Sabe-se que o papel fundamental da educação é a formação de cidadãos conscientes do mundo em que vivemos. Para tanto, a educação ambiental possibilita a orientação para suplantar problemas ambientais reais por intermédio de enfoques interdisciplinares e da participação efetiva de cada indivíduo e da coletividade.
A implantação das práticas de Educação Ambiental, subsidiadas pelos conhecimentos de Geografia, possibilita uma renovação dos diálogos no ambiente escolar, permitindo aos alunos refletirem criticamente e transformarem a realidade a partir da compreensão dos fenômenos e na intervenção dos problemas socioambientais. O ensino da Geografia objetiva, a grosso modo, construir com os educandos compreensões do espaço geográfico dentro das relações que o modificam e o dinamizam constantemente.
Por sua vez, se considerarmos a questão ambiental como um reflexo do espaço produzido pela sociedade ao longo de sua história, pautada nas relações que estabelecem entre si, a sociedade e a natureza têm uma relação histórica e concreta, que se materializa no espaço, expressando formas com que o homem trata a natureza. A evolução desse pensamento geográfico, passou por diversas correntes,
criando conceitos de análise que são utilizados para diferentes percepções do espaço geográfico (Okonoski; Nabozny, 2011).
As propostas contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s, 2001), um conjunto de proposições que constituem um referencial para a educação no país, tem em um de seus temas transversais o Meio Ambiente, que juntamente com os demais visa dar um tratamento escolar as questões referentes a problemas da vida social. Assim, é trabalhado dentro da educação geográfica, extensivo a outros conhecimentos relacionados à temática ambiental e de fundamental importância nos temas atuais da humanidade, dentro e fora da Escola. Pois, segundo os PCN’s:
a questão ambiental impõe às sociedades a busca de novas formas de pensar e agir, individual e coletivamente, de novos caminhos e modelos de produção de bens, para suprir necessidades humanas, e relações sociais que não perpetuam tantas desigualdades e exclusão social, e ao mesmo tempo, que garantam a sustentabilidade ecológica (Brasil, 1998a, p.180).
Tratar da questão ambiental no ensino significa desenvolver valores, atitudes e posturas éticas, e no domínio de procedimento, mais do que na aprendizagem de conceitos. Segundo Fonseca, Braga e Cicillini (2007) a Educação Ambiental é uma ação pedagógica orientada visando solucionar problemas ambientais. É um elemento crucial para a necessidade do homem mudar suas prioridades, sua visão e postura, que unifica as dimensões natural, social, ética, cultural, política e econômica, de modo, interdisciplinar e transversal. Para tanto, a formação de professores, estudantes e pesquisadores revela-se como uma necessidade premente para a superação desta crise ambiental. Diante da crise ambiental, mudanças de visões e posturas das ações humanas são fundamentais para que se obtenham resultados concretos. E ainda, o papel da educação também é significativo neste campo.
A discussão sobre as questões ambientais no ensino de Geografia, em âmbito escolar, remete ao diálogo com outras áreas do conhecimento. Dessa forma, a interdisciplinaridade, suscitada por este tema transversal viabiliza intervenções pontuais no tempo e no espaço (Okonoski; Nabozny, 2011). Neste enredo, é possível realizar o diálogo com a Agroecologia dentro do ensino de Geografia.
A Agroecologia se estabelece, a partir de uma postura crítica em relação ao modelo agrícola arranjado pela Revolução Verde e suas implicações para os agroecossistemas. Este novo paradigma é capaz de estabelecer uma articulação entre o campo científico e os outros campos de ação, como movimentos sociais, culturais, etc. Também vale salientar o seu caráter conflituoso com o modelo agrícola convencional que deu origem a crise socioambiental que vivemos (Borssato; Carmo, 2013).
A Agroecologia, um campo de conhecimentos agronômicos, ecológicos e empíricos de agricultores, é desenvolvida para aplicar conceitos e princípios ecológicos para o desenho e manejo de agroecossistemas sustentáves. Tem-se afirmado como um novo enfoque sistêmico para a agricultura construída com base na conservação dos recursos e na agricultura tradicional, aplicando conhecimento e métodos da Ecologia. Isto é possível com base no consolidado conceito de ecossistema, como unidade de estudo. Assim, “representa o estudo dos processos ecológicos nos agroecossistemas” atuando como “agente de mudança que busca a transformação social e ecológica que
deve ocorrer para que a agricultura se desenvolva realmente sobre bases sustentáveis” (Gleissman, 2002, p.14).
Deste modo, a Agroecologia tem se firmado como um campo científico, apesar de muitos discursos acadêmicos não terem utilizado o termo quando relatam os inconvenientes relativos às questões ambientais, provenientes do modelo de agricultura convencional (Borssato; Carmo, 2013). Segundo estes autores, a Agroecologia se consolida num contexto de crise socioambiental, questionando a racionalidade econômica e tecnológica dominante.
Assim, esses temas podem ser trabalhados no Ensino, onde todos os fatores envolvidos com a agricultura e, consequentemente, influenciados pelas práticas exercidas através da agroecologia, estão relacionados direta ou indiretamente com a realidade vivida pelos educandos, sejam estes moradores do meio urbano ou rural.
3. METODOLOGIA
O presente trabalho propõe a integração de conhecimentos sobre agroecologia e educação ambiental no ensino de Geografia através de práticas educacionais, voltados para alunos do ensino médio, como já mencionado. Essas práticas educacionais compreendem um conjunto de atividades que atuam na formação dos discentes por meio de experiências e aplicação dos conhecimentos aprendidos em sala de aula, proporcionando situações de vivências do cotidiano, esses estudos auxiliam na reflexão e resolução de situações problemas.
A estruturação metodológica das práticas educacionais desta pesquisa está fundamentada no modelo didático da aula desenvolvido por Libâneo (1994), que são divididos na sequência didática: I. preparação e introdução da matéria; II. Tratamento didático da matéria nova; III. Consolidação e aprimoramento dos conhecimentos e habilidades; IV. Aplicação e V. Controle e avaliação.
A sequência didática é formada por um conjunto de aulas estruturadas que passam por etapas aplicadas em vários dias, estabelecendo uma sequência do ensino de acordo com a temática abordada, os objetivos específicos, as características do grupo de alunos e situações didáticas específicas (Libâneo, 1994).
A utilização da sequência didática possibilita um avanço no ensino e aprendizagem dos alunos, o professor teria maior tempo para planejar as aulas e poderia aprofundar em temas específicos, promovendo atividades de teoria e práticas na escola.
Na sequência didática foram utilizadas essas etapas com objetivo de trabalhar o tema: sistema de produção agrícola brasileira, desenvolvidas as atividades de aula expositiva, exibição do documentário “O veneno está na mesa”, e a construção de um jardim vertical na escola com a utilização de garrafas pets.
Etapa I: preparação e introdução da matéria. O tema abordado na aula: a produção agrícola no Brasil. O primeiro contato com o tema, perguntamos a opinião dos alunos sobre a temática para formação da “chuva de ideias”, referente ao conhecimento prévio dos alunos, com objetivo de explicar os sistemas de produção da agricultura familiar x a agricultura empresarial, compreender os impactos socioambientais ocasionados pela degradação dos solos, os agrotóxicos e alimentos transgênicos. Etapa II: Tratamento didático da matéria nova. Para maior sistematização da matéria foi exibido o documentário o veneno está na mesa, retrata o modo de produção dos alimentos no Brasil, com ênfase no consumo de agrotóxicos e alimentos transgênicos
na agricultura. O propósito do uso do filme foi aprimorar a didática, ou seja, a forma de transmissão do tema pelo professor e aperfeiçoar a assimilação do conteúdo pelos estudantes, realizado pela percepção da realidade, a formulação dos conceitos e a capacidade cognitivas sobre o conteúdo a partir de experiências vividas.
Etapa III: Consolidação e aprimoramento dos conhecimentos e habilidades. Para fixação e consolidação da matéria, realizou-se uma proposta de construção do jardim vertical na escola com a intenção de produzir o próprio alimento, foram plantadas sementes e mudas que poderiam ser utilizadas na merenda escolar, seguindo princípios de uma agricultura orgânica. Nesta etapa ocorreu a sistematização da matéria consolidada em uma proposta de atividade prática dentro da escola. Material utilizado na construção do jardim: garrafas pets, corda, parafusos, areia, estrume, mudas e sementes.
Etapa IV: aplicação. Essa etapa os estudantes irão aplicar os conhecimentos de forma criativa, solucionando problemas do cotidiano unindo a teoria e prática, podendo ser uma prática no ambiente escolar ou na comunidade, sendo a atividade prática a finalização do jardim vertical na escola.
O objetivo da aplicação é estabelecer uma ligação do conhecimento da matéria e relacionar com o cotidiano, de modo a formular uma opinião de pensamento crítico que expresse a compreensão da realidade, por meio de atividades práticas sociais (Libâneo, 1994).
Etapa V: Controle e avaliação dos resultados escolares. A forma de avaliação do ensino e aprendizagem percorre todas as etapas de ensino, os alunos são avaliados constantemente durante a participação das aulas e atividades, no comprimento dos objetivos propostos, conteúdos e atividades. Os resultados obtidos foram verificados pelo desempenho escolar e domínio da temática, para a análise de aprendizado os fatores levando em consideração foram a observação e exercícios teóricos e práticos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As práticas pedagógicas desenvolvidas na pesquisa seguiram a metodologia da sequência didática em sala de aula, foram realizadas no Colégio Estadual Justiniano de Serpa, durante o período da bolsa PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) no Departamento de Geografia da UFC.
A Geografia é uma ciência que tem como o objeto de estudo o espaço geográfico, onde o espaço é construído pelas relações sociedade e natureza. A partir dessa visão de como a sociedade transforma e se inseri no espaço, percebe-se como a disciplina Geografia é importante para instrumentalizar o exercício da cidadania no aluno, sendo um cidadão capaz de reconhecer o mundo em que vive, construindo sua própria história, sua sociedade, seu espaço, e que consiga por meios e instrumentos educacionais transformar a sua realidade (Callai, 2001).
O ensino de geografia na educação básica em sua maioria tem como característica aulas expositivas e utilização de poucos recursos didáticos disponíveis nas escolas. Sabe-se da relevância da teoria e prática para o ensino e aprendizado, sendo necessário um diálogo entre o conteúdo e a experiência de vida, para que os estudantes possam construir conhecimentos partindo do espaço vivido para espaços mais distantes em escala global.
As formas de tornar a geografia uma disciplina que leve a formação da cidadania: I. As aulas devem ser de forma que os alunos possam questionar o conteúdo; II. Os alunos devem aprender a pensar criticamente; III. O pensamento crítico se desenvolve a partir da história local para explicações gerais; IV. Os valores sociais são ensinados a partir do conteúdo; V. Os alunos devem aprender sobre as forças ideológicas que governam o mundo, para conscientizar politicamente do seu papel social (Callai, 2001).
O desafio da inovação do ensino de geografia pode ser atingindo por meio de práticas pedagógicas, por isso foi desenvolvido as atividades práticas como a utilização de recursos midiáticos, a construção do jardim vertical, a partir do conteúdo do livro de didático de geografia sobre a temática dos sistemas de produção agrícola, integrado de forma de didática o ensino de geografia, educação ambiental e agroecologia. Ademais, é necessário enfatizar o papel da educação ambiental, está relacionada com as questões ambientais, sendo uma temática de visão holística, da relação sociedade e natureza, englobando os aspectos econômicos, sociais e ambientais, dentre outros. Portanto, para se compreender as diversas interações de fluxos e matérias e energia e os elementos que compõem o meio ambiente, deve-se ter um conhecimento integrado das demais ciências para entender a composição e funcionamento do ambiente.
A Educação Ambiental constrói uma nova relação harmoniosa entre a sociedade e natureza, consciente das limitações e potencialidades conforme a dinâmica da natureza, possibilitando, por meio da construção de novos conhecimentos, valores e atitudes, a inserção do educando e educador como cidadãos no processo de transformação do atual quadro das condições socioambientais do mundo (Guimarães,1995).
O paradigma agroecológico segue os princípios interdisciplinares de conhecimentos de várias ciências e sabedoria popular, constituindo um diálogo de saberes, como afirma Leff (2002, p.42):
A Agroecologia convoca a um diálogo de saberes e intercâmbio de experiências; a uma hibridação de ciências e técnicas, para potencializar as capacidades dos agricultores; a uma interdisciplinaridade, para articular os conhecimentos ecológicos e antropológicos, econômicos e tecnológicos, que confluem na dinâmica dos agroecossistemas.
Compreende-se que a educação ambiental e agroecologia no ensino de geografia aprimoram as práticas didáticas educacionais, apresentando-se como temas transversais no que se refere ao meio ambiente, uma vez essa temática transpassa outras disciplinas, a geografia não é a única disciplina detentora do saber, necessita das demais ciências para entender a complexidade e inter-relações das questões socioambientais.
A primeira atividade ministrou-se uma aula expositiva sobre o sistema de produção agrícola no Brasil, explanando os diferentes tipos agrícolas: a agricultura de subsistência responsável pelo abastecimento de alimentos do país em pequena escala, e agricultura empresarial associada aos complexos agroindustriais que atuam na exportação de alimentos, caracterizada pela modernização de insumos, constituindo uma cadeia produtiva do agronegócio.
Em seguida foi realizado um debate sobre o modelo ideal de produção agrícola para o Brasil, tendo duas vertentes do agronegócio que beneficia o capital ou agroecologia que respeita o meio ambiente, e esclarecimento das condições favoráveis para produção agrícola como fatores naturais como fertilidade do solo, a geomorfologia (terras planas), o clima que interfere na disponibilidade de água, as condições econômicas de infraestruturas, enfatizando a valorização das terras para a produtividade mercadológica.
Os princípios agroecológicos contribuem para uma produção de sustentabilidade no campo, através da abordagem ecológica na relação com a natureza, e na valorização dos trabalhadores rurais e povos tradicionais. Conforme Leff (2002, p.43) as diferenças existentes na produção agrícola de subsistência e produtivista são:
Em ambos os casos, a produção está vinculada a cosmovisões de mundo assim, enquanto a Agroecologia se nutre dos saberes culturais dos povos, de valores tradicionais que vinculam o momento da produção com as funções simbólicas e o sentido cultural do metabolismo social com a natureza, a agricultura capitalista se funda na crença no mercado e na valorização da especialização tecnológica do processo e do crescimento sem limites, que vai desnaturalizando a natureza e a relação do homem com a terra.
A segunda atividade prática foi à exibição do documentário “O veneno está na mesa” (figura 1), com a finalidade de mostrar como a agricultura industrial produz os alimentos, como esses cultivos impactam o meio ambiente. Depois ocorreu um debate sobre a contaminação pelos agrotóxicos, que ocasionam danos a natureza, como a poluição dos solos, o lençol freático, e danos a saúde humana, aos trabalhadores rurais e a população que consome alimentos contaminados.
Figura 1 - Exibição do documentário. (Fonte: Cezário, 2013)
O filme é um recurso didático que permite abordar diferentes perspectivas sobre questões geográficas contemporâneas, levando o cinema uma forma de educação visual da memória, como fundamentador de conhecimento, e em consequência,
mediador das nossas relações com o mundo e das percepções que fazemos dele, sendo o cinema uma dessas formas (Queiroz Filho, 2011).
A última atividade como finalização da sequência didática e fixação do conteúdo, elaborou-se a construção do jardim vertical (Figura 2) com colaboração dos alunos como uma proposta de agricultura de base ecológica que beneficiou os alunos e a escola. As sementes e mudas de plantas utilizadas eram de origem orgânica, no cultivo de espécies ornamentais e outras para alimentação humana, sendo aproveitados na merenda escolar. Além desses multibenefícios, a escola dispunha de um minhocário para compostagem dos restos de alimentos provenientes da merenda escolar, gerando um adubo natural rico em nutrientes.
Figura 2 – Jardim vertical. (Fonte: Cezário, 2013)
Através da atividade do jardim vertical aspirou-se uma educação ecológica direcionada as práticas agrícolas sustentáveis que buscasse o equilíbrio na relação da sociedade e natureza.
Conforme Gliessman (2002), para aplicação de agriculturas agroecológicas, deve-se ter uma visão holística do funcionamento dos agroecossistemas, o emprego da agrocoelogia propicia os seguintes benefícios: a) independência de insumos agrícolas comerciais; b) uso de recursos renováveis do próprio local; c) utilização dos recursos naturais em favor da agricultura; d) respeito a capacidade de suporte das condições locais; e) manutenção da capacidade produtiva ao longo prazo; f) preservação da diversidade biológica e cultural; g) a união de conhecimentos técnicos e tradicionais e h) abastecimento do mercado interno primeiramente, o excedente é produzido para exportação.
5. CONCLUSÃO
Conclui-se que o objetivo foi alcançado que ensino e aprendizado dos alunos melhorou durante as práticas pedagógicas ministradas, observados na participação,
na motivação e no interesse de aprender. Ressaltamos a importância da teoria e prática nas aulas para um aprendizado significativo.
A integração do ensino de geografia, educação ambiental e agroecologia amplia a capacidade de percepção do mundo dos educandos, resulta em uma visão holística e integrada do meio ambiente em sua totalidade. Portanto, faz-se necessários projetos nas escolas que trabalhem de forma interdisciplinar com as demais disciplinas, para que os estudantes aprendam a desenvolver pensamentos críticos diante das questões ambientais.
Diante da crise ambiental enfrentada nos últimos séculos ocasionada principalmente pela degradação intensificada da natureza, alterações climáticas que geram impactos socioambientais. Em uma proposta de alternativa, almeja-se por meio da educação sensibilizar a população para as questões ambientais.
Na referente pesquisa, salienta-se as formas de produção agrícola do Brasil que em sua maioria favorece o agronegócio, que acaba causando diversos impactos a população e a natureza, principalmente no uso indiscriminado de fertilizantes e agrotóxicos nos alimentos.
Em contrapartida, aprensenta-se a agroecologia com a produção de alimentos orgânicos, com base no manejo dos agrossistemas, desse modo contribui para o desenvolvimento rural sustentável, possibilitando uma alimentação de qualidade que beneficia a segurança alimentar e reduzindo os impactos no meio ambiente.
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