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4.4 Three Dimensional Operations

4.4.4 Auxiliary coupling between LEM domains

De acordo com Brandão (apud MMA, 2005) a aprendizagem acontece em dois momentos de socialização. O primeiro no período do nascimento e da infância quando há descoberta do próprio corpo ou nas relações maternas e paternas. O segundo período é simultâneo ou seguido da saída desse ambiente familiar para o convívio social com os diferentes seja em grupos de amigos, escolar, momentos de lazer, etc. Embora ao falarmos de aprendizagem muitas vezes o imaginário social remeta ao ambiente escolar, este é apenas um dos variados ambientes que permitam a troca com o outro, o social. Ainda segundo o autor,

“Quase tudo que nós vivemos em nossas relações com outras pessoas ou mesmo com o nosso mundo, como no contato direto com a natureza, pode ser também um momento de aprendizado. Podemos não estar conscientes disto, mas cada troca de palavras, cada troca de gestos, cada reciprocidade de saberes e de serviços com uma outra pessoa, costuma ser também um momento de aprendizagem. (p. 86)

Foi nesse sentido que buscamos compreender na constituição, na dinâmica e ritos das Bicicletadas os processos de aprendizagens inerentes a esse grupo. Dada a diversidade de interesses e significados de cada participante, a cultura local e regional, as situações e dramas sociais vivenciados, conforme evidenciado nos capítulos anteriores, as aprendizagens são diversas.

No capítulo III, nas falas dos participantes da roda de conversa aparecem dois grupos de sujeitos participantes das Bicicletadas que se diferenciam quanto ao tempo de envolvimento com seus respectivos grupos, tipo de participação e frequência nos encontros. Há ainda outros dois grupos que nunca participaram e se aproximam do grupo frente aos interesses comuns seja pelo uso da bicicleta ou pelo aspecto libertador e libertário dos coletivos. Sendo assim, é possível afirmar que as Bicicletadas não são amorfas, portanto, há movimentação de interesses e papeis que, nesta dinâmica, se dão como trocas de saberes, onde o que educa é educado e o educando também é educador.

30 Compositor popular das ruas de Curitiba. Participa das Bicicletadas há muitos anos. Gravou vários CDs e músicas sobre bicicletas e Bicicletadas. Imperdível!

Sendo assim, os aprendizados são diferentes bem como os significados atribuídos e a motivação de fazer parte do coletivo.

Tais situações foram melhor detalhadas no capítulo IV, na descrição da Bicicletada Brasília, na análise dos ambientes virtuais e presenciais percebidos principalmente no diálogo, na elaboração dos recursos de comunicação e nos rituais de passagem e de aprendizado.

Muitos dos participantes começam a utilizar a bicicleta no dia a dia a partir do encontro com as Bicicletadas, pois afirmam que lá aprenderam a pedalar no trânsito ou superaram seus medos. Aparecem também relatos sobre a importância do coletivo para encorajar e manter a atividade.

O encontro com o outro desconhecido, o fazer amigos ou encontrar os amigos são falas comuns que fazem sentido na medida em que, mais que fazer amigos, o espaço torna-se local de trocas de conhecimento e também perturbações das certezas. Os pequenos círculos de conversação que se formam são onde acontece essa relação mais próxima. Mediada pela afetividade e interesses comuns, às vezes, apenas trocas de informações passam a ser muito mais que isso, tornando possibilidades de reencontros na potencialização de ideias para a ação.

Também há aprendizagem política, do convívio com a diferença, o saber dialogar e interpretar as visões de mundo. Arendt (2010) compreende os espaços políticos como aqueles que acontecem entre as pessoas com a intenção de discutir e fazer algo em prol de um todo. Embora em nosso imaginário estes muitas vezes estejam vinculados com a figura do Estado, de controle social, da política convencional, espaço excludente, a autora desconstrói esse caráter e traz à discussão os espaços políticos e do fazer política cotidianamente por meio de relações estabelecidas entre os seres humanos singulares em situação de igualdade.

Nesse sentido, as Bicicletadas são a própria desconstrução e um reaprender a fazer política, quando na sua forma constituem e são constituídas de processos políticos e se assumem como espaço aberto de discussão e ação. Estimulam a participação, algo que na cultura e educação brasileira não é fomentado e ainda assim em muitos setores é privilégio de poucos.

Paulo Freire afirma que toda educação é política, porque toda ela é práxis, é reflexão e ação, se dá em comunhão entre seres humanos para sua libertação mediatizados pelo mundo, a realidade que nos move. Assim como Arendt, que traz o conceito da natalidade, o nascimento do ser humano para o mundo, Freire nos coloca o

processo de libertação como o se fazer existir no mundo, de reconhecer-se sujeito, do ser mais.

A vivência na Bicicletada desestabiliza, provoca a ousadia e o uso da criatividade. Faz com que os participantes se movam saem da zona de conformismo para tomarem iniciativa. Isso também é aprendizado!

Embora muitas vezes negligenciado, outro aspecto interessante de aprendizado é o uso do corpo. Nas Bicicletadas os participantes utilizam seus corpos, nas ações como no pedalar pelado, no uso de adereços ou no risco que assumem ao ‘enfrentar’ o trânsito opressor das grandes cidades. Sennett (2005) traz que as cidades e os corpos se compõem e decompõe simultaneamente, pois são dependentes um do outro. Afirma que “estamos condenados à privação sensorial pelos projetos arquitetônicos dos mais modernos edifícios, e a passividade, a monotonia e cerceamento tátil que aflige o ambiente urbano” (p. 15). Para o autor, o corpo humano está passivo e inerte quanto a experimentações, tornando as pessoas apáticas e inconscientes uma das outras. Revela ainda que os locais e espaços físicos são determinantes para o tipo de relação que estabelecemos uns com os outros, porém estes tem sido cada vez mais alienantes. Sendo assim, é somente na mudança de relação que estabelecemos com os espaços e a maneira como nos inserimos nele é determinante para a aproximação ao outro. Nesse sentido, as Bicicletadas cumprem muito bem o papel de chamar a atenção sobre os corpos que pedalam, ou sobre a vida que existe sobre as duas rodas. Fazer a bicicleta girar e mover no espaço com a própria força desperta sentidos corporais, o cuidado e autonomia sobre os corpos.

Sobre a constituição das Bicicletadas e a inserção delas no meio urbano, Duarte e Santos (2012) apresentam uma leitura muito próxima a esse estudo, embora não se atendem profundamente para a questão das aprendizagens. Reconhecem que as Bicicletadas como espaços de autotranformação e transformação do mundo e as denominam como coletivo eco estético político, embasados na teoria de Arendt e Foucault. Nesse sentido nossas discussões corroboram sobre a forma como se apresentam e as ressignificações sobre o uso do espaço público, um novo jeito de viver a cidade e se relacionarem.