Trabalhar significava não apenas um meio de sobrevivência, mas também uma forma de adquirir respeito, distinguindo-se moralmente de outros sujeitos que possuíam a mesma condição social das camadas pobres da urbe, mas que optaram pela ociosidade e/ou pela criminalidade como meio de vida.
“Reside com sua progenitora a sra. Maria Generosa á travessa de São Christovam, n.62, no Guamá, Osorio Mattos de Oliveira, moço de 27 annos, morigerado e trabalhador. Desde segunda feira, porém, que Osório desapareceu de casa, não deixando vestígios. Inquieta com sua sorte, d. Maria Generosa procurou este jornal, a fim de ver se consegue notícias do seu filho.”313
Ser morigerado e trabalhador eram atributos de um munícipe respeitável e de um cidadão de bem, o qual merecia, em virtude seu caráter, o carinho da família e o reconhecimento da sociedade. Diversamente, não ter profissão representava experimentar um estilo de vida perigoso para si mesmo e para a sociedade, permeado por um cotidiano de vícios e possível criminalidade, na medida em que, assim como o trabalhador, o vagabundo também precisava de dinheiro para sobreviver e, por isso, tornava-se capaz de cometer os mais variados delitos e transgressões sociais.
“Foi hontem recolhido a um dos xadrezes da central de polícia, o individuo Manuel dos Santos, paraense, pardo, solteiro, de 29 annos de edade, sem profissão, residente á travessa do Chaco, n. 59. Manoel dos Santos que é gatuno conhecido da polícia, forjou uma carta, mediante a qual conseguiu obter vinte saccos de sarrapilheira, no valor de 50$000, do commérciário Manoel Barbosa, auxiliar da firma Tomé de Vilhena & Cia, ao Boulevard Castilhos França, n.125.”314 “João da Silva Conde, residente à travessa Demétrio Ribeiro, 41, queixou-se, hontem, à polícia, de que os gatunos varejaram-lhe a casa, durante a madrugada, conduzindo os meliantes, uma carteira de camurça, com 10$ em dinheiro e vários objetos.
Também dos seus companheiros levaram os gatunos, um revolver, um relógio de prata, uma moeda de 2$ e um chapeo de sol.”315
A ociosidade era o oposto do trabalho, e a vagabundagem o contraponto da vida
312 PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros. Trabalhadores e conflito no Porto de Manaus. 1899-1925. P. 57
313 Folha do Norte. Belém, 06 de janeiro de 1939. Fls.03. Desapareceu de casa há 04 dias. 314 Folha do Norte. Belém, 08 de janeiro de 1939. Fls. 05. Malabarista das grades. 315 Folha do Norte. Belém, 06 de janeiro de 1920. Fls. 04. “Elles” agem
199 morigerada do trabalhador urbano. Enquanto o empregado e/ou funcionário, bem como os trabalhadores autônomos empreendiam esforço contínuo, dedicando diariamente longas horas de trabalho em troca de remuneração, o larápio rapidamente e sem grande dificuldades, conseguia obter os ganhos de sua sobrevivência.
“Adolpho Carvalho de Miranda, residente no Guamá, queixou-se que ante ontem foi ao arraial de São João, levando no bolso uma carteira contendo a importância de 288$000, momentos depois notou a falta daquela importância.”316
“O Sr. Alexandre Dias, empregado da Tabacaria Mattos e residente nos altos do prédio á rua de Santo Antonio, esquina da 1º de Março, foi vítima , hontem, às 4 horas da tarde, de um larápio que lhe furtou um anel de ouro com brilhante, no valor de 400$000. Houve queixa à polícia.”317 Em Belém, não se encontraram, no interior das camadas populares, apenas homens dedicados ao mundo do trabalho, sendo possível inventariar as experiências de inúmeros sujeitos que fizeram da ociosidade, da vagabundagem e da gatunagem seus modos de sobreviver na urbe.
“Antonio Rodrigues, residente à travessa Quintino Bocayuva, 139, queixou-se de que hontem, pela manhã, os gatunos penetraram em sua residência e dali roubaram o seguinte: 1 par de sapatos
de verniz, 1 chapéo de massa, 1 chapéo de sol,, 1 fato de riscas (de linho), e duas camizas, objetos esses que estavam dentro do seu quarto, tendo para isso, os gatunos arrombado a porta.
Na dita casa moram todos os empregados da Fábrica São Paulo. Dum companheiro de quarto do queixoso, de nome, Carlos Gomes Corrêa, roubaram uma rêde.”318
Tais indivíduos também deixaram fragmentos de suas histórias impressas nos jornais locais e em documentos policiais, os quais indiciam a forma como eles se apropriaram dos espaços citadinos, construindo suas próprias territorialidades urbanas.
“No lugar denominado entrocamento, hontem, as 9 e 30 horas da noite, foi detido no posto do Marco, o individuo Antonio Nogueira Angelim, por ter promovido desordens e tentado espancar o vigia de um terreno de propriedade do coronel Pombo. O desordeiro é paraense, pardo, de 44 anos de idade, sem profissão. Angelim, já cumpriu a sentença de 12 anos e meio de prisão, por crime de homicídio.”319
Eram habitantes da urbe, de diversas faixas de idade, diferentes nacionalidades, etnias e múltiplas formas de lidar com as expressivas necessidades econômicas da vida citadina.
Alguns eram nascidos no próprio Estado do Pará, porém muitos vinham de outras regiões e até de outros países. Tal qual Mocani Bernadelli, marroquino, que arrombou, pouco depois do meio dia, a porta de uma barraca no Lardo de São José, onde ficava estabelecida uma “casa de sorte”, de propriedade do Sr. Jenaro Exposito, ocultando-se no interior da mesma, com o intuito de roubar as mercadorias daquela barraca, ainda que tenha sido preso
316 Boletins de Ocorrência. Volume 351. Belém, 26 de Junho de 1923. Queixa. 317 Folha do Norte. Belém, 22 de janeiro de 1920. “Elles” agindo.
318 Boletins de Ocorrências. Belém, 08 de agosto de 1928. 319 Folha do Norte. s/d/e. 1939. Desordem no entrocamento.
200 pelo proprietário do estabelecimento, que pediu auxilio da policia.320
Havia aqueles que moravam em bairros próximos do centro financeiro da capital, em casas de cômodo, quartos sublocados ou hotéis; mas também existiam aqueles que viviam nos subúrbios, em vilas situadas nos bairros adjacentes ao centro, como o indivíduo Pedro José da Silva, que era paraense, preto, residente na Travessa do Jurunas, nº39, no bairro do Jurunas, distrito popular da cidade, que, pela madrugada do dia 30 de setembro de 1928, fugiu do flagrante dado pela polícia, em virtude de um roubo que acabara de cometer de 06 pratos fundos estampados, 5 colheres, sendo 01 já quebrada.321
Encontravam-se ainda aqueles que não tinham domícilio ou paradeiro declarado, como Manuel Barboza, conhecido pela alcunha de “Caboclo Misterioso”, paraense, pardo, solteiro, de 21 anos de idade, sem profissão, nem residência, que numa manhã de 1939 foi recolhido a um xadrez da Central de Polícia para averiguações sobre furto.”322
Consoante as fontes pesquisadas, esses indivíduos, que viviam do não-trabalho, compunham dois grupos sociais perigosos à ordem pública, e cujos comportamentos confrontavam o ideal de civilidade, de progresso e de trabalho, difundidos na capital paraense. Tratava-se dos vagabundos (desordeiros) e os dos gatunos (larápios).
Essas espécies de habitantes da urbe, comumente encontrados pelos espaços da cidade, distinguiam-se por aspectos muito sutis, na medida em que os atos praticados por ambos expressavam as contradições internas do modelo de sociedade laboriosa, ordeira e submissa, difundido pela imprensa, pelos poderes públicos e pelas camadas enriquecidas da capital.
Nessa perspectiva, os vagabundos não ofereciam perigo físico concreto ou mesmo risco patrimonial para os munícipes de ‘boa índole’. Todavia, incomodavam, por abalar a ordem social e a moralidade vigente.
“As 3 horas da tarde de hontem, foi preso João Cavalcante, de 48 anos, pelo agente Sylvio, quando fazia ‘jogo do bicho’ para o turco Salim.
Foi para o Xadrez á ordem do Subprefeito Melchiades.”323
Na maioria das vezes, tratava-se de contraventores e/ou ociosos, que perambulavam pelas ruas sem endereço certo ou profissão conhecida; desordeiros que promoviam bagunças nos espaços públicos ou indivíduos que mesmo tendo profissão, se davam ao hábito de beber
320 Folha do Norte. Belém, 13 de julho de 1915. Fls. 03. Factos Policiaes 321 Boletins de ocorrência. 30 DE SETEMBRO DE 1928.
322 Folha do Norte. s/d/e. 1939. O dia policial. Detido para averiguações. 323 Folha do Norte. Belém, 11 de maio de 1930. Pelo Jogo do “Bicho”.