A escolha de um instrumental teórico está diretamente ligada à problemática que queremos afrontar no trabalho de pesquisa. Em qualquer trabalho de investigação, e a História é um trabalho investigativo, o trabalho teórico antecipa a aproximação da problemática que se quer enfrentar, na tentativa de escolher as melhores ferramentas para o trabalho a ser executado.
Em nosso trabalho, a palavra política não deve ser entendida naquele sentido restrito, quase do senso comum, ou seja, como os mecanismos de administração do Estado, ou o poder daqueles que foram eleitos. Quando falarmos de política nesse
intuição do uso de certos autores como referencial teórico de reflexão surgiu da leitura deste artigo do professor Falcon.
90 Na análise da visão política presente no sul catarinense dentro da fronteira temporal escolhida para
nosso estudo, (chegada dos imigrantes até o final da década de 1920), evitaremos trabalhos que tenham um posicionamento analítico muito genérico. Iremos dar valor aos testemunhos orais e documentos de época, privilegiando fundamentalmente as obras do Historiador Pe. João Leonir Dall’Alba que se caracterizam fundamentalmente por uma compilação de tradições orais sobre a imigração italiana e alemã no sul catarinense. Na análise da cultura e da cosmovisão política das comunidades evitaremos qualquer referência a fontes secundárias. Só em última instância, por falta absoluta de fontes primárias faremos mão delas. Consideramos que um dos grandes problemas da historiografia, principalmente quando seu objeto é político, é assumir alguns dados como modelo interpretativo para um contexto espaço-temporal indevido. Há uma generalização excessiva no campo da histórica. Se é verdade que se conseguiu superar a história política tradicional, por outro lado as novas abordagens tendem a ser genéricas demais, de tal forma que conceitos como “oligarquia” ou “personalismo político” são usadas sem calibramento adequado às especificidades locais. Privilegiaremos fontes locais. Queremos compreender, através da análise dos testemunhos orais e de documentos ligados diretamente à ereção da Colônia Grão Pará, como estas populações rurais que se socializaram numa área colonial específica do sul catarinense, construíram sua visão política.
sentido mais restrito, sempre indicaremos que assim o fazemos. Em nosso discurso, o conceito político é equivalente ao conceito de poder, conforme a forma de pensar elaborada por Michel Foucault:
Em qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso.91
Estamos nos referindo a uma ação política que não se deixa enquadrar nas malhas das ações coletivas de partidos ou movimentos políticos, a não ser esporadicamente. Não mais o político como ação dos grandes personagens ou instituições, mas o político como a atitude de pessoas e grupos perante as normas, as leis, as regras de convenção social. No fundo é uma concepção de político onde este é visto como um poder que foge às malhas institucionais. De uma preocupação da superestrutura do poder para uma preocupação com as atitudes dos sujeitos que vão se constituindo, resistindo, negociando.
Nos parece ver no espaço geográfico sul catarinense, a partir da chegada dos imigrantes, um lócus propício para o uso desse instrumental, principalmente pelo fato de que se constitui uma estrutura de produção em pequenas propriedades que se contrapõe ao modelo de grandes propriedades produtivas, que quase sempre foi o modelo de interpretação da história brasileira. A história regional e local tem que se apossar de outros instrumentais teóricos ou continuará repetindo idéias que provém de outros contextos sociais, fazendo perder a especificidade que brota da realidade local.
Michel Foucault sugere que partamos do pressuposto de que nada é natural, tudo é cultural, tudo é gestado, tudo é produção, tudo é produzido, principalmente os conceitos que disciplinam as relações no contexto social e que refletem uma estrutura social desigual. Eles não são entes naturais, foram naturalizados. “Não há, através do tempo, evolução ou modificação de um mesmo objeto que brotasse sempre do mesmo lugar”.92
O que importa neste trabalho é perceber o político como um poder e de que maneira, as atividades cotidianas vão aos poucos instituindo práticas e
91 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979. p. 179.
92 VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília,
mentalidades. Para nós interessa, sobretudo, entender o processo de criação de um ethos político dentro da região em que aconteceu a revolta civil armada, para dar racionalidade a essa mesma revolta. É a “ análise do poder em sua positividade, como rede de relações que se exerce molecular, ininterrupta e ramificadamente, em todos os domínios da vida social, produzindo individualidades, adestrando gestos”.93 Sem esse instrumental na mão, a revolta civil em Orleans seria somente articulada dentro das categorias genéricas de República Velha e política oligárquica ou reduzida simplesmente a uma luta de classes. Assim, principalmente nos capítulos IV e V, esperamos chamar a atenção para a formação de um ethos político mediado por relações novas dentro do espaço rural das comunidades de imigração.
Independente da referência formal a uma partido político ou a uma corrente política, a idéia chave é usar como instrumento de análise um conceito bastante aberto. Portanto, queremos perceber o poder não simplesmente em suas formas regulamentares e legítimas, ou seja, dentro do direito positivo. “Trata-se de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá onde ele se torna capilar, captar o poder em suas formas e instituições mais regionais e locais”.94
Seria extremamente anacrônico iluminar nossas fontes com um conceito de atividade política onde esse abarcasse a idéia de ideologia partidária. A sociedade humana, de uma forma ou de outra, se organiza politicamente, não necessariamente dentro dos modelos do restrito conceito moderno. Consideramos que as “Precauções Metodológicas” propostas por Michel Foucault são extremamente úteis para iluminar a leitura de certos testemunhos orais.95
A historiografia durante muito tempo usou o instrumental de análise de Marx para entender o fenômeno político. Esse era tradicionalmente entendido como uma superestrutura criada para manter a dominação de uma classe sobre outra.
93 RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar – a utopia da cidade disciplinar – Brasil 1890-1930. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1985. p. 14.
94 FOUCAULT, Michel. Op. cit., p. 182.
95 Conforme a segunda precaução metodológica Foucault sugere, “estudar o poder onde sua intenção
está revestida de práticas reais e efetivas; estudar o poder em sua face externa, onde ele se relaciona direta e imediatamente com aquilo que podemos chamar provisoriamente de seu objeto, seu alvo ou campo de aplicação, quer dizer, onde ele se implanta e produz efeitos reais... Como funcionam as coisas ao nível do processo de sujeição ou dos processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos.” Na terceira precaução metodológica Foucault lembra que não se deve “tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras; mas ter bem presente que o poder – desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos.” In FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, Rio de Janeiro, Graal, 2002, p.182-183.
Consideramos que essa premissa teórica tem sua validade. Contudo, cremos que o instrumental marxista, não está calibrado para entender um contexto como a região de imigração no sul de Santa Catarina, principalmente porque dentro do horizonte teórico marxista, a categoria política está ligada a atividades institucionalizadas de ação política como sindicatos e partidos políticos, reduzindo a possibilidade de compreensão dos mecanismos políticos que se engendravam na Colônia Grão Pará.
Como iremos mostrar em nosso trabalho, há uma contraposição de dois mundos simbólicos diferentes em relação à compreensão do ethos político. De um lado o grupo nacional que domina o poder político local e regional através da política de cunho personalista e oligárquica. De outro os imigrantes que, alijados do poder, são os produtores do excedente produtivo da região, o qual é mediado pelos comerciantes que também são nacionais. Ora, sem uma participação nos mecanismos formais de poder, partidos políticos por exemplo, como se estrutura o pensar político dessas comunidades? Como se constrói seu ethos político? Como se processa a gênese da cosmovisão política dentro das comunidades de imigrantes até a década de 1920, de tal forma a obtermos alguns elementos que nos permitam entender a revolta civil armada em Orleans em 1923?
O instrumental marxista não é adequado para responder a essas perguntas, principalmente numa realidade caracteristicamente rural. Por isso,
Em vez de orientar a pesquisa sobre o poder no sentido do edifício jurídico da soberania, dos aparelhos de Estado e das ideologias que o acompanham, deve-se orientá-la para a dominação, os operadores materiais, as formas de sujeição, os usos e as conexões dos sujeitos pelos sistemas locais e os dispositivos estratégicos.96
Trata-se, portanto, de entender as técnicas de poder desenvolvidas dentro dessas comunidades como reveladoras de sua própria idéia de política. Conhecer as táticas de organização do mundo simbólico dessas comunidades, das atividades exercidas, da circulação de poder, do modo como escolhem seus líderes, do modo como entendem sua identidade, do modo como compreendem a relação com o poder religioso, do modo como constroem suas capelas em contraposição à igreja matriz na sede municipal, tentando examinar todos esses mecanismos como circuladores de poder e geradores de uma cosmovisão política específica. Nesse sentido, o instrumental teórico de Michel Foucault é muito mais conveniente para
96 FOUCAULT, Michel. Op. cit., p. 186.
abordar nosso objeto e colher respostas às perguntas prévias. Sem essa compreensão a revolta civil não passaria de um movimento subversivo de colonos ignorantes e mal informados, ou mesmo, revolta de colonos que estavam servindo aos interesses das famílias nacionais que lutavam entre si pelos mecanismos formais de poder, representados pelos cargos de comando na prefeitura municipal de Orleans. Sem um instrumental adequado a revolta civil não conseguiria ser adequadamente situada na complexidade da urdidura cultural de uma comunidade de imigração.
O modo de compreender as relações de poder em Foucault se torna importante para analisar a experiência religiosa como exteriorizadora de significados políticos não tematizados. A experiência religiosa dessas comunidades se articulou com especificidades espaciais e funcionais. É claro que essas funções não são tematizadas como atividades políticas ou como reveladores de valores políticos porque, pertencendo ao âmbito do religioso, comumente são percebidas somente como extensão dessa realidade. Contudo, com um instrumental teórico adequado, poderemos inferir que, se a atividade política supõe categorias como organização, liderança, objetivos comunitários, e essas características se manifestam num modelo religioso, isso significa que a atividade política está acontecendo, mas velada pela expressão religiosa que, são as únicas possíveis nas atuais circunstâncias do momento histórico daqueles sujeitos. Atividades que numa primeira abordagem, em sua aparência externa, não pareceriam políticas, numa abordagem mediada pela forma que Foucault sugere, revelam relações de poder.
Outro instrumento de análise que fornece novos conceitos para abordarmos nosso objeto de estudo vem do sociólogo Pierre Bourdieu. Sua obra, “O poder simbólico”, oferece instrumentos conceituais de análise do social permitindo ver dimensões do poder que não se manifestam essencialmente de uma forma institucionalizada: “o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”.97 Os “sistemas simbólicos”, religião, língua, arte, costumes, valores, são “estruturas estruturantes”, ou seja, pelo fato de o ser humano ser um animal essencialmente cultural, além de permitirem que as pessoas consigam interpretar e dar sentido ao mundo que os rodeia,
[...] os símbolos são os instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui
fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração lógica
é a condição da integração moral.98 (grifo nosso)
Desta forma, o sistema de política personalista local é construído a partir de um discurso social que visa defender esse modelo pois útil para as famílias que coordenam o poder político na região sul catarinense. O poder simbólico, nesse sentido, é ideológico e é essencialmente mediatizado pela linguagem. A linguagem oferece um sistema de conceitos e imagens que passam a cada pessoa o modo como ela deve ver e interpretar o que está vendo, ouvindo ou mesmo lendo.
Esse instrumental teórico vai nos permitir perceber que o modelo de atividade política das famílias tradicionais da região do vale do Rio Tubarão não conseguiu reproduzir seus símbolos entre os grupos imigrantes, pois se os símbolos são, como diz Bourdieu, “instrumentos por excelência da integração social”, o modo como se organizou o espaço de vida das comunidades de imigrantes, isto é, de forma marcadamente rural contraposto ao modo marcadamente urbano dos grupos que detinham o poder, impediu a comunicação de um possível “consensus”. Esse instrumental teórico nos permite ver a coexistência de dois mundos simbólicos que crescem em paralelo. O universo simbólico da política da Velha República, objetivado no modelo personalista local, não conseguiu dissolver o sistema simbólico dos grupos de imigrantes num discurso ideológico totalizador. Isso só vai ser conseguido pela força quando, a partir da década de 1930, a política de nacionalização impor na marra um sistema simbólico como forma de criação de uma identidade nacional.
Afrontaremos, portanto, o contexto de imigração baseados no pressuposto de que a realidade é uma construção social. É fundamental ter em mente que a aparente objetividade do mundo institucional, por mais antiga, natural, e por mais que apareça com a marca do “mas sempre foi assim”, foi produzida e construída pelo homem. O problema é exatamente este: “o paradoxo que consiste no fato de o
98 Id., ibid., p. 10.
homem ser capaz de produzir um mundo que em seguida experimenta como algo diferente de um produto humano”.99
Em todo o instante estaremos trabalhando com a idéia de política como uma construção e exteriorização de um grupo social em suas relações com a produção do espaço e na convivência com outros, processo esse tematizado pelos sociólogos, Peter Berger e Thomas Luckman em sua clássica obra de antropologia social intitulada “A construção Social da Realidade”.
A experiência humana é desde o início uma exteriorização contínua. O homem ao se exteriorizar, constrói o mundo no qual se exterioriza a si mesmo. No processo de exteriorização projeta na realidade seus próprios significados. Os universos simbólicos, que proclamam ser toda realidade humanamente dotada de sentido e apelam para o cosmo inteiro a fim de significar a validade da existência humana, constituem as extensões máximas desta projeção.100
A comunidade imigrante, no processo de exteriorização numa nova terra, no meio de culturas diferentes, irá projetar nesse novo espaço, que está sendo gestado, seus próprios significados. É a partir deles que podemos inferir o tipo de compreensão política dessas comunidades.
Se a nossa pesquisa oferece uma “ratio” para o evento, longe de nós a pretensão de querer indicar que a história dos imigrantes da Colônia Grão-Pará tenha se voltado “racionalmente”, através de uma intencionalidade explícita de longo prazo em direção à revolta armada. Como diria Norbert Elias a respeito do processo civilizador, “a coisa aconteceu, de maneira geral, sem planejamento algum, mas nem por isso sem um tipo específico de ordem.”101 Entretanto, essa atividade inconsciente mas circunscrita numa rede de relações interpessoais, não é neutra. Se adeqüa dentro de um “tipo específico de ordem”. Mais do que isso, não existe nenhuma atividade que de uma forma ou de outra não condicione um modo de ser específico no agente social. Ele não apenas produz algo fora de si, mas é produzido por aquilo que produz.
Dessa forma, “planos e ações isoladas, podem dar origem a mudanças e modelos que nenhuma pessoa isolada planejou ou criou. Dessa independência de
99 BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis, Vozes,
1987. p.87.
100 Id., ibid., p. 142.
pessoas surge uma ordem sui generis, uma ordem mais irresistível e mais forte do que a vontade e a razão das pessoas isoladas que a compõem.”102
É exatamente essa “ordem irresistível” que queremos iluminar com conceitos intencionalmente escolhidos para oferecer uma “rátio” à revolta social dos imigrantes. Partimos do pressuposto que é essa ordem dentro das comunidades e os laços recíprocos de afetos e sensibilidades desse grupo social que, entrelaçados, irão determinar um rumo histórico em direção à revolta social, em nenhum momento, programado ou intencionado pelos atores históricos.