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3. Model and Data

3.1 ARIMA

Neste item serão apresentadas as diversas propostas existentes na literatura científica acerca do processo de formação do Arquipélago de Anavilhanas. As propostas são diversas e trabalham com hipóteses principalmente baseadas na tectônica. Os estudos considerados são os de Tricart (1977a); Projeto RADAM (1978); Leenheer e Santos (1980); Almeida Filho, Miranda e Beisl (2005); Latrubesse e Franzinelli (2005); Silva, C. L. (2005); Silva, C. L. et al. (2007); Silva, C. L. e Rossetti (2009).

Tricart (1977a) descreve o rio Negro com um vale e um leito “mal calibrados” com duas expansões lacustres, não totalmente colmatadas, ligadas por um vale estreito e com fundo revestido por aluvião. Segundo este autor, o rio Negro, orientado para NW-SE, ocupa, a NW de Manacapuru, uma fossa de afundamento em ângulo de falha, cuja tectônica favoreceu o esvaziamento de uma vasta e profunda depressão, exigindo assim, uma grande quantidade de aluviões para sua colmatagem. Esse modelo é corroborado nos estudos de COSTA, J. B. S. et al. (2008) que descreve para região do baixo Rio Negro uma estruturação definida por falhas normais de direção NW-SE que interagem com falhas maiores E-W, transcorrentes dextrais, resultando no desenvolvimento de bacias romboédricas transtensivas. As falhas mestras normais mergulham para nordeste e controlam a orientação geral do Rio Negro em Anavilhanas. Ainda segundo Tricart (1977a), o rio Branco, afluente do rio Negro, seria o maior responsável pelo fornecimento de sedimentos, visto que este “atacaria” vigorosamente o Neogeno. Coloca que, na vasta superfície líquida, o rio Negro construiu um delta singular, apresentando forma alongada, forma esta comandada pela tectônica, com braços quase paralelos que formariam um feixe, separando-se e reunindo-se à maneira de canais anastomosados. No delta, devido ao déficit aluvial, os diques são baixos e estreitos, e as pequenas bacias são extensas e “permanentemente afogadas”. O rio apresentaria, neste trecho, dois canais principais que se localizam ao longo das duas vertentes (Figura 11). O autor sugere, assim, que o trecho anastomosado do rio Negro seria este delta.

Uma das propostas mais antigas relativamente ao processo morfogenético de Anavilhanas é encontrada no Projeto RADAM (1978). Os autores sugerem uma adaptação do rio Negro à estrutura do tipo rift-valley, sem, entretanto, contar com dados geológicos que

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confirmassem, à época deste levantamento, a existência deste rift-valley. Neste modelo, as áreas anastomosadas do Rio Negro ocorreriam nas zonas de rift. A deposição à jusante das ilhas alongadas sugeriria um “entulhamento” contínuo, posteriormente reentalhado por furos. Baseando-se principalmente na análise morfológica de imagens de radar e no conhecimento teórico de geomorfologia fluvial, os autores afirmam que a sedimentação nesse trecho ocorreu através de depósitos lineares fluviais. No caso, a colmatagem teria início em um ponto comum, abrindo-se em dois diques que se juntaram à jusante, deixando no interior zonas vasosas onde se processa uma colmatagem por decantação. Esses diques passariam a funcionar como ilhas, desviando o fluxo da água em vários canais que se encontram à jusante. Na terminação do arquipélago os diques não deixariam zonas vasosas em seu interior, originando um padrão tipo delta, onde o conjunto se assemelha à “cauda de cometa”. Ainda segundo os autores, o posicionamento dos depósitos que constituem as ilhas, em meio ao rio, pode ser explicado pelo fato do rio Negro ter dois talvegues: um encostado em sua margem direita e outro em sua margem esquerda, permitindo que a colmatagem seja mais intensa entre os dois talvegues, resultando no preenchimento e elevação do fundo do leito.

Leenheer e Santos (1980) sugerem que as ilhas de Anavilhanas se formaram a partir da floculação de sedimentos finos oriundos do rio Branco. Para tal conclusão os autores consideraram os seguintes fatores: o rio Negro contém baixa quantidades de sedimentos em suspensão, em concentações próximas de 5 mg/l de acordo com Meade et al. (1979); o rio Branco, na sua confluência com o rio Negro, deposita concentrações moderadas de sedimentos em suspensão (50 a 300mg/l); as águas do rio Negro são de alto conteúdo orgânico, solúvel e de alta acidez. Com bases nestas argumentações e nas análises químicas detalhadas dos sedimentos e das águas dos rios Branco e Negro, os autores sugerem que o alto conteúdo orgânico solúvel e o baixo pH do rio Negro, floculou os sedimentos caoliníticos em suspensão adicionados pelo rio Branco, formando complexos caolinita-húmicos para dar origem as “invulgares” (grifo nosso) formas de ilha do arquipélago de Anavilhanas. Estas considerações serão retomadas ao final destas investigação e ideias como a de floculação, à luz de informações reológicas (velocidade de decantação dos sedimentos), poderá ser reconsiderada e reinterpretada.

Do ponto de vista da evolução hidrográfica, ou seja, de uma provável sequência paleohidrográfica, Almeida Filho, Miranda e Beisl (2005) utilzaram dados de elevação digital do terreno obtidos pela Shuttle Radar Topographic Mission (SRTM) para a área do baixo rio

Negro. Segundo os autores os MDEs gerados demonstraram sinais de um provável paleocurso do rio Negro, representativo de um sistema de drenagem relictual, com fluxo geral para sul com sentido oposto aos cursos dos rios Padauari e Carabinani, pertencentes à bacia do Rio Negro, que fluem para nordeste. Pelo traçado desse paleovale é possível inferir que a confluência dos rios Negro e Solimões localizava-se onde hoje fica a desembocadura do Rio Manacapuru, a cerca de 70 km a oeste da cidade de Manaus (Figura 22). Esta configuração atual sugeriria a existência de um controle neotectônico sobre a paisagem, como reflexo da instabilidade sísmica da região. Assim, neste estudo, os autores sugerem que o traçado atual do rio Negro na região de Anavilhanas resultaria de uma mega captura fluvial, por efeito de uma neotectônica ativa na região, entretanto, os autores sugerem estudos mais aprofundados de geologia de superfície para que este modelo seja corroborado.

Figura 22: Modelo de elevação digital (SRTM) em (a) e (b) mostrando o antigo paleocanal (indicado

pela seta vermelha) entre os rios Padauari e Carabinani, que ligava o rio Negro ao Manacapuru.

Fonte: ALMEIDA FILHO, MIRANDA e BEISL (2005)

Segundo Silva, C. L. (2005), Silva, C. L. et al. (2007), Silva, C. L. e Rossetti (2009) o rio Negro está encaixado em um lineamento NW-SE que tem reflexo na forma do rio e na forma das suas margens escarpadas. Em seu baixo curso, compreende um amplo canal anastomosado com largura de até 20 km, sendo caracterizado por extensos depósitos de barras longitudinais que seriam representadas pelo Arquipélago de Anavilhanas. Desde Novo Airão até próximo a cidade de Manaus, o rio retilíneo flui de NW para SE. Ali estreita-se e desvia

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seu curso na direção E-W, em Paricatuba, para novamente continuar para sudeste até o Rio Solimões e formar o Rio Amazonas. Próximo a Manaus (Figura 10), a inflexão do canal do Rio Negro para leste em um trecho estreito, teria implicações no barramento desse rio, como ampliação do volume de água, diminuição do gradiente e da velocidade e, como consequência, sedimentação em Anavilhanas. De acordo com Silva, C. L. (2005) a falha do rio Negro forma estruturas do tipo grábens (áreas em depressão), que são locais propícios à sedimentação atual. Assim, segundo os autores, o arquipélago de Anavilhanas seria resultante da interrelação entre os processos de sedimentação e fenômenos tectônicos.

O modelo proposto por Latrubesse e Franzinelli (2005) descreve que durante o Holoceno o rio Negro tornou-se gradualmente um vale bloqueado, como resposta do sistema fluvial ao último glacial, com continuidade durante a transgressão do holoceno, do holoceno médio ao holoceno recente. Durante esta transição do Holoceno médio ao recente (~ 1000 anos AP), quatro condições essenciais para a formação do arquipélago de Anavilhanas foram atingidas: a) uma quantidade suficiente de sedimentos em suspensão; b) um ambiente de deposição de baixa energia; c) espaço suficiente no alojamento do vale; e d) aumento no nível de base local. O Arquipélago de Anavilhanas evoluiu como um sistema de acresção vertical de baixa energia com diques limitando um complexo de canais anastomosados, modelo que corrobora com a proposta de Tricart (1977a). O vale teria sido preenchido pela acumulação geral para jusante de um sistema multicanal dominado por processos acrescionais verticais. A morfologia “fantasma” das ilhas, contornadas por diques e normalmente preenchidas com água, é o produto de dois diques estreitos que se estendem vários quilômetros à jusante de uma ilha núcleo à montante, à semelhança da proposta do Projeto RADAM (1978). Estas ilhas seriam o resultado sedimentar da expansão do vale do rio associado com a desaceleração do fluxo à montante (zona estreita), e um aumento do nível base e o seu efeito retroativo produzido pelo barramento dos depósitos aluvial do Solimões–Amazonas quando estes foram depositados como planícies fluviais impedidas (Ilha de Xiborema). O transporte de sedimentos e a formação da planície de inundação ocorreram no último glacial e no Holoceno de 14.000 anos AP a cerca de 1000 anos AP, quando o fornecimento de sedimentos finos em suspensão nas ilhas de Anavilhanas cessou devido ao restabelecimento da cobertura florestal e estabilização da bacia.

Dentre os modelos apresentados, esta pesquisa corrobora com Silva, C. L. (2005), Silva, C. L. et al. (2007), Silva, C.L. e Rossetti (2009) e Latrubesse e Franzinelli (2005), que

sugerem que o Complexo de Anavilhanas é resultado de processos de sedimentação, em ambiente de baixa energia, associado à tectônica regional. O efeito de barramento hidráulico exercido no rio Negro pelo sistema Solimões-Amazonas causou o aumento do nível de base provocando condições de redução de velocidade de fluxo e vazão, e consequentemente processos de sedimentação no canal. De acordo com Latrubesse e Franzinelli (2005) estas condições foram atingidas no Holoceno (14.000 anos AP – 1.000 anos AP), que diferem das condições atuais vigentes no sistema cuja dinâmica hidrológica é intensa, porém apresenta dinâmica geomorfológica caracterizada por baixas taxas de erosão e sedimentação.

5.2 GÊNESE DOS PODZÓIS E SUA INFLUÊNCIA NA CARGA E QUALIDADE DAS