2.2.1. A preparação militar para a guerra do exercito português
O Ministro da Guerra, o Duque de Lafões, homem já de certa idade, fez os últimos preparativos, movimentando equipamento e homens, e recruta mais alguns em Lisboa, o que faz com que disponha consigo, cerca de 40 000 militares e caminha para Portalegre, onde tinha mandado realizar obras de fundo e instala ali o seu Quartel General.
Manuel Godoy, pelo contrário apresentava-se em melhores condições, com um exército moderno, capaz de grandes feitos nos campos de batalha. Do exército de Godoy faziam parte os militares que Napoleão tinha enviado para Espanha, com destino ao ataque a Portugal.
O exército espanhol encontrava-se devidamente organizado em homens, armas e equipamento, o que dava a Godoy a certeza de uma invasão sem resistência, de uma guerra rápida. .
Mas qual era a realidade do exército português, em homens e equipamento no principio do ano de 1801?
As necessidades eram muitas. Os regimentos tinham metade dos soldados de que necessitavam, para empreender a luta e ter um determinado sucesso militar no confronto com a Espanha 22, que estava melhor preparada em homens e material. A realidade era
negativa e antevia-se um desastre militar.
Tudo levava a crer que os espanhóis começariam o seu ataque pela região alentejana, já que o Generalíssimo se encontrava na sua cidade natal, – Badajoz – e por isso, houve uma maior concentração naquela zona, principalmente junto a Portalegre e depois distribuídos pelos centros populacionais, com melhores condições de defesa. O Marechal de campo, Gomes Freire de Andrade, era o principal comandante das tropas da região.
Na altura, Olivença era governada por Júlio César Augusto Hércules de Chermont, Marechal de campo, que comandava também a defesa de outros centros populacionais, como Vila Viçosa, Castelo de Vide, Serpa e Mourão, de onde tinham sido retirados os militares por ordem do Brigadeiro Luís Cândido Pinheiro Furtado, que na altura chefiava uma inspeção
aos centros populacionais e aos meios de defesa, acabando por ordenar a retirada de artilharia ainda em condições de entrar em combate, para outras cidades, castelos ou fortalezas que tinham mais condições de resistir aos previstos ataques espanhóis. Vila Viçosa, Castelo de Vide e outros centros apresentavam ruínas nas suas fortalezas e aquele equipamento retirado não ia proporcionar qualquer tipo de defesa.
De referenciar, a situação de Estremoz, que noutros tempos, não muito distantes, era considerada um forte centro de desenvolvimento e crescimento acentuado, apresentava agora um abandono completo, não merecendo dos responsáveis militares, qualquer tipo de obras ou apoio militar de defesa.
Tinha-se a noção de que não havia um responsável principal, que ordenasse ou tivesse uma linha de conduta ou mesmo um plano sobre o que se devia fazer e como fazer. Em resumo, tudo, incluindo a aplicação dos métodos de defesa que se deviam aplicar na respetiva altura, eram deixados à responsabilidade dos chefes militares dos centros habitacionais locais. Tudo e todos pareciam preparados para a guerra, que agora era inevitável, mas os dias passavam e as tropas espanholas não atacavam, o que criava, não só nos soldados, mas também nos oficiais responsáveis, um certo estado de impaciência e de nervosismo.
2.2.2. –O ataque do Generalíssimo Godoy e a rendição de Olivença
O dia chegou. A 20 de Maio de 1801 o Generalíssimo Manuel Godoy mandou avançar as tropas e o ataque direto a Olivença. As suas tropas, estacionadas junto a Badajoz, entraram em Olivença sem se disparar um único tiro, o que levou os assaltantes a continuar a marcha até Évora e Campo Maior, cidades que rodearam e sitiaram.
Neste mesmo dia, o Generalíssimo escreve ao Rei Carlos IV anunciando a conquista de Olivença e outros êxitos das suas tropas e envia à Rainha um ramo de laranjas apanhado numa horta a caminho de Elvas, onde tinha aquartelado o seu exército.
O envio do ramo de laranjas à Rainha de Espanha criou várias histórias jocosas, mas também serviu aos historiadores para dar um nome de referência a esta guerra: ” A Guerra das Laranjas”.
De imediato, como a resistência dos portugueses praticamente não existia, o exército espanhol continuou o seu avanço assenhoreando-se da fortaleza de Juromenha e das aldeias de S. Vicente, Santa Eulália e Monforte, capturando toda a qualidade de gado, que foi enviado para a província espanhola da Estremadura.
As tropas, por fim, pararam para descanso dos soldados e para os oficiais de maior patente prepararem novos planos para novos ataques e sobretudo o assalto a Campo Maior, uma Praça com muralhas fortificadas recentemente e portanto de difícil conquista, mas durante
dez dias foi fortemente bombardeada, precisamente com a pólvora, bombas e granadas capturadas aquando da conquista de Olivença.
Tal bombardeamento desmoronou não só as muralhas, como grande parte das torres, portas de entrada, casas e edifícios públicos, matando e ferindo os seus moradores. Quando do ataque da cavalaria espanhola se fez sentir, mais de oitenta soldados e civis, que quiseram fazer-lhes frente morreram; os restantes foram feitos prisioneiros. Do lado espanhol, morreram nos confrontos, não mais trinta soldados.
O Duque de Lafões deixou Portalegre com as suas tropas, ao ter conhecimento do desastre militar em Arronches, Praça onde tinha posto todas as suas esperanças em travar a marcha das tropas inimigas.
Portalegre, sem tropas suficientes, foi fácil ao exército espanhol conquista-la, porque na realidade, não mostrou qualquer resistência. Dali o exército de Godoy seguiu para Castelo de Vide, que caiu nas suas mãos a 2 de Julho e mandou apenas uma coluna para conquistar a povoação do Crato.
O movimento das tropas espanholas continuou e rapidamente tomaram posse das vilas Ouguela, Alpalhão, Borba e Vila Viçosa, que não chegaram a ser saqueadas pelos conquistadores, porque as populações se comprometeram a pagar uma contribuição.
São vários os episódios que se contam desta guerra relâmpago, como é o caso, de que bastou um desfile das tropas espanholas do Marques de Castelar à frente das muralhas de Olivença, para que a cidade se rendesse, não sendo por isso necessário disparar um único tiro.
Em Olivença, como em todo o Alentejo, a cavalaria espanhola mostrou-se muito superior à portuguesa, dai o sucesso nos combates que tiveram principalmente em Arronches e em encontros em que os portugueses atuando de surpresa, pensavam criar baixas no exército espanhol, o que não sucedeu.
Olivença voltava assim ao poder de Espanha, e com a sua queda, a maioria das tropas seguiu para Juromenha onde o cerco não durou vinte e quatro horas; os responsáveis militares, ao saberem que Olivença tinha caído, tomaram a decisão de também se renderem.
Outra praça que não mostrou qualquer resistência foi Valverde, para isso bastou que os espanhóis colocassem a sua artilharia numa primeira linha e em seguida mostrassem a força da sua infantaria e cavalaria, para que, os responsáveis portugueses tomassem consciência de que não valia a pena qualquer iniciativa de defesa.
O ajudante de campo espanhol informou o responsável militar português, que se Villaverde se rendesse, como contrapartida o Marques de Castelar comprometia-se a respeitar os bens da população e a dar liberdade a todos os soldados e oficiais que ali se encontravam, desde que jurassem que não pegariam em armas contra o exército espanhol, caso contrário, a vila seria bombardeada e não deixariam pedra sobre pedra.
Ações, como as que se relatam, passaram-se em várias cidades, vilas, aldeias e mesmo em fortalezas. O facto de ter havido rendição, sem qualquer tipo de resistência, às forças inimigas, levou a que se fizessem severas criticas, principalmente aos militares mais responsáveis. O próprio governador de Olivença foi severamente censurado, porque nem sequer deu a sua capitulação negociada, porque o que ele assinou foi uma capitulação incondicional. Mas será que o governador tinha outra alternativa? A maioria dos historiadores baseados nos estudos e documentos da época, acham que não havia recursos - homens e armamento disponíveis para realizar qualquer tipo de resistência, - já que, aos primeiros tiros dos portugueses o exército espanhol responderia com a sua forte artilharia, que faria, sem dúvida, danos nas muralhas, mas também, causaria muitos mortos entre a população sitiada.
O Barão de Wiederhold, que esteve ao serviço de Portugal, escreveu nas suas memórias, o que aconteceu na campanha do Alentejo em 1801 e sobre Olivença diz : ”… desde 1796 se tinha trabalhado, achava-se unicamente com uma linha marginal acabada; a sua demasia extensão pedia uma grande guarnição, o que lhe faltava, e por isso nem a sua numerosa população, nem algumas Companhias de Milícias - 200 homens, - como com as munições e artilharia, não podiam prestar ao seu Governador meios de defesa...”23.