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Há um brincar E há outro a saber Um vê-me a brincar E outro vê-me a ver41

Nesta estação, busco dar visibilidade aos dispositivos clínicos que permitiram acompanhar os movimentos e a comunicação, especialmente, a não- verbal de Eric. Isso favoreceu a criação de condições para a entrada do garoto no movimento que caracteriza o jogo tridimensional e permitiu a abertura do campo do brincar, conhecer e aprender criativos.

O reencontro

Os pais de Eric o trouxeram novamente, aproximadamente um ano depois da etapa do diagnóstico, dizendo que ele, agora, com quase 8 anos, estava na 1ª série e vinha tendo um atendimento fonoaudiológico há seis meses, por solicitação da orientadora da escola, que havia solicitado, também, um acompanhamento psicoterapêutico ou psicopedagógico. Segundo a mãe, ela teria dito que ele estava um pouco mais participante, apesar da dificuldade de atenção, concentração e lentidão. Havia um outro dado, acrescentado a esses pela própria orientadora: Eric vinha buscando contato com outras crianças sendo rejeitado por elas, que diziam que ele cheirava a alho. Demonstrava, também, "exagerada sensibilidade" a qualquer comentário, inclusive dos professores, parecendo senti- los como crítica. A hipótese levantada é que talvez os aspectos da rejeição e a extrema sensibilidade do menino tenham determinado o retorno dos pais, naquele momento, para o atendimento psicoterapêutico.

Primeiro Momento: Saindo do estado de alerta

Na primeira sessão, Eric se animou ao encontrar o Homem-Aranha, como se não tivesse se passado quase um ano. O curioso é que começou a usar barbante e a construir várias teias, fazendo pontes, por exemplo, entre uma cadeira e a maçaneta da porta. Nelas, o Homem-Aranha se segurava, salvando-se e também a outros personagens ameaçados pelo mal. Aos poucos, outros super- heróis chegavam, entre eles a Mulher-Maravilha. Eles eram seus aliados na luta contra o Mal, representado pelo Curinga e seus comparsas.

Na terceira ou quarta sessão, o garoto movimentava-se de forma mais livre, parecendo cada vez mais à vontade. Às vezes, trazia de sua casa um crocodilo ou algum outro animal ou super-herói. O curioso é que eles faziam alianças com o Mal, isto é, com a turma do Curinga. Muitas sessões se passaram em que a luta era permanente: o Homem-Aranha nunca morria, mas o Mal também nunca acabava e parecia sempre se fortalecer.

Um dado curioso é que era como se a analista fosse transparente ou não existisse no consultório.

O que chama a atenção é como ele logo encontra o familiar – o Homem- Aranha no ambiente que nem parece mais tão estranho como da primeira vez, apesar de ter se passado tanto tempo. Às vezes, eu me indagava quanto tempo duraria esse período e esse padrão de sessões, mas não tinha dúvida sobre a importância de sustentar o lugar de testemunha, exercendo a função de holding até que se abrisse o movimento no jogo tridimensional para que Eric pudesse alcançar um mínimo de integração. Ele vivia sob a ameaça constante de ser invadido, que o levava a estar num estado de retraimento e alerta. Compreendi que Eric necessitava estabelecer uma relação com a analista que fosse tão real como era, para ele, a sua relação com o Homem-Aranha. Era preciso alimentar a onipotência da ilusão de que éramos um só, evitando vivências de desintegração, (achar um lugar, um ponto em comum de união com ele que permitisse instaurar um espaço de encontro na área dos fenômenos subjetivos.)

A questão era: como me tornar para ele tão familiar quanto o Homem- Aranha? Como fazer parte do seu mundo e não ser uma estranha invasora? Se ele pudesse incluir-me no seu mundo e apresentá-lo a mim, para que eu pudesse conhecê-lo, talvez depois ele quisesse conhecer o mundo em que eu habitava. Assim, o que me parecia fundamental era dar sustentação a esse processo ao longo do tempo e manter a atitude de espera receptiva, tomando a forma da necessidade de Eric.

Quanto mais Eric saía do estado de isolamento, mais me chamava para participar das brincadeiras. Começou a me mandar personificar a voz e/ou fazer o papel da Mulher-Maravilha. Ele determinava como seria a minha participação no papel, não tendo a mínima paciência para ensinar-me como fazê-lo. Aliás, parecia esperar que eu adivinhasse o que estava em sua cabeça, como se eu fosse, de fato, uma continuação dele.

Em determinado momento de uma sessão, eu não entendi o que a Mulher- Maravilha – papel desempenhado por mim, naquele momento – deveria fazer. Não sei se ele não ouviu ou ignorou a minha pergunta, de forma, que tentei fazer o que era possível para complementar o gesto que ele – Homem-Aranha – fazia. Ele, então, me olhou e disse bravo e com ar de desprezo: "Hei, não é para fazer assim. Você é burra?" E me ensinou, então, o que eu deveria fazer com tom autoritário e exigente.

Impressionante como ele pôde usar sua boca, sua voz e articular as palavras de modo tão claro naquele momento. Cada vez mais compreendia que a minha participação, como se fosse uma extensão dele, além de não ameaçá-lo, alimentava a ilusão de contato não só com os objetos, mas especialmente com ele mesmo, trazendo o senso de continuidade do ser, de integração. Assim, ele podia ser e mostrar-se, apresentar seu modo de ser e suas questões – no caso, a da burrice, reconhecendo-a na analista, portanto, fora dele.

Aqui é importante trazer a noção desenvolvida por Winnicott de falha da analista, já que, ao colocar-se fora da área de onipotência de Eric, ocorre a reedição da deficiência do ambiente em atender à primeira necessidade do menino – a de estar em comunicação significativa que, no início, é silenciosa – de estar em comunhão consigo mesmo e com o mundo. Ao colocar-se fora da área de onipotência e não sustentar a continuidade do ambiente, a analista apresenta-se como alguém que tem uma existência própria, o que rompe o espaço potencial que dava sustentação do campo. Eric é levado a enxergar o mundo, não a partir da realidade subjetiva – organizada pela ilusão, dimensão da apercepção, a que, até então, sustentava a experiência da onipotência e sim, a da realidade objetiva e não compartilhada.

Note-se que a passagem da comunicação silenciosa para a significativa ocorre graças aos fracassos reparados que permitem a simbolização e desenvolvimento de dimensões do self. Estes podem, então, ser experienciados na relação com a analista, encontrando, assim, o caminho da transicionalidade.

Muitas sessões se passaram em que tanto o Homem-Aranha como seus comparsas saíam machucados. Algumas vezes, iam para o hospital, saindo de lá enrolados na fita adesiva – usada como esparadrapo. Noutras, eram lançados num precipício por um alienígena que não gostava do cheiro de alho que exalavam. Noutras, ainda, tinham que participar de lutas sangrentas com monstros no coliseu de Roma. Nessa fase, geralmente na hora de ir embora, depois de guardar o Homem-Aranha, seus comparsas e inimigos na sua caixa, ele dizia: "Tchau, Caixa-Maravilha!"

Após várias sessões com esse padrão de acontecimentos ele comunicou – espontaneamente – que haveria uma festa dos super-heróis para comemorar a vitória do Homem-Aranha sobre o Mal e que a Mulher-Maravilha o acompanharia à festa para encontrar os outros super-heróis, também aliados do Homem-Aranha. Foi contando isso enquanto pintava o cabelo da Mulher-Maravilha com tinta

amarela, imprimindo assim a sua marca pessoal em algo da cultura externo a ele: um não-eu.

Veja-se que por meio do brincar, ele vai apresentando suas questões: a eterna luta entre o Bem e o Mal e o tema da rejeição pelo cheiro de alho, até poder chegar a comemorar a vitória do Bem, que talvez se relacione ao fato de estar acompanhado da Mulher-Maravilha que tem os cabelos marcados com seu gesto. É importante colocar-se agora na posição de observador da cena para acompanhar o movimento de Eric. Alimentar a sua onipotência permitiu que ele alcançasse uma mínima integração a partir de um movimento que partiu de sua criação e não de um padrão de reações às intrusões do ambiente. Do ponto de vista do menino, o estatuto da analista seria de um objeto subjetivo. O fato de Eric sentir que ela estava sob o seu controle onipotente operava e tinha efeito, pois o deixava livre da ameaça de ser invadido. Do lado da analista, justamente por ter clareza de que não estava sob o controle onipotente do garoto, podia jogar como se estivesse. Para ela, Eric era um objeto do mundo compartilhado com uma singularidade própria. Ao mesmo tempo, podia identificar-se e discriminar-se dele, entrando no jogo e transitando entre diferentes pólos e lugares da relação, a partir do movimento que caracteriza o jogo tridimensional.

Segundo Momento – O Sono e o estado de relaxamento

Outra seqüência de sessões seguiu-se à festa de comemoração da vitória do Bem sobre o Mal e trouxe vários dados significativos. Na primeira, Eric começou a tirar o tênis, quando chegava. Na hora de ir embora, pedia e gostava que eu o ajudasse a colocá-lo. Duas sessões mais adiante, ele chegou parecendo muito cansado e desvitalizado. Deitou-se no sofá e dormiu. Isso aconteceu em outras sessões, como veremos adiante. O dormir na sessão parecia associado ao cansaço e, também, à vivência de algum momento significativo. Vale dizer que o cansaço do menino justificava-se, pois parecia um pequeno executivo entre aulas de Inglês, alemão, natação etc.

Se cada encontro ocorre a partir do gesto pessoal e a analista é uma extensão dele mesmo, uma relação de confiança vai se instaurando, um estado de relaxamento pode ser alcançado, ele pode estar próximo fisicamente e até dormir. Um ponto de descanso permite o estado de não-integração. Se não há a presença demandante de um outro é possível dormir sem susto. Note-se que o dormir significa poder estar ausente em presença de outro. Para isso, o outro não pode ter uma presença excessiva como parece ter sido a da mãe e nem tênue como parece ter sido a do pai, que até mesmo permitiu que o filho aprendesse a falar alemão, antes do português; língua, aliás, que o pai não dominava e que era falada dentro de casa.

Um momento significativo ocorreu na sessão seguinte àquela em que ele dormiu. Eric começou a contar de uma viagem que havia feito nas férias anteriores. À medida que falava, pegou uma folha e caneta e foi desenhando a Caverna dos Morcegos em que havia o Deus da Morte. Enquanto mostrava a entrada da caverna, contou ter sentido tanto medo que até precisou "segurar o

pinto para o xixi não escapar" (sic). No momento em que falou sobre isso foi ao

banheiro.

É possível o enfrentamento do mal, a expressão e comunicação do sentimento. O medo só pode ser humanizado, portanto, simbolizado na experiência e na relação com um outro que acolhe. Note-se que há uma triangulação, um trânsito entre a ressonância daquela situação (o medo que sentiu na caverna) e a da situação vivida no aqui e agora que lhe dá tranqüilidade e segurança. A presença da analista que testemunha e sustenta um campo na distância necessitada (na medida certa e no tempo justo) permite que Eric transite não apenas entre os dois momentos vividos por ele, mas também entre o espaço dentro e fora do consultório. Note-se que até mesmo o trânsito no espaço físico decorre da possibilidade do trânsito no espaço psíquico. Assim, Eric vai aumentando a distância entre o que acontece aqui e agora na relação comigo e o que tinha acontecido com ele em outro tempo e lugar. E o que é fundamental: ele

pode sair da sala e ir ao banheiro. Começa a desfrutar da liberdade da vida instintiva.

Note-se que, nesse processo ele se torna narrador, isto é, ele se transforma em testemunha do que viveu porque a analista sustenta o conteúdo e a veracidade da sua narrativa, o que dá legitimidade à história. Tornar-se narrador é ganhar distância em relação ao vivido, é poder ocupar o lugar de terceiro, daquele que testemunha. Aos poucos, Eric vai podendo criar distância em relação aos sentimentos, o que permite reconhecer, apropriar-se e descobrir formas de lidar com eles. Pode representar seu medo por meio de desenhos e falar sobre seus fantasmas. Isso constitui o próprio processo de simbolização.

A partir daí, seu corpo foi se apresentando cada vez mais. Ele passou a apresentar certo maneirismo observado também na escola e em casa: ele suspendia a calça e apertava muito o cinto. Quando falava dos medos e situações de excitação corporal, geralmente ia ao banheiro, o que, aliás, é bastante comum em crianças que estão começando a habitar o próprio corpo, a construir um dentro e um fora corporal delimitado pela pele. Outras vezes, durante alguma dramatização ele me olhava, parecendo assustado e dizia: "é faz de conta, viu;

não é de verdade!".

O brincar assusta devido à "inter-relação entre o que é subjetivo e o que é

objetivamente percebido" (WINNICOTT, 1975, p. 71). Isso porque até mesmo as

fronteiras entre a realidade pessoal, subjetiva (que abarca o eu e o não-eu) e o mundo de realidade externa ou objetivamente percebido vão sendo criadas por meio do brincar em estado de relaxamento quando o ambiente dá sustentação ao processo.

Enquanto brincava, Eric ia dominando idéias, controlando impulsos, entrando em contato com sentimentos e experienciando as fantasias que o mantinham, até então, em estado de alerta. O potencial alucinatório vai sendo enriquecido pelas experiências ocorridas no espaço de mutualidade enriquecida,

agora, por tantas informações de que dispunha. Assim, Eric vai habitando o próprio corpo (personalização) por meio da elaboração imaginativa das funções somáticas.

É tempo de começar o processo de desilusão. Eric já tem um lugar de descanso (integração), habita o próprio corpo, portanto, tem um dentro e um fora. Pode passar do estágio de dependência absoluta para o de dependência relativa, com a ajuda do intelecto em evolução. O espaço potencial-herdeiro da ilusão que começa a existir na época da separação permite caminhar em direção à criação da externalidade do mundo, estabelecer ainda mais os limites entre realidade subjetiva e externa com o uso da agressividade e, assim, caminhar em direção ao reconhecimento da qualidade de permanência dos objetos, (base da aceitação da lei própria que rege o funcionamento do universo objetivamente percebido).

Terceiro Momento – Descobrindo que o Mundo pode ser apetecível

Algumas sessões mais adiante, Eric novamente chegou bastante desvitalizado e dormiu. Na sessão que se seguiu, outro movimento e tema surgiram: ele não abriu a sua caixa e caminhou em direção ao armário onde havia jogos. Parou e ficou certo tempo quieto, ora olhava para mim, ora para o armário.

No caso de Eric, talvez a sua questão fosse: podia ou não abrir o armário? Será que haveria algo de interessante lá? Não me parecia que sua hesitação fosse pelo medo de alterar a estabilidade do ambiente, isto é, por medo da reação da analista. Considero que aqui a Função da Ignorância começou a operar, se a entendemos como a possibilidade de se fazer perguntas e estudar o ambiente. Eric parecia, ao mesmo tempo, curioso e cauteloso.

Na trilha de Winnicott, segui evitando qualquer interferência. Para Eric tornar-se protagonista de sua história, é preciso que ele continue a dirigir a experiência. Com a abertura do campo transicional, a indagação é: quanto Eric quer e pode assimilar daquilo que está buscando?

Após algum tempo, lentamente abriu o armário e pegou um jogo – "Caça às bruxas". Após chamar-me para sentar perto dele, espalhou as peças na mesa e começou a criar um cenário por meio da narrativa. Disse que estávamos num mundo onde as bruxas dominavam e como havia muitos perigos: cobras, escorpiões, nós deveríamos ficar juntos, o tempo todo. Mostrou, então, o espaço na própria cartela do jogo onde deveríamos permanecer. Só assim poderíamos vencer as bruxas. Éramos um só, ameaçados pelo mal, que estava fora e era representado pelos objetos. Cada vez mais eu fazia parte do seu mundo pessoal,

"diferente do início em que eu era parte do mundo repudiado e ele estava só".

A nossa tarefa era encontrar a chave da esperança que nos daria a salvação. Após a encontrarmos, éramos perseguidos pela bruxa, esperta e malvada que novamente a roubava de nós. Após novas lutas, conseguíamos reavê-la novamente, através da astúcia e, assim, vencíamos as bruxas que iam para a cadeia.

Já somos mais humanos estamos num mundo mais terreno. Apesar de tantas desgraças, Eric pôde conceber uma outra modalidade de relação com a realidade externa, pois há esperança e salvação. Assim, é possível usar a inteligência e a astúcia para proteger-se até mesmo criando novas armas, para além da espada e do escudo, no caso, a chave da esperança e, assim, proteger- se das bruxas.

Seguiu-se um período em que Eric continuou a usar outros jogos de forma semelhante à usada com o jogo "Caça às bruxas". Ele agora tinha vitalidade, chegava parecendo muito alegre. Algumas sessões ocorridas mais adiante, entusiasmado com uma situação que criou, jogou um monte de coisas para cima, misturou tudo, gritou e subiu no sofá. De repente, parou quando algo que havia jogado veio na minha direção. Olhou-me parecendo assustado, mas não como da primeira vez quando a tampa da caixa de brinquedos caiu.

Note-se que na primeira sessão o susto foi provocado por algo do ambiente externo, enquanto nesta, o susto vem, não com a mesma intensidade, de algo que brota de dentro dele, isto é, do seu próprio gesto. Como os gestos do menino foram desde muito cedo mal interpretados, parecia existir na cabeça de Eric uma equivalência entre fazer, usar os objetos, isto é, entre exercer uma ação sobre eles e destruí-los. Aqui ele vai entrando no estágio da preocupação pelos efeitos dos seus gestos no mundo. Se os impulsos agressivos que permitem a inscrição do gesto não se integram com os amorosos devido à ausência do olhar do outro, a criança não pode criar uma imagem e ver a si mesma na relação com a realidade externa.

Ou se uma intenção destrutiva é atribuída ao seu gesto, pode ocorrer uma inibição da ação no mundo e da agressividade, o que impede o desenvolvimento do processo de criação do self e da externalidade do mundo. Isso equivale a uma mutilacão, pois leva, também, à inibição do desenvolvimento do potencial conquistado até então. Quanto mais cedo isso acontecer, maior o dano. Não se pode ser, nem fazer. O poder do olhar do outro é enorme. Basta lembrar o poder de congelamento por meio do olhar representado pela figura da medusa.

Com Eric, a questão era: Como manter a continuidade do ambiente e o campo de experiências compartilhadas evitando a re-atualização de situações de desintegração? Para criar condições para Eric criar e estabelecer fronteiras entre sua subjetividade nascente e a realidade externa, era preciso dar sustentação à continuidade do espaço potencial.

Aguardei um pouco e, enquanto nos olhávamos, lentamente peguei uma almofada, dizendo que agora eu tinha um escudo e podia me defender e lutar a seu lado se fosse preciso. Isso pareceu acalmá-lo, pois voltou a brincar. No final da sessão, ele quis ajudar a arrumar a sala. Diante da sua preocupação pelo estado dos objetos, assinalei que tínhamos feito uma bagunça e não um estrago. (Seu gesto foi aceito).

Note-se que a função de manejo, aliada à de testemunha, ajuda a manter a estabilidade do ambiente e permite a entrada no estágio de preocupação pelo dano feito ao objeto. Ser testemunha permite legitimar o processo perceptivo da criança, enquanto exercer a função de manejo possibilita manter a continuidade do ambiente e do campo de experiências evitando a ruptura do espaço potencial. Concordo com Winnicott: a realidade põe freios à fantasia. Aqui novamente apresenta-se a questão de estabelecer as fronteiras entre o eu e o não-eu, colocada num outro patamar, pois se trata, agora de uma criação de si mesmo no mundo dos objetos compartilhados (e não-subjetivos) que operam uma outra transição diferente da anterior. Agora a questão não é mais como lidar com o outro que não é eu. Aqui a tarefa é: Como lidar com o outro que tem uma existência própria e diferente da imaginada? Dito de outra forma, é chegado o tempo de caminhar em direção à criação da externalidade do mundo, quando o ser humano se torna desejante e tem que dar conta dos efeitos dos próprios gestos sobre a