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7.2 Calculation of Limiting Sea States

7.2.1 Identification of Critical Events and Limiting Parameters

A compreensão da revolta civil em Orleans compreenderá um processo de iluminação de várias fontes documentais, mas principalmente orais, numa tentativa de reconstrução de um evento da história local e regional.

A fonte oral é uma narrativa que, como todas as fontes que estão mediadas pela linguagem, está permeada de representação. A fonte oral é uma narrativa pessoal que contém uma representação sobre o passado. Ora, à essa representação foi perguntado sobre aspectos que dizem respeito às relações entre os imigrantes e os nacionais, sobre o modo de rezar e organizar a oração e tantas outras manifestações socais. Contudo, a pergunta não se voltava para compreender esses elementos, mas o que eles revelavam sobre o modo como essas famílias compreendiam as relações de poder. Se acessava essas fontes a fim de procurar desvelar o processo de formação da consciência política. Armados do paradigma indiciário, se procura em todos esses objetos indícios que desvelem concepções de poder latente nas práticas. De fato, o velho Marx já chamava a atenção de que se a realidade fosse transparente não haveria a necessidade de interpretá-la.

A historiografia não acadêmica fez um excelente trabalho de transcrição das tradições orais da região da Colônia Grão Pará. De modo geral, tais produções possuem um tipo de abordagem onde a História é compreendida como uma crônica dos fatos,103 fatos esses que contados com o maior embasamento documental

102 Id., ibid., p. 194.

103 “Decidi. Não havia fontes escritas? Daria eu à cidade(Orleans) estas fontes. Pensando bem,

possível,104 quer acessar a “história verdadeira”, uma “imagem real” do processo de povoamento daquelas regiões.105 Empenhados na descrição das origens de suas famílias, ou no resgate das fontes escritas e orais de uma cidade, vão arrolando falas, impressões, experiências pessoais, cópias de documentos raros.106 Profundamente informativos, tais compilações orais e documentais, não tem a pretensão de terem construído a totalidade da História de determinada família ou região.107 São fontes que, achadas com certa dose de sorte e ousadia,108 qual pedra preciosa esperando para ser lapidada, estão à espera de um acesso disciplinado pela metodologia científica.109 Os produtores desses trabalhos dificilmente cruzam dados, ou iluminam as informações com um instrumental teórico adequado. Devido à exigüidade de trabalhos históricos sobre a região, num primeiro momento intencionavam um trabalho de caráter divulgativo da fontes.110 Isto de forma alguma quer desmerecer a importância fundamental de todo o material publicado, mas quer chamar a atenção para o enorme potencial histórico dessas fontes se acessadas de forma disciplinada pela academia. Seus escritos aludem à essa perspectiva:

inúmeras pessoas que poderiam dar informações preciosas. Lancei-me ao trabalho de ir recolhendo a tradição. De cada grupo étnico de imigrantes ia colhendo o que pudesse, em conversas e entrevistas”. In DALL’ALBA, João Leonir. Pioneiros nas terras dos condes. Orleans, Lelo, 2003. p. 11.

104 “Meu fito é publicar mais estes documentos básicos para a história do Sul do Brasil”. In

DALL’ALBA, João Leonir. Laguna antes de 1880 – Documentário. Florianópolis, Lunardelli, 1976. p. 9.

105 “Não trabalhando por encomenda, nem sendo financiado por entidades do Vale, iniciativa

espontânea, tive a liberdade para escrever uma história verdadeira. Não pretendi exaltar, não quis denegrir. Eu quis sim, retratar um passado que aos poucos se esvai. Consegui uma imagem real”. “Não sou literato, não sou sociólogo, não sou historiador. Por que então atrever-se a escrever? [...] O tempo me é escasso, que o centenário da vinda dos povoadores do Vale está ali”. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, Edição do autor, 1973. p. 13.

106 “Logo foram surgindo outros manuscritos. Após o maço de cartas, cavei, do fundo de uma gaveta

da Empresa o Relatório de 1881, documento básico para nossa história. Passaram-se meses, e fui encontrando cartas, declarações de colonos que chegaram, material de propaganda, infinitos volumes de contabilidade. Tudo dos primeiros anos de nossa história”. In DALL’ALBA, João Leonir.

Pioneiros nas terras dos condes. Orleans, Lelo, 2003. p. 11.

107 “Mil anciãos ficaram por entrevistar, dezenas de figuras a biografar, situações a analisar”. In

DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte, Orleans, Edição do autor, 1973, p.13.

108 “Como nos contos antigos, depois de diversas discussões, ‘nem vai lá, que só tem madeiras

velhas e teias de aranha’, consegui entrar nos porões da antiga Sede da Empresa. Amigo leitor! Tive a maior alegria que me foi concedida como historiador: lá, num canto escuro, intactos há oitenta anos, estavam três caixões de manuscritos. Passei as horas livres de dois meses lendo e separando. Um tesouro para nós, para todos os vizinhos do Vale do Tubarão”. DALL’ALBA, João Leonir. Pioneiros

nas terras dos condes. Orleans, Lelo, 2003. p. 12.

109 “Não, não é um trabalho definitivo. É apenas um desbaste pioneiro na história dos nossos

Pioneiros”. DALL’ALBA, João Leonir. Pioneiros nas terras dos condes. Orleans, Lelo, 2003. p. 12.

110 “Procurei extrair da frieza dos seus dados técnicos, o que de maior interesse fosse para uma

leitura mais ou menos divulgativa como é o presente trabalho”. Pe. João Leonir Dall’Alba referindo-se ao modo como abordou o relatório de um agrimensor. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço

Estamos publicando documentos inéditos. Não nos preocupamos com síntese, com analisar causas, conseqüências, com relacioná-los, tão pouco quisemos vê-los à luz de determinada ideologia. Primeiro precisam ser conhecidos.111

Há um trabalho imenso para ti, estudioso, para ti, estudante nativo. Abri uma picada. Há largas estradas a abrir. A mim a certeza de ter agido com honestidade, a mim a satisfação de ter salvo do oblívio algum tesouro da tradição. [...] Via de regra abstive-me de juízos, análises e sínteses.112

Mesmo de longe estaremos ordenando entrevistas e documentos. E publicaremos. E outros publicarão mais. De nossa parte não será o livro perfeito que arquitetáramos, mas sempre um novo préstimo para futura síntese.113

Limito-me simplesmente a ordenar fatos, a concatenar idéias. Não tenho finalidade de exaltar, nem atacar, nem entender. É um trabalho espontâneo que faço por gosto histórico, sabendo que estes são os últimos anos de ouro para uma pesquisa como esta, pois as velhas gerações estão desaparecendo, e as novas pouco ou nada sabem de um passado que não lhes desperta entusiasmo.114

Em relação às fontes orais gravadas, transcritas e depois publicadas às expensas próprias e da Congregação Religiosa a qual pertencia115, Pe. João Leonir Dall’Alba, assim justifica sua pesquisa por fontes orais:116

Tivesse encontrado a documentação que acabamos de apresentar,117 e certamente não teria ido colher na conversa com os anciãos o que a tradição nos conservou no passado. Quis a sorte, que então nos pareceu desventura, que não tivéssemos desde o início os manuscritos da Empresa. Transcrevemos quase na íntegra o que conseguimos em entrevistas na segunda metade de 1969. São testemunhos recolhidos em primeira mão, de viva voz, notícias colhidas em dezenas de horas de conversas.118

111 DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros no Grande Orleans. Orleans, edição do autor,

Instituto São José, 1986. p. 24.

112 DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p. 14. 113 DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros no Grande Orleans. Orleans, edição do autor,

Instituto São José, 1986. p. 10.

114 DALL’ALBA, João Leonir. Pioneiros nas terras dos condes. Orleans, Lelo, 2003. p. 126.

115 Congregação de São José, conhecida como Josefinos de Murialdo, fundada em 1873 na cidade

de Turim, norte da Itália. Voltada essencialmente para o atendimento às crianças, adolescentes e jovens carentes, atualmente se encontra presente em vários países. O autor desse trabalho recebeu toda sua formação dessa instituição e trabalhou na área educacional da mesma durante 10 anos.

116 Em 1978 o autor desse trabalho era seminarista da Congregação dos Josefinos de Murialdo e

estudava no Seminário São José, na cidade de Orleans, onde Pe. João Leonir Dall’Alba era Diretor. Todos os finais de semana, após as missas pelo interior do Município e pela região da Serra, acompanhávamos muitas vezes as intermináveis conversas ao pé de um gravador. Criança de 12 anos, mas muito curiosa e leitora, perguntei ao Pe. João o que era necessário para “fazer” a história de Orleans. Ele me respondeu: “muito trabalho e calo nos cotovelos”. Referia-se ao demorado e cansativo trabalho de transcrever centenas de horas de entrevistas gravadas em “fita cassete”. De fato, se tivesse primeiro achado os documentos, ele afirma que não teria feito a pesquisa oral. Que enorme perda teria sido para a história do vale do Rio Tubarão.

117 Refere-se aos documentos encontramos na Sede da Empresa de Terras e Colonização, em

arquivos em Petrópolis e no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

Para compreender a ação dos colonos, cujas memórias, como vimos, foram colhidas, transcritas e publicadas por Pe. João Leonir Dall’Alba, circularemos ao redor de uma gama enorme de eventos, fatos, acontecimentos, costumes, educação, religião, geografia, comércio, urbanização, ruralização, todo e qualquer tipo de elemento que encontrarmos nas compilações de fontes orais, a fim de os iluminar com os conceitos dos autores que apresentamos neste capítulo. O resultado dessa iluminação dos fatos a partir desses conceitos nos permitirá revelar um ethos político que será usado para a compreensão da revolta civil em Orleans no ano de 1923.

Por trás de todo o processo está a articulação, muitas vezes teórica e abstrata, com os particulares da vida social concreta das comunidades imigrantes e nacionais, tentando com isso colher aquelas especificidades que possam tornar a revolta civil armada em Orleans um evento compreensível. De qualquer forma o discurso histórico é de certa forma um discurso da racionalidade dos fatos. Acreditamos que, quando o instrumental teórico é do tipo oferecido por Michel Foucault, Pierre Bourdieu e Berger & Luckman, o discurso histórico acontece como uma mistura de invenção e memória. Exatamente por disciplinarmos o acesso ao nosso objeto de estudo a partir desses teóricos, a invenção não será fantasia, no sentido de uma novela de ficção, pois a memória estará constantemente nos puxando para lembrar que estamos lidando com algo que foi historicamente vivido em determinado momento. A invenção será a manifestação do novo por termos em mãos um modo de ver esses fatos segundo perspectivas disciplinadas de olhar que nem os atores do evento tinham condições de articular devido estarem demasiadamente envolvidos com as causalidades que a consciência do momento exigiam. Como diria Paul Veyne em suas sacadas aforísticas: a “versão amiga da memória, torna-se a verdade histórica de amanhã”.119

Afirmar um discurso com status de conhecimento científico, independente de todas as discussões de cunho epistemológico que já surgiram ou surgirão, é no fundo admitir um acesso disciplinado ao objeto de estudo, ou seja, a colocação clara dos conceitos que irão iluminar a abordagem em que o discurso histórico será construído. É preciso aprender a olhar com método. Olhar de forma metódica é um

119 VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília,

modo de fazer ciência e, metodologicamente falando, a oficina histórica não deve em nada às ciências “ditas” empíricas.

CAPÍTULO III

3. A PRODUÇÃO DO ESPAÇO E AS RELAÇÕES DE PODER

“O que faz a região não é o espaço, mas sim o tempo, a história”Paul Bois

3.1 Introdução:

O espaço em que se habita não é simplesmente algo dado, passivo. O espaço humano acontece como uma verdadeira produção. Assim, para conhecer a mentalidade político-cultural de uma sociedade é necessário entender o processo pelo qual essa mesma comunidade constrói seu espaço. Ali se objetivam, através das relações com o mundo material e com os outros, uma configuração do espaço que reflete a singularidade do modo como a própria sociedade se auto-define. Por isso, o espaço habitado não é meramente algo acidental, extrínseco ao ser humano, é algo produzido, ou seja, é a exteriorização de um modo de compreensão da própria sociedade, articulado a partir do modo com que essa mesma sociedade, neste espaço, produz a própria sobrevivência.

A produção de idéias, de representação e da consciência está em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material dos homens. É a linguagem da vida real. As representações, o pagamento, o intercâmbio mental dos homens surgem aqui como a emanação direta do seu comportamento material. São os homens que produzem as suas representações, idéias etc.120

120 MARX, Karl. Apud SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual – natureza, capital e a produção de espaço. São Paulo, Bertrand Brasil, 1998. p. 73.

A organização do espaço nas colônias de imigrantes europeus no sul de Santa Catarina é quase sempre descritiva. Apresenta-se o espaço como um elemento desvinculado do estilo de vida pessoal e social. O espaço aparece como um palco, que, como a encenação de um script, é conveniente como elemento estético, cosmético e cenográfico. Está despido de incidências sobre o comportamento. Provavelmente, a forte determinação que o meio geográfico havia estabelecido em certos discursos históricos levou a um desprestígio de aproximações que quisessem estabelecer nexos entre costumes e espacialidade geográfica. Há rupturas entre o modo como se organiza o espaço e a organização da própria vida.

Contudo, tal qual as fronteiras espaciais do Mediterrâneo de Braudel onde os homens de três continentes “realizaram as suas trocas decisivas”,121 assim também a conquista das florestas do litoral sul catarinense vai definir formas de sociabilidade, de relações econômicas e políticas, de organização do espaço urbano e rural que foram o estofo encontrado pelos imigrantes, e ao mesmo tempo, ponto de partida para a construção de novas formas de sociabilidade, de relações econômicas e políticas quando esses novos moradores empreenderam, com os nacionais, a expansão e a conquista de mais aquela fronteira natural. O complexo processo de espaços naturais se transformando em espaços humanos acontece no sul catarinense com as peculiaridades que a chegada dos portugueses, depois os açorianos e finalmente os imigrantes europeus a partir do final do século XIX vão estabelecer.

A peculiaridade da organização do espaço humano desse último grupo estabeleceu alguns padrões de sociabilidade que influenciaram a perspectiva das relações de poder nessas comunidades. Acreditamos que as condições engendradas pelos imigrantes no processo de integração em um novo espaço geográfico fornecem elementos importantes para a compreensão da revolta social em Orleans.

121 “É exatamente esta a característica fundamental do destino do Maré Internum: estar integrado no

mais vasto conjunto de terras emersas que existe no mundo: o grandioso, o gigantesco continente unitário, euro-afro-asiático, só por si uma espécie de planeta onde tudo circulou precocemente. Os homens encontraram, através destes três continentes profundamente ligados entre si, o grande palco da sua história universal. Aí realizaram as suas trocas decisivas”. In BRAUDEL, F. Memórias do

O nosso olhar estará privilegiando as comunidades que geograficamente se situaram ao redor da cidade de Orleans, palco da revolta civil, e que tiveram influência direta na constituição das relações de poder da região em que se instalou a Colônia Grão Pará.

Mais do que descrever elementos geográficos, a abordagem que nos propomos neste capítulo é tentar perceber no processo de formação do espaço sul catarinense a construção das redes de poder, onde o espaço geográfico é percebido como vazado por interesses que vão determinando o espaço humano, permitindo, esse “olhar de ré”, o embasamento das etiologias que estarão por trás da revolta dos imigrantes em 1923 na cidade de Orleans. Como diria Braudel, “as formas sociais têm também as suas geografias diferenciais”.122 É um olhar analítico e intencionalmente atento a alguns elementos que permitam referir os poderes que se gestam nos condicionamentos que o espaço permite. Condicionamentos estes que geram e alimentam conflitos sociais, cuja compreensão exige um olhar de tempo longo para acompanhar as artimanhas que o deflagram, tendo em vista que as relações de força derivam do estado de coisas por vezes muito antigos. É nesse mundo de floresta atlântica, economia subsidiária da agro-exportadora cafeicultura, fechado entre o mar e a serra, que se deu o encontro de povos com suas temporalidades próprias de cultura, política, religiosidade, com suas forças em conflito, com suas hierarquias e tantos outros elementos tão próprios da experiência humana no tempo... e acima de tudo um encontro carregado de esperança.123