A análise dos resultados foi dividida em três partes e todas apresentadas por grupo. A primeira consistiu na descrição dos achados do questionário de caracterização de leitor aplicado antes do início da intervenção fonoaudiológica (quadros 2 e 3). A segunda parte foi à avaliação das gravações das notícias pré e pós programa (quadros 4, 5 e 6). A terceira e última parte apresentou a descrição do processo de cada encontro durante o desenvolvimento da intervenção, conforme as anotações do diário da pesquisadora e ao fim, há o depoimento de cada sujeito descrito de forma não literal.
1ª. PARTE
O quadro 2 apresenta os achados da identificação do questionário (Anexo 4) em relação a formação escolar. A partir deste quadro foi possível observar que nos G1 e G3 a maioria dos integrantes estudou em escola pública, nos G2 e G4 os integrantes se dividiram entre a formação pública e privada. A reprovação não foi relatada por nenhum integrante dos G2 e G4, mas nos G1 e G3 haviam dois sujeitos.
No mesmo quadro, em relação à matéria preferida foi encontrado: G1 - dois sujeitos história e um português; G2 - um história e um filosofia; G3 - dois história, um geografia e um biologia; G4 – um história, um português, um matemática e um artes. Pode-se observar que 84,61% apontaram como matéria preferida as disciplinas da área de humanas.
Quadro 2 – Características da amostra segundo tipo de ensino fundamental e médio, a existência de reprovação e matéria preferida na escola
GRUPOS SIGLA TIPO DE ENSINO REPROVAÇÂO MATERIA PREFERIDA NA ESCOLA
G1
S1 Público N Português S2 Público S História S3 Privado S História
G2
S4 privado e público N História da Arte S5 Público N Filosofia G3 S6 Privado S Biologia S7 Público N Historia S8 Público N Geografia S9 Público N Historia G4 S10 Público N Artes S11 Privado N Historia S12 Privado N Matemática S13 Público N Português
O quadro 3 apresenta os resultados da segunda parte do questionário (Anexo 4) que investigou o hábito de leitura. Pode-se verificar a existência da leitura como um hábito de todos os integrantes nos G1 e G4, mas nos G2 e G3 um dos sujeitos, de cada grupo, referiu não ter esse hábito. Em relação a preferência de leitura, no G1 foi referido livros, jornais e revistas e no G4 livros e internet. Nos G2 e G3, grupos nos quais a leitura não foi um hábito unânime, foram citados livros e internet. Ao considerar o total dos sujeitos de todos os grupos, a maioria (76,92%) referiu leitura por meio de livros e internet. Em todos os grupos o fator tempo foi justificado como uma barreira para leitura. Na definição individual de leitura, nos G2 e G4 esta foi definida pela maioria como uma forma de aprender seguido de prazer. Observa-se que a maior parte dos integrantes em todos os grupos (69,23%) definiu a leitura como uma forma de aprender, seguido da ideia de leitura como um prazer (30,76%).
Quadro 3 – Distribuição da amostra segundo o hábito de leitura, o que gosta de ler, barreira para leitura e sua definição
GRUPOS SIGLA HÁBITO DE
LEITURA O QUE GOSTA DE LER BARREIRA PARA LEITURA LEITURA É G1
S1 S de tudo um pouco Tempo uma forma de aprender
S2 S livros, jornais e revistas Tempo um prazer
S3 S livros, jornais, revistas e
internet não tem um prazer
G2
S4 N --- Tempo uma forma de aprender
S5 S livros,revistas e internet Tempo uma forma de aprender
G3
S6 N --- Tempo uma forma de aprender
S7 S livros, jornais, e internet Tempo uma forma de aprender
S8 S revistas, internet Tempo uma forma de aprender
S9 S livros, dificuldade de acesso /
uso de biblioteca um prazer
G4
S10 S Internet Tempo uma forma de aprender
S11 S livros, jornais, revistas e
internet Tempo
uma forma de aprender
S12 S livros, internet Tempo uma forma de aprender
2ª PARTE
O quadro 4 apresenta a análise que comparou as gravações das notícias 1 e 2 pré e pós intervenção. O foco neste julgamento foi verificar qual das duas versões ficou mais adequada, ao se considerar o conteúdo da notícia, os recursos expressivos, a interpretação e consequentemente a produção de sentido. Nos G2 e G4, todas as gravações pós intervenção foram julgadas mais adequadas. No G1 dois sujeitos tiveram as notícias 1 e 2 consideradas no pós mais adequadas e apenas um sujeito (S3) teve a notícia 2 pré intervenção considerada mais adequada. No G3 a notícia 2, pós intervenção, foi considerada mais adequada e na notícia 1 somente S7 e S9 tiveram a pós considerada melhor.
Quadro 4 – Descrição do julgamento das gravações das notícias em relação a qual foi considerada mais adequada segundo os critérios descritos no próximo quadro
GRUPOS SIGLA NOTÍCIA 1 NOTÍCIA 2
G1 S1 PÓS PÓS S2 PÓS PÓS S3 PÓS PRÉ G2 S4 PÓS PÓS S5 PÓS PÓS G3 S6 PRÉ PÓS S7 PÓS PÓS S8 PRÉ PÓS S9 PÓS PÓS G4 S10 PÓS PÓS S11 PÓS PÓS S12 PÓS PÓS S13 PÓS PÓS
Os quadros 5 e 6 evidenciam os aspectos comparativos das gravações que colaboraram para a leitura em voz alta ter sido considerada mais adequada. A notícia 1 descrita no quadro 5 mostra que no G3 os aspectos mais marcantes foram pausa e interpretação; no G4, pausa e velocidade; no G1 ênfase e inflexão foram os mais pontuados e no G2 houve um pareamento entre articulação, ênfase, pausa e interpretação. No quadro 6, que descreve a notícia 2, os aspectos mais marcantes para o G4 foram produção de sentido e interpretação; no G3, velocidade, produção de sentido e interpretação; no G2 velocidade e no G1 o aspecto inflexão foi o mais pontuado.
Quadro 5 – Descrição dos aspectos apontados como diferentes no sentido positivo para adequação na notícia 1
CPFA – coordenação pneumofonoarticularótia
GRUPOS SIGLA CPFA ARTICULAÇÃO ÊNFASE PAUSA INFLEXÃO VELOCIDADE
PRODUÇÃO DE SENTIDO INTERPRETAÇÃO G1 S1 X X X S2 X X X S3 X X G2 S4 X X X S5 X G3 S6 X S7 X S8 X X S9 X X X X G4 S10 X X S11 X X S12 X X S13 X X
Quadro 6 – Descrição dos aspectos apontados como diferentes no sentido positivo para adequação na notícia 2
3ª. PARTE
Como nesta parte apresenta-se o processo de cada grupo durante a intervenção, faz-se necessário a retomada da descrição da intervenção no capítulo 5. As características e quantidades de integrantes da cada grupo foram distintas, assim como o desenvolvimento do trabalho. Existiram alguns atrasos, mas nada que tenha prejudicado o desenvolvimento das atividades. A interação entre os sujeitos de cada grupo aconteceu de forma processual e variada, apesar dos objetivos e estratégias serem comuns. Nos G2 e G3 esta interação foi mais lenta, praticamente só ocorreu a partir do terceiro encontro. Vale pontuar que estes grupos apresentaram mais frequência de
GRUPOS SIGLA CPFA ARTICULAÇÃO ÊNFASE PAUSA INFLEXÃO VELOCIDADE
PRODUÇÃO DE SENTIDO INTERPRETAÇÃO G1 S1 X S2 X X S3 X X G2 S4 X X S5 X X X G3 S6 X X S7 X S8 X S9 X X X G4 S10 X X X X S11 X X S12 X X S13 X X
atrasos. Por outro lado, G1 e G4 tiveram, desde o inicio mais trocas de conhecimentos entre si.
PRIMEIRO ENCONTRO
Iniciou-se o trabalho com a discussão e reflexão sobre o hábito de leitura e a necessidade de diversificar os assuntos. Este é um importante caminho para possibilitar a expansão de vocabulário e aumentar o repertório intelectual de cada um. A respeito desta questão, a maioria dos integrantes de cada grupo refere que a leitura está geralmente relacionada a um determinado assunto de interesse pessoal, a grande dificuldade foi ampliar e diversificar a gama de interesses. Em todos os grupos, os integrantes comprometeram-se a realizar mais atividades de leitura, com assuntos diversos. Alguns integrantes, S4 (G2) e S6 (G3) relataram que viam sempre a leitura como tarefa/obrigação. Vale ressaltar, que esses dois sujeitos no questionário, referem não ter o hábito de leitura e na descrição do que é leitura consideraram como uma forma de aprender.
Também neste encontro foi trabalhado propriocepção postural e do padrão respiratório. Nos G1 e G3, nenhum sujeito apresentou dificuldade. No G2, o S4 apresentou dificuldade em manter padrão respiratório costodiafragmático. No G4, o S13 apresentou incoordenação pneumofonoarticulátória.
Na atividade de leitura de notícias com assuntos de pouco domínio do grupo, foi observado que todos apresentavam dificuldades para compreender a informação quando solicitada à explicação. Ficou evidente o não entendimento de algumas palavras e isto comprovou o vocabulário restrito dos sujeitos. Como justificativa afirmaram que, se não conhecessem a respeito do assunto não se interessavam. Foi argumentada a importância de adquirir hábitos de leitura de textos/informações diferentes e como isso é fundamental para área de atuação profissional que optaram. O S1 relatou:
SEGUNDO ENCONTRO
No relato sobre as tarefas sugeridas para casa todos, com exceção de um sujeito no G1 realizaram a atividade de casa. Uma minoria referiu não ter conseguido ampliar e diversificar os tipos de leitura.
Na atividade de marcação dos sinais de pontuação foi observado em todos os grupos que a dificuldade estava relacionada ao fato de pontuarem o texto sem observar, com clareza, se havia fechamento ou não do argumento. Nem sempre diferenciaram se ficava mais adequado o ponto final ou a vírgula, uma vez que para alguns os dois foram percebidos como pausas semelhantes. Não conseguiram trabalhar com ponto final como um indicativo de finalização de uma ideia. Trabalhou-se as funções dos sinais de pontuação no texto, com explicação de cada sinal e depois realizou-se novamente a tarefa. Ao final, ficou evidente como a pontuação é essencial na atribuição de sentido no texto.
Na leitura de frases com marcação da ênfase/pausa, por meio dos recursos vocais a maioria dos sujeitos não teve dificuldade. No G1, todos realizaram bem a atividade. No G2, dois sujeitos não conseguiram adequação na tarefa, sendo que a ênfase, quando aconteceu, foi decorrente da variação de pitch. No G3 e no G4 a maioria executou bem a tarefa, embora um sujeito em cada grupo tenha utilizado para ênfase o aumento do
loudness e outro em decorrência de uma incoordenação
pneumofonoarticulatória teve dificuldade com a pausa.
Na atividade com o vocabulário, os problemas foram variados e frequentemente relacionados as questões levantadas no primeiro encontro. Em todos os grupos a maioria dos sujeitos afirmou que utilizava muito pouco o dicionário e quando possível faziam esta pesquisa on line. Foi citado, também, que era frequente pular uma palavra por não conhecê-la e consequentemente não compreender o texto como um todo. Neste momento, ficou evidente a necessidade da diversificação no hábito da leitura e o quanto isso contribui para um aumento do vocabulário. A estratégia de
analisar frase por frase para compreensão do conteúdo da informação foi destacada como muito facilitadora. Outra proposta, foi a sugestão de se trabalhar com a dedução de sentido ao se deparar com palavras desconhecidas.
TERCEIRO ENCONTRO
Na retomada das tarefas da semana, apenas o G1 demonstrou continuar com dificuldades na marcação dos sinais de pontuação. Mesmo assim, vários sujeitos trouxeram a notícia na qual haviam realizado a marcação para checagem, por esta razão foi necessário retomar a discussão da relação da pontuação com o sentido e compreensão do texto.
Na atividade de leitura em voz alta do texto selecionado foi observado, em todos os grupos, a dificuldade para caracterizar o sinal de pontuação de reticências. Outros obstáculos, menos frequentes aconteceram na inflexão, na fluência e na interpretação dos personagens presentes no texto. Foram retomadas as questões relacionadas aos sinais de pontuação e a interpretação durante a leitura em voz alta. Após esse momento, foram refeitas a leitura do texto referido, com evidente progresso.
No exercício de abertura de boca, praticamente todos os sujeitos perceberam o alongamento da musculatura. Em todos os grupos, os sujeitos tiveram dificuldade na atividade de técnica de leitura de texto somente com vogais, por esta razão foram orientados a iniciar com velocidade mais lenta e com o treino as dificuldades foram amenizadas.
QUARTO ENCONTRO
Nas atividades sugeridas para casa, todos os participantes da pesquisa afirmaram ter realizado o que foi proposto sem dificuldade.
Na leitura silenciosa de notícias sobre o mesmo fato com argumentações diferentes, em todos os grupos ficou evidente a distinção, inicial, pelo título da matéria. Outro ponto destacado foi o local e o tipo de
veiculação da notícia. Na leitura destas notícias em voz alta, discutiu-se que é na ênfase/pausa que o foco argumentativo é destacado. No G2, todos realizaram muito bem a tarefa. No G1, G3 e G4, apesar da preocupação com a ênfase, não foi possível uma leitura natural e foram feitos exageros. Destaca-se, por exemplo: pausas inadequadas, “voz impostada”, aumento de loudness e melodia repetitiva. Após orientação da pesquisadora todos melhoraram o desempenho. Ficou claro nesta atividade que o conteúdo da mensagem, o foco argumentativo e a interpretação dependeram dos recursos expressivos, como ênfase, pausa, melodia, entre outros. Apenas desta forma o sentido da mensagem pode ser transmitido para o outro de forma eficiente.
QUINTO ENCONTRO
Ao solicitar o que havia sido feito em casa, a maioria do G3 não cumpriu a tarefa.
Na atividade de textos e notícias com conteúdos e vocabulários específicos, apenas o G4 não apresentou dificuldade. No G1, G2 e G3 observou-se dificuldades na adequação do conteúdo com as respectivas ênfases e inflexões. Outros achados foram: a dificuldade na pronúncia de determinadas palavras, a leitura “mecânica”, a “voz impostada” e a velocidade aumentada. Foi ressaltado, nesta atividade, que a leitura em voz alta, na perspectiva dos pesquisadores, é direcionada para o outro e só desta forma produz sentido.
SEXTO ENCONTRO
Neste último encontro ficou evidente como as realizações das tarefas em casa ficaram mais frequentes e melhor relacionadas com o proposto durante a intervenção. Neste sentido, todos os sujeitos afirmaram ter percebido uma verdadeira mudança na compreensão da leitura em voz alta. Sobre este aspecto, também, a questão da leitura de notícias de assuntos
variados foi compreendida como essencial para quem quer transmitir uma informação. Como última atividade, cada individuo leu uma noticia em voz alta e percebeu a melhora nos recursos expressivos, na interpretação e consequentemente na produção de sentido.
Na perspectiva de se obter um retorno de como cada um sentiu o trabalho, foi solicitado uma reflexão escrita acerca da identidade de leitor, da compreensão e da sensação ao realizar uma leitura em voz alta. Abaixo alguns trechos selecionados destes relatos:
S1: “... me sinto mais seguro na hora de ler em voz alta... passo a
informação com mais clareza e convicção...”
S2: “... nos exercicios de respiração, pontuação e marcação estou
mais seguro...”
S3: “sinto-me bastante seguro e mais preparado para dar o tom e a
maneira correta para determinar os conteúdos e notícias...”
S4: “... tento compreender melhor o texto e isso me ajudou muito
porque antes lia o texto por ler e não entendia...
S5: “ ...as técnicas de leitura fazem toda diferença na hora da leitura em voz alta...”
S6: “... despertou a atenção para leitura e o significado da mesma...
antes ao tentar ler algo não dava seguimento por falta de treinamento...”
S7: “... houve um grande progresso na minha leitura em voz alta, na
percepção do que os textos tratavam, na desenvoltura na hora de ler, interpretar e transmitir a mensagem...”
S8: “... percebi mudanças no meu comportamento (postura, voz,
preocupação com tipo de público) e na compreensão de leitura (maior fluência e interpretação). Atualmente me sinto mais seguro...”
S9: “... percebi uma melhora na minha forma de ler e interpretar... de
falar e respirar durante a leitura.”
S10: “... me sinto mais segura... e compreendo a leitura e transmito
sentido...”
S11: “... sinto que a compreensão e a interpretação do texto ficou
mais rica”.
S12: “... a maneira de interpretar e compreender o texto melhorou
bastante, me sinto muito mais seguro...”
S13: “... vi que minha leitura e interpretação de texto melhoraram...