Section 37. Ordinary provisions about coverage of sign expenses
2. Planning and execution
2.3 Approval and decisions
O trabalho do contador de histórias É viajar nas histórias para Curar almas no caminho do tempo.
O homem desde que é homem contou histórias. Desde sempre houve a indispensabilidade de expressar a eterna necessidade de dizer a vida de dialogar com a natureza e de apresentá-la por muitas histórias que de boca em boca foram perpetuando, costumes, crenças e valores.
Nos séculos XVII e XVIII, as pessoas ainda eram iniciadas, como indica a obra: Os Andarilhos do Bem, de Ginzburg (1990), através de uma voz e de um sinal, uma linguagem visualmente simbólica regida pela oralidade. O poder da voz ouvida era grande. Essa voz deve ser compreendida como a memória de uma tradição que persistiu pela memória oral. Aí, é a voz da memória que fala; que ensina, que inicia e que transforma. É a palavra, parte da natureza humana, com raízes bem plantadas no mundo real.
São evidentes os sinais de que elementos como a voz perpetuada, “alimentam palavras” e com elas a interação humana, já vimos. Contudo é importante destacar que a palavra além de estreitar os laços sociais, alimenta os sonhos humanos. Tempo, lugar e pessoas sintetizam um conjunto como uma tríade, que cria um movimento próprio, do celeiro das narrativas orais, tranquilamente localizadas na tradição da transmissão oral dos povos de antigamente. Então, o desejo é o de perguntar sobre a tradição que alimenta os sonhos dos humanos: o que é tradição oral? Os narradores de antigamente como nega Julia e minha avó,
como já as ouvi dizer, responderiam: é a grande escola da vida, cujos ensinamentos são transmitidos pela fala e muitas vezes nas “conversas de histórias” que revelam os sonhos e desejos humanos.
Percebo com Grubacic (2006) que o termo tradição não se traduz somente pela compreensão do elemento conservador propenso a um comportamento estereotipado, mas aquilo que: “diz respeito à nova e criativa forma de reviver a experiência da tradição” (p.19). É bom observar que na tradição do contar histórias há um poder criador com a dupla função de renovar pela conservação. É o passado que constrói o presente e nesta construção sempre há algo de quem cria ou recria o passado.
Seguindo ainda os passos do especialista em literatura oral medieval, Zumthor, temos a necessária compreensão entre tradição oral e transmissão oral no âmbito das narrativas orais. Por tradição compreende-se a duração dos fatos. Já transmissão, está relacionada, neste caso, ao que o autor chamou de performance, de quem conta: desempenho do ato de se narrar algo para alguém. Isto tem a ver com renovação, pois que depende sempre da (re) criação do contador. Então, performance se diz quando a transmissão e a recepção (quem conta e quem ouve) coincidem no tempo e no espaço, implicando numa “inovação” própria de cada narrador. Dessa forma, tem-se uma situação de performance, e sua evolução depende do reconto do conto com “estilo” de cada contador de histórias, porque, como o vento leva o barco, é a voz do contador que sempre conduz (ainda que os contos sejam os mesmos) o imaginário da audiência por novos caminhos, porque a fábula transmitida pode ser a mesma, mas a palavra que diz o Era uma vez é sempre outra. Implica, portanto em uma performance – própria de cada contador. Isso me lembra da seguinte história:
Conta-me uma história – pedia-lhe a moça. - Tenho de pensar! Respondia-lhe.
Ora acontecia que, por vezes, o tempo que levava em sua meditação era longo demais para ela, que se zangava. Mas ele balançava a cabeça e respondia impassível:
- Você deve ter um pouco mais de paciência. Uma boa história é como uma boa montaria. A caça brava fica escondida e é preciso armar emboscada e ficar de tocaia horas e horas a fio, na boca dos precipícios e florestas. Os caçadores mais apressados e impetuosos afugentam a caça e nunca obtêm os melhores exemplares. Deixa-me, pois pensar!
Mas desde que tivesse meditado o tempo bastante e começasse a falar, não mais parava enquanto não tivesse contado a história completa, que corria ininterrupta e fluente como um rio descendo montanhas abaixo e em cujas águas tudo se reflete – desde a pequena folha de grama até o azul da abóbada celeste (...)
Convertia-se num ser todo-poderoso assim que iniciava mais uma demonstração de sua arte, pois aprendera a arte de narrar no Oriente, onde essa função é altamente apreciada e seus praticantes são considerados uma espécie de magos.
Jamais começava suas histórias em países estranhos, para onde o espírito do ouvinte não podia voar com força própria.
Principiava sempre com algo que os olhos pudessem ver; depois, imperceptivelmente, levava a imaginação dos ouvintes para onde muito bem ele queria, de modo que a narrativa transcorria com naturalidade. Quem o escutava absorto em suas palavras, embora continuasse tranquilamente sentado, o espírito já vagava alegre e receoso, pelas regiões mais fascinantes.
Assim era a maneira de ele contar suas histórias.15
O que podemos dizer sobre esse narrador? Cada um tem o seu jeito. Mas o que é certo é que dois ouvintes não ouvem da mesma maneira. O que se sabe mesmo é que cada narrador desenrola, ao narrar um conto, uma paisagem; a sua paisagem, aquela que cultivou internamente através das palavras que deram sentido à sua emoção.
Sobre a tradição, em todos os cantos do mundo existiram pessoas, cuja tarefa foi a de preservar a tradição e os antigos mistérios do seu povo perpetuando-os pela transmissão oral. Uma pequena história16 nos faz lembrar esse assunto:
Sempre que uma catástrofe visitava o seu povo, o velho homem da aldeia dirigia-se para um determinado lugar da floresta e, lá, ele fazia uma fogueira sagrada, e lá ele dizia uma oração especial e o infortúnio era assim evitado desaparecendo daquele povo. Longos anos se passaram e foi sempre assim. Um dia este homem morreu e essa tarefa ficou para o homem que o sucedeu. Sempre que um infortúnio se aproximava de seu povo ele conhecia tanto o caminho para a floresta quanto a oração, mas não sabia como acender a fogueira sagrada. Mesmo assim a catástrofe ia embora. Assim foi durante longos anos. Tempos depois a responsabilidade caiu para um terceiro homem que conhecia o caminho para a floresta, mas não sabia fazer a fogueira sagrada e não sabia dizer a oração especial, e mesmo assim seu conhecimento foi suficiente para evitar o infortúnio. Um dia este homem morreu e em seu lugar ficou outro homem que não conhecia o caminho para a floresta, não sabia fazer a fogueira sagrada e não sabia
15 HESSE, Herman. “O anão”. In: O livro das fábulas. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro,
Record, s.d.
16 Este conto que diz a lenda vem do judaísmo é um conto que Nega Julia gostava de contar para nos
ensinar a honrar os nossos antepassados. Ela dizia que é importante sabermos das histórias das nossas gentes, pois elas poderiam nos ajudar a livrarmos dos infortúnios.
dizer a oração especial. Tudo o que ele sabia era contar a história dos seus antecessores. E isso foi o suficiente para ficarem livres dos infortúnios.
Saber da história e saber a história pode mudar o curso dos acontecimentos de toda uma comunidade, como vimos no conto acima. Saber da história implica num dedicado conhecimento das necessidades de seu povo (no tempo atual) e saber a história implica em não inventar a roda novamente, conforme Eliade (1972) preconiza. Ele nos mostra sobre o poder dos antigos narradores das sociedades de tradição oral e, sobretudo, sobre a importância dos conhecimentos transmitidos pela tradição. Ele diz:
O essencial é conhecer os mitos, porque os mitos nos oferecem uma explicação do mundo e do nosso próprio existir no mundo e, essencialmente porque conhecer os mitos é aprender os segredos e origem das coisas. Em outros termos, aprendia-se não somente como as coisas vieram à existência, mas também onde encontrá-las e como fazer reaparecer quando desaparecessem (ELIADE, 1972, p.18).
Destacamos da fala de Mircea Eliade o conforto que sentimos em saber onde encontrar o que necessitamos e não nos esquecermos desse lugar.
É claro que a historicidade do fenômeno da voz é o prestigio da tradição oral, cuja linguagem brotou de um ardil da língua, que chegou à modernidade e ficou sendo conhecida como: literatura oral, literatura primordial, literatura popular, literatura folclórica, literatura infantil, mesmo sem, curiosamente, neste último caso, ter nascido para as crianças17, como afirma Paz18 (1995). O fenômeno da narrativa de tradição oral, sempre esteve ligado ao signo da convivência, entre os velhos e
17 Não faz muito tempo, acreditava-se que a criança fosse um homúnculo, cujas diferenças do adulto
estavam apenas no tamanho. Áries, conta que as crianças, na idade média, necessitavam trabalhar como os adultos para merecer seu pedaço de pão. Na vida diária as crianças estavam sempre junto aos homens e mulheres adultos e, participavam de toda sorte desse mundo (1989). Indiscriminadamente ouviam todo tipo de histórias.
18 Aquilo que depois do século XIX, é denominado literatura infantil, não teve como origem essa
finalidade. Os antigos contos de iniciação transpuseram seu significado para o conto maravilhoso, mais tarde chamado de conto de fadas. Essas “estirpes ambulantes” que já haviam tomado forma no segundo milênio a.C., reaparecem nos ciclos medievais como uma grande e aleatória busca do objeto maravilhoso que inclui a entrada do herói no Outro Mundo... Os contos perduram por milênios, protegidos pela tradição oral, antes de serem compilados pelos estudiosos. “Contos diversos são agrupados e organizados em determinadas circunstancias históricas, eles correspondem a um fundo arquetípico comum a toda a humanidade.” (Paz, 1995, p. 53).
jovens das comunidades, como vimos acima. É bom afirmar que as histórias sempre reuniram pessoas que contavam e que ouviam, pela arte da palavra. Uma palavra que em sintonia com o grupo tinha a função de mediar e facilitar possibilidades de experiências muitas vezes transcendentes. Vejamos como Zumthor apresenta a questão da tradição oral:
O que se conhece por tradição oral de um grupo social é formado por um conjunto de intercâmbios orais ligados a comportamentos mais ou menos codificados, cuja finalidade básica é manter a continuidade de uma determinada concepção de vida e de uma experiência coletiva sem os quais o indivíduo estaria abandonado à sua solidão, talvez ao desespero. (1985, p. 4).
Isso significa que a oralidade natural de uma determinada cultura e, mesmo de um determinado grupo, é concebida como um conjunto complexo e heterogêneo de condutas e de modalidades discursivas comuns, o que determina um sistema de representações e uma faculdade de todos os membros de produzir certos signos, de identificá-los e interpretá-los da mesma maneira, como um dos fatores de unificação das atividades individuais (Zumthor, 1985). Fica, pois, evidente a força da experiência coletiva quando da prática da oralidade. Uma prática que outorga ao coletivo uma função coesiva, sem a qual o grupo social não sobrevive.
Vimos, então que o contar oralmente é a reminiscência; é a base da tradição de onde a transmissão dos valores mais importantes são passados para a sociedade.
É preciso ainda observar que a palavra humana é mais do que um simples vocabulário, é palavra-e-ação, como dizia o professor Paulo Freire. Observemos as suas considerações que julgamos importantes quanto as forças de libertação e/ou confinamento que tem o poder das falas. Ele dizia:
Falar não é um ato verdadeiro se não está, ao mesmo tempo, associado ao direito à auto-expressão da realidade, de criar e recriar, de decidir e escolher e, em última instância, de participar do processo histórico de sua sociedade (FREIRE, 1990 p.70).
que a função de um narrador ao compartilhar a sua narrativa deve abrir espaço para a expressão dos pensamentos e para os atos criativos da sua audiência. Dar voz e, portanto vez aos seus ouvintes. Nesse caso o conto serve como um motivo, para estimular e aprofundar reflexões.
Qual seria um caminho? A palavra com seu poder de evocar imagens constrói uma ordem mágico-poética, resultado da junção do gesto do corpo com a sonoridade da voz, isto atinge a audiência. Este conjunto é capaz de levar o ouvinte a uma suspensão temporal e transportá-lo para o tempo afetivo, não- cronológico, imprescindível para os atos criativos, conforme se sabe dos procedimentos arteterapêuticos. Esta capacidade talvez reflita as colocações de Hampâtê Ba (1982) quando diz: “Somos feitos de palavras. A profundidade e o reverberar das palavras só são possíveis se corpo e palavra forem a mesma coisa” (idem p. 234).
Pelas palavras narradas se convoca imagens e ideias da memória de um povo, de uma gente; ideias que certamente misturam-se às convenções contextuais e verbais de cada grupo, para consagrá-las ou modificá-las, segundo o ponto de vista ideológico e cultural de cada comunidade, conforme dizia Paulo Freire (1990). Essa convivência tece relações solidárias e favorece a troca de conhecimento dispersando atos solitários, como diz o pesquisador Zumthor.
As possibilidades dos efeitos da arte narrativa são inúmeras. Ainda são as sociedades da tradição oral que apontam para o exercício da narrativa oral; mantém o equilíbrio dos grupos sociais, evitando, assim, sua degradação. É pelo reconhecimento de um lugar onde as pessoas vivem juntas, trabalham e estabelecem uma relação estável e, vamos por assim dizer, uma relação “personalizada” que se constitui a base identitária de um povo. Nesse ambiente compartilhado pelo convívio, os feitos que se repetem (por tradição) cria um elo que une a comunidade, tornando-se a marca de uma cultura que revela um tipo de comunicação (pela experiência) que une e identifica (GRUBACIC, 2006). Nesse caso a fala é força que cria uma ligação, como dizem os tradicionalistas: uma ligação de vaivém que gera movimento e, consequentemente, vida. Isto quer dizer que na tradição oral a fala é a materialização de uma cadência que cria
movimentos e significados. Os membros da comunidade dão sentido a essa fala e a integram em seu universo pessoal e psicoafetivo.
Como se pode ver a tradição é antes de tudo um movimento lento e contínuo que dá sequencia a trajetórias de uma arte guardiã dos ecos do passado revivificando-os. A traditio literalmente é passada para frente, como a palavra sugere, de uma geração à outra, transmitindo o material para os mais jovens19. A tradição oral, como reflete Fabiene Thiery em seu livro Du texte à la voix (2001), sempre viajou carregada de sementes. E quem, conta (o narrador – veículo desta matéria), jamais está imune a esse movimento (de carregador de sementes do passado para o presente), porque sua matéria prima, viva e angulosa, é a palavra que transpassou a cultura.
Continuamos a observar contribuições de outros autores para a “palavra contadora”, como o linguista, Haan (2001), que se ocupa em afirmar que: “a palavra nasce da fusão de quem conta com a palavra. A voz é assim, mãe da palavra e geradora de magia. Antes de tudo ela é um instrumento que para soar requer energia” (p. 193). Também para Zumthor (1993), a palavra é sopro criador que emana do corpo e é sua parte mais leve; ultrapassando sua dimensão acústica; a voz é também a parte menos limitada do corpo, diz o autor.
Atualmente a arte narrativa, vinda do sopro criador dos seus narradores, recebe alguns adjetivos, dentre eles: “palavra do conto”, como muitos contadores de histórias chamam, “palavra-contadora”, “a boa palavra”; “palavra bem-dita”. Com esses predicados se nota a continuidade do respeito pela palavra que diz os contos. Especialista em literatura como Hindenocg considera que o: “Contar é uma arte da palavra como a poesia. A palavra contadora é uma palavra carregada de élan, de entusiasmo. É uma palavra profunda, poderosa, mágica” (2001, p. 301).
Vimos, portanto, que a ideia do poder real da palavra, ideia profundamente ancorada nas mentalidades dos homens da tradição oral, “gera um quadro moral do universo; na palavra se origina o poder da política, do camponês e da semente”
(BENJAMIN, 2009, p. 45). Daí que o homem cria significados a partir de uma necessidade congênita da importância de se estabelecer como um ser social, realidade que o conto de tradição oral, exatamente pela arte que comporta ajuda a realizar. A palavra proferida pela voz cria o que ela diz. Isso dá o que pensar sobre as contribuições para as futuras gerações.
1.1.6 A palavra escrita
O que é escrito, ordenado, factual nunca é suficiente para abarcar toda a verdade: sempre transborda de qualquer cálice.” Boris Pastenak
No caminho da pesquisa é preciso foco e evidentemente, o que se busca aqui é uma compreensão histórico-cultural de um legado, com a preocupação sobre a função da oralidade nas práticas narrativas20, onde a escrita não existe.
No mundo contemporâneo atribui-se confiabilidade à escrita, estando o estatuto da oralidade apenas para aqueles que gostam de contar histórias para crianças, como se fosse coisa infantil, o que denota um sentido de descrédito, desconsiderando, aliás, o mundo infantil. Fico pensando que, induzidos pela realidade da escrita, na contemporaneidade, é fácil tecer preconceitos pelo que não conhecemos e, se for assim, dificilmente nos colocaremos com humildade diante de um estudo que consideramos irrelevante. Este pensar nos leva a querer conhecer mais e melhor sociedades que vivem pela palavra. Assim oportunamente, neste trabalho, faremos uma apreciação ainda sobre as sociedades de tradição oral; aquelas para as quais a escrita é irrelevante.
O verbo de antigamente, é aprisionado pela escrita21 e, chega na evolução, a
20 De antemão sabemos: um bom exercício para a constituição do imaginário; um bom exercício para
manutenção da memória.
21 É preciso que se diga que com Perrault, a cultura escrita procurou tornar imperdível a riqueza das