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A Escola Estadual Professor Edgar Barbosa possui amplas instalações de sala de aula, uma biblioteca, uma sala de vídeo, um laboratório de informática e uma sala de professores onde estes reúnem para descansar e fazer um pequeno lanche oferecido pela instituição. Nesse ambiente, os professores conversam e se mantêm informados sobre as turmas e o comportamento dos alunos.

A biblioteca é ampla e bem freqüentada. O acervo, composto por livros didáticos, em sua maioria, e alguns exemplares de literatura, apesar de não ser o ideal para uma escola que propõe formar leitores, permite o desenvolvimento de um trabalho com textos literários. Segundo a bibliotecária, há uma procura por livros de literatura, principalmente por alunos que vão prestar o concurso vestibular. De acordo com essa funcionária, os alunos do Edgar Barbosa se dão bem nesse concurso porque lêem bastante. Mostrou-me o livro de registro do ano 2005, ano do experimento, para comprovação do que havia afirmado, ou seja, que os alunos procuram livros na biblioteca. Essa informação contraria a da professora e dos alunos quando revelaram, na entrevista inicial, a ausência de livros de literatura na biblioteca. Antes de introduzir as falas da professora e dos alunos, gostaria de ressaltar que tanto a professora quantos os alunos estão apresentados com nomes fictícios com intuito de preservar a identidade dos sujeitos.

Vejamos trechos das entrevistas. Com a professora:

Pesquisadora: Quando você termina uma aula de literatura, os alunos se

mostram interessados em discutir ou rever o que foi falado em sala? Como vocês têm biblioteca, eles vêm pegar um livro ou um texto que despertou atenção?

Professora: Aqui não. Porque ... é.... os livros aqui, de literatura praticamente

não existem. Língua portuguesa e literatura não existem

Pesquisadora: Na biblioteca não tem livro de literatura?

Com os alunos:

Pesquisadora: Você sempre encontra na biblioteca o que precisa?

Carlos: Assim... para fazer trabalho, eu encontro. Tem muito livro didático. Mas

livro, assim.... sem ser didático, não, quase nenhum.

Pesquisadora: Você costuma ir à biblioteca? Thiago: Às vezes.

Pesquisadora: o que leva você a uma biblioteca? Thiago: Só os livros de poesias.

Pesquisadora: A biblioteca possui livros de poesias? Thiago: Alguns, por isso vou pouco.

Pesquisadora: Você costuma ir à biblioteca? Glória: Quando preciso ler alguma coisa

Pesquisadora: Quais são os professores que convidam você a ir à biblioteca? Glória: A professora de português, de inglês, sobre dicionários, essas coisas,

né? Só.

Pesquisadora: Você encontra sempre o que precisa? Glória: Às vezes. É pouco livro.

Pesquisadora: Você não pode pegar livro na biblioteca?

Ana: Aqui a gente não pode pedir emprestado, quer dizer, eu não sei. Eu nunca

peguei emprestado. Mas as meninas dizem que não pode. Em casa, sei lá, eu só levo o tempo em dormir.

Pesquisadora: Por que será que não pode pegar livro emprestado na biblioteca? Ana: Não sei.

No “passeio” feito à biblioteca, comprovou-se a informação da bibliotecária: há livros de literatura. No entanto, os alunos afirmaram que não iam à biblioteca por vários motivos, dentre os quais, a inexistência de livros interessantes. Uma aluna afirmou ainda que só podia ler na biblioteca, durante o intervalo entre uma aula e outra. Como

estava impossibilitada de levar o exemplar para casa e o intervalo era curto, não dava para fazer leituras. Vejamos o depoimento de uma aluna:

Pesquisadora: E de literatura, você não gosta?

Marta: Literatura. Eu lia muito. Aí dei uma parada depois que não encontrei

mais livro de literatura. Porque eu pegava emprestado na escola onde eu estudava.

Pesquisadora: Onde você estudava? Marta: Eu estudava no Juvenal Lamartine. Pesquisadora: Lá tinha uma biblioteca boa?

Marta: Tem. Aí, aqui a gente não pode pegar livro emprestado. Aí eu parei de

ler livro de literatura.

Pesquisadora: Por que não pode?

Marta: À tarde, pode. De manhã, a mulher não deixa não. Só não sei o motivo.

Pode pegar no intervalo. Mas o intervalo é muito pouco para a gente ler. A gente fica na sala e quando toca, ela já pede para sair.

Pesquisadora: Quer dizer que tem de ler o livro na biblioteca, não pode sair

com o livro?

Marta: Pode não.

Os registros da bibliotecária mostram que há procura por livros de literatura, talvez por alunos de outras séries, que não a que está participando do experimento, preocupados com o vestibular ou talvez envolvidos num determinado trabalho de algum outro professor.

A bibliotecária ressente-se com o fato de os professores não a procurarem para desenvolver um trabalho conjunto. Ela se envolve com os alunos, conhece a importância da leitura de literatura e deseja desenvolver um trabalho integrado com os professores; mas, como não tem respaldo, é obrigada a se virar sozinha, auxiliando os alunos que, porventura, queiram enveredar pela leitura. Isso ficou demonstrado quando, na minha incursão pela biblioteca, percebi o relacionamento dela com os alunos.

Mostrou-me os livros mais procurados, leu as poesias que os alunos tinham produzido, com comentários, elogiando-as e mostrando-as para todos que chegavam à biblioteca.

Há também uma sala de vídeo. Esse espaço é muito requisitado pelos professores por causa dos instrumentos como retroprojetor, televisão e vídeo. Esses instrumentos facilitam o desenvolvimento do trabalho e, para alguns professores, despertam mais interesse nos alunos. Conta-se com a presença de uma orientadora que seleciona, muitas vezes, o material que será utilizado pelos professores. Como é uma pessoa muito envolvida no seu trabalho, ela sempre convida os colegas e lhes apresenta materiais que podem ser discutidos, vistos pelos alunos.

A escola possui um amplo pátio onde os alunos podem, nos horários vagos e nos de folga, jogar e participar de brincadeiras. Esse espaço é saudável no que diz respeito ao aspecto brincante dos alunos, entretanto o barulho produzido pelas brincadeiras atrapalha o desenvolvimento das aulas. Os alunos que estão em sala ficam desejando participar das brincadeiras. Os olhares fixam-se nessas brincadeiras. É latente o desejo de estar naquele espaço tão cheio de vida, e a sala de aula torna-se o lugar do enfado, do não desejável. A professora, de tanto chamar atenção para a aula e requerer a presença deles, torna-se, na visão dos alunos, a “megera” que os aprisiona e os mantém ocupados com tarefas que, muitas vezes, não lhes parecem merecedoras de atenção, porque não vêem nelas um sentido. Daí, desligam-se com facilidade, e qualquer ruído, por menor que seja, é motivo para desviá-los do que estão desenvolvendo.

Há ainda os alunos de outras turmas que ficam na janela observando as atividades desenvolvidas na sala. Muitas vezes, esses observadores deixam os colegas inibidos e sem vontade de participar ou os incitam a fazer mais brincadeiras e algazarras.

Nesse ambiente complexo e dinâmico, o professor é um sísifo, que como não pode recuar, continua a desempenhar seu papel, o de cuidar para que os jovens sob seu comando consigam atingir o objetivo que os faz vir à escola.