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If the appearance for a scene part hardly changes when seen from within a given viewing region, a single impostor for the whole region is likely

Textured Depth Meshes for Near Scene Parts

Observation 5.2.2 If the appearance for a scene part hardly changes when seen from within a given viewing region, a single impostor for the whole region is likely

regime militar instaurado no país em 1964, ainda que este processo se encontrasse em sua fase de arrefecimento no início da década de 1980, 21 por essa época a cidade de Belém do Pará se encontrava em um momento importante de mudança em sua estrutura física. Certamente, esse fato está relacionado à sua condição de ―cidade fronteira‖ (HANNERZ, 1997), pois a geopolítica dos governos militares para a região estava embasada na idéia de estimular a ocupação do território, segundo o mito do ―espaço vazio‖, que fora construído sobre a região, haja vista que se desconsideraram as populações indígenas, caboclas e as sociedades locais (BECKER, 1997).

Na década de 1970 e nos momentos iniciais da década de 1980 a região amazônica era vista como esse lugar estrategicamente importante e que deveria ser efetivamente integrado no território nacional. Essa situação certamente exerceu grande influência na conformação de um ideário artístico local na época e nos anos seguintes (CASTRO, 2011). De qualquer forma, o que interessa aqui observar é que essa situação foi um importante constituinte do ideário estético, político e sociocultural dos artistas do meio musical da região. Nesse sentido, um dos primeiros pontos a ser considerado nesse estudo é a reunião desses músicos em torno de um projeto na cena da canção popular.

É seguindo por esta via que acredito ser pertinente tomar a idéia de fronteira como instrumento analítico para caracterizar a área em que se desdobra o estudo. Isso porque se trata de uma cidade que se encontra em transformação nesse momento, o que certamente exerceu influência na forma como se constituiu a cena da canção popular naquela época.

Por outro lado, no contexto político nacional, desde o ano de 1979 estava em curso a política de liberalização da ditadura militar brasileira, sob o nome de ―abertura política‖. Na verdade, desde o governo do General Ernesto Geisel (iniciado em março de 1974) já havia sido anunciada a política de modificação do regime, o que continuou no governo do seu sucessor, o General João Batista Figueiredo (que tomou posse em março de 1979), cujo ponto

21A região Amazônica entrou na década de 1980 sob a sombra de uma frustração: as perspectivas de

desenvolvimento prenunciadas em anos anteriores não foram consumada, e isso gerou um agravamento nas questões de ordem socioeconômica para a região. É a partir do início dessa década que as políticas direcionadas para a região entraram numa fase de esgotamento, de maneira que o intervencionismo estatal desenvolvimentista cessou. Isso implicou de certa forma, em um abandono da região (BARBOSA, 2010).

42 mais emblemático foi a revogação, em 1 de janeiro de 1979, do Ato Institucional nº 5, que havia sido baixado em 13 de dezembro de 1968, no governo do General Arthur da Costa e Silva.

Levando em consideração o fato de que a cidade era administrada na época por um militar, o Major Brigadeiro Felipe Santana, que havia sido nomeado para o cargo por um decreto 22 do então Governador do Estado do Pará Clóvis Silva de Moraes Rêgo, o que se nota na sua pauta político-administrativa veiculada nos jornais é um discurso de crescimento e a publicização de um ideal de prosperidade em vistas de uma ―retomada‖ do projeto da cidade de Belém como núcleo urbano central na região amazônica. Essa preocupação das autoridades locais representantes do regime militar é mais um momento no processo histórico da cidade no qual a reivindicação pelo status de ser a representante hegemônica da cultura amazônida é ativada. Subjacente a isso está a idéia de Belém do Pará como metrópole da Amazônia,23discurso patente em várias páginas dos vários periódicos compulsados. Num primeiro momento essa demanda obteve resposta, pois ao longo dos primeiros anos da década a abertura de outras ruas, avenidas e estradas/rodovias, bem como à estruturação e pavimentação das já existentes é um tema recorrente de reportagens. 24

Assim, os ditames da administração municipal daquele contexto estavam abrigados sob esse ideal de estruturação do espaço urbano belemense na senda das motivações que se espraiavam em outras cidades brasileiras na época. Como conseqüência, esse processo de urbanização acelerada anos 1960 e 1970, na trilha da passagem da economia agrário- exportadora para a urbano-industrial impulsionada pelo Estado (CANO, 2007; NEGRI, 1996), acabou por promover a transferência de um grande contingente populacional da área rural para a área urbana.

Foi nos anos 1980 que grandes cidades brasileiras conheceram um importante fluxo migratório oriundo do meio rural. Com o estabelecimento desse contingente nas metrópoles deu-se um crescimento periférico no sentido de deslocamento às áreas ainda desprovidas de infra-estrutura que se viram ocupadas indiscriminadamente, o que acarretou problemáticas condições de moradia, gerando uma situação de desordem e precariedade, o que Lúcio

22 Nomeado no ano de 1978, o militar exerceu o cargo de prefeito até maio de 1980, quando foi substituído por

Loriwal Rei de Magalhães, nomeado gestor do executivo municipal por decreto de governador Alacid da Silva Nunes.

23 Sobre as representações em torno da concepção da cidade de Belém do Pará como metrópole da Amazônia e

da retomada constante dessa idéia em uso panfletário, ver: COSTA, 2006.

24Cabe destacar a matéria ―A nova Belém de Santana‖. Jornal O Estado do Pará, Belém, 13 e 14 de janeiro de

1980. p. 8, devido a um tópico interessante. Trata-se do fato de que o administrador municipal da época utilizou em seu discurso sobre a questão do lixo produzido na cidade uma ―queixa‖ do Intendente Antonio Lemos sobre a falta de colaboração da população para a limpeza da cidade, constante em um relatório do ano de 1904.

43 Kowarick (1980) sintetizou no termo ―espoliação urbana‖.25 E a cidade de Belém conheceu

esses elementos, haja vista que era um importante núcleo urbano localizado em uma região de fronteira. Logo, se encontrava naquele momento no cerne desse processo.26

Ao tomarmos como base o que informam os jornais, o início da década foi um período no qual se preconizava a estruturação como uma demanda do alargamento do espaço urbano, haja vista que havia se iniciado de maneira mais notória já nos últimos anos da década de 1970 esse processo. Mas era ali, no início dos anos 1980 que se concretizavam vários projetos da década anterior, como os 169 km de ruas trabalhadas naquele momento. 27

Uma das conseqüências desse crescimento foi a colocação em prática de ações de estruturação física da cidade, visando a melhoria da rede rodoviária da cidade. Assim, o poder público se lança à construção de vias que pudessem desafogar a área central da cidade e ligá- la às áreas então tidas como periféricas, como a Vila de Icoaraci 28, cuja expectativa era que ali se formasse ser um ―futuro bairro chic‖ de Belém – curiosamente, o local passou a ser chamado de ―Amsterdã‖ na época -, local para onde pessoas importantes do mundo social e artístico belemense do período se mudaram a fim de instalar residência para aproveitá-la como um lugar onde se pudesse deslindar novas experiência criativas naquele lugar a beira- rio.

Foi o caso de pessoas ligadas ao meio teatral. Destacados integrantes no cenário cultural local da época, notadamente nas artes cênicas, Afonso Klautau, Luis Otávio Barata e Henrique da Paz se estabeleceram na Vila de Icoaraci com o objetivo de formar um grupo teatral. Então, naquele momento essa parte da cidade passou a ser vista como um possível reduto cultural em uma área de expansão. Isso está associado na matéria consultada à

25 Essa possibilidade analítica influenciou sobremaneira a interpretações sobre a realidade da ocupação espacial

de outras cidades brasileiras, principalmente aquelas que exercem um papel destacado no âmbito regional.

26 Na época, a prefeitura da cidade de Belém do Pará contava com cinco secretarias – Departamento Municipal

de Estradas de Rodagem, Secretaria de Obras, Secretaria de Serviços Urbanos, Secretaria Municipal de Educação e Cultura e Departamento Municipal de Turismo -, todas imbuídas de metas cujas prioridades orbitavam em torno do crescimento horizontal da cidade e da sua estruturação física. ―Belém: uma cidade e suas metas prioritárias para um constante crescimento‖. Jornal O Estado do Pará. Belém, 12 de janeiro de 1980. p. 8

27 Idem. Ibidem.

28 Distante 19 km da área central da cidade, Icoaraci é um distrito de Belém do Pará localizado às margens da

Baía do Guajará. As origens da ocupação desse lugar remontam ao ano de 1762. À época, a fazenda Pinheiros (denominação original da Vila de Icoaraci) foi comprada pelo senhor Antonio Gomes do Amaral, que antes de falecer a doou ao Convento de Nossa Senhora do Monte Carmo. Em 13 de julho de 1824 a fazenda passou a ser gerida pela Ordem dos Frades Carmelitas Calçados, que já possuía outra fazenda, denominada Livramento, local grande fornecedor de argila para a produção oleira. Posteriormente, ocorreu a junção das duas fazendas ocorrendo, então, a expansão da área territorial dos religiosos. Essa área passou a ser delimitada do Igarapé do Paracuri às margens do furo do Maguari (TAVARES, 1999).

44 construção de uma via que ligasse a área ―central‖ da cidade àquela área ―periférica‖ 29.

Portanto, as pressões por estruturação dessa cidade tinham no meio cultural um instrumento de pressão no jogo de forças políticas, ou ao menos um porta-voz da ratificação das demandas. O resultado foi a construção da Rodovia BL- 01 30, a Arthur Bernardes, com uma de extensão 7 quilômetros de uma única pista de 7,5 metros de largura, que ligava o centro da cidade àquela ―nova‖ área de ocupação. Nesse primeiro momento, isso pode ser tomado como uma justificativa do que pretendo demonstrar no trabalho: a cena artística musical desenrolando-se sob as condições dadas pela cidade.

Outra obra de vulto naquele momento foi a construção da Rodovia BL-18, conhecida como Estrada do 40 Horas. Essa era uma construção que se edificava como resultado da convergência de recursos que haviam sido canalizados do Fundo Nacional de Desenvolvimento Urbano em convênio com a Companhia de Habitação – COHAB-PA e a Prefeitura Municipal de Belém. A construção da Estrada do 40 Horas, com uma extensão mais modesta que outras vias abertas à época, era estratégica, pois atendia a uma demanda de considerável parte da população belemense que já havia se deslocado para áreas satélites da cidade. Essa extensão era formada por conjuntos residenciais que surgiam na área do bairro do Coqueiro, principalmente o Conjunto Cidade Nova, uma área de ocupação recente.31

A Avenida Tavares Bastos, a Rodovia BL-15 (Bernardo Sayão), Avenida Almirante Barroso (trecho entre da Dr. Freitas e Entroncamento) e trevo da confluência da Almirante Barroso com a Avenida Júlio César são outras vias que se configuravam importantes para o fluxo urbano que também se encontravam em processo de estruturação estratégica, o que denota a colocação em prática das ações de alargamento da área urbana da cidade.

Contudo, como já foi dito, parte das obras em execução no ano de 1980 havia sido programada para o ano anterior 32. Desta feita, o período não é apenas de abertura para outras

29 Periferia significa ―tudo que está ao redor‖. Como conceito sociológico remete ao contexto das grandes

cidades, designando toda área urbana que fica ao redor do centro metropolitano. Nesse trabalho diz respeito à área que estava imediatamente ao redor do centro, haja vista que a noção de centro nesse caso também leva em consideração o que os sujeitos da pesquisa consideram como ―centro‖. Portanto, trata-se de uma questão de espacialidade.

30 BL seguido de um número é o código de BELÉM e a identificação da obra que se encontrava em curso – aqui

no caso, as ―rodovias‖. É significativo o fato de ser usado o termo rodovia. Na verdade, parte dessas ―rodovias‖ eram estradas, que por definição, são vias não pavimentadas, ao passo que as rodovias são vias pavimentadas.

31 Essa área de expansão é uma demonstração do padrão periférico de crescimento urbano veiculado pela política

econômica do regime militar, baseado no tripé loteamento em área periférica - casa própria - autoconstrução.

32 A Avenida Gentil Bittencourt, as ruas Caripunas, Marechal Hermes, Quintino Bocaiúva e Generalíssimo

Deodoro – todas localizadas na área central - são exemplos de obras que estavam programadas para o ano de 1979. ―Belém: uma cidade e suas metas prioritárias para um constante crescimento‖. Jornal O Estado do Pará, 12 de janeiro de 1980. P. 8. Notar que 12 de janeiro é a data de aniversário da cidade, o que certamente foi determinante para a veiculação da matéria como propaganda do ideal de ―desenvolvimento‖ nesse jornal.

45 áreas, também era necessário estruturar ruas da área central. Assim, algumas ruas dessa parte da cidade prioritariamente - como a Avenida Governador José Malcher, um dos principais corredores de tráfego da cidade – foram alvo de pavimentação e estruturação para o atendimento da demanda do cotidiano da idéia preconizada de Belém cidade grande.

Vista da Avenida Visconde de Souza Franco, também chamada de Doca de Souza Franco, à época lugar limítrofe entre a área central e a periferia da cidade. Ao fundo da imagem se pode ver uma grande área que é a Baía do Guajará e o Porto da Companhia das Docas do Pará, instalado na sua margem. Fonte: Jornal O Estado do Pará, janeiro de 1980.

Com o auxílio da fotografia podemos ver um momento no evolver da dinâmica urbana de Belém. Ainda que seja uma unidade selecionada, a imagem fotográfica como memória é um instrumento valioso para se obter informação a partir da sua observação (COLLIER, 1973). Procedendo a uma leitura da imagem retratada podemos ver à direita prédios em construção, com destaque para um que já alcança sua sétima laje, e à esquerda outro de vários andares. Contudo, o canal na parte central mostra a original finalidade daquela área: trata-se de um escoadouro para a drenagem da água, haja vista que se trata de uma área de baixada, de recorrentes alagamentos, mas que pela diversidade e complexidade em relação ao uso do seu solo caracteriza-se, nesse momento, como uma zona periférica do centro (frame) ou uma zona em transição (zone in transition) (TRINDADE JR. s/d).

46 De fato, o ideário de ―progresso‖ é tema preconizado no discurso político da administração municipal que se pretende justificado nas reportagens anunciadas no jornal. Por outro lado, os mesmos periódicos que retratam esse desenvolvimento, apresentam-no como não sendo uma realidade para toda a cidade. Havia muitas reclamações dos moradores de áreas periféricas. Percorrendo diversas áreas retratadas em matérias jornalísticas da época,nota-se que essas reclamações eram uma constante. A situação de precariedade de algumas vias limitava, inclusive, o deslocamento de pessoas e automóveis. Vale notar o caso de um pedido por parte de uma empresa de ônibus, junto ao Detran estadual, da mudança de itinerário cujo percurso estava extremamente prejudicado, pois esta via se encontrava intrafegável por mais de cinco quilômetros. 33

Portanto, sendo o espaço uma realidade relacional – coisas e relações juntas (SANTOS, 1991) -, ele expressa formas que refletem a ação e as relações humanas, resultando em um produto material de uma dada formação social que é determinada pelas forças produtivas e pelas relações de produção que se originam delas (CASTELLS, 2011). Portanto, o espaço urbano belemense do início da década de 1980 é constituído como reflexo das relações sociais ensejadas por uma formação social histórica específica, do qual ―participam de um lado, certo arranjo e objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais, e de outro, a vida que os preenche e os anima, ou seja, a sociedade em movimento‖ (SANTOS, 1991, p. 71)

A cidade de Belém oitentista é o local por excelência da ocorrência de trocas de informações e o lugar onde se efetivam variadas formas de comunicação entre os diferentes grupos sociais que ali habitam em seu processo de interação. É nesse lugar que se constituíram redes de troca localizadas em um núcleo convergente de atores sociais, a cena da canção. Todavia, o que subsidia tal perspectiva desses fazedores de canção é que se encontravam num espaço específico, o centro da cidade – o que chamo no trabalho de ―centralidade da canção‖. Era ali que múltiplos interesses travavam contato, mas que tinham como objetivo um projeto. Por outras palavras, o que veio a ser conhecida como canção popular paraense é fruto das ocorrências de interação social efetivadas na área central da cidade.

Valendo-me de uma perspectiva teórica, a cidade de Belém pode ser considerada como uma cidade do tipo "variável contextual" (OLIVEN, 2010): ela foi influente para esse grupo social que a consumia naquele período. Segundo Oliven,

33―Buraqueira tira transporte dos moradores da Marambaia‖. Jornal O Estado do Pará. Belém, 14 de fevereiro de

47 As cidades devem ser compreendidas historicamente como partes de sociedades mais abrangentes, pode-se discutir a importância que viver em cidades específicas pode ter para vários fenômenos sociais. É, entretanto, essencial sempre ter em mente que cidades per se só podem ter um poder explicativo limitado e que elas não devem ser transformadas em categorias determinativas básicas do comportamento social no contexto urbano (OLIVEN, 2010, p. 13).

Se olharmos por esse ângulo, a Belém do início década de 1980 é tida como uma formação urbana em processo de transformação. Seguramente, ali estava um momento ‗específico‘ que influenciou na vida social de seus moradores. No caso dos artistas que atuavam na cena da canção naquele momento, como habitantes desse espaço, estes também estavam sob as determinantes dos fatores históricos. O momento mesmo em que vivem é um desses fatores de influência – aquela situação de ―cidade fronteira‖ que acabou por influenciar na constituição daquele mundo artístico.

Mas, consideremos Louis Wirth (1987) e sua leitura da cidade como uma ―variável explicativa‖. Para Wirth, o tamanho da cidade tem relação com o número de habitantes. Por sua vez, o número de habitantes tem a ver com a diferença entre eles: quanto maior o número de pessoas maior é a diferença, fator este que é ocasionado por uma variedade de outros fatores. Mas, se trata de um processo histórico. Isso é tomado como um elemento consistente para entender a formação e o desenrolar da cena estuda. Assim, é preciso dizer que os artistas daquele contexto, atuantes no meio da canção popular belemense, estavam a par das questões de formação desse espaço urbano de tal maneira que isso acarretou ser um fator bastante influente para a conformação do cenário e para a feitura de música.

Isso justifica porque é profícuo analisar as práticas socioculturais por meio da música popular em sua relação com as experiências sociais no espaço urbano de Belém do Pará no início dos anos 1980. É recorrendo à leitura dessas práticas que se pode fazer um levantamento das movimentações e das ações –individuais e coletivas - como organizadoras da vida cotidiana da cena musical.

Ao estudar as relações de sociabilidade ensejadas pelas práticas culturais e sociais na cena da canção popular na cidade de Belém do Pará é possível entender e caracterizar tais relações de sociabilidade nesse contexto específico. É por isso que trato neste trabalho de uma perspectiva antropológico-histórica cujo objetivo é verificar um recorte de um contexto social pretérito em seus processos de interação, haja vista que o passado é ele próprio uma alteridade

48 cultural, de maneira que os eventos que ocorrem em determinadas sociedades são ordenados pela cultura dessas formações sociais (SAHLINS, 1999).

Contudo, é premente ressaltar que, ainda que se pretenda uma descrição ampla dos acontecimentos, a sensação é sempre de incompletude sobre o assunto abordado. Assim, vale a citação de Gilberto Velho:

Quando um antropólogo faz uma etnografia, uma de suas tarefas mais difíceis, como sabemos, ao narrar um evento, é transmitir o clima, o tom, do que está descrevendo. A sucessão dos fatos no tempo, o número de participantes, a reconstituição das interações são etapas fundamentais mas, quase sempre, fica-se com a sensação e/ou sentimento de que falta algo crucial (VELHO, 1999, p. 13).

Ao tratar Belém do Pará como uma ―cidade fronteira‖ onde ocorreram processos de sociação subjacentes a essa sua condição de lugar num processo de expansão sob dada formação social, é premente dizer que isso interferiu na produção artística como um dado