Após a década de 1960, grandes armadores proprietários de traineiras se fixaram em
Santos e no litoral de Santa Catarina, principalmente em Itajaí, que são, hoje, os locais de
maior número de desembarques de sardinha no país e para onde vai parte da mão-de-obra
proveniente de pescadores das antigas comunidades caiçaras da costa paulista. A saída de
pescadores caiçaras de suas vilas para trabalhar na pesca industrial é comentada por um
pescador de 58 anos, da praia de Picinguaba, que se iniciou na pesca da traineira em Santos
com 13 anos de idade e pescou até 1988, quando voltou para Ubatuba.
“Eu comecei na traineira já, saí de casa com 13 anos de idade. Saí de casa, de Picinguaba e fui trabalhar em Santos. A gente trabalhava em Santos, descarregava em Santos, descarregava em Ubatuba, onde achava pescaria você acertava, né, onde tem pescaria você vai com o barco, né... Você mata a produção, aí vem
192
descarregar em Santos, Ubatuba, São Sebastião, são três portos que descarrega a pescaria, e Angra dos Reis.
[Pergunto se há muita gente de Picinguaba que sai para trabalhar em traineira]: Tem
bastante, aqui metade do povo vai trabalhar pra Angra, no barco do Isaque em Ilha Grande. É barco grande de pesca de sardinha e a metade que tão na corvina tão por aqui mesmo.(...) O pessoal mais velho vão pra traineira que já tão trabalhando né, e algum mais novo. Mas os pessoal mais novato, eles tão aqui mesmo na corvina”.297
Durante nossos trabalhos de campo encontramos uma traineira catarinense
desembarcando pescado num entreposto particular em Cananéia (Fotos 65-69), onde esteiras
mecanizadas transportavam o pescado diretamente do barco para o entreposto em que, ao
mesmo tempo, diversas mulheres trabalhavam na limpeza do pescado (Fotos 65-66). Fato
interessante se passou no local, pois, como a traineira estava posicionada num cais dentro do
entreposto (que era particular), só nos foi permitida a entrada se fotografássemos somente a
traineira, isto é, não poderíamos fotografar o trabalho de processamento dos peixes,
provavelmente por alguma razão trabalhista, já que presenciamos menores de idade
circulando pelo local. Entretanto, por acaso, na fotografia tirada no interior da cabine de
comando da traineira mostrando os equipamentos de navegação, podemos observar, na janela,
as mulheres trabalhando no local (Foto 72).
Segundo um pescador embarcado local que prefere trabalhar em outros tipos de
barcos, não há traineiras em Cananéia, elas vêm de outras regiões, principalmente de Santa
Catarina, para onde alguns pescadores se deslocam e trabalham muitos dias no mar, atividade
que, segundo ele, é muito desgastante e não compensa financeiramente:
“Tem pessoa que trabalha com traineira aqui, mas só que não tem traineira. São pessoas que saem daqui pra trabalhar em outro lugar com traineira. Cada 15 dias, cada mês, eles vêm, passam com a família e sai de novo. Pra você ganhar dinheiro na traineira, tem que matar mais de cem tonelada. Imagina, mais de 100 tonelada! Nós mata ali uma tonelada e meia., dois... [Porque tem] muita despesa do barco. Trabalha em 28, 27 pessoas numa traineira. É grande.”298
Na traineira que estava desembarcando, conversamos com um operador de máquinas
da embarcação (motorista), nativo de Garopaba e morador de Itajaí, com 56 anos de idade.
Segundo ele, desde os oito anos de idade seu pai o colocou para trabalhar com a pesca numa
traineira pequena, com rede puxada manualmente:
297 Relato de Benedito Saturnino Mariano, 58 anos, Ubatuba, SP, 26/03/2013.
193
“Desde idade de 8 anos, meu pai já botou eu... Não queria estudar, já era. E tinha a traineirinha manual, nada industrial, tudo manual. Hoje é tudo industrial, mas, na época que eu peguei pra trabalhar com meu pai, era tudo manual”.299
O mesmo pescador comentou sobre quais os peixes que são capturados pela traineira
além da sardinha, que no momento estava proibida de ser pescada por estar no período de
defeso (proibição temporária da pesca das espécies em período de reprodução), e depois
explicou como é executada a pesca com a traineira:
“É peixe de cardume. Agora nós estamos no defeso da sardinha, sardinha a gente não pode capturar. Então captura outros peixes: palombeta, xaréu, xarelete, que não tá em defeso, a gente pode trabalhar. Localiza o cardume e faz o cerco. Nessa época a gente tá trabalhando nesse tipo de peixe, a palombeta, daí é permitido”. Onde tem a pesca de traineira, até 15 de fevereiro, nós tamos no defeso da sardinha.(...) Tamo vendendo o peixe aqui porque é o seguinte: a gente tem um gasto muito grande de óleo diesel, então aqui nós levou duas horas pra vim aqui, pra ir pra Itajaí nós ia levar 20 horas. Então é mais vantagem o peixe tá aqui nessa região, a gente entrar aqui e desovar o peixe aqui, entendeu? 25 toneladas. (...) A rede ela tem 420 braças de comprimento, com 50 metros de altura. (...) O esquema é assim, nós temos uma panga, um bote, mas o nome certo é panga. Aí uma ponta da rede fica nela, ali de cima mesmo ele cai, aí quando localiza o cardume no sonar, prepara a rede, vai dois caiqueiros dentro dessa panga e, na hora que localiza o cardume, a gente deixa... o bote que eu tô falando, a panga fica com a ponta da rede, a gente faz todo o círculo, aí encosta ali novamente, e aquela ponta de rede que tava na panga vai pra proa, e a outra que nós temos, chegou no barco, cruza, a rede fica cruzada, uma ponta pra lá e outra pra cá. Depois (...), a carregadeira, ela fecha igual um funil embaixo. Depois que fechou ali, a gente começa a panear a rede, faz todo o processo até chegar no sacador, que é na hora que vai começar a saricar o peixe pra botar pro outro. Um lance pra 10, 15 toneladas, dá em torno... de chegar as carregadeiras em cima do bordo do barco, aqui, saricar e gelar, em torno de uma hora e meia, duas horas o trabalho.(...) Nós saímos no sábado, já voltemo ontem mesmo. A traineira é assim, imprevisível, pode chegar ali, dá um lance pra 100 toneladas, pode passar 5, 6 dias procurando... (...) A capacidade [do
barco] é pra 35 toneladas”.300
299 Relato de Paulo Roberto de Souza, 56 anos, Cananéia, SP, 23/01/2012.
194
Foto 65 - Traineira descarregando pescado com auxílio de esteira mecanizada, Cananéia, SP (Foto: