• No results found

Methodology for analysing the balancing of power

A população delimitada foi uma turma de primeiro ano do Ensino Médio composta de 40 alunos, de uma faixa etária situada entre 13 e 17 anos, com maior concentração em 15 anos (com exceção de uma aluna de 30 anos). A maioria reside em bairros próximos à escola, como Cidade da Esperança, Nazaré e Lagoa Nova.

Estão na adolescência. Nesse momento da vida, um mundo de novidades se abre para esses indivíduos, e a escola, como instituição formadora, pode representar para eles o lugar das descobertas através da poesia. Nessa faixa etária, os alunos passam por mudanças biológicas, psicológicas e comportamentais, resultantes da busca e do sentido de sua identidade. Adolescer é viver a aventura de uma metamorfose, é uma vontade de ser criança e adulto ao mesmo tempo (CARVAJAL, 2001). Essa é uma fase conflituosa, pois ainda querem buscar aquilo que consideram importante da infância, como o apoio dos pais, professores e pessoas mais velhas, e, ao mesmo tempo, querem abraçar o mundo novo que se abre para ele.

Esse novo mundo não comporta mais essa dependência, então o adolescente questiona modelos, rebela-se contra instruções formais. Declina a imagem social paterna, que no social funciona como referência, indicando a possibilidadade de um laço social atrelado às leis e imagens ideais, para dar vida ao ideal transmitido à juventude que prega a satisfação narcísica. Para se realizar plenamente, os adolescentes devem gozar dos objetos aqui e agora, sem as interdições que os lançariam num processo de desejo constante.

Oriundos de famílias sem práticas leitoras consistentes, esses jovens passam a ter acesso à leitura quase que, exclusivamente, na escola. Com algumas exceções, o contato com o material escrito se dá pelo texto bíblico. Alguns, sem contato nenhum, não se interessam nem pelos materiais que lhes são oferecidos em sala de aula. Não gostam de literatura e dão preferência aos textos informativos porque os põem em contato com os movimentos do dia-a-dia.

Os primeiros encontros de observação permitiram um olhar atento ao grupo de alunos que faria parte do experimento. Apesar de já me conhecerem e terem-se mostrado receptivos à minha pesquisa, a presença de alguém fora da rotina na sala

provocou um distúrbio. A novidade naquele dia era a pesquisadora.Todos queriam falar ao mesmo tempo. Em meio a um burburinho, com movimentos na sala, com conversas paralelas e intercaladas, a professora tentava manter a ordem. Mas estavam excitados demais para ouvi-la. Alguns queriam saber mais do experimento: quando começaríamos e o que deveriam fazer. Outros se movimentavam, indo de colega em colega, arrastando carteiras e mexendo com eles. A princípio, essa movimentação pareceu uma boa resposta ao que propunha desenvolver, uma aula em que os alunos pudessem se mover, participar ativamente das leitura, sentir e viver as poesias que lhes apresentaria.

Entretanto, a confusão que se estabeleceu na sala naquele momento gerou um conflito entre a professora e os alunos. Apesar de acreditar na viabilidade da pesquisa, a professora não via disponibilidade no aluno e repetia o discurso presente no senso comum de que “o adolescente não quer nada”, não sente necessidade de aprender. Em vista desse discurso, o adolescente, por sua vez, se sente num ambiente hostil e não se dispõe a compactuar com uma aula que não tenha um sentido objetivo para seus interesses. Em trecho da entrevista, a professora afirmou que, para se ter adesão da turma numa atividade, é preciso que se elabore uma aula que ela chama de “senhora aula “:

Professora: Eles participam mais da de literatura, mas tem que ser uma

senhora aula de literatura. Se for aquela que você fala o tempo todo e não mostra o concreto, né? Porque a gente não vai trabalhar só a questão da teoria em literatura. Você tem [...] então essa parte concreta é justamente quando eu falo a questão da música, do filme, novelas. É a associação da teoria com aquela parte prática. Não fica só na abstração.

Essa fala da professora corrobora a compreensão de que, para se ter adesão da turma, a aula precisa gerar prazer: o prazer de ler, o prazer de vivenciar o texto. Essa concepção confirma a necessidade de o mestre compreender que precisa gerenciar sua prática, o que implica envolver-se no movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer (FREIRE, 1996). A “senhora aula” a que a professora se refere,

parte do pressuposto de que a atividade deve envolver o aluno, seus gostos e suas intenções. Para que isso ocorra, o processo de mediação pedagógica a ser realizado deve ser caracterizado pelo comportamento do professor como facilitador, incentivador e motivador da aprendizagem. Consiste em estabelecer uma espécie de ponte entre os aprendizes e os conhecimentos a serem construídos, de forma que possam se tornar sujeitos do processo de aprendizagem pelo exercício de sua autonomia, pela forma ativa e colaboradora na consecução dos objetivos visados numa perspectiva de construção e reconstrução dos conhecimentos.

Esse processo de mediação pedagógica que acontece na postura do professor considera a sua forma de abordagem dos conhecimentos, o processo de seu relacionamento com os alunos e o destes com o seu contexto maior. Os procedimentos de ensino, ou as técnicas a serem utilizadas, tanto as convencionais como as novas tecnologias, destinam-se à dinamização do processo de aprendizagem de seus alunos. Dessa forma, o aluno passa a ser o sujeito do seu processo de construção e reconstrução dos conhecimentos, assumindo a autonomia nesse processo a partir das condições, dos recursos e dos estímulos recebidos do professor, para que a sua aprendizagem ocorra de forma ativa, crítica, construtiva e reflexiva.

A criatividade do professor é um fator relevante e fundamental no processo para que os seus alunos pensem de forma própria, autônoma, participativa e interativa, envolvendo a turma nos diferentes trabalhos a serem produzidos, analisados e discutidos entre os colegas.

Como já foi citado, a turma era composta por 40 alunos, mas a presença em sala era de aproximadamente 25. Eles não eram assíduos; quando estavam na escola, encontravam um jeito de burlar a vigilância, preferindo o pátio para conversas e o pequeno campo para o jogo de futebol. Esse comportamento dos alunos induz ao seguinte questionamento: os adolescentes não têm compromisso ou a sala de aula não se oferece como um lugar aprazível de aquisição de conhecimentos? Para assegurar que a aprendizagem aconteça, o professor deverá considerar as exigências sociais, legais e educacionais, cada vez maiores, e estar atento a esse contexto em que se inserem os adolescentes, revendo os seus recursos profissionais, tais como a

atualização de seus conhecimentos, procedimentos, atitudes e relacionamentos, para que possa responder, de forma competente, às expectativas sociais e de seus alunos.

Pensando no motivo que faz com que esses alunos prefiram o pátio para jogos e conversas, convidei-os, então, para uma conversa para discutirmos sobre responsabilidades, afinal eles tinham concordado e tinham se mostrado interessados em fazer parte desta pesquisa. O resultado dessa conversa veio confirmar o que os autores como Carvajal (2001) e Gutierra (2003) vêm demonstrando: os jovens não são tão descompromissados como o sistema tenta rotular, o que eles precisam é de uma orientação que os induza a compreender que o processo de aprendizagem ocorre quando professor e aluno constroem juntos o sentido a ser aprendido, e isso requer, por parte deles, compromisso e dedicação. A partir dessa conversa, modificações no comportamento dos alunos foram verificadas, o que confirma, mais uma vez, o que os autores acima citados postulam: os jovens querem ser orientados, mas essa orientação deve ser pautada na concepção de que é preciso olhar os adolescentes numa perspectiva mais ampla, percebendo não só as transformações biológicas e psicológicas de importância fundamental, mas também o contexto socioeconômico, cultural e histórico no qual eles estão inseridos (BECKER, 1994).

Nas primeiras aulas, eles vinham um a um. Ficavam calados, de corpo presente, mas a alma no mundo lá fora. A professora comentava — Esses adolescentes de hoje

não querem nada. Insisti. A partir dessa fala da professora, o repertório selecionado foi

repensado e o planejamento modificado. Instaurou-se na sala de aula uma nova comunicação a partir das respostas que eu recebia deles. Queriam coisas mais cantadas, mais movimentadas. Deixei de lado a modalidade acadêmica de leitura e trouxe para sala textos com os quais eles tivessem afinidades. Vivenciamos, através das letras das cantigas de roda, das quadrinhas, das adivinhações e do rap e do funk, o mundo que eles conheciam de suas próprias vivências. Com essa mudança, eles começaram a participar mais e, quando eu chegava a escola, a maioria já se encontrava em sala de aula. Entremeada com as brincadeiras que eles vivenciaram, a poesia ganhou vida, ganhou sentido. Pude, então, realizar o objetivo pelo qual eu estava ali: promover o encontro desses adolescentes com o gênero de texto do qual alguns nem gostavam; outros gostavam, mas não sabiam explicar o porquê. Vejamos

alguns depoimentos colhidos após a leitura do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, feito pela professora da turma:

Pesquisadora: Essa poesia que a professora apresentou hoje, você gostou? Marcos: Gostei.

Pesquisadora: O que foi que mais chamou atenção nela? Marcos: Não, lembro não.

Carlos: Mais ou menos ... porque eu não entendo direito ... essa poesia ...

assim.

Pesquisadora: Mas, durante, a aula você respondeu às questões propostas pela

professora.

Carlos: Assim ... eu não entendo bem, mas eu não entendo bem. Só algumas

partes.

No tocante ao gosto pela leitura de poesia, vejamos o depoimento que segue:

Pesquisadora: Você falou o tempo todo em poesia. O que tem poesia que faz

você gostar tanto?

Thiago: Não sei ... o meu irmão fazia, eu lia. Aí eu comecei a gostar, fazer e a

ler também.