibição”, com menor aceitação que “não permitido”, embora signifiquem a mesma coisa (Mitchell & Carson, 1989).
A vantagem das questões descritivas é que, normalmente, são mais simples e específicas, geram análises estatísticas mais significativas, agilizam o tempo de resposta, diminuem o número de questões não respondidas e são fundamentais para superar as dificuldades de comunicação existente entre as pessoas (Maia, 2002). Estas dificuldades de comunicação são comuns principalmente quando estão em presença níveis culturais e educacionais muito distintos, o que é claro para uns pode não ser para outros e, nestas circunstâncias, deve-se optar pela clareza e simplicidade na especificação das questões.
- Ordenação das questões - A ordem das questões também não deve ser desconsiderada.
É comum perguntar inicialmente sobre os dados pessoais, como idade, nível de escolaridade, rendimento, etc., evitando que no final o entrevistado se sinta intimidado ou ofendido por responder a este tipo de questões pessoais. Muitas vezes o cansaço derivado de uma entrevista longa, ou a desaprovação à proposta de pagamento por um bem tendem a incentivar este tipo de comportamento nas pessoas.
- Utilização de Imagens – As imagens são um meio eficaz de fornecer informação aos
entrevistados e de prender a sua atenção. Contudo, a sua natureza dramática pode ter muito mais impacto emocional do que o restante questionário, podendo influenciar a resposta do entrevistado.
- Cruzamento de variáveis – De modo a contribuir para o aumento da fiabilidade dos
resultados nas perguntas de valorização o questionário deve integrar também variáveis como os rendimentos do entrevistado, o seu nível de escolaridade, as atitudes em relação ao ambiente, entre outras. Ao analisar os resultados os valores das questões de valorização devem ser cruzados com informação pessoal do entrevistado, de modo a verificar se existem grandes incongruências.
- Possíveis substitutos do recurso – O relatório do painel do NOAA sobre Avaliação
Contingente recomenda que se deve lembrar aos entrevistados, antes das questões de valorização, a existência de outros recursos naturais comparáveis ou substitutos, ou informá-los sobre o estado futuro do recurso em análise. Esta iniciativa assegura que os entrevistados têm as alternativas possíveis em mente antes de efectuarem a sua escolha.
- Limitações orçamentais – um dos pontos que tem sido pouco lembrado aos participantes
em estudos de Avaliação Contingente são as suas limitações económicas, dentro das quais decisões de gastos têm de ser feitas. Durante as entrevistas os participantes devem ser levados a pensar cuidadosamente sobre o seu rendimento e sobre o quanto estão disponíveis para repartir.
- Forma de pagamento – outro elemento importante para uma pesquisa de Avaliação
Contingente é informar os participantes sobre o modo como seria efectuado o pagamento relativo à sua disposição a pagar, ou a receber. Por exemplo, se seria integrado numa factura pré-existente (electricidade, água, etc.), associado a um imposto, entre outras. Torna-se também relevante informar os indivíduos sobre como seria efectuado o pagamento, mensal, semanal, quando visita, único, etc.. O meio de pagamento tem de ser perfeitamente plausível e credível.
Estes cuidados são necessários para se evitar a presença do “desvio-do-veículo”, que acaba por influenciar o valor citado. Fischhoff & Furby (1988), mostram que os indivíduos são sensíveis ao modo de pagamento e acabam associando o valor que estão dispostos a pagar a algum valor ligado ao veículo – a magnitude da conta da electricidade ou do imposto, por exemplo.
- Detecção de comportamento estratégico – Por vezes, os entrevistados não revelam as
suas verdadeiras preferências nas questões de valorização que lhe são apresentadas, isto pode dever-se a problemas técnicos associados à pesquisa (como falta de informação, cenários inadequados, dúvidas sobre o projecto) ou problemas motivacionais (como recusa em aceitar questões hipotéticas ou contrariedade quanto à criação de novas taxas, pressão pela presença do entrevistador, pensar que o voto não irá influenciar a pesquisa, aborrecimento por estar a responder à entrevista) e não menos importante, ao problema/fenómeno free rider.
Sobre este problema, Perna (1994) refere que dada a natureza pública dos serviços de recreação baseados em recursos naturais, a inexistência de mercado inviabiliza a exclusão do consumo, bem como a sua rivalidade, isto é, o consumo do bem por cada individuo tende a não influenciar o consumo dos restantes indivíduos. Consequentemente a falha de mercado induz os consumidores a agirem estrategicamente como free riders.
Por outro lado, o medo de que se venha realmente a verificar uma cobrança pode levar a pessoa a subestimar o valor proposto, ou caso capte o carácter hipotético da pesquisa pode tentar elevar a média de pagamentos.
É difícil detectar este tipo de comportamentos. Segundo Maia (2002), deve haver um esforço para prender a atenção do entrevistado e elaborar questões que tentem detectar se este não está a responder seriamente. Em casos extremos, em que seja evidente a inconsistência da DAP do entrevistado (como no caso de incompatibilidade com os rendimentos da pessoa), pode até excluir-se o questionário da análise.
Para Arrow et al. (1993) existe ainda outro tipo de comportamento estratégico, embora que involuntário. Este autor refere que, por vezes, o entrevistado ao valorizar o recurso não está a valorizar o património ambiental propriamente dito e sim a tomar uma atitude de louvor em prol do ambiente, ou seja, está a contribuir para uma causa. Quando isto se verifica, as respostas de valorização ao Método de Avaliação Contingente não deveriam ser tomadas como estimativas fiáveis da verdadeira disposição a pagar, mas sim como um indicativo da aprovação do programa ambiental em questão.
- Planeamento conservador – normalmente, quando os aspectos do projecto em estudo
pela Avaliação Contingente e as análises de respostas são ambíguas, a opção que tende a subestimar a disposição a pagar é preferida. Um projecto conservador aumenta o grau de fiabilidade, pois elimina respostas extremas que podem ampliar os valores descontroladamente (Arrow et al., 1993). Para evitar estes desvios é necessário dar ao entrevistado toda a informação necessária para este basear a sua escolha, formular as questões de modo neutro, utilizar questões tipo formato referendo (inviabilizam respostas de protesto) e recorrer a entrevistas pessoais (prendem a atenção e motivam a resposta correcta) são também boas técnicas de planeamento conservador.
- Verificação da compreensão e aceitação – em virtude dos questionários de Avaliação
Contingente apresentarem informação que a maioria dos entrevistados desconhece, o relatório do painel do NOAA sobre Avaliação Contingente recomenda que o questionário deveria tentar no fim determinar o grau de aceitação das descrições dadas e das afirmações efectuadas antes da questão de valorização. Esta avaliação deveria ser feita detalhadamente, mas de modo indirecto, para que os entrevistados se sintam livres de rejeitar qualquer parte da informação que lhes foi anteriormente fornecida.