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2. ANALYTICAL FRAMEWORK

3.4 D ATA

? 100 ha

Enock de S. Carvalho

46 Itaituba (PA) Itaituba/PA; Rio Moju (pró-

ximo Rancho da Cabocla) PA Corta-Corda (Com. Cícero Mendes)

1992 60 ha

3.4.1 Rotina de um lugar de encontros e desencontros

Para visitantes, trabalhadores rurais, instituições públicas e privadas, entidades associativas, e demais pessoas que se envolvem com as dinâmicas relacionadas à Gleba Pacoval, o simples mencionar do nome da citada gleba e das áreas de abrangência, remete, indubitavelmente, ao sentido de desafio, quaisquer que sejam as interpretações que cada um se disponha a fazer. Pelo muito que se tem falado na mídia local e para além dela, sobre os problemas de terra que lá ocorrem, pelos fatos comprovados e notícias que se multiplicam em torno das verdades e das mentiras, o nome Pacoval, tanto pode atrair quanto pode repelir. A despeito de todas essas visões e sentimentos, existe vida cotidiana, rotina e momentos corriqueiros nas comunidades situadas na citada Gleba.

Tal como já mencionado, as áreas de terra da Gleba Pacoval situadas no âmbito dos Projetos de Assentamento da Reforma Agrária, encontram-se menos vulneráveis às pressões dos grileiros, madeireiros e sojeiros, do que aquelas outras que estão fora desses projetos. Nesta situação, encontram-se famílias que vivem à gerações nas áreas de floresta, incluindo aquelas chamadas de caboclas e/ou ribeirinhas. Muitas dessas famílias concordam inserir suas posses de terra nos Projetos de Assentamento do Programa de Reforma Agrária, não somente para se sentirem mais seguras diante da pressão de grileiros como também para se colocarem em condições de usufruir dos recursos previstos no citado programa, tal como o Crédito Instalação, entre outros.

Mesmo considerando o contexto da abordagem, não há de se concluir precipitadamente, a despeito das pressões e dos embates que são reais, de que os moradores locais estão sempre, e dito de forma metafórica, “de arma da mão”, em estado de prontidão para a “guerra”, ainda que vivam em constante estado de alerta. Existem a lida, a casa, as desavenças familiares, os namoros, os aniversários, as idas à igreja, as reuniões comunitárias, as conversas com os passantes (madeireiros, sojeiros, caminhoneiros e demais moradores), banhos no Igarapé Corta-Corda, idas e voltas de Santarém, entre outras funções.

É bem verdade que existem as demandas e os embates com os órgãos do governo, articulações com os sindicatos, oficinas e encontros de trabalho em Santarém, articulações em defesa da luta pela terra, notadamente quando as terras de determinadas famílias em outras comunidades encontram-se sob ameaça de

invasão. Essas dinâmicas são articuladas pelos Sindicatos, juntamente com a CPT e outros órgãos de defesa da terra e do meio-ambiente.

A cidade de Santarém tem um número bastante significativo de ONG´s (Organizações Não Governamentais) e de Associações de apoio às questões relacionadas à terra, à floresta e aos rios, além daquelas outras que atuam exclusivamente com as funções de apoio técnico aos processos de manejo de plantas, da pesca e da agricultura. Outras instituições se dedicam a ministrar cursos de capacitação e treinamentos aos trabalhadores rurais. Algumas outras se dedicam ao processo de organização das comunidades rurais e urbanas que tenham objetivos comuns, tal como a FAMCOS (Federação das Associações de Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém). Grande parte dessas instituições é mantida com recursos de instituições externas, nacionais ou internacionais.

3.4.2 Entre o silêncio da floresta, o ranger da motoserra e o grito do guariba

O tempo de um lugar como o de União Corta-Corda, em que se dorme cedo e se acorda cedo, ainda é o tempo de uma realidade que convive com o fazer das atividades que seguem o ritmo que as pessoas dão a elas, cujos “ponteiros dos relógios” são marcados pelas necessidades básicas do cotidiano e pelos sons que vem da floresta, tal como os do grito do guariba, que juntamente com seus pares, emitem sons uníssonos em tom choroso e amedrontador, a partir das 17 horas. Desse momento em diante, sabe-se que a noite está chegando. Os sons do dia dão lugar aos sons da noite: vagalumes, corujas e o farfalhar de insetos que circulam livremente, saindo de suas tocas onde se esconderam durante o dia. Em contraponto, ouve-se ao longe “os sons da modernização” (das motoserras e dos caminhões) que adentram pela noite, cujos sons se espraiam pela floresta, mas que durante o dia, quase passaram despercebidos por estarem misturados com os diferentes barulhos que chegam com o brilho do sol.

A mudança de rotina do Corta-Corda só acontece, quando, em dias específicos, os trabalhadores necessitam acordar mais cedo para ir à cidade de Santarém vender seus produtos e fazer compras (Foto 21); líderes comunitários necessitam participar de cursos e oficinas, ou mesmo quando há necessidade de encontros para mobilizações organizadas pelo Sindicato na cidade de Santarém ou

em comunidades em situações de risco. Nesses casos, seguem de madrugada para determinado local, próximo de um igarapé, à espera do ônibus que os levará aos seus destinos.

Não havia luz elétrica nas comunidades em estudo no início de 2007 (época da pesquisa), portanto, se alguém tivesse que buscar água ou tomar banho no igarapé, havia de fazê-lo mais cedo ou seguir com a lamparina ou a lanterna até o local. Certamente, com a chegada da energia elétrica, que estava prevista para o final de 2007, muitas dinâmicas aqui mencionadas sofreriam mudanças. As opões de lazer e “distração” (como dito pelos comunitários), ficavam por conta dos banhos no igarapé, eventos na igreja evangélica (única existente na União Corta-Corda), encontros para “jogar conversa fora” e jogos de bilharito para os homens.

No último domingo de cada mês, acontece a reunião comunitária na Associação dos Moradores da União Corda-Corda (ASMUCC), na qual também são convidadas lideranças e famílias de outras comunidades. Nesses encontros são tratados assuntos de interesse comum, tais como as questões da terra e outras demandas. Esse é um momento especial, não somente pela “obrigação” comunitária, mas também por ser uma oportunidade de congraçamento, onde todos procuram se apresentar na sua melhor aparência, vestindo sua melhor roupa e usando algum perfume que tenham em casa (Foto 22). Esses encontros contam, normalmente, com a presença do delegado sindical, e não raro, com a de outros protagonistas que têm interesses diferenciados com relação às terras e assentamentos. No encontro realizado à época da pesquisa, apareceu, por exemplo, um dos donos de escritórios de georreferenciamento sediado em Santarém, representante/candidato a líder comunitário de futuro assentamento, representante dos interesses da empresa contratada pelo INCRA para instalar as turbinas para a luz elétrica (com o intuito de mudar a opinião de trabalhadores que se opunham a essa ação), entre outros com interesses diversos.

Os comunitários discutiram vários temas, entre eles, o valor da mensalidade para o sindicato; se comunitários vão optar pelo sindicato dos aposentados ou dos trabalhadores rurais; freqüência das visitas do delegado sindical e possibilidade de lançar candidatos do meio rural (da colônia) para vereador à Câmara Municipal de Santarém, visto que os ribeirinhos (o pessoal da várzea), já conseguiram eleger seu candidato.

O lanche servido aos presentes do encontro é composto, normalmente, por mingau de milho (mungunzá) e vinho de açaí com farinha de mandioca. Para não perder a qualidade, o vinho do açaí é conservado na “geladeira”, como eles mesmos dizem (garrafas Pet de guaraná, amarradas em galhos de árvores e mergulhadas na correnteza do igarapé para esfriar).

FOTO 21 – Deslocamento de Trabalhadores Rurais de diversas Comunidades do PA