Jesus afirma que sua missão é anunciar a ‘boa notícia’ aos pobres. Quando ele convida colaboradores, deixa claro a eles que essa é a missão. Desde o primeiro momento, ele envolve seus colaboradores na missão.
Havia outros movimentos que, como Jesus, procuravam uma maneira alternativa de viver: essênios, fariseus e, mais tarde, os zelotes. Muitos deles também formavam comunidades de discípulos e procuravam adeptos. Dentro da comunidade de Jesus, porém, havia algo novo que a diferenciava dos outros grupos e que dava consistência ao anúncio da Boa Nova. Era a atitude ante os pobres e marginalizados. (CRB, 1994, p. 32- 33).
Os fariseus e os escribas consideravam o pobre como ignorante e maldito:
esse povinho que não conhece a lei é maldito (Jo.7,49) e cheio de pecado: Eles disseram: “Você nasceu inteirinho no pecado e quer nos ensinar?” e o expulsaram.
(Jo. 9,34). Jesus, desde o início de sua missão, deixa claro que sua ação não tem por base qualquer bem material e que ele mesmo nada possui. Pelo seu modo de viver, portanto, Jesus começa a subverter o sistema vigente; ele denuncia todo o
sistema de exploração existente e mostra que a exclusão dos pobres dos bens da terra é contrária à vontade do Deus que os Judeus adoravam.
Ele foi a Nazaré onde fora criado e, segundo o costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; abrindo-o, encontrou o lugar onde está escrito: O Espírito do
Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar o ano da graça do senhor. Enrolou o livro, entregou-o ao servente
e sentou-se. Todos na sinagoga olhavam-no, atentos. Então, começou a dizer: ”Hoje realizou-se essa escritura que acabastes de ouvir”. Todos testemunhavam a seu respeito e espantavam-se das palavras cheias de graça que saíam de sua boca. (Lc. 4, 16-22).
Jesus deixa claro que a religião vivenciada pelos grupos políticos e religiosos de sua época era falsa e hipócrita; ele radicaliza a lei: não pensem que eu vim abolir
a lei e os profetas. Não vim abolir, mas dar-lhe pleno cumprimento (Mt. 517), isto é,
ele a reduz à sua raiz que é a prática do amor a Deus a ao próximo. Em sua pregação Jesus mostra que o Deus inacessível dos fariseus e escribas é falso, pois o Deus verdadeiro ama os pobres e sofredores, dando especial atenção às suas dores. Não esconde a ninguém que os destinatários privilegiados de sua mensagem são os cegos, doentes, pobres, presos e oprimidos, ou seja, todos os rejeitados, abandonados e discriminados pela sua sociedade e principalmente pelos representantes da religião e do templo. Com isso, a ideologia dos grupos dominantes é desmascarada e as pessoas que até então se sentiam à margem de tudo passam a admirá-lo e muitos deles a segui-lo. Eles percebem claramente a diferença e a novidade do anúncio e o aceitam com entusiasmo: Este é
verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo (Jo. 6,14).
Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, partiu dali e, dirigindo-se para a sua pátria, pôs-se a ensinar as pessoas que estavam na sinagoga, de tal sorte que elas se maravilhavam e diziam: ”De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem todas entre nós? Donde então lhe vêm todas essas coisas? (Mt. 13,53-56)
Logo os grupos dominantes percebem que as classes populares estavam despertando para a verdadeira realidade e começaram a sentir-se ameaçados; compreenderam que a morte de Jesus era necessária para que continuassem no poder.
4. A Palavra ‘Pobre ou Pobreza’ no Vocabulário Cristão
Por um lado, esta palavra significa a simples carência de bens, que incapacita o ser humano para as tarefas da vida. Esse é o sentido corrente que a palavra costuma ter. E, nesse sentido, a pobreza é considerada um verdadeiro mal. A simples carência de bens não é uma virtude cristã. Outras formas de carência, que privam o ser humano de sua realização também são rejeitadas pelo evangelho, pois a vida só se desenvolve através do uso e emprego dos bens terrenos.
É precisamente pela utilização das coisas que a liberdade se desenvolve e o homem adquire conhecimentos e domínio de si mesmo e do mundo. As conseqüências são ainda mais claras quando se trata de bens espirituais. Graças a eles, o homem alcança a sua plenitude, conhece o mundo, sabe dispor dele e orientar sua vida inteira para uma profunda satisfação. Muitas vezes, os miseráveis, que nada conhecem, desenvolvem-se mutilados por falta de meios, vivendo em clima de ressentimento diante da abundância que constatam naqueles que os cercam, pois, sentem que, com esses meios, eles teriam sido capazes de multiplicar de forma extraordinária as suas capacidades. A bíblia considera detestável esse aspecto da pobreza. Contudo a bíblia vê os perigos da riqueza... À medida que crescem as riquezas do povo, elas se tornam fontes de injustiça e os pobres começam a ser oprimidos pela força crescente e cega do dinheiro. (Idígoras, 1983, p. 375-376)
Jesus viveu num ambiente de pobreza; sua cidade natal, seus amigos, sua família. Sua opção foi claramente pelos pobres de condição econômica. Entre eles viveu e a eles pregou preferencialmente. Os principais ouvintes e seguidores de sua mensagem foram os pobres. Quando Mateus narra em seu evangelho as diversas atitudes dos homens diante Jesus, os humildes e pobres são quase os únicos que tomam uma posição positiva diante dele. “Eu te louvo ó Pai, Senhor do céu e da
terra, porque escondestes essas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos” (Mt.11,25). E o próprio Jesus se apresenta como mestre manso e
humilde de coração ao conclamar os pobres para o seu seguimento. O ensinamento de Jesus corresponde ao seu modo de vida. Ele deixa claro que o pobre que entende sua proposta é aquela pessoa de coração humilde e ânimo generoso.
Sempre foi difícil entender o sentido da pobreza evangélica e sua diferença fundamental em relação à simples carência de bens humanos ou dons humanos. Ao contrário dessa pobreza, aquela que é pregada por Jesus é uma atitude livremente escolhida e amada como fonte de realização espiritual e humana. Existe certamente uma relação entre ambas, à medida que pressupõem uma ausência de riquezas. Mas, por outro lado, elas se contrapõem abertamente. Poderíamos dizer até que a pobreza evangélica,
em sentido muito profundo, é uma grande riqueza humana... A pobreza cristã sempre pressupõe a posse de algum bem ou sua possibilidade da qual nos desfazemos generosamente para nos colocarmos a serviço dos irmãos. O protótipo dessa posição é Cristo, que, possuindo a riqueza suprema, despojou-se dela em benefício de seus irmãos pobres. Todo cristão deve viver a pobreza na abertura de seu coração e de seus bens aos outros. (idem, p. 376).
Embora a pobreza evangélica não se reduza à carência de bens, sabe-se que tem relação com ela. Quem tem o coração aberto aos outros e sede de justiça não é cativo do dinheiro. Quando é sincero e fraternal, um ser humano pode até ter um bom nível de vida, mas não será um acumulador de riquezas. É por isso que o evangelho causa estranheza para aqueles que identificam o progresso com a abundância de riqueza e a felicidade com a acumulação de bens.
Ao mesmo tempo a pobreza evangélica também exige que não se confie na riqueza religiosa, ou seja, numa atitude de segurança, com base em seus pretensos méritos e justiça. Essa atitude altiva e auto-suficiente é própria dos fariseus. A pobreza também diz respeito aos dons espirituais. Diante do fariseu orgulhoso, o publicano reza com autêntico espírito de pobre.
Para alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezava os outros, Jesus contou esta parábola: ”Dois homens subiram ao templo para rezar; um era fariseu e o outro era cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. Eu faço jejum duas vezes por semana e dou o dízimo de toda a minha renda. O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ Eu declaro a vocês: este último voltou para a casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha, será elevado”. (Lc.18, 9-14) .
Jesus coloca o dinheiro como meio e não como fim. Diz que ninguém pode servir a seu projeto e ao dinheiro ao mesmo tempo, pois ninguém pode servir a dois senhores. Os fariseus amigos do dinheiro ouviam tudo e zombavam dele. Portanto, Jesus considera o verdadeiro pobre, muito mais aquele que está disposto a arriscar a própria vida em vista de um mundo mais justo e fraterno, do que aquele que é simplesmente carente de bens materiais. Por isso, apesar de dar uma atenção especial aos mais marginalizados da sociedade, muitas pessoas que possuíam bens também faziam parte dos seguidores de Jesus.