3 Del 2: Resultater fra spørreskjemaundersøkelsen 2018 og 2019
3.3 Arbeidet med rekruttering og bemanning i helse- og sosialsektoren
Helvétius é pontual em suas críticas a Rousseau, porém o autor de Do Homem ficou preso ao senso comum das análises feitas contra o autor do Emílio na segunda metade do século XVIII90. Rousseau teve a oportunidade em vários de seus escritos de defender-se das
críticas referentes a ele. Para isso, utilizou-se de suas sucessivas obras, que evidentemente procuravam corrigir e avançar suas teorias para responder à maior parte dos seus críticos acerca dos ataques feitos à sua filosofia. Na polêmica entre Rousseau e Helvétius sobre a tese do “julgar é sentir”, o pensador francês manifesta, como vimos, que os falsos juízos são produzidos ou pelo efeito das paixões ou pela ignorância dos homens. Rousseau, diferentemente de Helvétius, não desloca a questão do falso juízo somente às causas acidentais, isto é, aos acontecimentos objetivos, que são exteriores à relação entre o “entendimento” e os “sentidos”91. É elementar, para Rousseau, que os sentidos são primários e não nos informam
89 Apesar da peremptória afirmação de Helvétius de que Rousseau é um panegirista da ignorância, o autor do
Emílio, em algumas passagens de suas obras, dispensa um tom elogioso às ciências e às artes. As criações e os avanços da modernidade, em termos de desenvolvimento no campo das ciências, são uma prova incontestável do auxílio da razão no aprimoramento do homem como ser social. A razão é, desse modo, o guia dos homens na vida em sociedade (ROUSSEAU, 1995). Rousseau reconhece isso e ressalta, em seu Prefácio de Narciso, a importância das academias, das escolas, das universidades, dos teatros e das bibliotecas na vida cultural de um povo. Em seu Contrato social, o genebrino ratifica sua posição dizendo que “[...] das luzes públicas resulta a união do entendimento e da vontade no corpo social, daí o perfeito concurso das partes e, enfim, a maior força do todo” (ROUSSEAU, 1999d, p. 108). Sobre o papel das ciências no pensamento de Rousseau, consultar o artigo de Vasconcelos (2016).
90 Entre as inúmeras críticas feitas depois de 1749 (data da publicação do Discurso sobre as ciências e as
artes), destacamos a conhecida Lettre de Voltaire à Rousseau, a 30 de agosto de 1755, em que o autor do Dictionnaire philosophique faz duras críticas à tese de Rousseau no Segundo discurso, de que as letras, as ciências e as artes são responsáveis por corromper os costumes. Nessa Carta, conhecemos a célebre ironia de Voltaire com relação a Rousseau. Na Lettre, o filósofo francês postula que “Ninguém poderia pintar um quadro com cores mais fortes dos horrores da sociedade humana, para os quais nossa ignorância e debilidade têm tanta esperança de consolo. Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas quando lemos vossa obra. Entretanto, como já faz mais de sessenta anos que perdi este costume, percebo, infelizmente, que é impossível recomeçar e deixo essa maneira natural àqueles que são mais dignos que vós e eu”; essa correspondência encontra-se em Oeuvres Complètes (ROUSSEAU, 2012a).
91 Porém, a ideia de um condicionamento da criança através da educação não pode ser desprezada em Júlia ou a
sobre o “verdadeiro” ou o “falso” das coisas, pois é a atividade do juízo que determina essa diferença. Contudo, na Profissão de fé, Rousseau enuncia que “[...] A verdade está nas coisas, e não no meu espírito, que as julga” (ROUSSEAU, 2014, p. 381). Ou seja, para ele, sem o
sentiment intérieur, a razão erra, porque, quanto mais colocamos dos nossos juízos nos objetos,
mais nos equivocamos em nossos julgamentos (ROUSSEAU, 2014).
Ainda sobre a tese do “julgar é sentir”, Helvétius diz, na mesma linha de sua proposta anterior, que não apenas os falsos juízos são produzidos através dos condicionantes externos aos homens, bem como só essas causas externas podem salvar os indivíduos dos prejuízos das paixões e da má educação que os atingem. Na quinta parte, especialmente na Carta III de Júlia ou a nova Heloísa, Rousseau (1994a, p. 587), provavelmente contra a visão determinista de Helvétiuse a favor da liberdade moral do homem, postula a superioridade do
sentiment intérieur sobre as causas externas a ele92:
Ouço muito argumentar contra a liberdade do homem e desprezo todos esses sofismas, porque um argumentador me prova em vão que não sou livre, o sentimento interior, mais forte do que todos os seus argumentos, desmente-os sem cessar e, seja qual for o partido que eu tomar, não importa qual deliberação, sinto perfeitamente que depende apenas de mim tomar o partido contrário [...]. Nós não nos supomos ativos e livres, sentimos que o somos. Cabe a elas provar não somente que este sentimento poderia enganar-nos, mas que nos engana de fato.
Helvétius, além de ligar a vontade humana aos condicionantes externos a ela, acusa Rousseau de excluir da ação humana o princípio do interesse. Em sua leitura do Emílio, Helvétius negligencia que o “intéresse” tem importância fundamental no aprendizado do aluno de Rousseau. Em várias passagens do seu alfarrábio sobre educação, Rousseau (2014, p. 282) destaca que Emílio “[...] Não procura conhecer as coisas pela sua natureza, mas apenas pelas relações que o interessam”. Ele conclui assim o seu Livro III do Emílio, da mesma forma que inicia essa parte do seu livro: “[...] Até agora não conhecemos outra lei que não a
é fazer o infante sentir o jugo da necessidade”. Sobre isso, Helvétius (2011) perfila que Rousseau se contradiz, visto que, por um lado, ele nega que podemos mudar o caráter das crianças e, ao mesmo tempo, afirma que é necessário submetê-las ao jugo da necessidade. Isso demonstraria que a educação pode e não pode transformar o temperamento da criança, o que seria evidentemente uma contradição. Outra ocorrência de um processo de “condicionamento educativo” na obra de Rousseau pode ser notada no Discurso sobre a desigualdade. Após afirmar que o meio social influencia a maneira de ser dos indivíduos, Rousseau (1999b) declara que a diferença entre os espíritos é uma consequência direta da educação que eles receberam.
92 Contudo, apesar de Rousseau afirmar que a tese do “julgar é sentir” de Helvétius desemboca numa espécie de
visão determinista do mundo, é dizer, numa visão própria ao materialismo filosófico, Maruyama (2005, p. 142) sai em defesa do autor de Do Espírito e diz que não há, em seu pensamento, um determinismo natural ou físico: “[...] O papel das paixões, dos prazeres e do interesse no processo intelectual do espírito [...] permitia a Helvétius mostrar que não há um determinismo natural ou físico: em cada uma de nossas experiências, antes que os órgãos dos sentidos sejam afetados pelos objetos exteriores, temos uma disposição da alma, caracterizada pelo estado de nossas paixões e de nossos desejos, os quais determinam, por assim dizer, as próprias impressões e sensações ou, ao menos, o grau em que somos afetados por esta”.
da necessidade; agora nos deparamos com o que é útil; logo chegaremos ao que é conveniente e bom” (ROUSSEAU, 2014, p. 214); “utilidade” e “interesse” são duas constantes no Emílio. O que Rousseau nega é a redução radical do interesse à sensibilidade física, como vimos na
Lettre à Offreville. Maruyama (2005, p. 486) observa que, “Para Rousseau, o interesse, assim como os prazeres e as necessidades físicas, não pode servir de princípio nem de motivo das ações e das ideias morais”. Assim, contra a “moral do interesse” de Helvétius, Rousseau contrapõe o sentiment intérieur. É sobre isso que escreve Maruyama (2005, p. 486):
[...] não sendo um caso de um método de redução, como é o caso do princípio do interesse de Helvétius, o princípio do sentimento moral aparece como ponto de partida ou commecement da experiência moral. Trata-se, sem equívoco, de um princípio, e não de um motivo que se tornara princípio. O sentimento moral inato é o que inaugura o mundo moral para cada indivíduo, dando significação a termos como virtude, bem e justiça.
Helvétius certamente não reconhece a dualidade metafísica promovida por Rousseau na Profissão de fé entre o ser passivo e sensitivo e o ser ativo e inteligente93. Ele
também rejeita, no pensamento de Rousseau, a organização interior como aquela que define o espírito. Como vimos, no De l’Esprit Helvétius (2004, p. 213) afirma que a maior ou menor perfeição dos organismos dos sentidos não influi em nada sobre a justeza do espírito: “[...] os homens, qualquer impressão que eles recebem dos mesmos objetos, devem sempre perceber as mesmas ligações entre os objetos”. Para Rousseau (2014), embora a verdade esteja nas coisas, e não em nosso espírito, que as julga, é sempre do indivíduo que parte a sentença sobre aquilo que ele analisa e compara. Na visão de Rousseau (2014), não há como desprezarmos a ação da vontade, da razão e do sentimento na avaliação que os homens fazem da realidade contingente a eles. Ainda que o genebrino reconheça que a verdade está nos objetos, ele não despreza as diversas interpretações que os homens podem ter sobre esses mesmos objetos. Para Rousseau, portanto, nem a atenção nem a educação garantem uma visão uniforme dos indivíduos sobre um só e mesmo objeto, como quer Helvétius94.
93 Sobre isso, Rousseau (2014, p. 392) assevera que, “Meditando sobre a natureza do homem, acreditei
descobrir nela dois princípios distintos, dos quais um o elevava ao estudo das verdades eternas, ao da justiça e do belo moral, às regiões do mundo intelectual, cuja contemplação faz as delícias dos sábios, e o outro o trazia de volta basicamente a si mesmo, sujeitava-o ao império dos sentidos, às paixões que são seus ministros e contrariava por elas tudo o que lhe inspirava o sentimento do primeiro”. Ao dividir o homem em um ser espiritual e em um ser físico, Rousseau opõe a dualidade metafísica ao rebaixamento do indivíduo ou à igualdade dos espíritos, defendida por Helvétius. Masters (2002) aborda esse assunto em La philosophie politique de Rousseau, em especial no capítulo II, na seção intitulada La métaphysique dualiste.
94 Isso nos remete à discussão entre “verdade” e “verossimilhança” presente nas Réfutations, sobretudo na
versão apresentada por Masson das notas feitas por Rousseau ao De l’Esprit. Helvétius (2004, p. 26-27) declara: “[...] esses objetos [que nos apresenta a natureza] têm relações entre eles; o conhecimento dessas ligações forma aquilo que nós chamamos do espírito [...]”. Rousseau retruca Helvétius afirmando que a “[...] a capacidade maior ou menor a conhecer é o que faz o mais ou menos do espírito” (MASSON, 1911, p. 106).
Helvétius também se opõe ao inatismo da consciência moral de Rousseau. O que o autor de Do Espírito não leva em conta em sua leitura do Emílio é que, para Rousseau, o homem não nasce nem bom nem mau, pois, enquanto ele permanece limitado à sua sensibilidade física, nada há de moral em suas ações (ROUSSEAU, 2014). O selvagem de Rousseau (2014) não nasce com o sentimento inato de justiça plenamente desenvolvido, como interpreta Helvétius. Na Profissão de fé, Rousseau (2014) ratifica que os sentimentos são anteriores às ideias, por isso não é o conhecimento que é inato, é o sentimento que o é. Esses sentimentos são o amor de si e a consciência moral, que só são aflorados quando os homens se tornam seres sociais95 (ROUSSEAU, 2014). Ao contrário da leitura feita por Helvétius,
Rousseau no Emílio não procurou na consciência moral a saída para os conflitos da vida em sociedade. Nessa obra, em especial no Livro V, Rousseau (2014) avalia que a lei, a partir da vontade geral, é soberana frente à realidade da sociedade política.
Helvétius acusa Rousseau de ser um apologista da ignorância, no entanto os dois elogios que Jean-Jacques faz sobre esse assunto no Emílio carecem de uma melhor interpretação por parte do autor de Do Espírito. Ainda no Livro III do Emílio, Rousseau enaltece a ignorância para rebater os filósofos, que, com o seu discurso retórico, só oneram os cofres públicos96. A ignorância seria um meio de evitar esse desperdício de “muitas
inutilidades”, “Visto que, quanto mais os homens sabem, mais eles se enganam; o único meio de evitar o erro é a ignorância” (ROUSSEAU, 2014, p. 277). Quase no final de sua Profissão
de fé, Jean-Jacques opõe a ignorância ao orgulho douto da filosofia e da religião, que despreza
as qualidades do povo, ao mesmo tempo que estimula nele o fanatismo de suas seitas. Sobre isso, escreve Rousseau (2014, p. 447-449):
[...] aprende a ser ignorante [...]; o abuso do poder produz a incredulidade. Todo homem douto despreza o sentimento do vulgo [...]. A orgulhosa filosofia conduz ao fanatismo. Evita esses dois extremos [a filosofia e a religião] [...]. Ousa confessar Deus entre os filósofos; ousa pregar a humanidade entre os intolerantes [...]; o que importa é cumprir teus deveres na terra e é esquecendo-te de ti mesmo que trabalhas por ti. Meu filho, o interesse particular nos engana; só a esperança do justo não ilude.
Consoante Rousseau, podemos nos aproximar de visões mais próximas da verdade, mas nunca alcançá-la de forma unívoca como quer Helvétius, exatamente porque cada um de nós possui um temperamento, um caráter e uma organização interior diferente do outro.
95 Sobre a transformação do homem amoral em ser social na filosofia de Rousseau, ler principalmente a
primeira parte do Segundo discurso e a Carta a Christophe de Beaumont.
96 Como veremos, no ponto de discussão relacionado às ciências, Rousseau condenava os elevados gastos da
corte francesa com o pagamento de pensões para cientistas e filósofos. Segundo ele, isso onerava os cofres públicos, porque, além de não resultar em um benefício prático para o povo, como o trabalho de um agricultor ou de um artesão, por exemplo, gastava-se o erário público inutilmente. Nesse sentido, a “ignorância” de um homem simples era mais importante, para Jean-Jacques, do que o conhecimento de um homem douto, porque representava benefícios para a sociedade, e não apenas “um discurso retórico”.
O sentido da crítica de Rousseau no Emílio não é para que sigamos uma ignorância cega, como pensou Helvétius. Ao contrário, Rousseau (2014) desmente essa acusação de seu contemporâneo realçando que a saúde do povo está no cultivo dos seus costumes, no cuidado com o seu trabalho, no amor pela pátria e no respeito pelas leis97. Por
tudo isso, as críticas do autor do De l’Homme não passam de uma leitura superficial da
filosofia de Rousseau, como observa Schøsler (1980).