Como dissemos na Introdução, o VJing é a execução, em tempo real, de trilhas sonoras e imagens, originais ou remixadas. Dizíamos ainda da origem da figura do VJ (video-
jockey), a partir DJ (disk-jockey), o qual saiu do seu posto inicial, no rádio, para apresentações ao vivo. O VJ hoje pode ser encontrado em programas de televisão e de internet ou em apresentações em eventos, festas de entretenimento e festivais artísticos. Moran (2009) nos apresenta o Vjing como:
[...] a manipulação de imagens fixas ou em movimento, figurativas ou abstratas, que são apresentadas em galerias de arte, em raves, em festas ou em boates, a partir de improvisações com um banco de imagens previamente selecionadas.
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Bruni (2007:1) nos apresenta a definição do loop no Vjing, relacionando-o ao mesmo princípio de mixagem do DJ:
[...] passar de uma imagem em movimento para outra, sem perder o ritmo da música que toca na pista de dança. Para tanto, os VJs usam as mais variadas configurações de equipamentos: mixes de imagens, câmeras de vídeo, controladores MIDI, computadores e uma variada quantidade de softwares de edição ao vivo. Na sua maioria, os VJs trabalham com uma regra simples e comum durante suas performances: o VJ loop. Estas pequenas peças gráficas (um a quatro segundos de duração), geralmente vídeo digital ou animações em flash, são tocadas repetidas vezes, e montadas em tempo real com programas específicos para VJ.
Antes de desenvolver a questão do loop no VJing, das cenas e dos dispositivos, devemos situar o contexto histórico em que esta prática teria amadurecido. As referências são de variadas fontes, desde a questão do nome, que teria sido criado no canal de televisão MTV, nos anos 1980, especializado no videoclipe, mas, não só isto, uma referência também na criação de vinhetas audiovisuais abertamente artísticas, estéticas, experimentais, provocativas e quase sempre pouco figurativas.
Ao se referir ao ambiente em que o público é chamado para a música para ir dançar, comenta Machado (2010:179) que a desobrigação da atenção fixa na tela liberaria a percepção de imagens, as quais passariam de narrativas a “algo como padrões de estimulação retiniana muito semelhantes aos padrões rítmicos da música”. O autor fala, então, de uma iconografia
pulsante, que experimentadores como o musico-videasta coreano Nam J. Paik transformaria em elemento estético, marca de toda uma época de exploração das sinestesias, nas décadas de 1970 e 80. Filmando para clipes musicais, Paik é citado por Arlindo Machado um dos precursores do clipe dançante (com Planet Rock, 1982) – outros caminhos surgiriam entre os
clubbers: frequentadores dos clubes noturnos, para quem as imagens se apresentarão dispersas no ambiente, “numa direção nova daquele conceito de cinema ou vídeo ambiente, introduzido por Andy Warhol e Brian Eno” (ibid:179).
Neste conceito, a indicialidade se alinhou em estímulos visuais, na exacerbação da cor, do movimento e do ritmo; os fenômenos individuais se alinham em massa e metamorfose
das cores e texturas ao longo do tempo. Arlindo Machado aponta a apoteose desta texturização em Everybody in the place (1992) – clipe para o grupo The prodigy67–, em que a
agilidade e rapidez da montagem invocam a sensação de “imagens que dançam no ritmo da música” (ibid:179).
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Chamamos atenção, neste ponto, para a fusão sugerida entre o videoclipe e o DJ: o primeiro, cuja imagem se faz dançante, deixa-se perceber como massa e como textura, sofrendo assim o mesmo processo de migração implosiva por que teria passado o som operado pelo DJ, em que os ritmos são ‘empacotados’ em grooves, e estes em loops. Ou seja, imagem e som encontram-se preparados para serem loops. Os loops, por sua vez, sofrem o mesmo fenômeno, na escala da interface ou software digital. O Vjing nos proporciona uma junção de ritmos sonoros com planos de imagens, selecionando loops e os colocando em contraponto ou diálogo rítmico. Manovich (2000:317) sugere, indagando, “se o loop pode ser uma nova narrativa para a era da computação”68. Sugere-se que, com o processamento da
articulação dos audiovisuais por loops digitais, a repetição e a transformação podem ter formas dobráveis ao ‘quase infinito’. A gratuidade das imagens – também monetariamente falando – e a gratuidade de sua replicação no tempo incitam à experimentação de novos contrapontos entre som e imagem: na mesma batida rítmica, em batidas diferentes ou sem compromisso sincrônico, mas ambas sob o mesmo efeito de velocidade de transformação.
Cremos que as audiovisões dos VJs são o contraponto variante do princípio da repetição com o da variação e o da rapidez com a lentidão – aspectos relacionados à nossa percepção do tempo, ou seja, a sua montagem rítmica, que nos evoca os neobarrocos de Eisenstein, Glauber, June Paik, Greenaway e todos os que ‘narravam’ com loops, na consciência da reversibilidade sugerida em imagem.
Como já apresentamos no primeiro capítulo, a cenografia da festa no VJing se aparenta uma natural expansão da sinestesia audiovisual proposta: múltiplas telas, luzes, aromas artificiais lançados na pista de dança:
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RABBIT KILLERZ - Place des Volontaires - Genève - 9º Mapping Festival 2013
Neste ambiente, comenta Moran (08/04/09), “a ênfase não está naquilo que se vê, mas em como sucedem volumes, escalas e luminosidade ...afetos e sensações táteis prevalecem em relação a sentidos”.
Sobre o dispositivo do VJing, chamamos atenção para uma metáfora tecnológica dos
sentidos, que também podemos chamar o código. Derrick de Kerckhove (1993:59) nos conta que:
[...] o mundo das interfaces é o reino privilegiado da nova arte, não somente porque ele constitui um ambiente acessível à pesquisa, mas porque ele representa uma metáfora tecnológica dos sentidos. Com nossas mãos, nossos ouvidos, nossos olhos, e outros canais de interação, nós entramos em interação com o mundo...
Nos últimos 30 anos, tivemos o suporte fono/fotográfico, com o código da impressão dos pixels e dos senoides. Tivemos e temos o CD Room, o DVD, e então temos as interfaces planas, nas quais as memórias se guardam no código numérico, programado para sequências de dígitos: algoritmos. Se estivemos informados por pontos (fotoquímicos e eletrônicos), temos hoje a informação por números abstratos. Como já comentamos nesta pesquisa, a acessibilidade à produção dos programas que se podem criar favorece a adoção praticamente particular de poéticas a adotar, na exploração das aberturas dos códigos. No exemplo citado por Daniela Tordino (2007), a seguir, podemos perceber uma analogia do teclado de imagens do VJ com a música de cores, que apresentamos no primeiro capítulo, em seus teclados mapeados:
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VJ Spetto developed the VRStudio software, which associates images stored on computer hard disks to the keys on the keyboard in a way he can "type" selected images. He believes that the objective of VJing is to create another environment, through reconstructing the space where he performs.
Podemos notar, em softwares que VJs usam nos dias de hoje, o mapeamento da interface em pistas (tracks), a partir de elementos pré-selecionados e colocados na memória para serem manipulados.
Software para criação de música e imagem sincronizadas: pistas (camadas de áudio e vídeo)
Produção de imagens em movimento
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