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Assosiasjoner og fritid

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27 4 Funn og analyse

4.2.1 Assosiasjoner og fritid

Mesquita recebeu na entrada da área e desferiu um chute violentíssimo sem defesa para o gol-keeper. Foi um verdadeiro delírio. As arquibancadas vergaram ao peso das aclamações: as senhoras, de pé, agitavam os lenços: os cavalheiros atiravam os chapéus, vivas estrepitosos ecoaram por longo tempo e o hino do Paulistano rompeu, vibrante e entusiástico celebrando o triunfo parcial de seu team20.

Lenços e chapéus agitados por senhoras e cavalheiros elegantes eram uma marca presente nos primeiros jogos de futebol realizados no Brasil. O texto acima, em especial, demostra a comemoração do primeiro gol marcado em um jogo de futebol entre a equipe paulista do C. A. Paulistano e o Fluminense F. C. do Rio de Janeiro. A partida foi realizada no Campo do Velódromo em 1903 e, apesar de sair na frente, o Paulistano sofreu uma surpreendente virada para o time carioca, com gols de Edwin Cox e C. Robinson, em uma prova de que o clube da Rua Guanabara não surgira no futebol para ser um mero coadjuvante.

Entre todos os jogos de clubes paulistas contra cariocas, nenhum refletia como este um determinado ideal de futebol, calcado na elegância e fidalguia que dominaram as primeiras décadas do futebol no Brasil. O relato jornalístico acima citado demostra que o espetáculo foi assistido por uma seleta plateia que frequentava elegantemente as arquibancadas do Velódromo paulista e do mesmo modo, o campo da Rua Guanabara no Rio de Janeiro. Mesmo que os outros clubes também possuíssem essas características, não as representavam com tanta clareza como o C. A. Paulistano e o Fluminense F. C.

Ao longo da história do futebol no Brasil, construiu-se um imaginário que identificava esses dois clubes como representantes centrais de um futebol calcado na distinção social e no elitismo. Tal identificação se deveu por estes terem sido tradicionais equipes de futebol em seus respectivos centros, tornaram-se as mais vitoriosas no campo esportivo durante a fase em que o amadorismo dominou a

20 O Estado de São Paulo, 08 de setembro de 1903. Álbum de recortes de jornais do Club Athletico

52 organização do futebol no Brasil. Associado a isso, essas agremiações possuíam uma forte influência política em suas capitais e na própria organização do esporte brasileiro.

O objetivo deste capítulo é analisar a fundação desses dois clubes e os seus primeiros anos, relacioná-los com o contexto de introdução dos esportes em suas respectivas cidades, em um período em que estas passavam por mudanças significativas em seu traçado urbano e social. Nesse contexto de mudanças urbanas, as práticas esportivas adquirem um significado de modernidade. Fluminense e Paulistano refletiram um determinado ideal de esporte que se enquadrava nos anseios de uma elite influenciada pelos modismos europeus, cristalizados na prática de um esporte civilizado, trazidos por jovens que estudavam na Europa.

Os associados desses clubes eram de modo geral, rapazes vinculados às elites urbanas cariocas e paulistas ascendentes, seja com a prosperidade trazida pela economia cafeeira, seja pela abertura de uma série de empresas de serviços e indústria.

Diferenciando-se das agremiações de imigrantes ingleses e alemães que já existiam nas duas cidades, Fluminense e Paulistano eram clubes de brasileiros, dessa forma, tornaram-se um referencial na fundação de outros clubes, especialmente no caso do Fluminense que foi fundado especificamente como um clube de futebol e acabou influenciando a fundação do América F. C., Botafogo F. C. e Bangu.

Tal caráter inovador permitiu a essas agremiações o exercício de uma liderança política em suas Ligas baseada na defesa do amadorismo e da distinção como forma de atuação. Assim, buscaremos encontrar semelhanças e diferenças na fundação dos clubes estudados, a relação existente entre eles em termos de ideais esportivos e desenvolvimento do esporte que justificava a existência desses clubes nos moldes em que eles foram originados.

Para o entendimento desse processo, as obras de José Murilo de Carvalho (1996), Nicolau Sevcenko (1992), Lucia Lippi (2006) e Jefferey Needel (1993) nos permitem uma compreensão do contexto social e político em que se deu o processo de construção da cidadania na realidade Republicana instalada a partir de 1889, assim como as influências na formação do campo esportivo onde os clubes atuaram.

Outro aspecto de análise são as disputas políticas em torno das Ligas paulistas e cariocas, como também o papel que cada um desses clubes irá exercer, em especial, na fundação da Liga Metropolitana de Desporto Terrestre no Rio de Janeiro (LMDT) e a

53 Associação Paulista de Sports Atleticos (APEA)21 na capital paulista. Através da analise da politica esportiva interpretaremos as nuances no processo de formação de cada Liga e suas repercussões no campo esportivo nos aspectos econômicos, sociais e raciais.

Para tal utilizaremos as fontes primárias produzidas nos arquivos das duas instituições como álbum de recortes de jornais, relatórios e atas de assembleia, resumos históricos produzidos pelos clubes22. Consultamos também jornalistas que produziram livros sobre o futebol em seu período, como Antônio Figueiredo (1919), Leopoldo Sant’Anna (1926), pois suas obras, embora pouco analíticas são contemporâneas com o momento estudado e refletem os dramas e princípios presentes no futebol que estavam em disputa no momento em que foram publicadas. Escritos ligados à memoria dos clubes também serão objeto de análise de nossos estudos, em especial os de Paulo Coelho Netto (1952) para a comemoração do cinquentenário do clube carioca e reeditada em 2002 para o centenário. Na mesma perspectiva, o trabalho de Ignácio Loyla Brandão (2000) sobre o centenário do paulistano contém informações úteis sobre os primeiros anos do clube.

Em busca de uma visão mais aprofundada e analítica do período, dialogaremos com trabalhos acadêmicos produzidos sobre a introdução do futebol em São Paulo e Rio de Janeiro, entre eles os de Leonardo Pereira (2000), José Moraes dos Santos Neves (2002), Wilsom Ganbeta (2013), Salun (2007) e Aidan Hamilton (2001), obras referenciais nos estudos sobre o futebol no Rio de Janeiro e em São Paulo durante o período amador. Estas análises despontam como um esforço de promover um olhar histórico diferenciado do promovido pelo discurso jornalístico e antropológico sobre o tema. A densidade das obras, alicerçadas em grandes quantidades de fontes, permitem retratar o período histórico inicial da difusão do futebol na cidade do Rio de Janeiro e São Paulo sob o prisma de atores sociais distintos dos que até então eram privilegiados. Estes autores propõem uma nova abordagem utilizando fontes como os jornais de época, os relatórios e atas dos clubes, além das crônicas publicadas pelos literatos que discutiram a introdução do futebol nas duas cidades.

Embora não abordem exclusivamente os dois clubes em questão, Paulistano e Fluminense são entendidos nestas obras como um fenômeno social maior dentro do esporte, mesmo em um momento em que o futebol ainda estava em sua fase

21 Usaremos a partir de agora essa sigla para referenciá-las.

22 O Paulistano publicou um resumo histórico em 1918 e o Fluminense em 1920, ambos são um retrato da

54 embrionária como espetáculo de massas, já se demostrava indícios da importância dessas agremiações para a sociedade paulistana e carioca, sendo assediados pela imprensa que reforçava cada vez mais o lado aristocrático desses clubes, ajudando a construir uma imagem elitizada deles.

Por tudo isso, torna-se importante a análise da forma como esses clubes foram constituídos em suas peculiaridades. Escolhemos neste capítulo o período de 1900 a 1915 como referencial por considerarmos uma fase de construção de suas formações associativas, uma vez que essas agremiações sofreram mudanças significativas a partir de 1915, com a chegada à presidência desses clubes de Antônio Prado Junior, no Paulistano e Arnaldo Guinle, no Fluminense.

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Fundados com a diferença de dois anos, Fluminense e Paulistano não foram os pioneiros na origem do futebol no Brasil. Na verdade, foram mais dois dos inúmeros clubes que estavam sendo criados para prática de diversos esportes, principalmente em São Paulo. A fundação do Club Athletico Paulistano, em 1900, coincide com as comemorações dos quatrocentos anos da chegada dos portugueses, onde celebrava-se os feitos da navegação, o Brasil aparece como filho primogênito de Portugal e reprodutor da matriz europeia, branca e católica nos trópicos. Tal imagem contrastava com a realidade do povo miscigenado (Lippi, 2006:128-129).

O Brasil de 1900 estava às voltas com crises econômicas, como a do Encilhamento23, e políticas, em um profundo desalento com a República que até então atravessava uma década de lutas, conflitos e tentativas de golpes militares. As comemorações do IV Centenário não podiam deixar de discutir a viabilidade do Brasil como nação. Ao valorizar a herança europeia, as elites celebravam a possibilidade de construção de um futuro calcado em uma sociedade moderna. Esse lado moderno estava presente nos progressos da engenharia e da medicina apresentados em congressos simultâneos aos festejos que mostravam os esforços do Brasil em entrar na modernidade através de reformas arquitetônicas, na construção de estradas, na erradicação das

23A Crise do Encilhamento aconteceu no Brasil no início da República, o seu apogeu foi durante o

governo provisório de Deodoro da Fonseca. Foi uma política econômica que se transformou em uma grande crise financeira. O ministro da Fazenda, Rui Barbosa, tentou adotar uma política que tinha como base liberar crédito para os investimentos industriais que se garantiam pelo excesso de emissão monetária, para, desta forma, estimular ainda mais a industrialização do país. O resultado foi uma especulação financeira desenfreada e uma alta taxa de inflação (Carvalho, 1987).

55 doenças tropicais, na construção da nova capital mineira, a cidade de Belo Horizonte (1894-1907), nas reformas urbanas no Rio de Janeiro (1904-1906), nas obras da prefeitura de São Paulo e nas pesquisas sobre eugenia (Lippi, 2006:130).

Tais exemplos reforçavam a tentativa do país de promover um esforço de modernização de que os esportes e seus clubes faziam parte. A virada do século XIX para o XX, em linhas gerais, representou a dissolução das hierarquias nobiliárquicas imperiais e igualização dos indivíduos em uma nova forma de cidadania.

Para José Murilo de Carvalho, a noção de cidadania construída no Brasil organizou-se de cima para baixo, na tentativa de o Estado trazer a população para a esfera de atuação. À medida que este burocratizava e secularizava os serviços públicos, interferindo e alterando o cotidiano de uma parcela da sociedade, tirando as pessoas de seu mundo privado e colocando-as dentro do campo de uma cidadania imposta, gerando inseguranças que muitas vezes foram manifestadas em revoltas como a de Canudos ou da Vacina. O autor chama a atenção que as reações não podem, no entanto, ser consideradas simplesmente como recusa de cidadania e sim como recusa a uma regulação vinda de cima, sem consulta e sem respeito aos costumes e valores tradicionais (Carvalho, 1996).

Essa cidadania imposta guardava conexão com certo espírito de regeneração do povo brasileiro, pautado pelo ideal do corpo são na mente sã. O esporte se fazia como espaço privilegiado de propagação de certos valores disciplinares e de liderança que avançavam na arena pública tornando-se uma prática de distinção reafirmadora de hierarquias sociais. Como resultado, ocorre uma “onda associativa” (Damo, 2008) que culminaria na fundação de uma série de clubes recreativos e esportivos das mais diversas origens.

Essa ideologia associativa atravessou a sociedade fluminense e paulistana, já que pertencer a alguma associação tornava-se uma verdadeira moda entre os mais jovens. Nesse contexto, a fundação do Paulistano e do Fluminense são resultados desse processo associativo mais geral.

1.1 - Os primeiros tempos do futebol no Brasil.

Tem sido lugar comum associar o desenvolvimento do futebol no Brasil como parte de um processo de modernização trazido da Europa. No Velho Continente, o

56 futebol encaixava-se entre os chamados esportes modernos cujas origens remontam ao período posterior à Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX. Consistia em uma atividade recreativa de novos grupos ascendentes em contraste com os rituais ligados ao antigo regime. O esporte moderno, ao contrário do praticado pela nobreza ociosa24, era marcado pelo adestramento, pela disciplina, pelo espírito de competição e pela busca de resultados (Elias & Dunning, 1991: 68-69). Tais características na sociedade urbano-industrial vão ao encontro do capitalismo liberal ascendente (Lucena, 2001).

Tais esportes, apesar de se distinguirem das práticas aristocráticas, traziam consigo um desejo de mimetizar os hábitos aristocráticos, objetivo perseguido pelas novas classes europeias. Tal tendência revelou-se decisiva nos seus costumes, ficando evidente a força das tradições e do passado na constituição do esporte moderno (Lucena, 2001:02). Nas escolas inglesas, o status aristocrático era acessível aos ricos, já não era um privilégio de nascimento, dependia mais da riqueza e da influência do que dos antepassados fidalgos25.

Na Inglaterra, os esportes não visavam apenas auxiliar a educação das elites. Eles serviam também para fomentar aspectos competitivos da nova ordem econômica e social, habituando a população ao estabelecimento de regras e mecanismos de controle social26. Ao mesmo tempo em que se adaptava a essa ordem, o futebol transformava-se em um espetáculo de consumo das grandes massas aglomeradas nas metrópoles. Nesse contexto, os clubes vão sendo fundados como um espaço de práticas recreativas

O contato da elite brasileira com os esportes foi marcado pela busca de novos padrões de sociabilidade e novas referências culturais importadas da Europa que tentavam distanciar-se do mundo colonial marcado pelo estigma da escravidão. Essa

24 Obras de Elias e Dunning (1991) analisam essa mudança de significado dos esportes a partir do

processo de criação do parlamentarismo na Inglaterra.

25 HOLLANDA, Bernardo Buarque de. O futebol como alegoria Antropofágica: modernismo, música popular e a

descoberta da brasilidade esportiva. Artelogie, 2011. <http://dialnet.unirioja.es/servlet/oaiart?codigo=3719624>,

último acesso 09 de janeiro de 2016.

26 Essas instituições propiciavam a formação dos futuros líderes sociais. Os esportes seriam praticados nos

intervalos dos rígidos estudos, sendo uma forma de preencher esse espaço de relaxamento evitando o vandalismo e os atos de violência contra os estudantes menores. Com esse objetivo algumas escolas passaram a incentivar a prática corporal dentro de seus muros, oficializando e regularizando essas práticas. (Lemos, 2008:13). Para Dunning essas escolas públicas inglesas possuíam um relativo grau de autonomia em relação ao Estado, isso permitiu uma atuação autônoma ao lado de um certo clima de tensão e de competição que havia entre elas, para o autor esse é o processo que levou ao desenvolvimento do futebol e do rúgbi na Inglaterra (2001).

57 elite, em boa parte letrada, buscou construir uma nova história para essa nação que recomeçava a partir da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República.

Dentro dessa tentativa de construir uma nova nação, estava o objetivo de criar um novo padrão de lazer e recreação que excluíssem hábitos como a capoeira e o entrudo, oriundos do passado escravocrata. As novas práticas sociais buscavam padrões de reconhecimento civilizados, também presentes no processo de urbanização e modernização que pressupunham relações sociais mais complexas em relação ao espaço rural. O modelo de obediência, de obrigações e favores que existiam no campo foi entrelaçado na cidade por uma nova rede de convivência entre os grupos (Pereira, 2000).

Convencionalmente atribui-se ao futebol, assim como à República, um caráter excludente em seus primórdios, apenas um segmento minoritário usufruía dele, era uma metáfora da condição política do país (Carvalho, 1990). Aristocrático e elitista, o futebol, na visão de Hilário Franco Junior (2007:61), era um esporte de bacharéis em um país desigual, um esporte de brancos em uma sociedade marcada pela escravidão, um esporte associado a ícones do progresso e da industrialização em uma economia agrário-exportadora.

Ao analisar a República recém-fundada, Jeffrey Needell (1993:41) afirma que uma das características da elite emergente era estabelecer locais exclusivos para contatos e alianças, com o objetivo de defender seus interesses e reforçar valores em comum, legitimando suas posições privilegiadas na sociedade. Os clubes que obedeciam a essa lógica eram espaços exclusivos de compartilhamento de valores que acreditavam reforçar sua posição social. Buscavam colocar as pessoas em seus devidos lugares o que reafirmava uma hierarquia social: separando ricos e pobres, brancos e negros, nacionais e imigrantes.

A priori, pertencer a um clube era uma forma de participar de uma elite. Os fundadores dos clubes aqui abordados colocavam em seus estatutos limitações para o ingresso de seus associados que iam desde taxas muito altas a barreiras de caráter cultural e social, como normas de comportamento e vestimenta, que eliminavam grande parte da população. Quem quisesse se associar ao Paulistano e Fluminense, precisava ser indicado por outro associado e aprovado em assembleia, muitas outras agremiações também adotavam esse critérios, em uma clara tentativa de tornarem-se espaços de distinção entre seus membros e o restante da população. Era uma forma de conferir

58 status. Havia naturalmente o caráter financeiro com a cobrança de duas taxas relativamente altas para grande parte da população: a joia e a mensalidade. A joia era uma taxa paga quando a pessoa se associava já a mensalidade era uma taxa mensal para poder frequentar as dependências do clube, usufruindo daquilo que este lhe oferecia em termos de estrutura física. O associado praticava as modalidades esportivas, podendo competir ou não com as cores do clube.

Para Bourdieu, as classes dominantes costumam investir seu capital cultural para consolidar seu poder e, para tal, estabelecem estratégias de distinção, como forma de se diferenciarem de grupos considerados inferiores. (Burke, 2002:78).

Essa visão já era corrente em 1918 quando analisada pelo jornalista Antônio Figueiredo ao explicar a introdução dos esportes em São Paulo:

Os sports em São Paulo foram assim. A princípio esteve em voga o jogo da pela. Quem dos atuais moços, não andou em criança com uma camisa de malha, calças brancas, uma boina petulante na cabeça e uma cestinha na mão? Era a novidade, a elegância da época. Os frontões medravam de maneira espantosa – todas as paredes serviam para os recreios da petizada. Famílias não cuidavam de outro divertimento: tolo era quem trocava uma “quiriela” reunida por um espetáculo de teatro, qualquer que ele fosse. Importado da Espanha, três anos, quanto muito durou o delírio pelos esportes da pelota. Daí a nada, não se falava mais desse jogo. (Figueiredo, 1918: 3)

A postura dos clubes em seu início de restringir a prática do futebol a uma elite amadora transparece na ideologia das classes dominantes do Rio e São Paulo, as quais atribuíam um caráter elitista ao futebol vindo da Inglaterra. A versão tradicional consagrada por cronistas como Thomaz Mazzoni, Mario Filho entre outros, aponta nomes como: Charles Miller, Artur Shaw, Manoel Erickson, Mario Eppingaux, Walter Friese e Oscar Leofresen, Oscar Cox, Etchegary, Hans Nobiling não só como pioneiros, mas como representantes dessa ética amadora. Esse movimento inicial, quando o futebol se concentra em pequenos grupos de jovens da elite não durará mais do que duas décadas e em pouco tempo ele ocupará outros espaços. Entretanto, durante o período em que foi apropriado por esses grupos foi criado um discurso sobre o futebol associado a uma prática de dedicação amadora.

A maior parte dos clubes surgidos nesse período adotavam nomes em inglês e mesmo aqueles que escolhiam denominações locais, utilizavam o complemento em

59 inglês. Era os Athletic, os Sport, os Foot-ball, e não eram clubes, mas sim club. Essa opção de nomes estrangeiros deixa clara a intenção dos associados em se mostrarem como herdeiros da cultura do mundo civilizado no país. Não só os nomes dos clubes obedeciam a essa lógica como todo o linguajar adotado no futebol seguia esse princípio: Gool Keeper – goleiro; back – zagueiro; Centerfoward – centroavante; Ground ou field – campo de jogo; Referee – juiz; Foul – falta; Charge – tranco; Match – partida; Scratch – seleção e assim por diante.

O historiador Leonardo Pereira chama a atenção para o fato de que conhecer com precisão as regras técnicas do novo esporte constituía uma necessidade para os

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