O trabalho Gesto Arcaico, como já mencionado anteriormente, foi composto por 20.900 amassadinhos106 e se constituiu da repetição do gesto conhecido nos bebês como reflexo instintivo de preensão palmar. Provavelmente, tal gesto se repete, no tempo e na história, a cada encontro e reencontro do ser humano com o barro. A argila, ao preencher o oco da mão fechada, expõe sua própria maneira de se comportar diante dessa pressão física e revela sua materialidade performativa. Com isso apresenta em si a contraforma do corpo, das linhas da pele e, ao mesmo tempo, a forma do vazio ocupado. O barro recebe nossa ação, acomoda-se no espaço que lhe coube e, assim, passa a ser memória do gesto, de um corpo, de uma identidade, de um sujeito.
Figura 24 – Gesto Arcaico, 1991 – Celeida Tostes
Fonte: Folheto da exposição. Acervo da Biblioteca MAM, Rio de Janeiro.107
106 Informações díspares sobre a quantidade de peças variam segundo autores diferentes. Em Regina Célia Pinto
(2006, p.74) encontramos a informação de vinte mil amassadinhos e, da mesma forma, em Raquel Martins Silva (2006, p. 70). Em Elaine Regina dos Santos (2011, p. 170) consta o numeral 20.900, o qual adoto para esta tese por ser a pesquisa mais recente.
107 Agradeço ao MAM do Rio de Janeiro, por meio da pesquisadora Aline Siqueira, do setor Pesquisa e
A obra constitui-se da adaptação dessas peças, uma a uma, lado a lado, de baixo a cima, num espaço de 36m² de três paredes da arquitetura da XXI Bienal Internacional de São Paulo, em 1991. No solo desse espaço se localiza, em posição central, uma grande roda avermelhada, na qual há um buraco circular no meio, construída com isopor reciclado do lixo e recoberto de barro e cuja dimensão é de, aproximadamente, quatro metros de diâmetro.
O que Celeida propõe é, então, uma ambiência, um campo de inter-relações que são estabelecidas entre o espaço e seus elementos, incluindo neles os fruidores que se inserem no trabalho como parte constitutiva, ativa e atuante, corpos que também criam ambiências particulares, que completam a cena com suas ações, suas projeções imagéticas, suas emoções que fazem vibrar todo o contexto do qual é parte espectável.
A grande roda central estabelece o sentido do percurso a ser feito no espaço e os amassadinhos na parede, criando relevo, textura e jogo de cores de terras cruas, estimulam o olhar, instigam o desejo de toque e sugerem perguntas. De quem são essas memórias? Como vivem esses seres que aqui deixaram seus rastros? Quantos deles ainda vivem?
Celeida tira proveito das materialidades do barro e de operações que combinam a repetição, como modo de fazer, à aglomeração e à participação de muitas outras pessoas para criar uma obra de sentido conceitual na qual habitam o passado, o presente e o futuro, materializando-se num conjunto híbrido de características estéticas, éticas, sociais, antropológicas.
Os gestos que geram os amassadinhos são parte fundamental do conjunto de atos que constroem a performatividade dos corpos realizando essa feitura. Foram colhidos em mutirões que aconteceram no Parque Lage, no Casarão da Lapa, na Universidade, no Morro Chapeú Mangueira, em outras comunidades da periferia do Rio, em presídios, com meninos de rua, enfim com gente de toda classe social. Essas pessoas deixam o passado de seus corpos impressos e atualizam-se, como memória do barro, vivendo o presente:
Segundo a artista, Gesto Arcaico teve “a intenção de brincar com o olhar na referência da imagem resultante de uma resposta da mão em contato com o barro macio.” A proposta consistiu em recolher registros de gestos de várias mãos, em pedaços de barro, que foram colhidos através de mutirões. (SANTOS, 2011, p. 169).
Se cada amassadinho proporciona uma brincadeira para o olhar, antes disso, ele terá sido um comportamento restaurado, o reflexo da performatividade de corpos que se relacionaram com o barro. Ao reunir tantos deles numa montagem única, Celeida leva o
fruidor ao instante daquele encontro, guardado na memória da matéria. No aqui e agora da fruição, esse conjunto é percebido como uma rede de elementos a habitar o destempo. Nessa trama, o passado está presente como registro e o futuro como essência, posto ser o trabalho um processo contínuo que inclui, além de sua duração no tempo, transformações desejadas, outras vezes imprevistas, mas que aludem, igualmente, a certas finitudes dando lugar a outros surgimentos no interior da subjetividade dos fruidores. Quanto ao presente, momento da fruição/participação de novos indivíduos, tempo no qual se desdobram os sentidos, ele mesmo, reunindo todos os tempos, acolhe a experiência do corpo atual do fruidor com sua imaginação que circula sem fronteiras.
Em Gesto Arcaico, os amassadinhos são registros identitários que resistem às classificações de gêneros, classe, raça e credo, e faz prevalecer a igualdade de todos perante a natureza humana. Sendo assim, essa obra de Celeida traz em sua essência o resgate da dignidade do ser, é obra relacional e participativa desde seu nascimento, quando da reunião de muitas pessoas aplicadas no gesto da mão que aperta o barro, até seus desdobramentos na galeria da Bienal.
Figura 25 – Série Vênus. Coleção Ricardo Ventura
Santos (2011, p. 170) declara que, para a artista, esses amassados de argila, feitos no ventre da palma da mão, lembram o corpo da mulher e os objetos que o olho humano pode construir, por isso abre-se para eles toda uma série infinita de signos. É constante em seus trabalhos uma identificação com a arte do paleolítico. Celeida faz diversas Vênus, que acredita terem nascido do bojo das mãos daquela época, e então, repetindo o mesmo gesto, modela uma série delas que, em 1990, na sua exposição Tempo de Trabalho, dá origem aos primeiros amassadinhos.
Figura 26 – Série Amassadinhos, 7-15x4-9cm (1.271 peças). Coleção Luiz Áquila
Fonte: Arte do fogo, do sal e da paixão: Celeida Tostes. (COSTA, 2003).
A Vênus da fertilidade cumpre para a vida e a arte dessa artista seu papel histórico e participa do processo fecundo de sua inventividade. Pinto (2006, p. 77-78), destaca que é característica constante no trabalho de Celeida a utilização da imagem do corpo feminino ligado aos conceitos de fertilidade e de abundância – simbolismo fortemente vinculado à terra e à natureza, inerente aos trabalhos com argila. Porém, o feminino em Celeida é, também, o ser-estar da mulher na sociedade dominantemente masculina. O corpo da mulher é fórum colateral de sentido; através de sua representação ou de sua presentação a artista posiciona-se
como detentora dos domínios de seu próprio desejo e afirma o ser social que é e que faz a diferença no coletivo e para o coletivo. Seus trabalhos mostram que ela exerce com tranquilidade seu papel social, não mais precisa lutar por esse espaço da mulher, ela já o incorporou e, por meio de sua poética, expressa a sua potência coletiva, social e politicamente transformadora como território conquistado.
Celeida vivencia ao longo de seu processo de criação o princípio da alteridade, pois se coloca no lugar do outro ao desejar o resgate da cidadania de indivíduos de baixa renda e a estima de seus valores pessoais, sociais e culturais escondidos pela dura realidade de uma grande cidade. Mostra-nos seu gosto pelo grupo, no qual um indivíduo ajuda o outro. Seu trabalho é movido por solidariedade de ambos os lados, artista e participantes, portanto, tem por princípio estético a ética, uma vez que muito além da beleza plástica conseguida com a repetição da forma orgânica feita no “conco da mão”108, Gesto Arcaico prima pela beleza da fraternidade, que revela o quanto somos iguais, não só porque morreremos todos, mas porque temos todos essa capacidade maravilhosa de reinventar o cotidiano, por meio da inventividade, da transformação dos materiais e a de nosso próprio ser. “Para alcançar a esperança do amanhã é preciso mergulhar até os gestos primevos, os rituais iniciatórios fraternais ou canibais das cavernas.” (STAHL109 in: XXI Bienal Internacional de São Paulo, catálogo geral, 1991, p. 196). Gesto Arcaico é, portanto, uma obra de feitura coletiva, para ser vivenciada, também, como espaço de inserção e fruição de muitas pessoas, pois perfaz um ambiente onde o público interativamente pode nele se inserir de corpo e alma. Suas paredes texturizadas são o acúmulo de objetos documentais, registros de corpos contemporâneos; por entre elas se pode caminhar, contemplar e indagar-se. O público ali é atuante. Diante desse ambiente, o olhar, sobre as paredes de amassadinhos, vaga e, para usar a expressão de Merleau-Ponty (2004), toca as coisas do mundo, que por sua vez tocam nossos sentidos e nossa subjetividade. Seu direcionamento é pessoal, da mesma forma que as descobertas que cada fruidor faz o são. No desvelar do invisível, contido na abstração formada pela Gestalt da soma daqueles registros, o visível que se dá sempre terá algo daquele que viu.
Celeida faz de um pequeno gesto, exaustivamente repetido, uma obra monumental, o que me faz lembrar Bachelard (1989) ao dizer que a miniatura é a morada da grandeza. O barro em seu trabalho é expressão e formatividade, é proposta relacional de arte que inaugura uma instalação, espaço caracterizado por um hibridismo que diz respeito à coexistência do espaço da vida no espaço da arte.
108 Expressão usada por Riobaldo em Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, p.106.
Pinto (2006) identifica em Gesto Arcaico uma espécie de cenário teatral do paleolítico que conjuga o passado remoto à pós-modernidade. Acrescento a essa leitura a observação de que a imagem captada da obra, antes mesmo de ser ocupada por fruidores, parece possuir uma carga teatral. Pois, se remete a imaginação ao passado longínquo, implusionando-a a relações com a antropologia e com os cenários descobertos pela arqueologia e induzindo a conexões com outra situação que não é verdadeiramente a sua, será mesmo que essa teatralidade de sua cena estaria apenas em meus olhos?
Gesto Arcaico é, portanto, obra que, embora não possa ser classificada de teatro, para a recepção pode sugerir um cenário do paleolítico, um ambiente anacrônico, deslocado no tempo e ofertado a nova exploração. O sujeito da contemporaneidade, ao movimentar-se nele vive uma experiência na qual passado e presente se enlaçam no instante de sua ação-reflexão-atuação, pois como elemento ativo, ele integra a cena e pode ser assistido por outros olhares, semelhantemente ao papel de um ator numa cena de teatro. Esse fato toca a complexidade a ser enfrentada quando se objetiva pensar a teatralidade fora do espaço do teatro. Será mesmo que a teatralidade de um cenário estaria ligada somente ao fato de o observador saber que ali ocorrerá o processo do teatro? O que poderia estar relacionado então à teatralidade no contexto de Gesto Arcaico? Talvez aquela capacidade da cena de abrir possibilidades para o imaginário.
Amilcar de Castro, em entrevista à Lisette Lagnado em 18 de maio de 1991, disse que a monumentalidade de uma escultura não teria a ver com suas dimensões físicas, mas sim com a força de sua presença. Não poderíamos dizer que a teatralidade de obras como Gesto Arcaico poderia estar relacionada, também, a essa força de sua presença associada à disposição espacial dos elementos que a compõem e a sua capacidade de suscitar a imaginação de quem ali interage? Afinal, essa presença incita os sentidos e provoca a imaginação, possibilitando a quem olha um deslocamento do real ali posto para uma cena outra.
O cenário de Celeida se impõe de forma espetacular, suas relações com o presente e o futuro apontam para a expectativa de um devir. Ali não ocorrerá um teatro, mas como campo espacial de relações está sempre em processo e abriga a possibilidade da ocorrência de fenômenos que ainda não aconteceram, mas para os quais a obra está preparada. Como instalação, é espaço dirigido à imersão de fruidores e possibilita a eles a experiência de um fenômeno singular. É acontecimento fenomenológico e se dá na imbricação de sujeito, realidade física, matéria e mente constituindo o espaço de arte como um espaço do mundo ou vice-versa, lugar onde podem ocorrer diferentes maneiras de interação que abarcam as capacidades imagéticas e físicas dos envolvidos no aqui e no agora dessa que é uma relação dialética, que envolve sujeito, espaço e seus elementos constitutivos.
De Gesto Arcaico, esta tese se apropria do próprio gesto de apertar a argila dentro da mão. O objeto que resulta dessa ação é mais tarde transformado em pequenas deusas da prosperidade que são doadas e, também, vão compor a última das performances da série Tellus denominada Amuletos da prosperidade.
Eu tenho uma espécie de dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso. E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis.”