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Article III - Dimensional Decomposition of Turbulent Reacting

Na educação crítica, forma e conteúdo correlacionam-se dentro de uma realidade, no ato educativo, onde a finalidade da educação está implícita (Pinto 1991). Portanto, forma e conteúdo estão imersos num processo histórico a serviço do social. Ou seja, devem estar situados com problemática da sociedade a fim de que haja uma mudança da condição humana como possibilidade de transformação. É nesse sentido que emergem os conteúdos das Bicicletadas, na sua forma de (des)organização, em meio a uma caótica teia de relações de ideias e ideais. Se os temas geradores não são de fato um processo intencional de ensino, muitas vezes não dialogados, é por conta da sua forma, entre acordos e desacordos, que não esvazia, mas preenche um saber de convivência, democracia e participação.

Sob o ponto de vista das linhas pedagógicas, identificamos nas Bicicletadas as tendências progressistas de educação: libertadora e libertária. Essas tendências partem de uma análise crítica das realidades sociais e estão à margem da sociedade. Embora tenham sido intensamente discutidas a partir dos anos 70, segundo Libâneo, apud Gadotti (1987) estas jamais conseguiriam firmar-se como uma educação hegemônica em uma sociedade capitalista, pois são instrumentos de luta por transformações sociais.

Ambas apresentam como características a educação popular definida por Paulo Freire como “a prática política entendida e assumida na prática educativa.” Esta educação não está condicionada à questão etária, mas à opção política do educador, assim como não tem a ver com o espaço em que é praticada, podendo ser na educação formal (escolas) ou espaços informais de educação. (BARRETO)

Embora as Bicicletadas não tenham objetivos explícitos ou sistematizados de educação, reconhecemos nesse espaço elementos indicadores de uma prática pedagógica política, transformadora e emancipatória presentes desde os princípios norteadores geradores da prática anarquista, ou seja, da educação libertária até ao desenvolvimento de rituais de aprendizagem coletiva, círculos de cultura, por exemplo, que a aproxima do processo da educação libertadora do educador Paulo Freire.

De acordo com Gallo, 1994, a tendência libertária de educação tem como inspiração a filosofia política anarquista que, meio a uma gama de concepções, apresentam quatro princípios geradores: a autonomia individual, a autogestão social, o internacionalismo e a ação direta. Esses princípios estão fortemente relacionados às concepções e práticas das Bicicletadas.

A autonomia é experienciada quando o sujeito na sua singularidade sente-se parte de um todo social e age sobre ele, exercendo papeis fundamentais no coletivo.

Nesse sentido, a autonomia está relacionada com o social, pois não existe sujeito sem a sociedade e sociedade sem sujeito. A autogestão é realizada a partir dessa autonomia e da ação do sujeito, na vivência de uma organização horizontal onde todos agem no/para/com o grupo. O internacionalismo está circunscrito na problemática globalizante. Nesse sentido, existe uma rede mundial solidária que age sobre assuntos de ordem global, social e econômica, extrapolando as barreiras de estados e continentes. Apesar de o grupo agir localmente, as demandas emergentes são de ordem planetária. Entendem a humanidade como um todo, por isso não basta resolver um problema local se este é mundial. As ações diretas são práticas desse coletivo, que geram produtos ou através de elaboração de cartazes, ou por meio de panfletos, fanzines, ocupação de espaços públicos e instalações. Por meio de produções artísticas ou textuais o mundo é pronunciado. Essa pronuncia vem acompanhada de denúncias e análises críticas sociais. Está diretamente relacionada com a ressignificação do uso do espaço urbano, seja no colorir desses espaços, na ocupação de áreas públicas e revitalização das mesmas, ou na ocupação das vias normalmente tomadas por automóveis. Mesmo que momentaneamente exerçam transformações locais provocativas de reflexão.

Ainda segundo Gallo “na perspectiva de educação anarquista, a única educação revolucionária possível é aquela que se dá fora do contexto definido pelo Estado, sendo esse afastamento já uma atitude revolucionária.”

A forma como se organizam, sem lideranças definidas, objetivos explícitos e a espontaneidade assegura a esses grupos o distanciamento necessário contra possíveis cooptações do Estado, fato que vem marcando profundamente os movimentos organizados.

A clareza dessas concepções políticas e práticas sociais na maioria das vezes está restrita aos sujeitos que participam com assiduidade do grupo nos encontros presenciais ou nas listas de discussão virtual e que involuntariamente tornam-se referências para outros participantes. Na concepção libertária de educação, a autoridade é importante quando exerce papel de conservação de uma história e tradição para a superação da mesma na experiência de princípios do movimento que são passados pelos participantes mais antigos. Para tanto, autoridade não está relacionada com autoritarismo, na relação sujeito objeto. A relação de autoridade é de confiança e respeitosa entre sujeitos singulares.

De certo, este é um desafio para veteranos, a transmissão e problematização das memórias do movimento e significá-lo diante da realidade. Essa transmissão não é

simplesmente um depósito de informações, mas tem início no diálogo na construção e reflexão. Embora de maneira implícita, ou muitas vezes inconscientemente, são nos rituais dos encontros que acontece a passagem da tradição, compreendidos na prática libertadora de educação.

Embora Paulo Freire tenha sistematizado experiências de ensino aprendizagem com significativos resultados, não teve pretensão de estabelecer um método, “sua grande preocupação relaciona-se com a questão da produção de conhecimento e o ato de conhecer não se dá através de um método.” BARRETO. Sua contribuição é filosófica e pedagógica, ou seja, traz à luz a prática para o desenvolvimento de uma teoria que se faz e refaz na reflexão de uma prática, a práxis.

Sendo assim, a leitura de mundo do autor foi utilizada para interpretar as dinâmicas das Bicicletadas. Evidentemente os processos não são os mesmos da prática educacional para qual o autor se debruça, até porque em sua teoria discute a intencionalidade do ensino. No caso das Bicicletadas os processos educacionais que ocorrem emergem das performances, dos rituais e do diálogo, a intenção educativa nesse caso não é clara e não pretende ser, muito embora funcione como a catraca da bicicleta, o que permite o movimentar, através do impulso humano.