3 Assessment of institutions and research areas
3.3 The Arctic University of Norway UiT, Faculty of Humanities, Social Sciences and Education
“Ai, ai, tem hora eu penso, a vida é muito ingrata e injusta com a gente”.
Kota (Filha de Vó Zita).
2.1 Uma breve aproximação do contexto
Quando fomos instigados a buscar conhecer Dona Zita das Pedrinhas, chamada por senhor Luiz Dionísio9 de “mãe do Quilombo das Pedrinhas”, entendiamos que havia chegado a um estágio da então pesquisa sobre a memória dos antigos carnavais que apontava para um universo ainda desconhecido. Não por querer sair em defesa de que fosse o Bairro da Rua das Pedrinhas um quilombo, mas por perceber que em tal fala estava contida uma possibilidade de encontrar uma experiência fundamental – no sentido de fundadora – da presença do negro em Vitória da Conquista, fazendo um paralelo com diversas outras – a do próprio colonizador da região, João Gonçalves da Costa, no século XVIII, e a de Maria Clemência, fundadora de uma das maiores comunidades quilombolas localizadas no município; por perceber que, naquele contexto de apagamento da memória dos antigos carnavais populares de Vitória da Conquista – protagonizados por homens e mulheres das classes populares, casas de santo, barracões e comunidades do axé – havia uma história de vida que faria emergir um capítulo importante da vida do município e da região.
Um enredo estruturado, denso de significados e representações, as trajetórias de vida das mulheres do Beco de Dola, centro dessa dissertação, ao mesmo tempo em que apresenta uma singularidade, faz vir à luz histórias poderosas. Trajetórias que abarcam quatro gerações de mulheres, compreendendo os diversos processos vivenciais e familiares. Para Clifford (2008, p. 59), “tais histórias simultaneamente descrevem acontecimentos culturais reais e fazem afirmações adicionais, morais, ideológicas e mesmo cosmológicas”.
9 Seu Luiz Dionísio, carnavalesco, criador da Escola de Samba Império Guarani, do bairro do mesmo nome. Jequieense de nascimento, na adolescência mudou-se para Vitória da Conquista. Esse diálogo foi parte de uma série de entrevistas na pesquisa sobre a memória dos antigos carnavais de Vitória da Conquista, para o curso de Especialização em Antropologia das Culturas Afrobrasileiras, entre 2006 e 2008, cursado na UESB de Jequié.
Compreender as trajetórias de Vó Dola, Vó Zita, Madrinha Elza e Mãe Fátima, na riqueza da formação do “povo de Dola” no coração das “Pedrinhas” nos ajudaria a compreender nossas relações sociais, nossa história, nossa cultura.
E naquela fala – “mãe do quilombo” – já aparecia outra categoria, certamente a mais cara na presente pesquisa, a matriarcalidade. A casa, do Beco e do barracão são os espaços onde se dá uma experiência ampla e partilhada de maternidade, de presença, de poder, de cuidado, de troca, de preservação e de defesa da vida. Lembro-me de que Luiz Dionísio ainda completou: “aquela mulher, Dona Zita, lutou demais para defender aqueles negros lá, ela é uma guerreira”. Assim, ele já dava a chave de compreensão de uma forma própria de vivenciar a dimensão do ser mãe, a partir da constituição de uma territorialidade negra e de uma ancestralidade.
A realidade social brasileira da diáspora africana apresenta modelos de chefia feminina e arranjos de famílias negras extensas matrifocais, nos quais a centralidade da figura feminina e dos papéis exercidos pelas mulheres se fortalece ao coadunar aspectos sociais como a territorialidade negra, a religião e as tradições afrorreligiosas. Tais aspectos se transformam em eixo “estruturador-estruturante” da forma de reprodução e modo de ser destes grupos ou modelo familiar (HITA, 2004, p. 01).
O presente capítulo, central à medida que apresenta os fundamentos de uma dinâmica muito maior de sociabilidade, resistência cultural e identitária, é fruto de um ano de pesquisa etnográfica cujo universo abordado não se restringiu à casa de Dona Zita, mas teve nela o seu centro irradiador e difusor. Por ser ela a maior referência espacial para o grupo da família de sangue e de santo em estudo. A casa de Vó Zita, o barracão de candomblé de Mãe Fátima e o Beco de Dola já compreendem “a casa” numa perspectiva de ampliação do seu sentido meramente físico, enquanto edifício, mas pensando-a enquanto um espaço social, como entende Strauss (1996). Para o antropólogo, a casa, enquanto fenômeno social ajuda a compreender sociedades em sua complexidade e organização. A casa de Vó Zita, ampliada para o barracão e para o Beco, é um lugar social, de trocas e afirmações, no qual, parentes, próximos e distantes, agregados, aliado e, por vezes, clientes ocasionais “exercem seu controle sobre bens materiais e imateriais” (LEVI- STRASS, 1986, p. 186).
Se no capítulo anterior, a proposta foi fazer o movimento de compreensão do Beco de Dola dentro de um universo mais amplo que é o Bairro das Pedrinhas, no presente capítulo, partindo da categoria analítica de matriarcalidade, a proposta é compreender a
dinâmica de estruturação da vida a partir das figuras, dos papéis e das lideranças exercidas pelas mulheres dentro da família extensa de Vó Zita, que vai além da mera “chefia”, uma vez que são grandes mães de um povo de cultura tradicional.
Com a observação participante, nós percebemos uma liderança compartilhada entre as quatro mulheres que estão no centro da vida da família de Dona Zita das Pedrinhas: Vó Zita, Madrinha Elza, Mãe Fátima como continuadoras da grande “mãe de tudo”, Vó Dola e sua presença ancestral. A trajetória de vida de cada uma reforça a percepção de uma força constante da mulher enquanto elemento central da persistência do grupo no tempo e no espaço. Nascida no início do século XX, mãe de Dona Zita, Madrinha Elza e Mãe Fátima, “Vó Dola”, como é lembrada ainda hoje, quatro anos após sua morte, é a maior liderança ancestral dentro do grupo, sendo impossível pensar o grupo sem compreender a sua figura, a sua centralidade e importância.
A memória de Vó Dola, juntamente com a liderança de Vó Zita e Mãe Fátima, é presença determinante, central na vida das mulheres mais velhas e das filhas de Dona Zita, principalmente as quatro que são mães de um maior número de filhos (Kota, 4; Jaíra, 7; Domingas, 4; Edinha, 12); e também na vida das filhas de Madrinha Elza, especialmente Cristina, com 6; e das filhas de Mãe Fátima, que morando com a mãe, tem a ajuda dela na criação de seus 4 filhos.
A pesquisa que, vindo de outro trabalho sobre memória dos antigos carnavais, começava centrada na pessoa e nas narrativas de Dona Zita, continuou tendo Vó Zita, mulher negra, idosa, filha de Ogum de Ronda, do caboclo Boiadeiro e do Sultão das Matas, a força maior de liderança dentro de toda a dinâmica que envolve o barracão de candomblé de Mãe Fátima, a sua própria casa e todo o movimento em torno de sua figura, alcançando a sociabilidade existente no Beco de Dola. Liderança compartilhada em graus diferentes com Mãe Fátima e com Madrinha Elza, ao mesmo tempo em que é reafirmada por sua família extensa e, também, à medida que a legitimação está em sua forma de viver o legado deixado por sua mãe.
Certamente, essa é a grande diferença da matriarcalidade presente na família do “povo de Dola”, de Zita, de Elza e de Fátima. Há uma liderança matriarcal a partir da qual o Beco vai se constituindo. No entanto, nem o Beco, nem a própria família de Vó Zita, são uma realidade hegemônica, uniforme nesse espaço de pesquisa, onde vivem outras famílias cujo formato é nuclear. A família extensa de Vó Zita, composta por mais de 150 pessoas,
tem a maioria dos seus integrantes nas imediações do Beco, mas também em outras regiões das Pedrinhas e da cidade, como o Bairro Senhorinha Cairo.
São outras as características que nos interessam na família extensa do “povo de Dola”, tendo no centro da vida, não a casa de Dona Zita ou de Madrinha Elza, não o barracão de Mãe Fátima, não o Beco de Dola, mas a liderança daquelas mulheres. Liderança de grandes mães e de mulheres do axé de uma família de sangue e santo, composta por avós, mães, filhas, filhos, noras, genros, netos e bisnetos sobre a qual debruçaremos nossas análises na busca da compreensão.
Importantes estudos sobre a família negra escrava já foram desenvolvidos na historiografia brasileira das últimas décadas, superando visões estereotipadas as quais alegavam que o negro escravizado não seria capaz de constituir família. Segundo Rocha (2004), não obstante a violência e opressão do cativeiro, a família foi o “lócus privilegiado de manutenção e transmissão de heranças culturais africanas entre os cativos” (ROCHA, 2004, p. 49).
A partir dessas constatações, abandona-se a ideia de que os problemas de emprego e moradia da população negra durante o século XX estivessem relacionados à falta de normas familiares desde a escravidão, sendo o racismo o que melhor explica a condição do negro no período pós-abolição. A dissertação de mestrado de Nascimento (2008) sobre o lugar do negro na sociedade conquistense do século XIX e XX aponta para uma das possíveis origens da família extensa como herança da própria organização do negro durante a escravidão, uma vez que os dados pesquisados evidenciam um equilíbrio no número de homens e mulheres na população escravizada na região.
Uma das possíveis explicações para esse equilíbrio talvez seja o aumento das famílias escravas nos últimos anos da escravidão em toda a região. A formação de famílias cativas, extensas, por meio de parentes de sangue, compadres e companheiros de trabalho também são elementos característicos do sudoeste do estado. (NASCIMENTO, 2008, p. 51).
Na região da Rua das Pedrinhas, a configuração de família extensa não é própria apenas do povo de Vó Dola, mas a cada década que passa, mais vai se tornando uma característica peculiar da família. Havia nas Pedrinhas outros terreiros, barracões, inclusive de mães de santo cujas famílias também eram extensas, com características matrifocais. Outras famílias negras extensas da região, no entanto, não tinham características
matrifocais, como o caso da família do Seu Guina, ou do falecido Lubião, cujas filhas continuam conhecidas como “filhas de Lubião”.
No primeiro capítulo, apresentamos como se deu a constituição do Beco de Dola a partir da ocupação da região da Rua das Pedrinhas. E, ao se fixar nas Pedrinhas, já sem a presença do marido, Vó Dola começa a organizar a vida dos seus filhos em torno de diversos trabalhos braçais e da aquisição de pequenos lotes de terra os quais, com o tempo, são passados para os filhos, sendo que duas deles – Lurdes e Elza – se casam com dois filhos – Paulo e Joaquim – de Dona Josefina, outra mulher que está na origem do bairro e do Beco e das Pedrinhas.
Os terrenos nos quais se encontram o Beco, o barracão, a casa de Madrinha Elza, a casa de Vó Zita, a casa de uma de suas filhas – Domingas – pertenciam à Dona Josefina. É nesse espaço que se constituiu a família de Dola que cresceu ao seu redor até meia década atrás e, hoje, ao redor de suas filhas – Zita, Elza e Fátima.
Gebara (2000, p. 14) lembra que muito antes e em paralelo às “revoluções” feministas da segunda metade do século XX, as mulheres nordestinas, pobres, “sem pertença a nenhuma organização política, social ou feminista”, constroem saídas para o sofrimento, a dominação e a opressão. Assim, “saindo de suas velhas e novas senzalas”, produzem mudanças que alteram sua própria visão da vida e fazem a diferença, “sem luta organizada, sem uma causa social publicamente reconhecida, sem uma compreensão sistematizada das causas da opressão social, sem um conhecimento do feminismo afirmam- se à sua maneira como “sujeitas” de direitos e de deveres” (GEBARA, 2000, p. 14).
Numa perspectiva de uma antropologia da mistura (feminista, cultural), a autora trabalha a luta de milhares de mulheres que vivem uma mobilidade espacial que mesmo sendo em dimensões relativamente pequenas, na mesma região ou Estado, promove “perdas significativas, ligadas aos costumes familiares e às tradições culturais (GEBARA, 2000, p. 14). Dentre as mulheres nordestinas, destacam-se especialmente a mulher negra, a qual, segundo Leila Gonzales (apud LUZ, 1982 apud ABRANTES & ALMEIDA, 2001, p. 2), é “objeto de tripla discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexismo a colocam no mais baixo nível de opressão”. E, dentre estas, as grandes mães, com suas famílias de sangue e de santo.
Nas Pedrinhas, certamente por conta da fixação promovida pelas diversas fontes de trabalho – pedra, água, lenha, trouxas de roupa – buscando se libertar da dependência da dominação masculina – muitas mulheres criaram laços profundos entre si que
extrapolavam o próprio Bairro das Pedrinhas, mas elas tinham nele seu espaço principal. Criaram redes de solidariedade à medida que desenharam uma experiência coletiva e plural, estabeleceram novas formas de construções relacionais, grupos domésticos, famílias extensas, redes comunitárias de solidariedade, cultura e, especialmente comunidades religiosas de matrizes indígenas e africanas.
A pesquisa sobre um território negro nas Pedrinhas encontrou dezenas de mulheres negras anônimas, em nada frágeis, vistas como guerreiras, sustentáculos econômicos, afetivos e morais de suas famílias e comunidades, especialmente as mães de santo que, além de desempenharem papéis religiosos e culturais, também são detentoras de saberes e poderes religiosos, médicos, culturais em prol da vida do lugar.
À medida que se afirmam na luta, na resistência, na solidariedade, na proteção dos seus, na busca de alternativas de sobrevivência para o grupo, nas negociações, carregando e conduzindo um universo ao seu redor, elas se tornaram, primeiramente, “mães de todos”, como um seu Robertino, morador das Pedrinhas se referiu à Vó Dola em entrevista.
A grande questão é compreendermos a dinâmica da constituição da família extensa de Vó Zita dentro de um contexto de famílias que se estabeleceram no bairro da Rua das Pedrinhas a partir das décadas de 1950 e 1960. Compreender sua organização familiar, não numa perspectiva de classificação, a partir de um paradigma do que vem a ser um modelo de família nacional, pautada na família patriarcal, nos valores morais que ela representa. Tal paradigma reforçaria a ênfase da abordagem nos aspectos com os quais comumente se definem o conjunto de famílias matricentradas: “trajetórias matrimoniais caóticas, ciclos familiares inacabados, ausência ou fracasso dos casamentos civis, circulação de crianças, etc” (AGIER, 1996, p. 193). Ao invés, compreender como a família extensa foi, ao mesmo tempo, resposta a um contexto de pobreza e segregação, constituição de um povo de santo, pautado na matrifocalidade e na matriarcalidade.