B) The Bambili and Babanki-tungoh and the Genesis of the Ethnic Conflicts …
4.1.2 Why the Attempted Solutions Failed
Nesta pesquisa, investigaremos as histórias sociais e singulares de nove
estudantes de química do Ensino Médio, quatro de uma escola particular e cinco de uma
escola pública federal. No Brasil, não encontramos trabalhos sobre a construção de
ambientes inclusivos nas salas de aula de ciências, nem tampouco nas salas de aula de
química. Por isso, esta pesquisa busca analisar os processos de inclusão/exclusão de
estudantes de química nas salas de aula. Além disso, a discussão da inclusão torna-se
necessária justamente porque o fenômeno da exclusão de estudantes nas práticas
escolares envolvendo disciplinas científicas é um dado marcante, como comentamos
procuram incluir os estudantes nesse processo através de propostas didático-
pedagógicas baseadas em princípios construtivistas e sócio-interacionistas, que propõem
novas dinâmicas nas quais os estudantes participam interativamente.
A proposta didático-pedagógica que os alunos experimentam nas salas de
aula de química pesquisadas parte do pressuposto de que se aprende interagindo com o
objeto de conhecimento pela mediação da linguagem. É a partir dessa interação que os
estudantes vão construindo os conceitos de química, ou seja, relacionando a
experimentação com a explicação teórica do que se observou no experimento,
considerando que ambos os saberes são interdependentes e um alimenta o outro. Assim,
os estudantes apropriam-se do saber químico a partir da interação entre eles e com as
professoras, ou seja, nas relações interpessoais, primeiramente, para, então, elaborarem
o saber próprio de cada um. Nos grupos de trabalho, estabelecem relações com o saber
químico, consigo mesmo, com o mundo e com o outro. Vivenciam as dimensões
epistêmica, identitária e social da relação com o saber. Nesse processo, uns gostam e
outros não gostam das aulas de química, uns mobilizam-se mais para aprender química
do que outros. Que relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo estabeleceram
os estudantes, das salas pesquisadas, ao produzirem histórias singulares de inclusão no
processo de ensino-aprendizagem de química? Os sujeitos da pesquisa é que poderão
responder a essas indagações. Será, pois, a partir das vozes dos estudantes, das
professoras, do livro didático e da voz da própria pesquisadora que o trabalho de
pesquisa se efetivará. Essas vozes e outras vozes estavam convivendo dentro de duas
salas de aula. Durante a coleta de dados e depois, quando os analisava, várias vezes uma
pergunta vinha à minha mente: o que conta como sala de aula para os participantes das
São múltiplas as formas de aprender, os ritmos de aprendizagem dos alunos
são variados, assim como há uma diversidade de práticas culturais vivenciadas pelos
estudantes e professores, fora da escola, que, muitas vezes, levam o ensino e a
aprendizagem de química a se tornarem opacos para uns e não para outros. Pensamos
que o fato de estudantes estarem incluídos ou não nos processos de ensino-
aprendizagem de química passa pelo sentido que constroem acerca da escola e do
aprender na escola, mais especificamente do aprender química na escola. Estamos,
então, lidando com a noção de sujeitos sociais e singulares, que constroem coletiva e
individualmente, dentro da sala de aula, os processos de ensino-aprendizagem com a
mediação da linguagem, ou seja, de práticas dialogadas, discursivas, onde os vários
horizontes conceituais podem se manifestar e fazer parte desses processos.
Recusamos, então, a noção de sujeito individual produzida pela
modernidade e acatamos a noção de sujeito social, singular e desejante de saber muitas
coisas, mas que não pode saber tudo. Sempre haverá algo por completar, por saber, e é
isto o que nos move a procurar, que nos mobiliza, ou não, em direção ao saber.
Portanto, não estudaremos a inclusão/exclusão de estudantes do Ensino
Médio, mas, sim, histórias singulares de inclusão/exclusão de sujeitos/estudantes de
química, independentemente dos resultados de sucesso ou fracasso nessa disciplina,
pois o que nos interessa analisar são as relações que esses alunos estabelecem com o
saber e com a escola ao longo de sua prática escolar. Relações que poderão nos fornecer
pistas para compreendermos como e por que os estudantes se incluem/excluem nos
processos de ensino-aprendizagem nas escolas. Essas relações serão tratadas por meio
da análise de eventos de sala de aula, dos dados dos questionários e das entrevistas. E,
entrada na atividade intelectual é central na relação com o saber. Assim, algumas
perguntas são norteadoras dessa investigação: o que mobiliza o sujeito a aprender na
escola? Mais especificamente a aprender química na escola? O que sustenta a inclusão
dos estudantes nas atividades de química? O que conta como inclusão/exclusão
naquelas salas de aulas? Ao procurar responder essas e outras perguntas que poderão
surgir, criamos a especificidade de uma pesquisa que investiga os processos de
inclusão/exclusão dentro da sala de aula de química. Ou seja, procurei compreender as
vicissitudes das relações daquelas salas de aulas, das interações vividas ali, entre os
estudantes, nos pequenos grupos, com a professora, com o livro didático, com a
proposta pedagógica e com a escola, procurando relacionar a perspectiva micro, da sala
de aula, com a perspectiva macro, escolar e social. Essa relação precisa ser
compreendida não como uma relação direta e automática, mas que guarda configurações
heterogêneas, pois as histórias escolares dos estudantes da pesquisa mostram-nos que
não se pode estabelecer relações de determinantes sociais para explicar os processos de
sua inclusão/exclusão na sala de aula. Estudantes com a mesma origem sócio-
econômica, por exemplo, mostraram histórias escolares bem diferenciadas de inclusão
e/ou de exclusão e muitas vezes de auto-inclusão e/ou auto-exclusão dentro da sala de
aula e da escola. Essas histórias serão discutidas mais à frente, quando estarei
elaborando contrastes entre histórias de inclusão e de exclusão, diferentes e
semelhantes, dos nove estudantes de química das duas escolas que participaram da
TERCEIRA PARTE
4. METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS
Os pressupostos teórico-metodológicos dessa pesquisa tiveram como base a
abordagem sócio-cultural, o conceito de prática discursivamente construída e o conceito
de relação com o saber. Isto implicou analisar os processos de inclusão/exclusão de
alunos na sala de aula de química e não apenas os produtos desses processos e remeteu-
nos à observação das mudanças, transformações, avanços, retrocessos e contradições
das práticas pedagógicas observadas. Implicou, também, analisar a relação entre
inclusão e exclusão não como uma coisa, senão como um processo, que tem
movimento, que não está dado, mas que é construído, discursivamente, pelos
participantes da sala de aula, coletiva e individualmente.
A pesquisa foi realizada em duas escolas, uma pública/federal (onde realizei
a pesquisa-piloto) e outra particular que fazem uso do mesmo livro-didático, ou seja,
adotam a mesma proposta didático-pedagógica. O critério de escolha das escolas esteve
baseado, principalmente, no fato de ambas adotarem a mesma proposta didático-
pedagógica no ensino-aprendizagem de química. Esta proposta, segundo seus autores
(Mortimer e Machado), é uma proposta pluralista baseada em pesquisa de sala de aula,
na dialogia, na epistemologia da química e no construtivismo. Outro critério de escolha
das escolas foi o fato de a proposta na escola particular não ser uma proposta marginal e
sim de ter sido institucionalmente adotada, já trazendo consigo o fator inclusivo. A
escolha da escola federal justificou-se pela proposta pedagógica adotada na sala de aula
pesquisada e pela maioria de sua clientela, assim como a da escola particular, ser
constituída por estudantes de classe média, considerando toda diversidade que contém
A pesquisa de campo na escola federal foi realizada no 2º semestre de 2000,
quando os alunos estudavam o conteúdo de termoquímica numa sala de aula do 2º ano
do ensino médio. No 1º semestre de 2001, continuei pesquisando na escola particular,
numa sala do 1º ano do ensino médio, quando os alunos estudavam a construção de
modelos para os estados físicos dos materiais: sólidos, líquidos e gasosos. Nas duas
salas de aula fizemos gravações em vídeos, durante 4 meses, perfazendo um total de 60
horas/aula gravadas.
As aulas gravadas foram transcritas na íntegra. A partir da observação dos
vídeos, juntamente com as transcrições, foram selecionadas aulas em que eram mais
evidentes eventos de inclusão/exclusão dos estudantes no processo de ensino-
aprendizagem de química. Essas aulas foram analisadas, primeiramente, para a
construção de mapas de eventos. Os eventos selecionados para compor nossas análises
foram selecionados e analisados levando-se em conta três aspectos principais: os
processos de inclusão/exclusão pela via da amizade/afetividade, pela via cognitiva e
pela via do respeito às diferenças entre os alunos. Um desses aspectos sempre se
mostrou mais relevante na construção das histórias de inclusão/exclusão de cada um dos
alunos selecionados como sujeitos da pesquisa. As fitas gravadas permitiram-nos
analisar os discursos elaborados em sala de aula que produziram movimentos de
inclusão/exclusão dos estudantes de química, tanto da escola federal quanto da escola
particular e as oportunidades de aprendizagem construídas por estudantes e professoras.
As seqüências discursivas foram transcritas com base na análise da conversação de
Marcuschi (2000), o que nos permitiu usar símbolos que marcam pausas (+), entonações
(::), cortes de fala pelos parceiros (/), comentários da pesquisadora (()), indicação de
referências estamos usando a pontuação da língua escrita para transcrever as seqüências
discursivas.
Realizamos, também, entrevistas semi-estruturadas (Anexos 3, 4, 5, 6 e 7):
com as professoras, com os estudantes das duas escolas e com a coordenadora do ensino
de química da escola particular. Foram feitas duas entrevistas com os estudantes da
escola federal: a primeira foi realizada uma semana depois de terminadas as gravações
em vídeo, com o grupo que observamos mais de perto. Nessa entrevista estavam
presentes além dos cinco alunos, duas pesquisadoras, Edênia (professora de Química da
Universidade Rural de Recife) e eu (professora de Psicologia da Educação da
Universidade Federal de Minas Gerais). Nessa etapa, coletamos os mesmos dados para
nossas pesquisas de doutorado. Na segunda entrevista com os estudantes da escola
federal, em agosto de 2001, entrevistei, inicialmente, Romênia, Paulo e Alfredo, juntos.
Depois entrevistei Kátia e Donato, separadamente. Kátia estava viajando no dia em que
marquei a entrevista com os outros três e Donato já não se encontrava estudando nessa
escola e tivemos de marcar outro dia para entrevistá-lo. Ao tentar falar com Donato em
sua casa, por telefone, falei com sua mãe, que atendeu ao telefonema e, quando lhe disse
o assunto, se mostrou muito interessada em conversar comigo sobre a situação de
Donato e de sua outra filha que também estudava na escola federal. Assim, pedi licença
a ela para fazer anotações de nossa conversa com o objetivo de fazer uso desses dados
na pesquisa, o que ela consentiu prontamente. Com os estudantes da escola particular,
fiz uma entrevista, em agosto de 2001. Nessa época, entrevistei Anete, Tomás e Geraldo
juntos, num mesmo dia e Denise, em outro dia, separada dos outros três, porque ela se
encontrava doente no dia marcado. As entrevistas realizadas com os estudantes de
saber químico e com a escola durante o tempo em que estivemos em sala de aula, ou
seja, que sentidos construíram, ao longo desse tempo, sobre o aprendizado de química.
Nos forneceram, também, pistas para construirmos histórias escolares dos nove
estudantes das duas escolas, histórias que nos auxiliaram a compreender a singularidade
da relação de cada estudante com o saber. As entrevistas com a professora e a
coordenadora de química da escola particular foram realizadas durante as gravações em
vídeo: 24/4/01 e 12/6/01, respectivamente. A entrevista com a professora da escola
federal foi realizada em 17 de janeiro de 2001, pois, logo que terminamos a gravação
em vídeo, essa professora, grávida, entrou de licença,. Durante as gravações não
conseguimos acertar nossos horários para realizarmos essa entrevista.
Também aplicamos questionários (em anexo) aos alunos das duas escolas,
diferenciadamente, porque a idéia dos questionários veio depois que já havíamos
realizado a pesquisa na escola federal. Os questionários tinham por objetivos traçar um
perfil sócio-econômico-cultural dos sujeitos da pesquisa, verificar a relação que os
alunos estabeleciam com a as aulas de química, com o livro didático e com a proposta
pedagógica adotada e como eles percebiam as diferenças entre as aulas de química e as
aulas de outras disciplinas. Na escola particular, três questionários foram aplicados
durante as gravações em vídeo e respondidos por toda a sala. Eles foram aplicados por
etapas, ou seja, em três dias diferentes para não “atrapalhar” o andamento das aulas. Na
escola federal, foi aplicado um questionário (em anexo) em agosto de 2001, um ano
depois de realizadas as gravações em vídeo. Por esse motivo, no questionário aplicado a
toda a turma na escola federal foram incluídas apenas as questões relacionadas ao perfil
sócio-econômico-cultural. As perguntas relativas ao cotidiano da sala de aula foram
estudantes puderam comparar o tipo de aula que vivenciaram no 2º ano com o tipo de
aula que estavam vivenciando no 3º ano do ensino médio. Os dados dos questionários e
das entrevistas nos auxiliaram também a compreender as relações com o saber químico
e com a escola e a compor o perfil sócio-econômico dos alunos. Além desses
instrumentos, fiz anotações, em caderno de campo, sobre todas as aulas gravadas. Essas
anotações me serviram de guia-orientador sobre quais aulas transcrever e acrescentaram
dados às análises dos eventos e do que contou como inclusão/exclusão nas salas
pesquisadas.
O cruzamento das diversas fontes de pesquisas – gravações em vídeo,
entrevistas, questionários e anotações no caderno de campo - permitiu-nos compreender
os processos de inclusão/exclusão dos estudantes de química gestados nas suas histórias
singulares construídas discursivamente nos grupos sociais em que vivem dentro e fora
das escolas.
4.1. Sujeitos da pesquisa