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Dentro da disciplina de Língua Portuguesa, o ensino de leitura literária na escola 2 se dá em uma aula por semana. Os livros nessa escola são escolhidos por um conselho de professores na reunião pedagógica no início do ano letivo, e a lista completa de títulos a serem usados ao longo do ano é encaminhada aos pais em fevereiro. Assim, eles têm a oportunidade de comprá-los junto com os materiais escolares para o ano todo. A lista é divulgada em carta enviada às famílias e também está presente no site da escola.

O livro Tudo depende de como você vê as coisas, de Norton Juster, foi lido pelos alunos no 2º semestre de 2010 e Joaquim e Maria e a estátua de Machado

de Assis, de Luciana Sandroni, no 1º semestre de 2011.

Título: Tudo depende de como você vê as coisas Autor(a): Norton Juster

Editora: Cia. das Letras Gênero: Narrativa ficcional

Organização textual: Narrativa dividida em vinte capítulos. 1ª edição: 1961 (americana); 1999 (brasileira)

257 páginas

Milo andava entediado com a vida que levava. Num dia qualquer, recebeu um misterioso convite para fazer uma viagem a um lugar desconhecido: Dicionópolis.

Sempre se deparando com um jogo de palavras, Milo passou por lugares como a Razão Pura, Calmaria e Conclusões Apressadas. Conheceu personagens desagradáveis como A Dúvida Atroz e a Desculpa Esfarrapada e outro que se tornou seu amigo, o cachorro Toque, um cão-despertador que vive no encalço dos letargiários28, os seres sem consciência que habitam Calmaria.

Capítulo 2 – Além das expectativas

“Muito prazer em conhecê-los”, disse Milo sem saber direito se estava sentindo algum prazer. “Acho que estou perdido. Podem me ajudar, por favor?”

“Não diga ‘acho’”, disse um letargiário que estava sentado em seu sapato, pois o que se aboletara no ombro havia caído no sono. “É contra a lei”. E, após dar um bocejo, caiu no sono também.

“Na terra da Calmaria é proibido pensar”, continuou um terceiro, começando a cochilar. E, à medida que cada um falava e caía no sono, outro retomava a conversa quase sem interrupção. (p. 26)

Milo, Toque e Mausquito, um mosquito bajulador, seguem em direção a outros lugares incomuns como o Vale dos Sons, a Floresta da Visão – lugares que convidam o leitor a reinventar as formas de usar os sentidos para relacionar-se com

o mundo – e chegam a Digitópolis, a cidade dos números. Lá Milo descobre que, para se chegar a um raciocínio lógico, é preciso estudar os elementos sob diferentes pontos de vista.

Capítulo 13 – Conclusões Infelizes

“Ah, não”, respondeu o Edmais, sacudindo a cabeça. “A única maneira de voltar é a nado, e olha que se trata de uma travessia longa e perigosa.”

“Não gosto de me molhar”, gemeu o infeliz inseto, seu corpo tremendo todo só de pensar naquilo.

“Nem eles”, disse com tristeza o homenzinho. “É por isso que permanecem aqui. Mas eu não me preocuparia muito com isso, porque você pode nadar o dia todo no mar do Conhecimento e sair dele completamente enxuto. É assim que faz a maioria das pessoas. Mas agora vocês precisam me desculpar. Tenho que dar boas-vindas aos recém-chegados. Como sabem, sou amistoso demais.” (p. 171)

Através de sua aventura, Milo aprende a valorizar, a atribuir sentidos e apreciar a beleza das coisas ao seu redor, compreendendo que aquilo que se vê é, na verdade, uma maneira entre outras, e ele se coloca aberto para vê-las sob outro ponto de vista.

Título: Joaquim e Maria e a estátua de Machado de Assis Autor(a): Luciana Sandroni

Editora: Cia. das Letrinhas Gênero: Narrativa ficcional

Organização textual: Narrativa dividida em trinta capítulos. 1ª edição: 2009

184 páginas

A estátua de Machado de Assis, que fica na Academia Brasileira de Letras, recebeu a visita de duas crianças curiosas, Joaquim e Maria – primeiro e segundo nomes de Machado. Elas disseram que a estátua era oca e vazia e se surpreenderam quando viram que em vez de ficar imóvel, como fazia sempre, a

estátua respondeu à menina com um dedo da mão e, para a surpresa deles, a estátua não apenas se mexia como também falava.

Capítulo 5 – O ferro-velho

Os meninos, espantados, voltaram-se ao mesmo tempo, sem acreditar: – Machado de Assis?!

– Não, eu não sou o Machado de Assis, sou um monte de ferro-velho...

Maria e Joaquim estavam pasmos, boquiabertos! Não eram só os dedos da estátua que se mexiam. Ela toda estava se movendo, e falando! Aquilo era sonho? Era real? – Mas bem que eu queria ser o Machado – continuou a estátua, alheia ao espanto dos meninos. – Olha, vou confessar uma coisa a vocês: no começo eu achava que era o maioral, o chefe aqui da Academia. Fui inaugurado no dia 21 de junho de 1929 com muita pompa e circunstância. Era a comemoração dos noventa anos do nascimento do Machado. Depois da festa, percebi que não era nada disso, muito antes pelo contrário. Jamais me convidaram para entrar; nem para um chazinho! (p. 35)

(...)

– Mas você pode sair daqui?! – Você pode andar?!

– Tenho um passo meio lento, mas devagar se vai ao longe! Então, vamos dar uma volta no Centro?

– Claro... – disse Maria, ainda sem acreditar que estava falando com uma estátua. – Mas aonde a gente vai? – perguntou Joaquim.

– Vamos para a Rua do Ouvidor! (p. 41)

A estátua sai pelas ruas do Rio de Janeiro explicando, às crianças e ao leitor, alguns fatos da vida de Machado de Assis e assim visitam lugares onde o autor viveu e contou suas histórias. A história apresenta ainda outras curiosidades sobre a vida de Machado: ele foi aprendiz de tipógrafo e quando escreveu Memórias póstumas de Brás Cubas estava com uma doença nos olhos, e por isso ele ditou o texto para que alguém escrevesse.

Depois de passarem por inúmeros lugares relacionados ao autor, a estátua volta ao seu lugar e os meninos, antes amigos, se tornam namorados.

A construção da narrativa está entranhada na história de Machado de Assis e tem o objetivo de fazê-la ser conhecida pelos leitores.

Os livros eram praticamente todos comprados na escola 2. Se em algum bimestre os títulos selecionados eram mais antigos, um aluno e outro às vezes trazia o livro que fora lido por seus irmãos mais velhos ou até mesmo por pais e avós

quando crianças. Essa possibilidade de troca de experiência entre os alunos e seus familiares é uma prática de valorização cultural da leitura que acontece na escola e encontra ressonância nas famílias. De acordo com Bourdieu (1979), trata-se de uma forma de transmissão de bens que os adultos julgam importantes de serem repassados às gerações futuras ligados à aquisição de conhecimento e compreensão de mundo, chamados por ele de capital cultural. A leitura, usada como um recurso de poder (Silva, 1995) passado dos pais aos seus filhos, evidencia uma forma de relação que tem na apreensão da cultura uma forma de destaque social.

Como os livros eram geralmente comprados no início do ano, muitos alunos tinham ainda em seu armário todos os livros juntos, mesmo os que seriam lidos somente meses depois. A professora comentava que alguns alunos, pelo acesso facilitado, aproveitavam para folhear e ver as imagens, conhecer do que falam as obras e possivelmente se interessar pela leitura. Na biblioteca da escola havia apenas um ou dois exemplares de cada obra adotada. Não era comum os alunos tomarem emprestados livros da biblioteca da escola, nem de bibliotecas públicas e nem comprar livros usados.

Os títulos selecionados apresentavam linguagem elaborada, com discursos construídos com períodos compostos articulados e vocábulos muitas vezes desconhecidos dos alunos, que faziam com que eles, nas leituras realizadas em sala de aula, perguntassem o significado à professora ou recorressem com frequência ao dicionário. Os dois livros tinham mais de 150 páginas cada, divididos em capítulos, com núcleos de ação bem determinados. Ambos eram narrativas fantásticas em que as personagens – quase todas em Tudo depende de como você vê as coisas e a estátua de um escritor famoso em Joaquim e Maria e a estátua de Machado de

Assis – viviam situações inusitadas de encontro com outras culturas. Apresentavam capas bastante coloridas, com papel interno grosso e pertenciam à editoras de prestígio, e por isso mesmo, eram de valor elevado.

Pela complexidade do enredo que trazem e linguagem empregada, os títulos escolhidos na escola 2 contribuem, a veu ver, para que alunos de 5ª série/6º ano façam a passagem de “leitor de adaptações ou de fragmentos para o leitor de textos originais e integrais” (BRASIL, 1998, p. 70). As atividades selecionadas pelas professoras é que determinam o trabalho a ser realizado com eles em sala de aula, como veremos a seguir.