3 GOVERNMENT AND GOVERNANCE
3.2 Autonomy
Três são os enfoques nos programas de R.R.Soares: a pregação, os testemunhos de cura e a colaboração financeira. Como dissemos anteriormente nas características neopentecostais, a prosperidade financeira e familiar é um dos enfoques principais da pregação dos evangélicos na aquisição de bens já nesta vida, como recompensas terrenas que aguarda o cristão que se compromete a obedecer a esses princípios e preferir os desígnios de Deus ao seu próprio planejamento de vida. Na vida profissional, haverá ao neoconvertido uma prosperidade e produtividade econômica, pois Deus não deixará seus filhos passarem necessidades, como não deixa de cuidar dos pássaros do céu e das flores dos campos, promessa contida nas Sagradas Escrituras337. MARIANO mostra como o neopentecostalismo dá ao fiel uma compreensão nova do dinheiro338. Isso se vê na prática em nosso objeto analisado.
Na metade e no final de cada programa de R.R. Soares, há um claro apelo monetário aos telespectadores, explicando detalhadamente como contribuir e ser “um patrocinador”, como o missionário batiza e nomeia cada fiel contribuinte. “Ao final de cada programa, ele não é nada
337
Conforme promessa de Jesus em Mateus 6,25-34.
338
discreto e apela explicitamente para a colaboração monetária dos fieis telespectadores”339. Cada fiel é convidado a ser dizimista da sua Igreja. Para além do dízimo, o fiel também se torna um “verdadeiro patrocinador” de Deus, com as ofertas para a manutenção dos programas. Patrocinar a programação da televisão da Igreja é “um chamado de Deus para salvar o mundo”, conforme pensamento de líder e fundador da Igreja. É interessante observar que R.R.Soares provoca o ouvinte a contribuir tão somente quando “sentir-se chamado” para isso. “Se você não ouvir o chamado não colabore”, repete insistentemente o missionário a cada programa. Parece negligenciar a colaboração financeira que não vier de um declarado chamamento especial e divino. Quer garantir um patrocinador convicto, convertido para isso, desafiado pelo próprio Deus a colaborar para manter os programas no ar.
No momento do apelo financeiro do apresentador Soares, os obreiros340 distribuem uma ficha de adesão para quem desejar e “sentir-se chamado” a ser patrocinador. A ficha possui uma parte destacável que deve ser preenchida com nome e endereço de quem vai colaborar que, uma vez preenchida, é recolhida pelos obreiros, em grande número, tornando ágil a adesão. A ficha que é preenchida é em close focada aos telespectadores, mostrando o aderente completando seu nome e endereço. Para o convencimento maior em ser patrocinador, há um ou mais testemunhos de fiéis que já fizeram a adesão e, quase que num toque de mágica, testemunhando a transformação de suas vidas, graças à sua generosidade. Os personagens da micro-novela, agora presentes no templo, são por vezes entrevistados diante da assembléia pelo missionário, revelando a realidade que foi vista na tela.
4.3.4.1. Os pedidos de Contribuição
No primeiro, segundo e terceiro programa em análise, a volta da imagem ao palco, púlpito e templo, após a Novela da Vida Real, é contemplada com caracteres ao pé do vídeo, informando: “Show da Fé – Seja um patrocinador, ligue (0xx21)2141-3510”. O pregador repete, por vezes, novamente o texto bíblico analisado, martelando sua pregação.
Não tem constrangimento algum em pedir colaboração financeira. No programa do dia 26.11, apela nos seguintes termos:
339
Idem.
340
Obreiro é a pessoa que atua na obra da Igreja referendada. É o líder, o fiel que possui uma determinação função de atuar. Neste caso de distribuir e recolher as fichas de adesão financeira.
Se você neste mês não contribuiu, veja, vá e contribua. O inimigo pode estar dando um monte de golpe em sua vida. Você que está atrasado, diga a Deus: vou me acertar. E faça isso até o dia 30 em nome de Jesus. E você que sente a chamada pra ser patrocinador, eu pergunto: porque você não escreve? ‘Ah, missionário, não dá, nunca vai dar’. Deus determinou que de tudo o que nós ganhamos, o dízimo seja dele e além do dízimo as ofertas alçada que é os associados. Aqui tem muita gente que não é dizimista. O que é o dízimo? Leia Malaquias 3, 8, 9, 10 e 11. Deus nos fala: Todavia vós me roubais (...). Vamos dizer que o seu salário sejam as minhas duas mãos (Soares vai para frente do
púlpito e abre neste momento os 10 dedos em frente à câmera). Se você recebe
mil, 100 é de Deus (Soares no vídeo vai mexendo o dedo minguinho). Você dirá: ‘Ah, missionário, não dá, se com mil eu não consigo pagar as minhas contas, com novecentos muito menos’. Sabendo o Diabo que você roubou a Deus, o Diabo vem e pega o que é de Deus e fica para ele. Só que ele é ladrão: oh, o que é que fica o seu salário (encolhe mais alguns dedos). Meu amigo: nove com Deus vale mais do que dez saem ele. E que é a oferta alçada? É aquilo que se faz na igreja e que eu faço aqui.
É importante frisar o versículo bíblico costumeiro, destacado pelo pregador quando se refere ao dízimo, já apontado anteriormente, do último livro do Antigo Testamento: Malaquias 3,8-11, que aponta para as bênçãos retornadas àquele que contribui. Soares entende o Dízimo como a contribuição mensal no templo e as ofertas como essas contribuições ao seu programa, que necessitam em seu pensar de um chamado especial de Deus para ser patrocinador de seu programa. Parece querer dizer que os chamados, ou seja, os que possuem condições econômicas de ajudar são abençoados e agraciados porque convocados por um chamamento divino.
No final do primeiro e terceiro programa analisados, há a inserção de uma vinheta especial, onde o Missionário, com outro visual, mas sempre de terno e gravata, fazendo um novo apelo para a colaboração financeira, da mesma forma que fez durante sua pregação, mas de maneira ainda mais direta e agora totalmente separada da pregação exegética, em forma de vinheta especial.
4.3.4.2. A valorização do contribuinte
O fiel deve receber um chamado para colaborar. Colaborando, tomará “posse da bençaõ”, como frisou no primeiro programa analisado. O missionário vê sua obra, seu programa como uma realização divina. Portanto, crê que quem colabora é porque recebeu um chamamento especial para evangelizar e colaborar na obra da evangelização. Transforma o colaborador num missionário, num
profeta, num semeador e não simplesmente como padrinho financeiro qualquer. Declara a espiritualidade e vocação do contribuinte, no programa do dia 26.11.07, nestes termos:
Se você sente de ser patrocinador... Eu sempre digo: se você não sente, não se escreva. Mas se sente, tome posse da benção. Você que é chamado você sabe se é pra dar 50 por mês, 100, 200, 1000... Na hora em que o pastor fala ao associado, o que é chamado sabe exatamente onde ele deve ajudar. Hoje você tem a oportunidade. Os irmãos vão passar esse fichário, pega o papel e preencha o seu nome e endereço. Se não tiver caneta, eles emprestam; se não souber preencher, eles ajudam.... Bem-vindo em nome de Jesus. Eu te recebo como parceiro ministerial. Você receberá também a Revista Graça. ... Ligue você que está em casa...
O colaborador e patrocinador, como repetimos, precisa receber um chamado para tal missão. Se não for e não se sentir chamado, não deverá sê-lo, diz o missionário repetidamente. No programa do dia 30.11, apela para a contribuição financeira nestes termos:
Se você ainda não é patrocinador e não sente a chamada de Deus, feche o ouvido que eu não falo com você. Eu quero falar com aquela pessoa que Deus tem tocado no coração, que Deus tem impressionado... Às vezes alguns ficam até revoltados. Outros têm até sonhado: um dia vou ser patrocinador. Pois, esse dia chegou, os obreiros vão passar aí com a inscrição.
Recolhidas as fichas preenchidas, são entregues ao missionário. De posse das fichas preenchidas, o pastor solenemente faz uma oração sobre os novos patrocinadores e sobre os contribuintes antigos. O fiel colaborador recebe a benção e permanece com a outra parte do fichário que é um DOC bancário para ser pago no Bradesco ou em qualquer outro banco. E a prosperidade da igreja é facilmente perceptível. Há um destaque especial e uma valorização do colaborador financeiro, chamado, comprometido, abençoado.
Em meados de 2006, procurando uma análise mais real e presencial de nosso objeto de pesquisa, participamos de um evento da Igreja Internacional da Graça, no Anfiteatro Pôr-do-sol, ao lado do Rio Guaíba, na cidade de Porto Alegre. Prometia-se, na ocasião, a presença do missionário R.R.Soares. Em destaque, cartazes e grandes propagandas na cidade, notadamente nas traseiras de ônibus, convocavam para o comparecimento ao evento intitulado “Festa do Céu”.
Na ocasião, o modo da abordagem para a colaboração ao seu programa televisivo foi o semelhante que acontece nos programas analisados. R.R.Soares, naquela tarde de concentração popular, realizou uma bênção aos seus patrocinadores. Fez uma motivação especial para esse momento. Abençoou, não os patrocinadores do evento ou alguns possíveis empresários presentes. Seus patrocinadores não são necessariamente os empresários de grandes empresas, mas cada fiel
que, devidamente cadastrado por meio de uma ficha especial, ajuda a manter a Rede Internacional de Comunicação, como é chamada. Também nesses eventos são distribuídas as fichas preenchidas, como nos programas analisados do Show da Fé, devidamente valorizadas no palco, abençoando-se os novos e antigos associados.
Soares batiza o fiel contribuinte de “parceiro ministerial”. Há uma valorização muito grande dada ao colaborador financeiro. O contribuinte torna-se não um mero ofertador por ocasião, mas um colaborador chamado especialmente a colaborar na obra de Deus com somas específicas a cada mês.