A implantação do Hospital Regional do Cariri foi precedida de grande expectativa na região. Os serviços de saúde não atendem, satisfatoriamente, a toda a população. Até por ser uma área de polarização, moradores de outras cidades e dos estados fronteiriços, buscam atendimento no CRAJUBAR.
Sua administração tem como base Legal ser uma Organização Social: Lei Estadual nº 12.781 de 30 12.1997; Lei federal nº 9637 de 15.05.1998, que faz menção a “qualificação de entidades como organização social” e Qualificação em 30.10.2002. Segue o mesmo principio administrativo que o Hospital Waldemar Alcântara, em Fortaleza.
Este hospital tem como meta o atendimento aos casos de alta complexidade evitando o deslocamento, por parte dos pacientes, até a capital Fortaleza ou mesmo à Recife/PE para a realização de exames ou cirurgias mais específicas.
Embora ainda não tenha concretizado sua meta, pois apresenta dificuldades na composição do seu quadro de profissionais, muito devido à forma de contratação, que a maioria dos profissionais envolvidos não aceita, e daí não demonstram interesse em compor esse quadro, já exerce um papel de importância e destaque na realização de procedimentos médicos no interior cearense.
Pensar cada uma dessas unidades municipais é também pensar nos municípios vizinhos e, embora a unicidade de interesses não seja a “máxima” mais eloquente neste momento, traça-se aqui um perfil de responsabilidade e comprometimento caririense no sentido de fortalecimento da região gestada desde a ocupação e evolução dessas cidades que se constroem cotidianamente, na Chapada do Araripe.
Para uma compreensão maior do raio de abrangência da região do Cariri e de como a Chapada do Araripe influencia nos mais diversos aspectos é preciso uma explanação dos seus principais aspectos, a seguir.
2.2. O Quadro Natural e a Chapada do Araripe.
No Nordeste brasileiro encontramos duas áreas com a mesma denominação Cariri. A primeira fica localizada no estado da Paraíba com características fito geográficas diferenciadas da segunda, que fica localizada no sul do estado cearense, conforme
demonstração no mapa 02, extraído do Instituto de Pesquisa e Estatística Econômica do Ceará - IPECE (2009).
Mapa 02: Estado do Ceará com Destaque para a Região do Cariri Fonte: IPECE – Instituto de Pesquisa e Estatística Econômica do Ceará Acesso: 07 de Julho de 2011
O quadro natural dessa região tem papel importante na história da sua ocupação e do seu desenvolvimento, como também a sua condição ímpar de participação estratégica, de fronteira, no Estado.
Primeiramente conhecida como Cariris Novos, essa diferenciação promove um sentimento no caririense de “apesar de bem interiorano, sentir que sua região é inteiramente fora do sertão propriamente dito” (FIGUEIREDO FILHO; 2010, p. 5).
Tais palavras evocam uma brava resistência dos índios (primeiros habitantes) que compunham a Nação Cariri em incorporar novos vocábulos e valores. Nação essa que destaca sua proximidade com outros estados nordestinos.
Situado no sopé da Chapada do Araripe, o Cariri cearense é conhecido por ser uma área diferenciada da sua circunvizinhança, possuindo fontes perenes, habitat da ave,
espécie endêmica Antilophia bokermanni, conhecida como “Soldadinho do Araripe” e com vegetação que se destaca perante a caatinga sertaneja como citado por Pinheiro (2009, p. 13):
A uma distância de meia légua da cidade de Missão Velha, no lugar Cachoeira, o rio Salgado despenha-se, de repente, numas pedreiras, de uma altura de vários metros, num grande estrondo que se ouve de longe, para depois da queda correr mansamente no seu leito em busca do oceano.
Essa impressão ostenta as condições naturais da Chapada do Araripe, enfatizando o uso do termo “oásis” como referência à sua fauna, flora e aquíferos, fortalecendo a sua história na ocupação desse território.
Nesta descrição sobre a Chapada do Araripe já se identifica a exuberância de sua vegetação como na afirmativa “Dos sertões do Ceará e Pernambuco avista-se, distante de léguas a serra do Araripe [...] dá-nos a impressão em que ao longe, se encontrem o céu e o mar”. (PINHEIRO, 2009, p. 15).
Abordando a denominação Cariri2 a mesma aparece como um dos ramos indígenas brasileiros, “classificados pelo historiador cearense Capistrano de Abreu: Tupis Guaranis Guaicurus; Nuaruaques; Cariris; Gês ou Tapuias; Caraíbas; Panos e Betoias”. (FIGUEIREDO FILHO, 1964, p.6).
Sobre a Chapada do Araripe, dentre suas condições geológicas, podemos comprovar a influência da camada de calcário, existente em suas diversas outras camadas, como um dos principais fatores representativos de sua estrutura no que referenda o suprimento de água. Como resultado aparente destas condições, podemos observar as características verdejantes de sua paisagem na figura 06:
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A etimologia da palavra Cariri possui outras contextualizações como para Pinheiro (2009, p. 11): Uns consideram-no oriundo de caa mato e ira mel, ou cai queimado, ira mel ou riré depois que. [...]. Há quem julgue que os étimos da palavra cariri não são os apontados acima. Ainda em “Os Indígenas do Nordeste” registra Estevão Pinto que o “nome cariri, na expressão de Pôrto Seguro, significa tristonho; calado, silencioso, cf. outros”. Do parecer de Varnhagem é o nosso Capistrano que em seu livro, “O Descobrimento do Brasil”, declara: “O segundo grupo com o qual os portugueses só amiudaram contacto no século XVII, é o dos Carirís ou Karirís (voz tupi, os tristonhos)”. Embora nula minha autoridade em etnologia indígena, seja-me lícito perguntar: Por que o apelido tristonho ou calado? Seriam os cariris menos comunicativos que seus irmãos de outras tribos? Qualifica-os Angyone Costa de “calados, cabisbaixos, soturnos”, tenazes na defesa do solo de que se apossaram. Porém na intenção de dirimir qualquer afirmativa preconceituosa Pinheiro (2009, p.12) cita a fala de Tomaz Pompeu Sobrinho que discorda do julgamento dos Cariris como “tristonhos”, afirma serem “suspeitosos, mas não tristes. Com quem se dão, parlam alegremente, são às vezes, indiscretos”.
Figura 05: Panorâmica da Chapada do Araripe - Crato/Ceará Fonte: Google Earth. Acesso em 09.02.2013.
Na Chapada do Araripe encontramos também uma grande bacia fossilífera, já há muito relatado, como é possível verificarmos em Pinheiro (2009, p. 18):
Ao pé das escarpas da chapada veem-se inúmeros espécimes de peixes fossilizados. Seriam de notável valor paleontológico os estudos que se fizessem in loco desses vertebrados mortos há milênios.
Em sua tese “O Nordeste do Brasil” o Sr. Silvio Fróis Abreu escreve que “no horizonte calcário da serra do Araripe há muito foram descobertos peixes fósseis, os quais classificados por especialistas – Agassiz em 1841, A. Smith Woodword em 1887-1890, Jordan e Branner em 1908, foram referidos ao período cretáceo. A fauna dos foraminíferos das camadas do Araripe é abundante e todos os caracteres indicam que se trata de depósitos marinhos”.
No rico gabinete de paleontologia da escola nacional de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, como me informou o ilustre Dr. Antônio Pinheiro Filho, professor daquela Escola, veem-se seis exemplares de peixes fósseis da Araripe: Vinctifer Comptoni, Cladocyclus Gardneri, Calamopleurus Brama, Racholepis Buccalis, Ennelyctis Derbyi, Tharrias Araripis.
Os quatros primeiros foram classificados por Agassiz e os dois últimos por Jordan. Há cerca de vinte anos e Sr. Philipp Von Luetzelburg verificou a existência de peixes fósseis no Crato, Barbalha, Porteiras, etc. Assim sendo, pode garantir-se que a serra é uma enorme jazida de ictiólitos. Diz ainda o Sr. Luetzelburg em seu livro “Estudo Botânico do Nordeste” ter encontrado fragmentos de fósseis de sáurios entre o sítio Roncador em Barbalha e a Feira do Pau ou Gameleira no município de Missão Velha.
Mesmo Gardner (1975, p. 92), há tempos, em suas viagens pelo interior brasileiro, vindo de Icó outra cidade do interior cearense por ele visitada, faz a seguinte observação quanto às condições climáticas e paisagísticas:
Na mesma tarde, após jornada de duas léguas e meia, chegamos à Vila de Crato. A estrada era toda plana e arenosa, a região ao sul coberta de grandes árvores, ao passo que o norte, muito plano, era principalmente plantado de cana de açúcar, vendo-se a estreitos intervalos diversas casas, cada qual com um engenho e uma caldeira ao lado, para converter o suco de cana em rapadura. [...] Impossível descrever a deleite que senti ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que naquela estação era pouco melhor que um deserto.
A tarde era das mais belas que me lembra ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra de Araripe, longa cadeia de montanhas a cerca de uma légua para o oeste da Vila; e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante nas terras baixas.
Para melhor vislumbrar a grande contribuição que esse pesquisador nos possibilitou o mapa 03, apresenta o roteiro de suas viagens:
Mapa 03: Roteiro Percorrido por George Gardner.
Fonte: FARIAS FILHO, Waldemar Arraes. Crato: Evolução Urbana e Arquitetura. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2007, p. 70.
Sua viagem foi, e é considerada ainda, uma referência de análise e conhecimento para todos que buscam informações sobre o interior brasileiro neste período. É uma trajetória bem ampla e seu relato minucioso sobre cada vila ou cidade visitada, sobre o comportamento
social das pessoas com as quais ele conviveu, seus costumes, bem como a oferta de produtos e serviços que ele encontrou nessas cidades.
Todos os fatos e interpretações descritas auxiliam traçar o perfil desse momento histórico e a representação cartográfica desse roteiro muito se assemelha aos mapas mentais, pois “tecnicamente, esses mapas mentais não são representações cartográficas convencionais” (SEEMANN, 2013, p.92).
Nos dias atuais a Chapada o Araripe é palco de muita visitação de estudantes universitários e pesquisadores, até mesmo de outros países, atraídos pela presença dos fósseis e pelas condições em que eles se apresentam no solo raso da Chapada, para observação e realização de estudos desses fósseis e das características geológicas da área.
Para uma compreensão maior sobre as condições geológicas da cidade de Crato é necessário abordar a configuração geológica da Chapada do Araripe observando sua condição de influência na formação das nascentes que inspiraram a seguinte afirmativa: “o Cariri na condição de “ilha” de umidade” (SILVA, 2009, p.88) cujas nascentes banham essa cidade tão distinta no sertão nordestino.
No que se refere à condição geológica de Crato na Chapada do Araripe, Horatio L. Small3 in Pinheiro (2009, p. 16 e 17), acrescenta:
A inclinação destas camadas (alude às camadas da serra) produziu ainda a concentração d’água numa linha N-S através do Crato e Jardim. Nos flancos da chapada que são cortados por esta linha, há grande abundância de água, que brota de uma altura de 725 metros sobre o nível do mar e cerca de 50 a75 metros da parte superior do calcário. Nestes lugares o nível parece mais determinado pela camada dura de arenito que pela do calcário, parecendo ser o resultado da estrutura sinclinal.
Ao compararmos com as condições atuais da Chapada do Araripe é possível observar que houve mudanças em suas condições ambientais influenciadas, também, por uma ocupação desordenada da mesma a partir das segundas residências que começaram a se
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Horatio L. Small, na obra intitulada “Geologia e Suprimento d’água Subterrânea no Ceará e Parte do Piauí” in Pinheiro (2009, p. 16), faz o seguinte relato sobre a composição do Araripe: a) Uma camada de arenito mole, vermelho e amarelo bem estratificado, com cerca de cinquenta metros de espessura; b) Uma camada de arenito vermelho de cerca de trezentos e vinte e cinco metros de espessura, com falsa estratificação; c) Ainda uma camada de arenito vermelho com oitenta e cinco metros a noventa também falsamente estratificado, mas distinto do precedente e onde está o horizonte das fontes, na altitude aproximada de seiscentos e vinte metros; d) Uma camada de calcário mais ou menos fossilífero com cerca de noventa metros de espessura; e) Uma camada de arenito conglomerático que assenta diretamente sobre as rochas cristalinas, numa altitude inferior a quatrocentos metros.
multiplicar como também pela expansão da cidade de Crato que buscou nas áreas de encosta uma qualidade ambiental de moradia mais favorável.
Mas, paralelo a essa ocupação, fruto da expansão urbana (mesmo as que tenham autorização) ou construção de segundas residências, houve um acréscimo da produção de dejetos, fluxo de veículos particulares e de cargas, implantação de hotéis e pequenos comércios, asfaltos e desmatamentos, entre outros, que influenciou terminantemente a condição de existência de alguns espécimes e da vazão das nascentes, assim como também, influenciou o clima da cidade de Crato.