Num contexto de importantes transformações era primordial resolver os problemas de insalubridade e de gerenciamento dos núcleos urbanos, que explodiam demograficamente devido à industrialização. Novos planos de modernização surgiram nos grandes centros urbanos da Europa e América do Norte e, consequentemente, nas principais capitais do Brasil. Esses planos caracterizavam-se como ações públicas que denotavam a presença do positivismo202 nas propostas de infraestrutura
urbana e dos modelos urbanísticos voltados para o saneamento e o transporte. É fato conhecido que os primeiros sucessos da engenharia brasileira se deram, ainda no século XIX, nos setores ferroviário, portuário e de saneamento203. No caso do setor
ferroviário, em especial no Noroeste Riograndense, a vinculação com os
202 Corrente filosófica que surgiu na França no começo do século XIX, tendo como principal idealizador o filósofo francês Augusto Comte (1798-1857). Esta escola filosófica ganhou força na Europa na segunda metade do século XIX e começo do XX, período em que chegou ao Brasil. A influência do comtismo se manifestou em várias províncias do Império desde os anos de 1860 e avançou pelas três primeiras décadas da República, com intelectuais e políticos mais ou menos afinados, com núcleo no Rio de Janeiro, que defenderam ideias e medidas públicas que ecoavam os preceitos do “mestre de Montpellier”, entre eles, Rocha Lima, Clóvis Beviláqua, Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, entre outros. Havia engenheiros, oficiais do exército, professores de Matemática e Ciências Naturais, seguido de administradores públicos e juristas, em cujas profissões predominavam os valores de ordem, método, organização, planejamento: prever para prover. Reformismo, mas não revolução: conservar melhorando (LINS, Ivan. História do positivismo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1967, p. 45).
empreendimentos de Herrmann Meyer foi fator relevante para a instalação da colônia Neu-Württemberg (conforme item 3.3).
O grande impacto das ideias positivistas no Brasil, porém, ocorreu no final do século XIX e início do século XX, caracterizando a engenharia e as administrações públicas, principalmente com a Reforma do Rio de Janeiro, de Pereira Passos, engenheiro e prefeito da capital brasileira. Tais ideias foram de tal forma aceitas no Brasil que chegaram a ser expressas na bandeira nacional, onde cintila o lema “Ordem e Progresso”. Em especial no Rio Grande do Sul204, as suas marcas foram além de
um lema, orientando e conduzindo diretamente a formulação da Constituição do Estado, assim como as influências nas mudanças de paradigmas urbanísticos e da arquitetura na capital e em novas cidades do Estado.
A base das ideias e preocupações que norteavam os profissionais técnicos e engenheiros ligados ao positivismo, porém, estava em torno de aspectos como a questão da circulação, destacada pelos traçados das vias públicas, na adequação de equipamentos prioritários, no adensamento e na insalubridade, na relação da capital com a região, do urbano com o rural. Conforme Souza205, isto permite estabelecer
uma aproximação entre os profissionais da Paris do início a meados do século XIX e dos engenheiros das cidades brasileiras do início do século XX. Em Paris, as ações de equacionamento dos problemas começaram com Haussmann a partir de 1852, enquanto as cidades brasileiras começaram a enfrentá-los a partir da Proclamação da República.
Os problemas eram a falta de saneamento urbano, circulação inadequada para os novos meios de transporte, falta de melhoramentos e embelezamento, embora com uma diferença significativa de tempo e contexto. Souza206 ainda destaca que o que
verdadeiramente diferenciava Paris quando Haussmann assumiu, é que a cidade já contava com um corpo técnico, preparado, com conhecimento e ideias para a renovação, surgidas de suas escolas e dos avanços na busca do progresso. No Brasil, as condições absolutamente diversas conduziam, inicialmente, os engenheiros a se
204 No Rio Grande do Sul, o positivismo começou a ser difundido inicialmente em sua vertente política por meio do Partido Republicano Riograndense (PRR), fundado em janeiro de 1882. Em 1883, o Apostolado Positivista do Brasil (APP) e o PRR estabeleceram relações, tendo como interlocutor comum o engenheiro Demétrio Nunes Ribeiro, um dos líderes dos republicanos gaúchos e ex-colega de Miguel Lemos (fundador do APB) na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (PEZAT, Paulo Ricardo. O club cooperador positivista Sul-Riograndense e a propaganda da religião da humanidade na cidade do Rio Grande (1891-1894). BIBLOS - Revista do Instituto de Ciências Humanas e da Informação. Rio Grande, 1999, v. 11, pp. 107-117. Disponível em: <http://www.brapci.inf.br/index.php/article/view/ 0000006368/8b1efbf6e55db459bc1cc6db4eca931a>. Acesso em: 21 ago. 2018).
205 SOUZA, Celia Ferraz de. O pensamento e a atuação dos engenheiros na modernização das cidades. IX Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. São Paulo, 2006, p. 5.
formarem na Europa, sendo a França e a Alemanha os países mais escolhidos. De lá traziam a base do conhecimento adquirido para as soluções dos problemas técnicos. Para a autora, é incontestável a ressonância das ideias provenientes das escolas europeias, na formação dos engenheiros que, no Brasil, pensavam a cidade. A propagação se dava de forma rápida e até o papel do engenheiro passava por uma transformação. Ele que estava voltado à realização de obras pontuais, passava pelo processo de decisão no campo político da cidade, da mesma forma como havia ocorrido com os engenheiros franceses há um século atrás.
No Brasil, a chegada da Corte Portuguesa, em 1808, propiciou a instalação do ensino regular de Engenharia no país, uma vez que sua presença passou a requerer obras militares e urbanas destinadas a melhor defendê-la e acomodá-la. Em 1810, o Príncipe Regente, futuro D. João VI, criou a Academia Real Militar no Rio de Janeiro que visava, além da formação de oficiais de Engenharia e Artilharia, também a de engenheiros, geógrafos e topógrafos. O caráter militar dos cursos de Engenharia permaneceu por várias décadas. Em 1858 foi criada a Escola Central e, apesar de ser dedicada ao ensino da Engenharia, tendo sido o ensino militar transferido para escola específica (Escola Militar e de Aplicação do Exército), ela continuava a ser um estabelecimento militar subordinado ao Ministério da Guerra. Apenas em 1874, a Escola Central se desvinculou das suas origens militares e passou a ser denominada Escola Politécnica, primeiro no Rio de Janeiro, depois em São Paulo (1894), contendo em seu corpo de disciplinas, matérias propostas pelos positivistas. Pode-se incluir nesta lista, a Escola de Engenharia de Porto Alegre, fundada em 1896207.
Este estudo, contudo, não procura investigar a formação das Escolas de Engenharia no Brasil, tampouco no Rio Grande do Sul, mas sim, se apropriar do aporte histórico e conjuntural no qual os profissionais técnicos engenheiros arquitetos estavam inseridos e que coincide com o período de instalação da Colônia Neu- Württemberg e com o início de seu desenvolvimento.
Picon208 refere-se aos seguidores da corrente filosófica criada pelo engenheiro
Saint-Simon209, a qual enaltecia a ciência, a indústria e o papel social do engenheiro
207 Id., ibid., 2006, pp. 5-6.
208 PICON, Antoine. Racionalidade técnica e utopia: a gênese da hausmannização. In: SALGUEIRO, Heliana Angotti (Org.). Cidades capitais do século XIX: cosmopolitismo, racionalidade e transferência de modelos. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 65.
209 Socialista reformista francês nascido em Paris (1760-1825), um dos principais socialistas utópicos e um dos fundadores do socialismo moderno, ao conceber uma sociedade futura dominada por cientistas e industriais. Criou um fervoroso grupo de adeptos, conhecidos como saint-simonistas, entre os quais figuravam políticos, banqueiros, engenheiros e escritores influentes, como o historiador Augustin Thierrye, o filósofo Auguste Comte, criador do positivismo (THIERRYE, Augustin. Filósofo Auguste
na construção e no progresso da sociedade. Utilizando-se dos mesmos fundamentos, Souza salienta que
[...] Foram esses engenheiros sansimonistas que deram a sustentação técnica e filosófica para a reforma de Haussmann em Paris, que prosseguiu até o início do século XX. Divulgaram suas ideias pelo mundo através dos movimentos republicanos, chegando ao Brasil pelo pensamento positivista implantado nas academias, em especial nas escolas de engenharia, onde encontrou um campo extremamente fértil ao seu desenvolvimento [...]210.
Ainda segundo Souza211, em relação ao enfrentamento dos problemas da
cidade, os primeiros passos vieram mesmo com a Proclamação da República e seu novo projeto urbano. A formação profissional que permitia tentar a solução desses problemas era a de engenheiro sanitarista. Entre eles se destaca Francisco Rodrigues Saturnino de Brito212 que, sem dúvida, foi um dos maiores nomes da Engenharia
Sanitária e a maior autoridade brasileira em planejamento de cidades da sua época. Saturnino, depois de minucioso e pormenorizado estudo das condições peculiares da cidade, elaborou um projeto para solucionar todos os problemas de drenagem e coleta de esgotos de Santos, considerada uma obra inédita pela Engenharia Sanitária do país, e que teve repercussão internacional, levando seu autor a ser proclamado “Patrono da Engenharia Sanitária do País”213. No Rio Grande do Sul, Saturnino de
Brito desenvolveu trabalhos de planejamento urbano em várias cidades gaúchas, tais como: Santa Maria, Cachoeira do Sul, Passo Fundo, Rosário, Santana do Livramento, São Leopoldo, Uruguaiana, São Gabriel, Irai, Alegrete e Pelotas, incluindo a cidade de Cruz Alta214, onde em 24/03/1916 foi criado o 8° Distrito, com a denominação oficial
de Neu-Württemberg.
Comte, criador do positivismo. Disponível em: <http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/SaintSim.html>. Acesso em: 21 ago. 2018).
210 SOUZA, Celia Ferraz de. Plano Geral de Melhoramentos de Porto Alegre: o plano que orientou a modernização da cidade. 2. ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Armazém Digital, 2010, p. 20.
211 Id., ibid., p. 12.
212 Conhecido como Saturnino de Brito (Campos,1864; Pelotas,1929), foi o engenheiro sanitarista brasileiro que realizou alguns dos mais importantes estudos de saneamento básico e urbanismo em várias cidades do país, sendo considerado o “pioneiro da Engenharia Sanitária e Ambiental no Brasil”. Em março de 1881, matriculou-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e, em 06 de abril de 1886, recebeu a carta de engenheiro civil. Participou da Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo, organizando projetos para Santos, Campinas, Ribeirão Preto, Limeira, Sorocaba e Amparo. No Estado do Rio de Janeiro atuou em Petrópolis, Paraíba do Sul, Itaocara e Campos. Realizou trabalhos de saneamento básico em Recife, Belém, Paraíba, Paraná e Rio Grande do Sul (SOUZA, Celia Ferraz de. Op. cit., 2006, p. 7).
213 ACERVO SATURNINO DE BRITO. Patrono da Engenharia Sanitária do País. Disponível em: http://acervosaturninodebrito.blogspot.com.br. Acesso em: 21 ago. 2018.
214 Fundada oficialmente em 18/08/1821, a criação do Município de Cruz Alta aconteceu em 11/03/1833. A Lei Municipal n° 1.130, de abril de 1978 criou o Distrito de Santa Bárbara, 4° Distrito de Cruz Alta, ao qual a atual área do município de Panambi pertenceu até 1916 (WEHRMANN, Bruno Guido. Efemérides de Panambi-RS. Panambi, RS: Emgrapan, 2015, p. 1).
Ainda em relação aos profissionais que atuavam nesse período e seus ideais urbanísticos, é indispensável relatar os principais engenheiros e arquitetos que atuavam na capital do Estado, Porto Alegre, uma vez que seus princípios e ideias influenciavam o planejamento dos municípios do interior do Estado.
Conforme o geógrafo Alfred Hettner215, Porto Alegre, no final do século XIX, se
constituía na cidade onde “cerca de 1/5 ou 1/6 da população” falava o idioma alemão. A presença de alemães no Sul do Brasil a partir de 1824, em decorrência da fundação da primeira colônia alemã de São Leopoldo, levou muitos imigrantes à capital do Estado. Segundo a historiadora Magda Gans216, os alemães estabelecidos em Porto
Alegre não faziam parte de um projeto articulado do Governo Imperial, como era o caso da colônia de São Leopoldo. A autora salienta que;
[...] predominava entre os teutos da capital a imigração direta da Europa, sendo irrelevante a remigração das colônias para Porto Alegre [...]. O perfil social dos teutos mostra ainda uma população socialmente bem situada, gozando de um bom padrão de vida [...]. Este perfil está bastante de acordo com a distribuição da população teuta no espaço urbano [...] inseridos majoritariamente na parte moderna da cidade que recebia os primeiros melhoramentos urbanos [...]217.
Esses imigrantes que se estabeleciam na capital possuíam formação profissional adquirida no local de origem, onde normalmente eram profissionais autônomos, como engenheiros, arquitetos, entre outros. Foram vários os profissionais que se estabeleceram na capital, porém, foi a partir do II Reinado que se destacaram os profissionais que realizaram as obras mais relevantes em Porto Alegre. Segundo Weimer218, o primeiro foi Phillip von Normann, que encarregado pelo governo da
Província, realizou a obra do Liceu Dom Afonso, em Porto Alegre (não existe mais). Outro arquiteto foi Friedrich Heydtmann, que projetou a cadeia da cidade ao lado do Gasômetro (implodida em 1960), o primeiro andar do Mercado Público (inaugurado em 1861, ao qual foi acrescido mais um andar (em 1912) e a Beneficência Portuguesa.
Wilhelm Arhons219 construiu a Escola Militar no Parque da Redenção e a sede do
215 FRANCO, Sérgio da Costa; NOAL FILHO, Valter Antonio. Os viajantes olham para Porto Alegre: 1890-1941. Santa Maria-RS: Anaterra, 2004, p. 52.
216 GANS, Magda Roswita. Presença teuta em Porto Alegre no século XIX (1850-1889). Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS/ANPUH, 2004, p. 13.
217 Id., ibid., pp. 211-212.
218 WEIMER, Güinter.Op. cit., 2004, p. 188.
219 Wilhelm Ahrons nasceu em Lüneburg, Alemanha, em 1836. Frequentou o ginásio de Hannover. Veio ao Brasil na condição de agricultor como muitos outros imigrantes, para trabalhar em Santa Catarina. Mais tarde passou a exercer a profissão de agrimensor, por meio do qual conseguiu juntar recursos para voltar à Alemanha (1860) e concluir seu curso de Engenharia Civil, porém não se sabe em qual escola. Ahrons regressou para o Brasil e instalou-se no Rio grande do Sul, onde exerceu várias funções
Banco da Província. Foi de sua autoria a “Planta da Cidade de Rio Grande” (1871) e o “Projeto de Melhoramento da Barra e Construção de um Porto no Rio Grande do Sul”, este último em parceria com José Joaquim de Carvalho Bastos. Segundo Alves, baseado na documentação da SOP220, dentro do regime da República,
[...] o primeiro projeto do cais foi organizado pelo Diretor de Obras Municipais, o engenheiro Wilhelm Ahrons, durante a administração do intendente Alfredo Augusto de Azevedo (1892-1895). Este cais teria como finalidade principal sanear o litoral, servindo como coletor de esgoto da cidade [...]221.
É importante salientar que, naquele momento, a capital passava por um processo de transformação em sua estrutura física, alterando sua paisagem, ou seja, a arquitetura até então colonial, foi cedendo espaço ao estilo eclético em uma onda de europeização do país. Originário da Europa no século XIX, o ecletismo abordava estilos arquitetônicos e elementos de diversas procedências, utilizando-os como modelos de forma isolada ou de coexistência. Segundo Foletto:
[...] o ecletismo diz respeito à posição do prédio em frente ao lote (quase totalmente projetado para a calçada da rua, ou encostado na casa ao lado), aos elementos decorativos, à existência de platibanda decorada, à imponência, à suntuosidade e à grandiosidade. Há unidade nos materiais utilizados (tijolos e argamassa), no sistema construtivo, na disposição das peças dentro da construção, nos tipos de aberturas e elementos decorativos pertencentes a estilos do passado aplicados com sentido decorativo [...].222
As imagens a seguir ilustram as transformações que ocorreram na capital no período da instalação da Colônia Neu-Württemberg, e confirmam a influência dos profissionais teutos e alemães quanto à arquitetura e ao urbanismo de Porto Alegre. Nos prédios públicos, a decoração tinha caráter solene e monumental (Figura 33).
públicas, entre as quais de Engenheiro Municipal em Rio Grande (1870-73), São Jerônimo e Porto Alegre. Faleceu em 1915 (BARRETO, Abeillard. Bibliografia sul-riograndense. Porto Alegre: Conselho Federal de Cultura, 1973, v. I, p. 20).
220 Secretaria de Obras Públicas de Porto Alegre.
221 ALVES, Augusto. A construção do porto de Porto Alegre (1895 -1930): modernidade urbanística como suporte de um projeto de estado. Porto Alegre: Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2005, p. 127.
222 FOLETTO, Vani T. (Org.). Apontamentos sobre a história da arquitetura de Santa Maria. Santa Maria, RS: Pallotti, 2008, p. 51.
Figura 33. Projetos urbanísticos de Friedrich Heydtmann e de Wilhelm Arhons
Legenda: A) Liceu Dom Afonso de Phillip von Normann; B) Casa de Cadeia; C) Mercado Público com a docas das frutas; D) Beneficência Portuguesa; E) Colégio Militar.
Fonte: Bastos (2017)223.
Lersch224 afirma esses profissionais ainda não pensavam a cidade como um
todo, mas já atuavam pontualmente em obras importantes da capital do Estado. Outro profissional de relevante importância foi Johann Grünewald, cuja especialidade era esculpir pedras e tornou-se o mais importante projetista de igrejas e colégios católicos. Entre as suas obras pode-se citar a Igreja Matriz de São Leopoldo, a primeira Igreja Neogótica do Estado e a Cúria Metropolitana, uma das obras de maior valor arquitetônico da capital225. O título de Dombaumeiter, porém, foi
adquirido pelo seu trabalho na restauração da catedral de Colônia.
Com a Proclamação da República, a imigração de profissionais da construção civil, arquitetos, engenheiros e técnicos, se tornou constante. Esses profissionais
223 BASTOS, Ronaldo Marcos. Porto Alegre: uma história fotográfica. Disponível em: <http://ronaldo fotografia.blogspot.com.br>. Acesso em: jul. 2017 (montagem da autora).
224 LERSCH, Inês Martina. Op. cit., 2014, p. 137. 225 WEIMER, Günter. Op. cit., 2004, p. 188.
A B
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traziam consigo, além do conhecimento técnico, a cultura germânica e seus costumes. Podem ser citados, ainda, Gustav Schmitt, Hermann Glotz, Adolf Flick, Edward Ernst Zeitlow e Johann Pünder. Segundo Weimer226, os arquitetos Julius Weise e Hermann
Glotz tiveram grande importância no desenvolvimento da construção civil da capital, pois fundaram empresas de construção civil.
Naquele momento de grandes transformações, o escritório de engenharia e construção de Wilhelm Arhons destacou-se como o mais importante do final do século XIX e início do século XX. Isso se acentuou com a atuação de Rudolf Arhons, filho de Wilhelm que, na primeira década do século XX, contratou o arquiteto Theodor Alexander Josef Wiederspahn227, mais conhecido como Theo Wiederspahn. Essas
empresas foram fundamentais, pois acolhiam os profissionais alemães e de outros países, que vinham para a capital e que passavam a atuar fortemente na arquitetura e no urbanismo do interior do Estado. Wiederspahn teve uma atuação expressiva na capital gaúcha e no interior do Estado. Suas obras tiveram tanta visibilidade e fama que ainda hoje é lembrado como o maior arquiteto gaúcho de todos os tempos.
Considerando o acesso e a circulação das novas tendências europeias, Gans228 afirma que já na segunda metade do século XIX, havia uma ligação bastante
atualizada dos teutos da capital com a Alemanha. Segundo a autora, “o acesso aos mais diversos periódicos europeus era bastante facilitado e os contatos econômicos com a Europa ou viagens dos mais afortunados, frequentemente anunciadas nos jornais, não eram raras”. Nesse contexto, Hermann Meyer se inseria, como geógrafo investigador, atuando fortemente como empresário influente e sócio proprietário do Bibliographische Institut de Leipzig229, tendo fácil circulação na comunidade alemã que
226 Id., ibid., p. 189.
227 Theodor Wiederspahn nasceu em Wiesbaden, Alemanha, em 19 de fevereiro de 1878. Formou-se na Koenigliche Baugewerbeschule, de Idestein, no distrito de Rheingau-Taunus. Iniciou sua vida profissional na Alemanha, construindo para uma firma de propriedade de seu pai. Dentre as dezenas de obras que realizou nesse período, somente cerca de 11 resistiram às duas guerras e foram declaradas de interesse histórico-cultural. Quatro delas se encontram legalmente protegidas. Em 1908 emigrou para o Rio Grande do Sul, fixando residência em Porto Alegre, onde já morava o seu irmão Heinrich Josef. Logo empregou-se na condição de arquiteto responsável pelo Departamento de Projetos do Escritório de Engenharia Rudolf Ahrons, seguramente o mais importante construtor no Estado do Rio Grande do Sul antes da Primeira Guerra. Nessa firma permaneceu de setembro de 1908 até dezembro de 1915, quando ela encerrou suas atividades. Passou, então, a trabalhar como profissional autônomo, transformando-se em um dos arquitetos mais solicitados da cidade e do Estado (DELFOS. Espaço de Documentação e Memória Cultural – PUCRS. Disponível em: <http://www.pucrs. br/delfos/?p=theo>. Acesso em: dez. 2017).
228 GANS, Magda Roswita. Op. cit., 2004, p. 117.
229 Após o fim da guerra, em 1956, com a divisão política da Alemanha, os acionistas da firma transferiram a sede para Mannheim, no Estado de Baden-Württemberg, na então República Federal da Alemanha. Por fim, em 1984, os dois maiores institutos bibliográficos da Alemanha fundiram-se em um