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Assessment at the national level

Na casa de Vó Zita, moram 03 filhas e 08 netos, 03 genros (um deles, viúvo); outras 02 filhas passam noites ou dias na casa da mãe com os seus filhos, 6 netos da matriarca. A casa é um bem coletivo. Da mãe, e de todos que precisam dela. Dona Zita, aposentada pelo INSS, separada do marido há 27 anos, mãe de 10 filhos, avó de mais de 40 netos e bisnetos, acolhe a todos da família e coordena tudo que acontece sem elevar a voz ou precisar se alterar. Sua autoridade é exercida pela própria referência que ela é para todos, não obstante seu atual estado frágil de saúde.

Segundo Hita (2002, p. 7),

a possibilidade de uma mulher se tornar “matriarca em seu grupo de parentesco vai depender da força e importância simbólica que ela (mais do que seu grupo familiar) consegue acumular. A força que estas “matriarcas” têm sobre seus filhos ou netos depende do “Poder simbólico da sua casa.

Por isso, faz-se necessário analisar com profundidade a trajetória, a constituição, o formato e a dinâmica da casa “pois é ela que dá sustentabilidade à matrifocalidade no contexto de pobreza urbana” (HITA, 2002, p. 7).

A territorialidade negra encontra na casa da mãe o ponto de ligação entre os integrantes do grupo familiar e o espaço da rua. A casa da matriarca é o centro e o alicerce das dinâmicas estabelecidas no grupo. Na fala de Andréia, neta de Vó Zita, a dimensão da matriarcalidade se expressa a partir da casa:

É a de vó. A casa de vó é a que mais se destaca pelo fato dela ter muito neto, e as filhas dela ter parido demais. Até lá emcasa mesmo você pode reparar, eu não vou mentir. E aqui as casas andam mais fechadas. Você passa pelas casas e você nem sabe a cor do chão e nem quem mora. Já na casa de vó, de longe você já destaca pelo fato de ter muita gente, de um entra e sai das portas, não só da frente como as do fundo serem abertas, e pelo fato dela receber qualquer um, qualquer um, e não importa ser de que religião for, não importa, ela acolhe qualquer um.

Nos estudos sobre matrifocalidade, Hita (2002, p. 7) destaca o lugar da casa como

espaço habitável e constituidor da identidade dos seus membros e das relações intra e inter geracionais, um lugar de passagem para uns e uma referência permanente para outros. A casa no meio popular é um lugar

ontológico, o lugar da mãe, uma fonte para a qual sempre se volta a fim de tirar as energias necessárias para continuar a luta da vida.

E continua sua reflexão dizendo que para uma mulher se tornar

matriarca em seu grupo de parentesco vai depender da força e importância simbólica que ela (mais do que seu grupo familiar) consegue acumular. A força que estas “matriarcas” têm sobre seus filhos ou netos depende do “Poder simbólico da sua casa”. (HITA, 2002, p. 7).

Ao redor da casa de Dona Zita a vida se afirma. São 150 pessoas entre filhos, noras, genros, netos, bisnetos, sobrinhos, irmãs, cunhados, agregados, como as noras separadas dos maridos e que continuam frequentando a casa da mãe. Os 150 compõem as famílias das três irmãs – Elza, Zita e Fátima – que residem próximo do Beco, mas que o têm como referência e a casa de Zita como central. É possível que mais da metade de toda a família passe pelo Beco ao menos uma vez por semana, não por ser um lugar de passagem apenas, mas principalmente para visitar Zita e 4 de suas filhas que moram ou na casa ou no Beco (como é o caso de Domingas). Três netos de Zita foram criados por ela praticamente até constituírem seus núcleos familiares ou continuaram, após ter o primeiro filho, no caso de uma das netas.

A casa de Dona Zita é a casa onde viveu Vó Dola desde que chegou às Pedrinhas com os filhos pequenos, dentre eles, Zita. A casa está no meio do Beco e já esteve em posição diferente da atual. Hoje ela faz ligação entre o Beco que passa na porta da frente, com o barracão de candomblé que está nos fundos, com entradas pelas duas laterais e com a casa de Dona Elza, irmã de Dona Zita e Mãe Fátima. A casa de Dona Zita é assim a antiga moradia de Vó Dola, tendo herdado já da época da matriarca a frequência dos integrantes da família na casa em um grande e constante movimento.

A casa é retangular, com três quartos, sala e cozinha. O banheiro é do lado de fora. E também outra cozinha, a mais usada, com fogão à lenha, onde a maior parte das refeições é preparada. Um portão ao lado dessa cozinha dá acesso ao espaço ritual de preparação de comidas ou de acolhida de visitantes nas festas do barracão. Há um pequeno cômodo utilizado em algumas festas. E outro quarto maior que é mais utilizado como local para as mulheres se arrumarem, se vestirem para as festas.

A água encanada é realidade recente. Nas frequentes faltas de abastecimento de água, é ainda a salvação a água do Poço Escuro, buscada pela manhã e guardada em dois barris grandes que ficam no corredor lateral entre o banheiro e a cozinha.

FIGURA 6- Beco de Dola – Casa de Vó Zita e Mata do Poço Escuro

Fonte: Arquivo da pesquisa (2011)

Na foto, tem-se uma visão do Beco em toda sua extensão, em torno de 150 metros. Composto por cerca de 25 casas, considerando as diversas habitações que são anexadas às principais. Em primeiro plano, um terreno baldio no qual já existiu uma casa e que hoje é utilizado para lixo. Não obstante a coleta regular de lixo por parte da prefeitura, através de carroceiros, moradores de outras regiões da Rua das Pedrinhas despejam lixo no local o que provoca mau cheiro e dificulta o trabalho das mulheres quando vão estender roupa nos varais. No meio da foto, a construção maior é a casa de Vó Zita. A rua é servida por rede elétrica e água encanada. O sistema de esgoto foi organizado pelos próprios moradores em um mutirão há uns 04 anos. Ao fundo, temos os bairros Guarani, Ibirapuera e Nossa Senhora Aparecida. No meio da foto, cortando-a num fio verde escuro, a Mata do Poço

Escuro, local onde, antigamente, as mulheres buscavam água e, no quarador, lavavam roupa.

A casa de Dona Zita é espaço de habitação, de encontro, visitas, conversas animadas, discussões, resenhas, festas e religião. Nas primeiras visitas que fizemos em 2010, não tivemos acesso à parte interna da casa. Havia na sala uma estante que fazia uma antessala já próximo da porta. Depois, a partir de julho, a estante já estava em outra posição, na parede oposta à porta e a sala ganhou outra amplitude. Acreditamos que a mudança tenha se dado pela doença de uma das filhas de Dona Zita e que veio a falecer na véspera do São João de 2010. A sala da casa de Vó Zita é o espaço que sofre constantes mudanças na posição dos poucos móveis, menos o altar principal dedicado a Cosme e Damião, organizado numa pequena mesa e na parede, no canto direito de frente para a porta de entrada, próximo da passagem para o corredor da cozinha e o quarto de Vó Zita.

As visitas dos parentes à casa são diárias. São mais de 40 pessoas passando em diversos períodos e por motivos os mais variados durante todo o dia e início da noite. Algumas das filhas, mesmo tendo moradia em outro bairro – Nova Esperança – acabam passando boa parte do dia ou mesmo dormindo algumas noites na casa da Mãe quando a situação de violência se agrava. A casa das grandes mães então vai ganhando diversos significados: habitação, abrigo, encontro, trocas; sendo, ao mesmo tempo, espaço físico e lugar onde intrinsecamente se processam a prática social e a dinâmica cultural. Para Hita (2002, p. 7),

a casa – espaço físico – é o registro por excelência para o estudo das relações de parentesco, pois na sua observação se detectam os distintos momentos de articulação e de mobilização de alianças e conflitos entre seus integrantes e é nas suas próprias transformações estruturais e espaciais que se expressa o curso da vida (trajetória, as distintas fases do curso vital) do grupo doméstico como um todo e dos indivíduos em particular.

A casa, dentro da dinâmica social de uma família negra extensa, é o espaço no qual estão ligados os corpos negros que a habitam e nela se articulam, transitam, se relacionam e a modelam. Toda essa dinâmica só é possível porque a casa de Vó Zita foi transformada em “um lugar a partir do qual os “sistemas de disposições” fundamentais se constroem e configuram” (HITA, 2002, p. 9). A autora ainda ressalta a importância de se “restituir o sentido da casa como categoria cultural” (HITA, 2002, p. 9), considerando-se tanto o lugar social e étnico a partir dos quais ela é inventada, quanto os modelos sociais e culturais

constituídos pela escravidão e colonização e que historicamente irão embasar uma hierarquia à qual a casa está ligada.

São relações pessoais com hierarquias ressignificadas, com papéis redefinidos, tendo como centro as figuras maternas, numa articulação hierárquica de poder entre gênero e geração. Pensar a casa como construção física, como unidade social, mas, principalmente como instituição social total, pois “a casa se constitui em um dos melhores registros dos momentos de articulação e de mobilização de alianças intra e intergeracionais entre seus membros e indica os ciclos de transformação que a acompanham” (HITA, 2002, p. 9). É ao redor da casa de Vó Zita que se articulam o Beco de Dola e o Barracão de Mãe Fátima.

As relações com a casa variam de acordo com a relação de parentesco com a matriarca. Ela é uma referência temporária para os que nela moram, mas estão de passagem, na busca de segurança, abrigo, refúgio. A casa não é deles, mas “daquela que assume a sua coordenação, o centro focal por onde transitam as relações e em quem se concentra o poder” (HITA, 2002, p. 9). Mesmo que já possuam a casa própria, como é o caso de três filhas de Dona Zita que ficam mais na casa da mãe do que nas suas próprias, preferem este abrigo pela segurança da casa, pelo refúgio da realidade de morte que impera no Bairro “Nova Esperança” – conhecido como “invasão” – mas, principalmente, pelo conforto da presença estimulante e orientadora da mãe, Dona Zita.

É na casa de Dona Zita que cada um dos integrantes constrói sua individualidade, a partir da participação na dinâmica do grupo. Não são apenas nomes, muito menos números. São pessoas, conhecidas umas das outras e entre elas se divide um alto grau de empatia e transparência. Quem nutre algum conflito no grupo, frequenta menos a casa. Mas, nem por isso a casa deixa de ser o que é para todos os integrantes dessa família – comunidade – agrupamento social – comunidade negra: “ ‘referencial de pertencimento’, por ser um “bem simbólico coletivo”, isto é a matriz simbólica na qual nascem a coletividade familiar e os mitos da família” (HITA, 2002, p. 10).

As crianças são as que mais vivenciam o espaço da casa, do Beco e das casas que compõem a rede de parentes com mais liberdade, por ainda não participarem diretamente dos conflitos já assumidos pelos adultos. Tal liberdade infantil gera uma circulação intensa entre as casas das três mães (Zita, Elza e Fátima) e também da filha que mora mais próxima e é relativamente um pouco mais afastada da intensificação de encontros do grupo, por conflitos internos. A circulação das crianças, seja pela mobilidade, seja pela

grande quantidade de crianças e adolescentes no Beco, torna ainda mais intensa a costura humana promovida na rede de parentescos e moradias.

É na casa de Dona Zita que se busca dividir o que já é pouco, mas que no final dá para todos matarem a fome. Seja um suco que se faz e vinte tomam; seja uma sopa, ganha por algumas das crianças que participam de projetos sociais e chegam com latas de sopa no final da tarde. As filhas de Dona Zita, mães das crianças ou as adolescentes mais velhas são as que prepararão a divisão dos pratos para todos, especialmente para os menores e depois para os adultos, caso sobre alguma coisa.

Uma das filhas de Vó Zita certa vez, no meio da pesquisa, veio reclamar que não se conformava do quanto a porta da casa ficava aberta. Não parecia ser um real problema dela ou da casa, tanto quanto ela pensava ser meu, pois a idéia de casa aberta poderia ser interpretada por mim com outra conotação, a de que a casa é mesmo aberta. Mas é bem a porta da cada de Vó Zita, constantemente aberta, um dos elementos mais significativos da pesquisa, à medida que quebra aquele esquema bipolar de DaMatta (1997), no qual casa é reservado ao privado e a rua ao público.

É na casa de Dona Zita que o som alto anima as tardes de domingo no Beco. A música é constante. A animação também. A cantoria é puxada cada hora por um integrante da família. Cantar, dançar em grupo, festejar é como que uma eterna comemoração por serem grupo, por estarem vivos, por vencerem mais uma vez tantas barreiras impostas pelas desigualdades sociais e territoriais. “As Pedrinhas é o melhor lugar pra se viver”. Ouvimos essa frase algumas vezes, dentro e fora de entrevistas. E o grande sentido dessa afirmação está mesmo em entender as Pedrinhas do Beco de Dola, da Casa de Dona Zita. Essa é a Rua das Pedrinhas que teimou em continuar Rua das Pedrinhas.

É na casa de Dona Zita que as festas de aniversários, os forrós animados com praticamente apenas “o povo de Zita”, dançando durante toda noite na sala de entrada. É nesta mesma sala que é dada a obrigação de Cosme e Damião, a festa dos erês, no mês de outubro. A sala é o espaço de maior frequência da casa.