5. Summaries of the articles
5.4 Article IV: When work comes first: young adults in vocational education and training in Norway . 51
A segunda metade do século XX foi palco de uma mudança radical na relação e no entendimento da violência, motivada sobretudo pelas reacções aos horrores que ocorreram no contexto da Segunda Guerra Mundial e do rescaldo das suas transfiguradoras consequências. Social, cultural, filosófica e artisticamente, as possibilidades para a compreensão da violência ampliaram-se e também se alteraram para sempre. Alice Zeniter, às categorias acima citadas, acrescenta que após a Segunda Guerra Mundial se terá que passar a considerar também a dos crimes contra a humanidade – conceito até aí inexistente –, tais como massacres, genocídios, deportações, escravatura ou o eugenismo. Este sentido, mais lato, para a violência, sublinha a amplitude do reportório de acções violentas bem como, sobretudo, a negação da humanidade das suas vítimas. Assim, tratar-se-ão de “violências massivas motivadas por uma vontade real de aniquilação, alimentadas por razões étnicas, religiosas, raciais ou nacionais” (2007 : 12).
A revelação das atrocidades nazis provocou um choque demolidor. A extravagância do horror dos campos de concentração determinou que, no domínio artístico, os criadores viessem a interrogar as mais inimagináveis e sombrias zonas do pensamento humano, ao mesmo tempo que suscitavam a dúvida sobre a possibilidade da sua representação sem que, de alguma maneira, acabasse por se ver trivializada.
A este propósito, seria útil convocar o lúcido trabalho de Libby Saxton, que contrariando a recorrente ideia de que o Holocausto é irrepresentável, incomunicável ou incompreensível clama que, em termos gerais, o foco da discussão está agora, não em saber se pode ou não ser representado, mas sim em como pode ser representado de maneira adequada ou responsável (Saxton 2008: 2)11.
Broadly speaking, discourses of this kind emphasise the event’s uniqueness, insist that it cannot be known or conceptualised in conventional ways and define it negatively in terms of its radical non-relation to representation and thought. (2008. 7)
11 “No seguimento de intervenções de Jorge Semprun, Gillian Rose, Giorgio Agamben, Jacques Ranciére,
Georges Didi-Huberman, Jean-Luc Nancy, entre outros, a retórica da “inefabilidade” está a perder, rapidamente, a relevância crítica” (Saxton: 2008: 2).
Assim, esta autora pugna pela reabilitação da representação do horror da Segunda Guerra Mundial argumentando que isso significaria um ajustamento dos critérios pelos quais se julga a sua validade e eficácia. É a mesma linha de argumentação de dois pensadores como Jacques Rancière ou Jean-Luc Nancy, em “S’il ya a de l’irrepresentable” e “La representation interdite / Forbidden representation”, respectivamente. O primeiro defende que as realidades dos campos de concentração podem ser descritas numa linguagem e numa sintaxe pré-existentes e que as proibições à sua representação não detêm nenhum fundamento filosófico:
There is no property of the event which prohibits representation, which prohibits art, even in the sense of artífice. Unrepresentability does not exist as a property of the event. There are only choices. (apud Saxton 2008: 10)
Nancy faz confluir duas questões: a da possibilidade e a da legitimidade para concluir que:
Concerning the representation of the camps or of the Shoah, one poorly formulated claim continues to circulate in the sphere of public opinion with particular insistence: either one is incapable of representing the extermination, or one is not allowed to do so. Either it is impossible or forbidden, or it is impossible and, in any case, forbidden (or forbidden and, in any case, impossible). (2005: 28)
O Holocausto, como acabou por ser conhecido este negro episódio da história da humanidade, é um marco incontornável para a cosmovisão contemporânea. Nem mesmo a palavra “holocausto” está isenta de discussão. Na Grécia Antiga, este vocábulo (do grego holokauston) referir-se-ia a “qualquer sacrifício ritual, sangrento ou de outro tipo, no qual a oferenda aos deuses (normalmente um boi, uma cabra ou um cordeiro) era totalmente consumida pelo fogo” (Pascale 2009: 39). Sendo este um antigo costume judeu, usar a palavra holocausto para designar o genocídio massivo de Judeus na Europa por parte do regime nazi é considerado, pela comunidade judaica, ofensivo, uma vez que sugere que o “holocausto”, ou seja, o massacre de milhões de seres humanos, se tratou de um sacrifício a Deus. Por isto mesmo, se prefere o termo Shoah, o termo
hebreu para destruição, adoptado na Palestina a partir de 1940 e popularizado internacionalmente, em 1986, com o documentário fílmico de Claude Lanzmann
Sho’ah.
Enrico de Pascale, ao tratar da “Morte e Ressurreição na Arte” (2009), e do Holocausto em particular, sumariza de forma particularmente eficaz as diversas atitudes com que a representação artística se deparou:
The vast scale of the Shoah tragedy has made any attempt to depict it in an aesthetic form highly problematic. Many artists, in fact, have decided that the subject is ineffable and inexpressible, while some have explored its most dramatic and brutal aspects, and others still have transformed it into a solemn admonishment never to forget. (Pascale 2009: 39)
Assim, entre o confronto com a alegada impossibilidade da sua representação, a exploração do horror, a sua inerente carga dramática e a homenagem reverencial admonitória, a arte não se coibiu de se referir a este momento transfigurador na história da humanidade.
Uma das profundas alterações que a Segunda Guerra Mundial trouxe para o entendimento da violência foi a sua banalização. Com efeito, o conceito de “banalidade do mal”, no contexto do pensamento de Hannah Arendt, reagindo ao julgamento de Adolf Eichmann (Eichmann in Jerusalém: A report on the banality of Evil, 1963), não se refere a uma teoria ou a uma doutrina, mas antes tenta dar conta de um fenómeno extraordinariamente presente nos julgamentos dos carrascos nazis: a desmesura entre os actos perpetrados, de uma escala gigantesca na monstruosidade, e a banalidade insignificante dos seus perpetradores. No fundo, estes agentes do mal escudavam as suas acções numa montanha de pequenas e banais acções que os afastavam da constatação das suas consequências.
Mas a violência banalizar-se-á também pela sobreexposição a relatos e imagens de violência. Assim, esta passará a entrar nas rotinas quotidianas do mundo ocidental de um modo avassalador e constante, e em todos os domínios da vivência humana. E isso criará um aparente paradoxo.
Our modern world has witnessed tecnological changes permitting mass murder to be carried out on an unprecedental
scale. At the very same time […] we have developed increasing concern for the poor, weak, and sick members of society, developing institutions and financial assistance for their care also on a huge scale. […] Seemingly, we must have increasing concern for individual life as a necessary defence against the total detachment involving in contemplating millions of dead. The mind cannot grasp the enormity, the immensity of the casualties in a nuclear war. (Lief 1969: 53)
Zygmunt Bauman, em Modernity and the Holocaust (1989), escrevendo sobre o Holocausto como sociólogo, encara-o como um ponto central para a Modernidade, a “window on Modernity”, uma janela de onde se pode ver a modernidade. Bauman refuta a ideia de que o Holocausto terá sido uma aberração histórica, um episódio irrepetível. Pelo contrário, entende-o como um evento “único e normal”, uma cristalização da Modernidade e das práticas daqueles a que chama “Gardening States”. Esta metáfora floral serve para tratar de Estados que impõem um desenho na paisagem, tal como um jardineiro impõe o seu desenho na natureza. Assim, à desregulação e descoordenação do mundo, um “Gardening State” [Estado Jardineiro] impõe a organização e a ordenação, através de uma actividade racional e deliberada: “a cultura moderna é uma cultura de jardim. Define-se como o desenho de uma vida ideal e como o arranjo perfeito das condições humanas” (2002: 74).
No entender de Zygmunt Bauman, foi a prática normal de um “Gardening State” que terá conduzido ao Holocausto. “O genocídio moderno, tal como a cultura moderna em geral, é um trabalho de jardinagem” (Ibidem: 74). O assustador está na constatação de que todos os Estados Modernos correspondem à classificação de “Gardening States”. Portanto, um episódio como este poderá voltar a acontecer: não aconteceu porque os nazis eram alemães; aconteceu porque eram modernos. Porém:
Emphatically, this does not mean that we all live daily according to Auschwitz principles. From the fact that the holocaust is modern, it does not follow that modernity is a Holocaust. The Holocaust is a by product of the modern drive to a fully designed, fully controlled world, once the drive is getting out of control and running wild. Most of the time, modernity is prevented from doing so. (Ibidem: 75)
Assim, a singularidade e, simultaneamente, a normalidade do Holocausto consiste no facto de ser único:
Modern Holocaust is unique in a double sense. It is unique among other historic cases of genocide because it is modern. And it stands unique against the quotidianity of modern society because it brings together some ordinary factors of modernity which normally are kept apart. Is this second sense of its uniqueness, only the combination of factors that are combined: Separately, each factor is common and normal. As the knowledge of saltpetre, sulphur or charcoal is not complete unless one knows and remembers that, if mixed, they turn into gunpowder. (Ibidem: 76)
Um dos traços da modernidade que mais contribuíram para a ocorrência (desenho e execução) de um evento como o Holocausto é, na argumentação de Bauman, a burocratização das relações sociais. Assim, o sociólogo tende a insistir que o processo civilizacional conseguiu substituir os ímpetos naturais do Homem por padrões de comportamento artificiais e flexíveis, possibilitando assim uma escalada de inumanidade e destruição. E nisso, a burocratização, que comporta características como a divisão do trabalho e a desumanização do objecto burocrático, desempenhou uma função estruturante. Assim, uma divisão do trabalho assente em pressupostos hierárquicos e funcionais erradica noções como a ideia de responsabilidade moral, distanciando o autor das consequências das suas acções.
All division of labor (also such division as results from the mere hierarchy or command) creates distance between most of the contributors to the outcome of collective activity, and the outcome itself. Before the last links in the bureaucratic chain of power (the direct executors) confront their task, most of the preparatory operations which brought about that confrontation have been already performed by persons who had no personal experience, and sometimes not the knowledge either, of the task in question. Unlike in a pre-modern unit of work, in which all steps of the hierarchy share in the same occupational skills, and
the practical knowledge of working operations actually grows toward the top of the ladder. (Ibidem: 79-80)
Do mesmo modo, as relações laborais assentes nestes princípios de burocratização promovem uma anulação da moral individual, uma vez que incentivam ao instinto natural de bem desempenhar uma função: “as suas questões morais podem concentrar- se somente no bom desempenho do seu trabalho. A moral esbate-se no imperativo de ser um perito e um bom trabalhador, eficiente e diligente” (Ibidem: 83).
Por seu lado, a desumanização do objecto burocrático força ao esquecimento do facto de que o resultado das acções executadas tem, quase sempre, como alvo indivíduos concretos, através do mesmo processo de distanciação crítica e emocional.
Dehumanization is inextricably related to the most essential, rationalizing tendency of modern bureaucracy. As all bureaucracies affect in some measure some human objects, the adverse impact of dehumanization is much more common than the habit to identify it almost totally with its genocidal effects would suggest. Soldiers are told to shoot targets, which fall when they are hit. Employees of big companies are encouraged to destroy competition. Officers of welfare agencies operate discretionary awards at one time, personal credits at another. Their objects are supplementary benefit recipients. It is difficult to perceive and remember the humans behind all such technical terms. (Ibidem: 84)
No entender de Zygmunt Bauman, e no que diz respeito à violência, este processo civilizacional teve como consequência final a concentração da violência em actos até então inéditos e, no caso particular do Holocausto, inimagináveis:
What in fact has happened inn the course of the civilizing process, in the redeployment of violence. It has become invisible, that is from the advantage point of narrowly circumscribed and privatized personal experience. It has been enclosed instead in segregated and isolated territories, on the whole inaccessible to ordinary members of society; or evicted to the “twilight areas”, off-limits for a large majority (…) of society’s members; or exported to distant places which on the
whole are irrelevant for the life-business of civilized humans. (Ibidem: 78)
Uma vez removida da vida quotidiana, a violência concentra-se em actos de coerção – praticados sobretudo pelo Estado, possibilitando assim o aperfeiçoamento técnico para a prática da violência. A prática da violência permite à burocracia evidenciar um dos seus traços mais expressivos: a dissociação entre os juízos morais e os objectivos a alcançar, obedecendo somente a lógicas racionais e instrumentais. Assim:
The removal of violence from the daily life of civilized societies has always been intimately associated with a thoroughgoing militarization of inter-societal exchange and inner-societal production of order; standing armies and police forces brought together technically superior weapons and superior technology of bureaucratic management. (Ibidem: 79)
Mas a eliminação da violência do quotidiano não significa que ela tenha desaparecido ou tenha sido removida do dia-a-dia dos indivíduos. O que significa é que ela passa a ser controlada por forças fora da esfera individual – mas que podem a todo o momento abater-se sobre os indivíduos, sempre que o “jardim” ou a “jardinagem” se sintam ameaçados: “Assim, a muito propalada dulcificação dos costumes […] e a segurança confortável da vida quotidiana que se lhe segue, tem um preço. Um preço que nós, residentes na casa da modernidade, podemos ser chamados a pagar a qualquer momento” (Ibidem: 88).
O esvaziamento da força dos indivíduos abre, pois, caminho à utilização mal guiada da violência sobre um contingente de desarmados e enfraquecidos. Contudo, tomar consciência da ameaça perene que “a falta de equilíbrio no poder, condição caracteristicamente moderna, tornaria a vida insuportável. Não fosse a nossa confiança nas salvaguargas em que acreditamos terem sido construídas com a moderna sociedade civilizada” (Ibidem: 88). O que vai acontecer com o Holocausto é que este vem fracturar a confiança entre indivíduos e Estado e expor a falência das garantias de sobrevivência e conforto em que a Modernidade se baseia. No argumento de Bauman, a desconfiança mais flagrante talvez tenha sido relativamente à ciência, posta a uso nas mais
abomináveis experiências: “a civilização provou ser incapaz de garantir um uso moral dos extraordinários poderes que concebeu” (Ibidem: 91).
Os dramaturgos que estudaremos escrevem no preciso momento em que as consequências deste estado de coisas se manifestam de modo impressivo. As peças estudadas, ainda que não se assumam como retratos sociológicos ou peças de carácter existencial querendo explorar ou denunciar os modos da civilização moderna (mas será, no mínimo, curioso notar a aversão à tecnologia e progresso que todos parecem partilhar), oferecem um mapa de preocupações que em muito corrobora a tese de Bauman. Ainda assim, talvez uma das melhores maneiras de epigrafar a questão seja a apresentada pelo dramaturgo (também crítico de teatro) John Whiting:
Let me put it like this. Suppose a play is set in that uncontroversial place – an English drawing room. And the play is about – say, adultery. Suppose atom bombs, concentration camps and social welfare are never mentioned. And you know it’s extraordinary how rarely they are in ordinary conversation. But this does not mean that they are not present or non-existent. The writer has been touched by these things, as we all have, and if the play is anything of a serious work it must be shadowed by them. (1999: 21)