A participação em grupos de auto ajuda, dos quais destacamos o de AA, é um dos aspectos de tratamento do alcoolismo de maior interesse estudar como factor de prognóstico de resultado ao tratamento.
Galanter et al. (2007) referem que os AA são descritos na literatura como um programa espiritual para a vida – a spiritual program for living. A abordagem AA faz-se em contexto de grupo e enfatiza a abstinência absoluta e o reconhecimento da doença, prevê ainda uma estrutura de suporte social e modelos de referência, no sentido de prevenir as recaídas (Sá Nogueira e Ribeiro, 2008). Ainda segundo Sá Nogueira e Ribeiro (2008), o trabalho nos AA consiste na realização de sessões em que um membro fala de algum tema particular ou da sua experiência pessoal com o álcool no sentido de poder partilhar com o grupo, iniciando um intercâmbio de experiências construtivo.
De acordo com Mello et al. (2001), nos múltiplos aspectos de um processo de grupo, na sua dinâmica, nomeadamente nas projecções recíprocas, nos fenómenos de espelho, nas sucessivas identificações, na “diluição” da transferência, no “calor humano” vivenciável, na sua função catártica e contínua da expressão de afectos, na reaprendizagem das relações, entre outras, assenta o efeito psicoterapêutico do grupo de alcoólicos crónicos. Na revisão da literatura de McCrady e Epstein (2004) é discutido que a participação em AA incrementa o resultado ao tratamento através de processos de mudança influenciadores, tais como, o compromisso com a
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abstinência, a auto eficácia ou nível de confiança do doente em se manter abstinente e as competências para lidar com os factores de risco da recaída – Coping Skills.
Na revisão sistemática de McKay e Weiss (2001) sobre factores de prognóstico do tratamento de doentes dependentes de álcool e/ou outras substâncias, foram encontrados resultados favoráveis para a participação em grupos de auto ajuda; ou seja, nos estudos com associações estatisticamente significativas entre a participação em grupos de auto ajuda e o resultado, maior participação está estatisticamente associado a melhor resultado.
De acordo com Room et al. (2005) os resultados de estudos de grande dimensão e bem delineados sugerem que os AA podem ter um efeito de potenciação na recuperação, quando combinado com tratamento formal, sendo também a participação em AA por si só melhor para a recuperação quando não existe um qualquer tratamento formal. Ainda segundo Room et al. (2005) a evidência também sugere que AA é especialmente efectivo em indivíduos cuja sua rede social envolva um grande número de consumidores pesados.
No inquérito transversal de Sobell et al. (1996) aplicado à população geral com e sem PLA, foi encontrado que para os indivíduos que procuraram ajuda para o seu problema de álcool o recurso de tratamento mais utilizado foi a participação em AA, ou seja, em 83% dos indivíduos que procuraram ajuda esta foi feita com recurso a AA. Este facto dá evidência do papel de AA na ajuda de PLA na comunidade.
Um resultado importante do estudo de McCrady e Epstein (2004) envolvendo doentes com SDA/SAA seguidos durante 18 meses após tratamento ambulatório (de 15 sessões de psicoterapia) foram que uma maior gravidade do consumo de álcool na admissão ao tratamento estava estatisticamente associada a mais participação em AA. Este resultado aponta numa direcção
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de doentes mais graves poderem procurar mais recursos de auto ajuda como os AA. Para além deste resultado também foi encontrado em McCrady e Epstein (2004) que uma maior participação em AA (percentagem de dias de participação em AA durante o tratamento) estava estatisticamente associado a uma maior percentagem de dias de abstinência ao longo do período de seguimento, o que vai ao encontro da importância da participação em AA para a abstinência.
Terra et al. (2008) concluem no seu estudo de factores de prognóstico da recaída aos 6 meses de tratamento ambulatório (após alta a internamento) que ter aderido a AA era um factor protector da recaída (OR=0,32; p<0,01 após ajustamento para outras variáveis num modelo de regressão logística múltiplo). Este resultado também vai ao encontro do factor participação em AA como um protector independente da recaída.
No estudo de Chong e Lopez (2008) sobre factores de prognóstico de recaída em álcool aos 6 e 12 meses de seguimento após internamento de 45 dias para PLA e/ou problemas outras substâncias, realizado em mulheres de etnia americana índia, foi encontrado que o número de dias de participação em grupos de auto ajuda ao longo do seguimento era um factor de prognóstico protector da recaída em álcool aos 12 meses, sendo os resultados estatisticamente significativos após ajustamento por regressão logística múltipla (OR=0,82; p<0,05).
No estudo de Ellis e McClure (1992) com resultados estratificados para homens e mulheres, concluiu-se que a participação regular em AA (no mínimo uma vez por semana) estaria estatisticamente associado a um bom resultado do tratamento (abstinência ou consumo controlado) ao fim de 12 meses de seguimento após admissão a internamento, tanto para homens como para mulheres.
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No estudo de Ilgen et al. (2007) em que se estudaram factores de prognóstico de auto eficácia ou nível de confiança dos doentes em se manterem abstinentes de consumo de álcool e outras substâncias, a participação em Narcóticos Anónimos e AA revelou-se correlacionado com uma maior auto eficácia ao fim de 12 meses de seguimento após internamento.
O estudo transversal de Schuckit et al. (1997) em que se estudou factores de prognóstico de longos períodos de abstinência no curso da doença (pelo menos 3 meses continuamente abstinente), concluiu-se que os doentes com SDA que já tinham participado em AA tinham mais probabilidade de estarem abstinentes por longos períodos de tempo em comparação com os que não tinham participado em AA, numa relação próxima de 3 para 1 (OR=2,8; p<0,001 após ajustamento num modelo de regressão logística múltiplo). No mesmo estudo, um importante resultado que pode indicar o impacto clínico dos grupos de auto ajuda AA foi quando se considerou exclusivamente todos os doentes que já tinham tido pelo menos um período longo de abstinência. Neste grupo, a participação em AA ainda foi mais evidente de previsão do prognóstico de um período de abstinência ainda mais alargado, digamos de 5 e mais anos (OR=3,2; p<0,001 após ajustamento num modelo de regressão logística múltiplo).
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2 – Objectivos do estudo
De acordo com as duas questões de investigação deste estudo definiram-se objectivos gerais e específicos.