2. TEORI
2.1 A FASI
Segundo Maria Corti, depois de um longo período de uma concepção fascista de nação, os escritores neorrealistas voltam às regiões e aos dialetos, numa operação muito diferente daquela realizada pelos escritores do século XIX, pois, vindos depois do fascismo, aqueles escritores apresentavam uma ideia centrífuga em relação à concepção de pátria e Estado, que ainda soava muito próxima aos ―fantasmas ideológicos do
con gli uomini non può, non ha più tempo, deve andare a fare il catechismo ai bambini, e poi a noi fortissimo: – Ragazzi, fate il vostro dovere!‖ (FENOGLIO, 1994, p. 37).
167 ―Don Bestia al clamore s‘è fatto alla finestra della canonica e mi grida: — Beppe, ma dove andate
ancora? – Io non so che ripetergli gridando che oggi è la giornata delle esecuzioni. Il parroco smuore, ma io gli dico che stavolta tocca al prete di Rocchetta e passo via‖ (FENOGLIO, 1994, p. 39).
168 ―Le orazioni, mamma cara, mi son passate di mente. Tanto cosí, provo il Padrenostro e tre volte
fascismo‖169. A escolha pela região em que a narrativa se desenrolava era, então, determinante para muitas outras características temáticas e linguísticas.
Le Langhe, sempre no plural, é uma região do norte da Itália com perímetro de cerca de 200 quilômetros, dividida em três cadeias de colinas entrecortadas por rios: a Oriental, entre as duas Bormide170– de Spigno e di Millesimo –, a central, entre a Bormida de Millesimo e o Rio Belbo – e a Ocidental, entre o Rio Belbo e o Rio Tanaro. A zona do Barolo pertence às Langhe Ocidentais, da qual Alba é a capital. Nessa zona, Beppe Fenoglio e o personagem Beppe dos Appunti partigiani fizeram a Resistência (vide mapa em anexo).
A função desempenhada pela região Le Langhe é de grande importância para a narrativa. O partigiano Beppe escolhe lutar perto de casa, com seus amigos, para expulsar os fascistas e alemães praticamente de dentro da sua casa. A intimidade e afeto com que ele é capaz de se fundir com a paisagem denotam a relevância dessa escolha e as Langhe serão o leitmotiv da narrativa e representam o lugar para onde voltar, a casa.
Convém retomar aqui um assunto já abordado anteriormente: as Langhe de Fenoglio em oposição às Langhe de Cesare Pavese. Para Pavese, as Langhe representavam uma memória infantil e uma meloncolia saudosista impossibilitada de voltar àquele passado e fadada a lembrar dele como um lugar longínquo e matafórico, mitificado em sua literatura. As Langhe de Fenoglio são o lugar real em que ele passava os seus dias já como partigiano adulto. Elas fazem parte da transformação edificante que a experiência da Resistência operou sobre o jovem personagem Beppe, e nunca são memória ou infância idealizada, mas sim um lugar de vida adulta e real.
Duas Langhe coincidem na narrativa, e não por acaso o nome da chácara em que Beppe e os amigos ficam todo o tempo é Chácara Langa (no singular). As duas formas de um mesmo afeto, Langa e Langhe são a extensão de um mesmo sentido de casa: na primeira, uma casa concreta e efetiva, com os personagens que constituem o núcleo duro da
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CORTI (1978, p. 65).
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Bormida é um rio do norte da Itália que corta as regiões da Ligúria e do Piemonte e se divide em dois principais cursos, Bormida de Spigno e Bormida de Millesimo, que juntos desaguam no Rio Tanaro.
narrativa; na segunda, uma casa ampla, solitária e generosa. Pelas duas, Beppe escolhe combater naquela região:
Mas no rústico, com os meeiros, devem estar os meus dois amigos de Alba, os
partigiani Piccàrd e Cervellino, irmãos. Por eles renunciei à Browning e ao lugar privilegiado na brigada de Mango. Por eles e por Fazenda da Langa e pela loba que já há duas horas me cheira os calcanhares e depois me olha com olhos apaixonados‖171
.
Durante toda a narrativa, as Langhe aparecem como um lugar em que o personagem Beppe se sente seguro e protegido. Na primeira página do livro, elas nos são apresentadas com o narrador quase abdusido pela carga afetiva a elas atribuída:
Ali arranco o meu belo passo de homem do campo; parecem viajar comigo as colinas à minha direita, que olham a minha pequena cidade protegida por elas (...). Por não querer tirar os olhos daquelas colinas, me vejo com um pé no buraco do fosso‖172
.
Seguimos a viagem do protagonista no caminho de volta para as Langhe pela descrição precisa de sua localização. Até que Beppe alcança finalmente a parte das Langhe em que se sente em casa:
Estas começam a ser as Langhe do meu coração: aquelas que de Ceva a Santo Stefano Belbo, entre o Tanaro e a Bormida, escondem e nutrem cinco mil
partigiani e lhes oferecem lugares únicos para batalhar, quem tem vontade. E soam mal a quem os partigiani os quer mortos assassinados, todos todos e pior, se possível, daquele de S. Rocco173.
171 ―Ma nel rustico, coi mezzadri, devono starci i miei due amici di Alba, i partigiani Piccàrd e Cervellino,
fratelli. Per loro ho rinunziato alla Browning e al posto privilegiato nella brigata di Mango. Per loro e per Cascina della Langa e per la lupa che da due ore ormai mi annusa i talloni e poi mi guarda con occhi innamorati‖ (FENOGLIO, 1994, p. 24).
172 ―Lí stacco il mio bel passo da campagna; paiono viaggiare con me le colline alla mia destra, che
guardano la mia piccola città tenuta da loro. (...)/A non voler staccar gli occhi da quelle colline, mi trovo con un piede sul vuoto del fossato‖ (FENOGLIO, 1994, p. 1).
173―Queste cominciano a essere le Langhe del mio cuore: quelle che da Ceva a Santo Stefano Belbo, tra il
As duas formas de Langhe(Langa no singular, a cascina, eLangheno plural, a região) se alternam no mesmo objetivo, descrever um protagonista familiarizado com a região em que luta, ligado afetivamente aos personagens que encontra, planejando sua vida, naquela mesma região, para quando a Guerra acabar. No trecho a seguir, vemos a relação de interdependência com que estão ligadas as duas formas:
Quem não conhece, quem nunca esteve na Fazenda da Langa quer dizer que destas Langhe ele não pode falar. É o feudo de um renomado comerciante da minha cidade, já camarada do meu pai. Quando acontece de ele falar dela com os seus amigos da cidade, eles de instinto encolhem os ombros porque Fazenda da Langa traz uma ideia de tramontana e solidão. Se é destino que eu retorne civil e faça honesto dinheiro, quero me apresentar àquele comerciante ou aos seu herdeiros e pedir a eles que me vendam. Uma vez minha, vou passar ali três meses de cada ano que me restar174.
A intimidade do protagonista e narrador com a região se estende também para outros aspectos, que numa análise mais ampla pode chegar até a ideia presente nos Appunti de Natureza, uma Natureza concreta e adulta, cheia de vestígios e rastros de realidade:
Quem se vangloria de ter sido partigiano nessas Langhe e diante da pergunta sai dizendo que esta estrada ele nunca fez ou até só que não lembra dela, eu lhe dou um murro na cara. Aliás não, lhe pergunto simplesmente se partigiano ele foi no Serviço do Trabalho ou escondido em algum seminário. Porque até os republicanos conhecem esta estrada. Principalmente os Rao e os S. Marco. Culpa nossa que nem sempre os impedíamos de chegar aqui em cima175.
battagliarci, chi ne ha voglia. E suonano male a chi i partigiani li vuole morti ammazzati, tutti tutti e peggio, se possibile, di quello di S. Rocco‖ (FENOGLIO, 1994, p. 7).
174 ―Chi non conosce, chi non è mai stato a Cascina della Langa vuol dire che di queste Langhe lui non
può parlare. È il feudo di un noto commerciante della mia città, già commilitone di mio padre. Quando gli capita di parlarne con i suoi amici cittadini, questi d‘istinto raggricciano le spalle perche Cascina della Langa porta un‘idea di tramontana e solitudine. Se è destino che io torni borghese e faccia onesti soldi, voglio presentarmi a quel commerciante o ai suoi eredi a chieder loro di vendermela. Una volta mia, ci passerò tre mesi d‘ogni anno che mi resterà‖ (FENOGLIO, 1994, p. 22).
175 ―Chi si vanta d‘aver fatto il partigiano su queste Langhe e a domanda esce a dire che questa strada lui
Uma ideia de Mãe Natureza justa, que protege e zela pelos seus partigiani, como na perseguição de novembro, em que Beppe afirma que foi a Natureza/Langhe quem os salvou (note-se a brincadeira entre maiúscula e minúscula no trecho abaixo): ―Não foi habilidade nossa, nem que eles fossem todos incompetentes. Foi, com a sua terra, a sua pedra e o seu bosque, a langa, a nossa grande mãe Langa‖176.
A perseguição de dezembro, descrita em detalhes nos Appunti e lembrada como a pior de todas, é aqui percebida dramaticamente com o sentido de perda de uma casa, a partir do momento em que tinham perdido as Langhe:
Toda noite assim, mudando toda noite. E hoje eu sou uma autoridade em matéria de estábulo de Langa. Lembro ainda que o tal estábulo é o maior, que o tal outro é o mais úmido, que nesta faltam os panos que servem de janela e tem um boi caprichoso, naquela as pessoas te dão alguns cobertores, e assim sucessivamente177. (...)
E nós pensávamos que agora eram eles os donos das Langhe e nós talvez não conseguimos mais reconquistá-las‖178.
No último dia de batalha narrado nos Appunti que chegaram até nós, mais uma vez a intimidade com as Langhe e a segurança propiciada por elas, em meio a um nevoeiro em que não se via nada, o sentido de pertencimento que a sola dos sapatos têm: ―Não vemos onde colocamos os pés, mas não erramos certo caminho. E aquela famosa Manera-Mango, antes de nós, a reconhecem nossos solados‖179.
semplicemente se il partigiano l‘ha fatto nel Servizio del Lavoro o nascosto in qualche seminario. Perché anche i repubblicani conoscono questa strada. Specie i Rap e i S. Marco. Colpa nostra che non sempre li tenevamo dall‘arrivar quassú‖ (FENOGLIO, 1994, p. 22).
176 ―Non fu abilità nostra, né che loro fossero tutte schiappe. Fu, con la sua terra, la sua pietra e il suo
bosco, la langa, la nostra grande madre Langa‖ (FENOGLIO, 1994, p. 51).
177 ―Tutte le sere cosí, cambiando ogni sera. E oggi io sono un‘autorità in fatto di stalle di Langa. Ricordo
ancora che la tale stalla è la piú grande, che la tal‘altra è la più umida, che a questa mancano le impannate e c‘è un bue bizzoso, in quella la gente ti dà delle coperte, e cosí via‖ (FENOGLIO, 1994, p. 68).
178―E noi pensavamo che adesso erano loro i padroni delle Langhe e noi forse non ce la facciamo più a
riprendercele‖ (FENOGLIO, 1994, p. 65).
179 ―Non vediamo dove posiamo i piedi, ma non sbagliamo certo strada. E quella famosa Manera-Mango,