Appendix 4.B Bias in Correction Phase
5.4 Case Studies
5.4.3 Application: Large CAD-Models in Web Browser
Em termos de conhecimento, do senso comum à ciência, é habitual surgir uma preocupação com a verdade independentemente da discussão que esse termo possa suscitar, trazendo à tona a necessidade que o homem tem da certeza diante da realidade.
Todo trabalho científico está implicado com a verdade, seja para refletir sobre a mesma, seja para assumir ou recusar determinada concepção. Mesmo os que tendem a dispensar uma discussão sobre o assunto, ou a evitar o uso do termo. De qualquer modo essa questão se faz presente, ainda que em muitos de forma apenas subjacente, quando os pesquisadores, os cientistas, submetem seus estudos e os resultados deles oriundos a critérios de validade fundamentados em uma teoria e firmados socialmente. A sociedade precisa saber se o conhecimento elaborado é correto, verdadeiro, válido. Além disso, um trabalho centrado em uma abordagem epistemológica não pode deixar de fazer, ainda que brevemente, uma discussão desse conceito.
A complexidade desse termo emerge desde a sua origem prática, posto que esta se dá em um julgamento, consensual ou arbitrário, relativo a um espaço e tempo determinados. O caráter histórico da verdade implica na mudança do conceito, de acordo com as diferentes concepções de homem, mundo e conhecimento. Nesse sentido, conforme Abaggnano (2000) é possível distinguir cinco conceitos de verdade, quais sejam: como correspondência; como revelação ou manifestação; como conformidade com uma regra; como coerência; e como utilidade.
Tendo em vista as duas abordagens teóricas que receberam destaque nessa seção, os dois primeiros conceitos acima mencionados que, por vezes, se juntam em alguns estudos, interessam particularmente à análise pretendida nesta subseção.
A verdade compreendida como correspondência consiste no conceito mais antigo, e bastante usado. Já a noção concebida como revelação ou manifestação, tem conforme Abbagnano duas maneiras essenciais: uma empirista e outra metafísica ou
teológica. Para a primeira “a verdade é o que se revela imediatamente aos homens, sendo, portanto, sensação, intuição ou fenômeno”. Para a segunda forma, “a verdade se revela em modos de conhecimento excepcionais ou privilegiados, por meio dos quais se torna evidente a essência das coisas, [...]. A característica fundamental dessa concepção é a ênfase dada à evidência, assumida ao mesmo tempo como definição e critério da verdade”. (ABBAGNANO, 2000, p. 996)
Na concepção fenomenológica, a verdade é compreendida como revelação das essências, pois são essas que se manifestam por meio da epoché, instrumento metodológico que auxilia nessa revelação e, portanto, possibilita ao sujeito a apreensão da verdade. Esta é a evidência com que os fenômenos se apresentam ao sujeito, é o desvelamento do significado e dos diversos sentidos do fenômeno pelo sujeito. Na perspectiva husserliana, verdade e evidência pertencem a todos os objetos fenomenológicos, incluindo-se aí valores e sentimentos.
Por sua vez, Heidegger manteve a compreensão da verdade como revelação ou descoberta. Todavia, é preciso considerar a questão da autocompreensão. Nesse sentido é que Japiassu (1992, p. 161) afirma que é “a partir do modo como o sujeito se compreende que pode chegar a compreensão dos outros, seja mediante suas obras, seja mediante seus comportamentos. E é por isso que toda compreensão implica uma autocompreensão”.
Sob essa perspectiva, a preocupação está em apreender o significado e os sentidos do fenômeno que serve de objeto de investigação, e esses se dão a conhecer, posto que o fenômeno os revela em suas diversas manifestações.
Em seus estudos sobre a obra de Dussel, Pansarelli (2010, p. 241) elaborou a verdade de que existe uma filosofia latino-americana, mas afirma que “a filosofia da libertação está em construção, inconclusa, configurando-se à produçao filosófica crítica, poiética, contemporânea.” Essa verdade é revelada ao autor pelo fenômeno por ele investigado em suas diferentes manifestações, contidas nas diversas obras de Dussel por ele interpretadas. Porém, certamente há um consenso intersubjetivo dessa verdade no âmbito dos estudiosos que se debruçam sobre a possibilidade de uma filosofia originária da America Latina. Mas se é possível considerar a intersubjetividade, esta também diz respeito às obras de diferentes autores, além das obras de Dussel interpretadas por Pansarelli.
Rezende (1990, p.29) explica que “a fenomenologia não é uma filosofia da evidência, mas da verdade em todas as suas manifestações”. Contudo, desvelar “consiste
em descobrir que a verdade nunca se revela totalmente.” Eis a limitação da abordagem fenomenológica no que se refere à constituição da verdade.
Segundo Gamboa, não há nessa perspectiva uma pretensão de fidelidade ao objeto. Não é na objetividade que reside o critério de verdade, mas na intersubjetividade.
A verdade é resultado do consenso intersubjetivo da comunidade científica. Seu caráter relativo (é verdade para esse grupo) se faz ainda mais relativo quando o consenso ocorre em um determinado momento, em um contexto ou um cenário histórico específico (é verdade em um determinado grupo em determinados momentos; em outro momento ou contexto é outra verdade, outro significado), razão pela qual esse enfoque se denomina também historicismo, ou histórico hermenêutico. O interesse que comanda esse processo cognitivo é o prático de consenso. (GAMBOA, 2013, p.75)
Na perspectiva dialética o objeto deve ser abordado em seu percurso histórico sem descuidar das suas relações com outros objetos no tempo, para que se possa entender o movimento contraditório que tanto o constitui como proporciona a transformação.
No que concerne ao entendimento da questão da verdade por Hegel, esse filósofo a pensava como correspondência entre a objetividade e o conceito. A ideia é transformada em critério de validade, ou melhor, ela é a própria verdade. É por meio dela e na sua forma que a verdade existe52.
Por isso, a verdade científica expressa na afirmação de Nunes de que “a educação é um ato dialético”, pode ser comprovada pela ideia hegeliana de que a natureza própria do pensamento é dialética. Nessa perspectiva, a objetividade do conceito permite a Nunes (2002, p. 249) afirmar que “também é dialético todo o processo de captação, consideração e construção pensante de seus objetos, como saber, e, por extensão, é igualmente dialético o processo de transmissão a outro desse saber, como formação educativa”.
Essa concepção de verdade como correspondência entre realidade e ideia também pode ser encontrada nos textos de Marx, mas com a diferença de que o seu critério de verificação consiste na prática humana, social e histórica.
Com essa perspectiva, aliando-se à economia e a política, Murasse (2001, p.125) afirma como verdade alcançada por meio da pesquisa que resultou no texto de sua tese que “o progresso técnico é antes causa de uma determinada forma de orgnização do
ensino do que resultado dela, ou seja, o nível de desenvolvimento material alcançado por um país é que permite que ele insista na formação dos cidadãos necessários”.
Marx (1999, p.125-126) defendia a práxis como categoria epistemológica fundamental e a tranformou em critério de verdade e de validade científica ao dizer que “a questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento”.
Uma das conclusões da análise de Silva (2001, p.183) sobre a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, é a de que é possível perceber por meio da trajetória histórica dessa campanha, portanto, uma questão prática, “que o Estado continua presente, de forma modificada, nas políticas sociais: através de uma política privatista explícita e não apenas através de práticas clientelistas”.
Horn (2002, p. 233), por sua vez, afirma que por meio da pesquisa foi possível observar que “a Filosofia de fato está presente em uma significattiva parcela das escolas públicas do Estado. Mas ela não está presente com a sua história, com a sua especificidade, com a sua lógica própria, com a sua cidadania de mais de 2.500 anos de existência”.
Então, é da práxis que emerge a verdade cuja objetividade se coloca para além da vontade do pesquisador e garante a sua aceitabilidade pela comunidade científica.
O mundo real é, constituido pela unidade entre produção e produto, entre sujeito e objeto e consiste em um processo no decorrer do qual a verdade se realiza. Nesse sentido, Kosik (1976, p. 23) explica que o mundo da realidade “é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade devém.” Então, a verdade é relativa a história e à sociedade em que ela é elaborada, portanto, consiste em uma possibilidade histórica.
Mas, para falar da verdade científica a que chegam os autores das teses que servem de material de análise neste texto, penso que é preciso não perder de vista que essas verdades são relativas à educação, uma vez que os objetos de investigação dessas teses se situam no âmbito dessa prática. Depois, é preciso ter em conta que elas se relacionam a diferentes particularidades da educação, o que indica a necessidade de considerar o seu poder de abrangência. Nesse sentido, é esclarecedora a afirmativa de Iglésias (2010, p. 394) quando diz:
Compreende-se que reduzir a explicação de um fenômeno a apenas um dos seus agentes causadores é limitar o conhecimento. Sabe-se que não há como explicar um fato histórico tendo como base apenas um de seus agentes causadores. Contudo, também não se pode ter a pretensão de dar conta de explicar, em uma só pesquisa, esse mesmo fenômeno em todas as suas nuances.
Penso que sob a fundamentação da dialética, em decorrência de seu movimento que se faz por meio das contradições, compreender a história exige o reconhecimento da impossibilidade de explicar um objeto de uma vez por todas, pois o movimento traz novos elementos que precisam ser considerados.
Souza (2012, p. 296) afirma que “o projeto de hegemonia iniciado pela burguesia brasileira entre 1930 e 1940 com a industrialização, vem se ressignificando em consonância com o movimento do capitalismo em seu quadro internacional.”
Portanto, essa verdade diz respeito a um período histórico e a uma sociedade determinados e à análise realizada por essa autora, o que significa dizer que a verdade refere-se a um tempo e lugar determinados e à cada análise e interpretação realizadas. Mas isso não significa que não possa estender-se a outros espaços e tempos, contudo com características próprias a esses, específicas de cada momento histórico e de cada lugar, com novos elementos.
No que diz respeito às teses, foi possível observar que a verdade é compreendida, de acordo com a abordagem por elas assumidas, mas, apesar das diferenças entre a concepção de revelação na fenomenologia e de correspondência na dialética, elas trazem muito em comum.
Se, por um lado, à luz da perspectiva fenomenológica a verdade diz respeito ao significado e aos sentidos do fenômeno e seu critério de validade é intersubjetivo e, portanto ela é relativa a um grupo e a um momento, na dialética, ela consiste na correspondência entre a objetividade e o conceito, do ponto de vista hegeliano, e entre a realidade e a ideia, do ponto de vista marxiano. De qualquer modo, na abordagem dialética a verdade é histórica e social, portanto, relativa, a uma história e a uma sociedade, muito embora no hegelianismo a história se refira ao desenvolvimento do espírito, e no marxianismo ela diga respeito à práxis humana.
O próprio Marx (1991, p. 20) deu indicativos da relatividade da verdade, ao recusar as verdades absolutas consideradas pela metafísica. Quando tratou das próprias categorias de análise, ele deixou transparecer o caráter relativo e transitório que emerge