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Dentre muitas obras de Arguedas, fixaremos nosso olhar agora no conto Agua, que fez parte do início dos projetos literários do autor. Ainda que nosso eixo principal seja a análise da obra Los Zorros, nos parece relevante e, porque não afirmar, vital para nossa investigação considerar que esta obra é uma continuação dos “gritos” de Arguedas no conto Agua, de 1935, que tem como pilares o embate entre indígenas e “criollos”, a migração como também a violência simbólica.

O eixo condutor do conto Agua (ARGUEDAS, 1977, p.52) baseia-se na disputa entre dois segmentos do povoado em torno da água e do poder. Há os mistis e os comuneros, sendo que os primeiros, em menor número, mandam e desmandam em relação aos segundos. Ocorre, no centro do local, a Plaza San Juan, uma disputa com feridos. A ótica condutora da narrativa é a de Ernesto, menino que nutre pelos comuneros uma profunda admiração. Gonzalo Portocarrero47 diz que nesse conto este personagem foi acolhido pelos indígenas tal como ocorre com a biografía de Arguedas. O narrador, através deste conto, convida os indígenas que finquem seus pés diante dos tiranos.

Os Comuneros se opõem aos donos do poder (mistis, principales), seja por sua expressão, seja por seu comportamento: “En las caras sucias y flacas de comuneros se encendió la alegría, sus ojos amarillos chispearon de contento” (A., p.60)48. Há uma distância (comportamento) em relação ao poder. Cumprimentam-se formalmente, dando-se as mãos; a outro personagem, é o abraço que irá uni-los, com afeto e informalidade.

O personagem que conduz a narrativa é alguém que vê as disputas de poder e o tratamento dispensado aos indígenas e posiciona-se a favor dos últimos: “Sentí que mi cariño por los comuneros se adentraba más en mi vida, me parecía que yo también era tinki, que

47 Pontificia Universidad Católica del Perú, 24 de junho – Presentación de libro La amistad de Arguedas y

Duviols en 16 cartas / Apresentação: La ficcionalización en José María Arguedas: Dos estudios de casos/ Tradición oral quechua y traducción en José María Arguedas.

tenía corazón de comunero, que había vivido siempre en la puna, sobre las pampas de ischu.” (A., p.66). Há uma clara dicotomia entre Don Vilkas e os “comuneros” (los tinkis). O vocábulo misti refere-se a qualquer pessoa das classes dominantes, explica Arguedas ao pé de página. A essa idéia se une o vocábulo molestoso. “Más todavía que el atok (zorro)”. (A., p.63) Aqui, como aquele que rouba, porém menos que Don Braulio, um misti, o mais importante deles. Esse personagem faria sua vida ser baseada a partir desses comuneros: “Pues les saca (plata), se roba el agua.” (A., p.63). Novamente uma bifurcação ocorre entre mistis e comuneros. Enquanto os primeiros são simbolicamente relacionados ao tigre, os segundos, o serão aos cães.

O narrador do conto assemelha-se muito ao que conhecemos da biografia de Arguedas, em relação à sua infância; este momento de ambos evidencia um bem-querer aos índios, às suas canções, a sua língua, a sua percepção da natureza, de seus mitos, em contraposição ao poder que poucos detêm sobre muitos, os quais não são indígenas. Arguedas, quando menino, tal como Ernesto49 apega-se aos índios; é quem conduz o fio narrativo. “Nos encaminamos con Bernaco hacia el corredor de la cárcel.” (A., p.70). O personagem Ernesto é considerado por alguns críticos como uma espécie de alter-ego do autor.

A transculturação50 ocorre de forma forte com o tecer de músicas, cantos, danças e visões míticas de questões geográficas. Os bailes ao redor de “las fiestas grandes del año”: a colheita do milho, “el escarbe de batatas”. (A., p.59). Há momentos em que Arguedas apresenta a língua quéchua muito bem enlaçada a seu texto, à narrativa e presenteia o leitor com as respectivas traduções ao lado do vocábulo ou ao pé da página: “Pobre llak’ta (pueblo)”.

49 Um de seus muitos Ernestos; consulte as obras arguedianas Los ríos Profundos e Yawar Fiesta. 50 Vide Capítulo 2.

Observa-se que o narrador afirma que o poder está em mãos estrangeiras: “casi gringos nomás son todos”. (A., p.66) “... los principales abusan de los jornaleros “temblando con terciana le meten en los cañaverales, a los algodonales. Después le tiran dos, tres soles a la cara, como gran cosa.” (A., p.67). O povo, através dos personagens Pantacha e Don Pascual, se dá conta de que está em maior número, como também que, segundo sua ótica/prisma em relação ao Poder: “en nuestro pueblo, dos, tres mistis nomás hay, nosotros, tantos, tantos. Ellos igual a comuneros gentes son, con ojos, bocas, barriga...”. (A., p.72).

Os adjetivos sucias, flacas e amarillos encaminham a uma idéia de pobreza, de problemas, de desnutrição, de abandono. Há uma gradação em relação à nessicidade de se fazer ouvir: chamar, relinchar, gritar. O fio narrativo conduz a voz, seja humana ou animal, num processo de clamor, de chamamento, de evocação, de expressão dolorosa, sentida, em direção ao outro.

A visão mítica da natureza, tal qual em sua última obra, está presente no conto Agua, para justificar a presença, por exemplo, das montanhas. Nesse conto já surge a presença da raposa que mais tarde iria compor sua última obra Los Zorros. O principal local da cidade onde todas as ações ocorrem é a Plaza de San Juan: “Nunca en la plaza de San Juan un comunera había hablado contra los principales” (A., p.68). Novamente o ato de roubar é relacionado aos “principales”. A localização espacial dos comuneros é o alto: “altas

llanuras” (A., p.62).

Os diálogos giram ao redor dos desmandos dos mistis. “Don Bráulio abusa de comuneros. Comunidad vamos hacernos respetar” (A., p.71). O conflito se arma, já que se evidencia um prenúncio de embate, contra Braulio Félix, considerado como “el principal del pueblo” (A., p.72); é ele que detém a água (“era como dueño de San Juan”). Braulio tal qual tayta Inti, o sol, “quería, seguro, la muerte de la tierra” (A., p.73). “Su rabia hacía arder al mundo y hacía llorar a los hombres.”(A., p.73)

A natureza nasce para todos - eis aqui o fio condutor da narrativa. Logo, uma pergunta perpassa toda a escritura: Por que alguém se acha no direito de ser “dueño para água” (A., p.76)? Ernesto, no embate que ocorreu entre principales y comuneros, tenta intervir em prol dos segundos, já que se acreditava homem, tal como os indígenas: “Hombre me creía,

verdadero hombre” ( A., p.78). Em sua fuga, Ernesto sente-se tal qual os indígenas que tanto admirava e decide ir cuesta abajo (novamente algo que aproxima esta narrativa de Los

Zorros) para conviver, a partir de então, com os comuneros. Escolhe, enfim, seu destino.

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