2.15.1 O luxo “verde” e o cenário sustentável
As discussões a respeito do modo como estamos consumindo muito rapidamente nossos recursos naturais e prejudicando o meio ambiente está cada vez mais nas pautas da mídia, porém como o mercado de luxo se posiciona diante desta situação?
No geral, aproveitando um novo filão de mercado, diversas marcas de artigos de luxo estão lançando produtos considerados “verdes”, ou seja, se caracterizam por utilizar em sua composição matérias-primas biodegradáveis, produtos recicláveis, isentos de metais pesados, com o mínimo de possibilidade de criar impactos pesados sobre o já tão fragilizado meio ambiente, entre outros atributos que são qualitativamente informados aos consumidores. Apesar de serem mais caros, são considerados bem-vindos ao passo que trazem consigo uma mensagem de engajamento, mesmo que individual, a uma causa em especial, um compromisso coletivo para com o mundo em que vivemos.
Numa tendência geral, a procura por parte dos consumidores está estimulando cada vez mais as empresas a buscarem alternativas interessantes e válidas para atender ao público mais consciente ávido por opções de produtos mais adequados à realidade de um meio ambiente bastante degradado e frágil, graças a muitas de nossas ações danosas. Tudo aquilo que fazemos ou consumimos geram impactos à natureza, por isso da necessidade de que eles sejam sempre os menores possíveis.
Exemplos sobre esta temática não faltam. Carros de luxo movidos a energia elétrica e biocombustíveis, pedras preciosas sintéticas feitas com resinas vegetais, móveis produzidos com madeiras.
Luxo e desenvolvimento sustentável partilham valores comuns, que são a intempestividade de valor duradouro, e a passagem de conhecimento, bem como a proteção dos talentos e recursos naturais. A qualidade do luxo é baseada em materiais finos, o respeito do material, e para o artesanato em si, que resultam em um raro e belo objeto. Tal como luxuoso, o desenvolvimento sustentável baseia-se na sua essência no respeito pelos recursos naturais e com os seres humanos. Por último, luxo e o desenvolvimento sustentável possuem duas partes essenciais: intempestividade e a continuidade do conhecimento.
Luxo sustentável deve ser uma convicção, tem que fazer parte da identidade e responsabilidade da empresa. Toda a cadeia produtiva de fornecedores deve abraçar essa expectativa como uma necessidade. Ninguém hoje seria capaz de negar a existência do aquecimento global, a ameaça para a biodiversidade, nem o equilíbrio da equação energética e como a população mundial continua a crescer exponencialmente. Este não é mais um tempo de reflexão, mas de ação. Os clientes serão cada vez mais conscientes dessas questões e mudarão os seus próprios critérios de compra. A incapacidade de cumprir com as exigências do desenvolvimento sustentável poderá resultar nos clientes evitando uma marca.
Além disso, segundo François-Pinault (2003), o desenvolvimento sustentável incentiva a inovação tecnológica, representando uma magnífica oportunidade. “Temos que renovar os nossos esforços para encontrar soluções economicamente viáveis que também são favoráveis para a natureza e as pessoas”.
2.15.2 O lixo do luxo
Apesar do requinte, a produção e o descarte de artigos de luxo são uma realidade que muitas vezes passa à margem de consumidores e daqueles que lidam
diretamente com este mercado. Assim como todos os produtos, o uso e o tempo fazem o item se desgastar gradativamente até não apresentar interesses ou condições de uso adequadas.
Uma característica clássica dos artigos de luxo é que, por possuírem um alto valor agregado, mesmo antigos ou usados ainda apresentam uma sobrevida bastante interessante, podendo ser guardados ou doados para outras pessoas – geralmente apreciadores com menor poder aquisitivo. Ou seja, numa tendência geral, os produtos conseguem se manter em uso por mais tempo, podendo ser utilizado até o desgaste a ponto de comprometer a vida útil do artigo inviabilizando seu uso.
Não há, no caso dos produtos desgastados, um modo adequado de descarte, sendo o lixo diário o destino de descarte mais comum.
No caso principalmente de roupas, sendo extremamente vulneráveis às estações climáticas e tendências da moda, um dos destinos mais comuns são os famosos brechós, onde as roupas são vendidas ou trocadas para revenda a preços mais em conta, mantendo o sistema funcionando e os guarda-roupas atualizados conforme as necessidades e interesses de seus consumidores.
Outra forma de “lixo” seriam as sobras de estoque encalhadas nas fabricantes ou nas lojas. Tais rejeitos novos são tratados com extremas peculiaridades de acordo com as políticas de cada marca. Por exemplo, roupas e acessórios de empresas como a Dolce e Gabbanna são frequentemente utilizadas em saldões do luxo, onde as pessoas podem comprá-los com excelentes descontos; já a Louis Vuitton apresenta a peculiaridade de recolher suas sobras para envio a lojas em países em desenvolvimento, reutilização das matérias-primas ou então simplesmente a incineração. Isso porque, para marca, é mais interessante
destruir um produto novo do que dar um desconto muito grande e facilitar com que ele atinja classes mais baixas e ao mesmo tempo perdendo seu glamour, o que pode vir a ser um prejuízo intangível.
Muitos itens de luxo são negociados e vendidos quando não apresentam mais interesse para seus donos, a partir do momento em que podem vir a gerar novos recursos para compra de itens novos.
Quanto ao processo de produção, geralmente são baixos os níveis de desperdício. Como são produtos feitos por profissionais e artesãos altamente qualificados, utilizando matérias-primas nobres e conseqüentemente caras, é muito interessante às empresas reduzir ao máximo o desperdício e o custo de produção. Desse modo, poucos detritos são gerados e, quando possível, os restos são empregados todos na produção de itens menos nobres e revendidos mais baratos, apenas para não haver perdas consideráveis (a exemplo do couro).
Embora implique em maior utilização dos produtos e menores índices de perdas em produção, os consumidores e empresas que lidam com o luxo precisam adequar suas posturas para que haja um consumo sobretudo racional e capaz, no que tange ao lixo, de causar menos detritos e permitir com que eles sejam facilmente descartados e biodegradáveis, evitando a constituição de uma herança maldita para as próximas gerações.